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Trabalho e atores invisíveis

O universo acadêmico-científico tradicionalmente representa a ciência como um empreendimento de ordem racional e formal realizado por pessoas que pensam, refletem e produzem conhecimento sobre os fenômenos da natureza. Há uma distinção entre os agentes conhecedores, que detém a autoridade e racionalidade, dos praticantes, a eles subordinados. Porém, desde os anos 1970, uma “virada prática” tem estimulado os estudiosos da ciência a descrever uma “ciência em ação” e, assim, demonstrar o que os cientistas (e outros agentes do fazer científico) fazem em seus laboratórios ou outros espaços de pesquisa – como o campo, como conduzem seus projetos, negociam por recursos financeiros e buscam por autoridade científica, manejam os instrumentos científicos, escrevem os artigos científicos e como organizam o próprio empreendimento científico.

Camara de manutençào de drosófilas

Com isso, fica evidente como a produção e disseminação dos conhecimentos científicos envolvem práticas, agenciamentos, em que podemos perceber a significância de saber-fazer e de conhecimentos tácitos e incorporados pouco evidentes no desenvolvimento científico. A ciência é uma atividade social e assim é produzida contando com variadas formas de mão de obra e desempenhada segundo funções e organização de trabalho específicas, que muitas vezes não são levados em consideração na divulgação dos resultados das pesquisas. Muitos dos seus praticantes, não necessariamente cientistas, como assistentes de laboratório, curadores, sujeitos da pesquisa, cidadãos, tradutores, guias de viagem, seriam na verdade invisibilizados nas publicações, relatórios científicos ou nas narrativas sobre determinado acontecimento científico. Consideramos que ocultar pessoas e práticas das representações sobre a ciência traz consequências epistemológicas.

Mas, especificamente, o que queremos sugerir com trabalho e atores invisíveis na genética humana? Invisibilidade aqui, mais do que denotar algo que não é aparente ou evidente, refere-se a apagamentos, ocultamentos, eliminações que acabam por compor o resultado final da ciência. Para nós a ciência evoca práticas e, por isso, trabalho enuncia aqui labor, ou seja, uma atividade humana feita pelo corpo, e que envolve atividades mentais, intelectuais, emocionais, manuais – que podem ser de ordem política, econômica ou científica. Atividades que implicam em produtividade e esforços para se obter recompensa, material ou simbólica.

Girley Simões posa em frente à caminhonete. Rio Grande do Sul, 1968.

O invisível na ciência não está só no labor em si, mas nos atores, ou melhor, nas próprias pessoas que performam o trabalho invisível, muitas delas também invisibilizadas. Muitas das informações sobre atores cujo trabalho permite que os empreendimentos científicos funcionem aparecem em anotações, diários e correspondências pessoais dos cientistas, mas na maioria das vezes elas estão ausentes das narrativas públicas e oficiais acerca das realizações científicas bem-sucedidas.

As histórias orais dos geneticistas são tomadas por nós como meio de captar as invisibilidades de pessoas, práticas ou procedimentos de produção de conhecimentos em genética humana. Ao rememorar o vivido, os entrevistados acabam por expressar experiências e apreciações pessoais de atividades científicas e interações interpessoais delas decorrentes, não evidentes na face pública da ciência, e que estão para além do que cabe em um artigo científico, relatório técnico ou outro tipo de documentação escrita resultado do fazer científico.

No caso da história do Departamento de Genética da UFRGS, atores e trabalho invisíveis revelam-se no que se faz no laboratório e sobretudo nas atividades do trabalho de campo. É na fala de Francisco Salzano, por exemplo, que se desvela a relevância do labor de vários atores sem os quais a agenda de pesquisa de campo com “populações de interesse especial”, desde os anos 1950, não teria sido bem sucedida: o técnico Girley Simões, os vários antropólogos a ele associados, os guias locais de viagem, funcionários do Serviço de Proteção ao Índio (e depois da Funai), enfermeiras e os próprios indígenas objetos de estudo.

Páginas 34 e 35 do primeiro caderno de campo do Francisco Salzano, listando os funcionários, caciques, e detalhes das populações Kaingang e Guarani nas areas que chegaram a ser homologadas como Terras Indígenas Ventarra e Votouro.

Ainda sobre atores invisíveis, vale chamar a atenção aos sujeitos objetos de pesquisa, como é o caso das populações indígenas. Os sujeitos-objetos estão longe de ser objetos passivos de estudo genético. A interação e relações interpessoais estabelecidas na prática científica em campo fazem deles agentes do conhecimento, cujo labor em torno das formas de sobrevivência exigidas pelas realidades locais (muitas vezes adversas), ou em visita aos próprios laboratórios das instituições de pesquisa, tem sido na maioria das vezes desconsiderados como constituinte epistemológico do processo de produção do conhecimento genético.

É sobretudo nas narrativas sobre as práticas, que conseguimos adentrar no universo do que é invisível na organização do trabalho na ciência. Como não se deixar envolver com o depoimento épico do técnico Girley Simões sobre todos os trabalhos invisíveis para preparar as viagens e fazer funcionar a pesquisa de campo? Percebemos com ele todo trabalho corporal, manual, mental para a colheita e trânsito dos dados biológicos em situações extremas. Ele relata os esforços que fazia para o laboratório ir a campo e de sua ajuda nos momentos de coleta dos dados (como os genealógicos) e elaboração dos mapas. Ou como na tentativa de Simões reproduzir no depoimento (até mesmo gestualmente - como é possível perceber na entrevista) os meios pelos quais eram feitos os exames de vista. É possível também acompanhar de que forma este tipo de trabalho afetava os próprios corpos dos pesquisadores, conforme exposto na história anedótica por ele contada sobre o comportamento do pesquisador Fernando da Rocha, na sua primeira viagem a campo, diante das vivências arriscadas e convívio com os modos de vida dos indígenas.

Centrífuga doada pela Fundação Rockefeller, usada para separação de amostras biológicas

A expressão involuntária do que concebemos como “invisibilidades” são frequentes nas narrativas dos geneticistas entrevistados. Vários entrevistados dão a ver uma dimensão laboriosa nas suas trajetórias de pesquisa.  Como não se sensibilizar com o relato de Verônica Zembrzuski sobre todo o trabalho de colheita de amostras biológicas junto aos Suruí, que acabaram por serem no fim recolhidas pelos próprios indígenas?  O trabalho que não dá certo acaba por também ser ocultado na representação pública de uma realização científica. Ele não é mero desvio da suposta marcha progressiva do conhecimento, mas constituinte central para a compreensão da "ciência em construção".

Não há como não se admirar pelos esforços (de ordem científica, política e institucional) expostos pela pesquisadora Mara Hutz para se obter recursos, construir e implantar um novo prédio com o propósito de se ter um laboratório de pesquisas em DNA para o Departamento. Na maioria das vezes, ao compreendermos a produção de conhecimento como um ato mental e intelectual, acabamos por apagar a dimensão material exigida no fazer científico. Uma materialidade que passa pelo espaço, pelos instrumentos, pelos objetos que só podem compor os laboratórios a partir dos esforços (labor) dos cientistas para se ter financiamentos. Além do próprio manejo material que exige conhecimentos tácitos e incorporados invisíveis quando um cientista manipula a natureza instrumentalmente, a partir dela compila os dados brutos e faz desses dados os resultados de suas pesquisas, então publicáveis e visíveis.