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DENT: Então hoje é dia 21 de julho de 2014. Eu sou Rosanna Dent, doutoranda em
História e Sociologia das Ciências da Universidade da Pensilvânia, e tenho o prazer de conversar com a professora Tânia Weimer, que é aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do Departamento de Genética. Então, professora, muito obrigada [risos] por me receber [risos].WEIMER: Está certo. Estou às ordens. Vamos ver no que eu posso te ajudar.
DENT: Então, eu gostaria de iniciar só abrindo um espaço para a senhora nos
faça um apanhado da sua formação. Como chegou a estar interessada em questões da Biologia, Genética? Qual era, assim, o ambiente familiar que você teve que a levou a escolher estudar sistemas?WEIMER: Na verdade, em termos familiares, eu não tive muita-- A minha
história tanto quanto estranha, porque eu me graduei em Farmácia. Quando eu estava no fim da graduação, eu me interessei pelos efeitos genéticos da radiação. E a professora na faculdade de Farmácia me sugeriu que eu procurasse um estágio na Genética. E quando eu comecei a estagiar na Genética, eu descobri que eu não estava interessada na radiação, mas na Genética. E daí da Genética eu não saí mais. Eu fiz minha iniciação científica com a Doutora Eliane Azevedo, na Universidade Federal da Bahia, porque eu sou baiana. E através... A Eliane me encaminhou para fazer o mestrado com o professor Salzano. E eu fiz o mestrado com o professor Salzano. E depois fiz o doutorado também com ele. 00:02:00DENT: O que da questão da radiação que era interessante?
WEIMER: [Porque...] Na Faculdade de Farmácia, a gente tem uma disciplina que
se chama "Radioquímica". E na Radioquímica, o que me interessou mais na Radioquímica, fiquei encantada pela Radioquímica, mas não exatamente pela radiação. Mas pelos efeitos da radiação. E aí para entender melhor esse assunto, eu fui estudar Genética. E aí eu descobri que eu não queria a radiação, eu queria era a Genética. [risos] E aí eu permaneci na Genética.DENT: E poderia comentar um pouco sobre como era entrar na universidade para
fazer graduação? Como era a experiência da graduação? De fazer Farmácia--WEIMER: [Tá] Na ocasião que eu fiz, a gente... No Brasil, sempre teve o
vestibular. Só que na ocasião-- Hoje em dia o vestibular é unificado, cada universidade, alguns até já utilizam o mais geral, mas cada universidade faz o seu vestibular. Quando eu fiz, cada curso fazia o seu vestibular. Era uma prova específica para Farmácia, uma prova específica para Genética... Não tinha curso de Genética, uma prova específica da Medicina. Cada faculdade tinha a sua prova específica. Então eu fiz o vestibular para fazer Farmácia. E eu cursei a Farmácia até o fim. E no terceiro, agora eu acho que no último... Terceiro ano da faculdade, foi que a gente tinha a disciplina de Radioquímica. E aí eu procurei para estudar, para entender Genética... Porque a gente tinha muito pouca Genética na Farmácia, a professora que deu a disciplina da Radioquímica me sugeriu que eu procurasse o Departamento de Genética para entender um pouco do assunto. E aí foi que eu fui procurar o 00:04:00laboratório de Genética da professora da Eliane Azevedo, que me recebeu, e eu fiquei lá durante o ano inteiro estagiando, fazendo iniciação científica. E aí, eu já não saí mais da Genética. Continuei na Genética para sempre.DENT: E qual era o projeto de iniciação científica que você fez?
WEIMER: Na iniciação científica, eu não trabalhava com populações
indígenas. Eu trabalhei com a falta de haptoglobina, que é uma proteína sérica, nos recém-nascidos. Os bebês, ao nascer, têm uma redução de haptoglobina. Então eu fiz uma pesquisa nesse sentido, comparando e vendo se eu conseguia distinguir... Salvador é uma população bastante híbrida, com um componente negro bastante grande, com influência indígena, mas um componente negro bastante grande. Então eu procurei ver os efeitos dessa falta de haptoglobina nos recém-nascidos. E foi com esse trabalho que eu continuei para fazer o meu mestrado.DENT: E como era, assim, um dia típico quando estava fazendo a pesquisa de
iniciação científica?WEIMER: Eu ia para faculdade e a todo momento quando eu não tinha aula, eu ia
pro laboratório. Então em geral eu ficava um turno inteiro no laboratório, porque a minha faculdade era muito próxima ao laboratório. Então eu centralizava as aulas pela manhã e ia pro laboratório à tarde, ou vice-versa, agora eu não me lembro exatamente. Dependendo da disciplina e do dia, eu ficava um turno na faculdade e outro... Então eu participava da coleta de material, eu ia até os hospitais, porque a coleta foi feita dentro de uma maternidade em recém-nascidos. Eu ia pros hospitais fazer a coleta, eu fazia a parte de laboratório, eu participava de seminários, de discussão de grupo. Uma vez por semana, a gente tinha discussão de grupo. Tinha apresentação dos dados, 00:06:00tinha seminário. Então era uma atividade assim, bastante envolvida com a pesquisa.DENT: Quais eram os aspectos que mais gostou e que levaram você a decidir
fazer mestrado? Como era a decisão de seguir com essa área?WEIMER: Como é que vou te responder isso-- É a curiosidade e eu acho que eu
posso definir como curiosidade científica, porque eu tinha-- A cada passo que eu dava, eu me interessava em saber o que ia acontecer adiante, como é que isso desenrolava, por que era assim. Eu acho que posso definir como curiosidade científica.DENT: Assim, estava muito interessada no tema?
WEIMER: Estava interessada no tema, no entender o que estava acontecendo.
Entender o que que acontecia, por que as coisas aconteciam dessa forma ou de outra forma. Qual era o mecanismo genética da coisa?DENT: E como foi a experiência de passar da iniciação científica e de
terminar a graduação na Bahia para Rio Grande do Sul para fazer o mestrado com professor Salzano?WEIMER: Cientificamente, não foi uma coisa muito complicada, porque eu já
tinha um contato, através de congressos e de coisa assim, eu já tinha conhecido o Salzano. E a Eliane, não sei se já ouviu falar na Doutora Eliane Azevedo... A Eliane Azevedo, eu já tinha um relacionamento muito bom com ela e tenho até hoje. E o trabalho já vinha mais ou menos estruturado porque eu comecei lá, toda a parte experimental eu fiz em Salvador. Eu vim pro Rio Grande do Sul para fazer os créditos e escrever a tese, a dissertação. 00:08:00 Porque eu já vim com toda a parte experimental coletada lá e analisada lá. A parte laboratorial já estava toda pronta. Eu vim para aqui para ter o conhecimento científico, fazer os créditos, porque o laboratório da Eliane não tinha uma disciplina específica. A gente estudava, preparava material, estudava, lia muito, estudava muito, mas não tinha aulas específicas de Genética, porque não tinha um curso formal de pós-graduação, nem de graduação. Não existia, como não existe hoje, nenhum curso de Genética, existe os cursos de Medicina, de Biologia, e as pessoas fazem Genética através desses cursos. Então eu vim para cá com toda a parte experimental pronta para fazer... Então foi uma continuação em termos científicos. O choque principal foi o choque cultural, de sair de uma cidade completamente diferente, de uma cultura completamente diferente, pro Rio Grande do Sul, mas-- Me dei tão bem que continuei e estou aqui até hoje. [risos]DENT: Obviamente gostou, porque ficou. [risos] Quais eram as coisas que eram
mais surpreendentes, mais diferentes nessa transição?WEIMER: [Gostei. Fiquei até hoje.] Ah, a cultura muito diferente, os hábitos
de vida são muito diferentes, o clima é muito diferente, Salvador é verão a vida inteira. Primeira coisa. Aqui tem estações definidas, tem frio, tem-- " As relações pessoais na Bahia são muito mais rápidas, muito mais abertas. Aqui a gente tem uma certa dificuldade de fazer amizades. Depois que a gente faz, a coisa permanece. Mas no início, é mais difícil. Mas eu acho que eu não tive maiores problemas nisso aí.DENT: Quantos anos tinha quando fez essa transição? Mais ou menos--
WEIMER: É só fazer as contas. [Pausa] [10:10] 25 anos.
00:10:00DENT: E era a primeira vez que tinha saído da casa da família?
WEIMER: [Sim] Sim. Era a primeira viagem. [risos]
DENT: Então chegou com todos os dados pronta para fazer as aulas e-- Analisar
e escrever...WEIMER: [E escrever] Análise estatística e escrever.
DENT: Sim. Então como era um dia típico na época do mestrado aqui no Rio
Grande do Sul?WEIMER: No início, a gente tinha disciplinas. As disciplinas eram, acho que
praticamente todo dia. Depois, a gente... Quando eu não estava fazendo disciplina, estava estudando a parte teórica das haptoglobinas. E fazendo a parte estatística, analisando estatística, fazendo estatística dos dados. [Pausa] Não tive envolvimento com laboratório... Na verdade, tinha um envolvimento com laboratório, mas mais assim, colaborando de algumas... Ajudando a estabelecer aqui as técnicas que eu já desenvolvia lá. Que ainda não estavam estabelecidas aqui. Porque eu trabalhei com haptoglobina, trabalhei com G6PD, então esse tipo de coisa eu ajudei a montar essas técnicas. Mas no mais, o laboratório, eu não tinha muita atividade, porque eu já vim com toda a parte laboratorial pronta.DENT: E como era a recepção na universidade de você e do projeto que você
estava fazendo?WEIMER: Foi boa. Foi boa. O Salzano já sabia qual era o projeto e que eu
antes de vir a gente já tinha conversado sobre isso. Mas no laboratório, logo que eu cheguei, eu fiz um seminário. Eu fiz um seminário sobre o trabalho 00:12:00que eu estava fazendo, o que que eu já tinha, quais são os dados que eu já tinha. Acho que foi uma receptividade boa.DENT: E nesse período de fazer o mestrado, quais eram as novidades das
técnicas que você levou para a Universidade da Bahia, para a UFRGS? E como estava... Em que ano era mais ou menos?WEIMER: 1972. 1972.
DENT: Então quais eram os principais trabalhos de laboratório que estavam
envolvidos no projeto? As análises que...WEIMER: De laboratório? Eram análises de eletroforese. Eletroforese de
proteínas. Que a haptoglobina é uma proteína do soro. Era eletroforese de proteínas. Durante muito tempo na minha vida, eu trabalhei com eletroforese. Depois é que eu mudei, com a chegada das técnicas de DNA, é que eu mudei um pouco. Mas eu trabalhei, eu fazia eletroforese inicialmente dessas proteínas e depois no doutorado eu fazia de uma série de enzimas sanguíneas. Tens ideia do que é eletroforese?DENT: Sim, eu me formei em Biologia. [risos]
WEIMER: Ah, tá. [risos]
DENT: A minha graduação é em Genética mesmo. Então, conheço. [Pausa]
Então terminou o mestrado e ficou para fazer o doutorado?WEIMER: É, terminei o mestrado, retornei a Salvador, fiquei uns seis meses
lá. E voltei para fazer o doutorado.DENT: Então já sabia que queria fazer o doutorado?
WEIMER: [Já. Já sabia] que queria fazer o doutorado.
DENT: [ E queria fazer] com o professor Salzano?
WEIMER: Com o professor Salzano, a mesma coisa, é.
00:14:00DENT: Como era o processo de seleção, de entrar no doutorado?
WEIMER: Tinha uma, agora não me lembro. Não, não tinha prova. Tinha prova
para quem era de fora, mas as pessoas que já tinham feito o mestrado, faziam a seleção via currículo e entrevistas. Ai, Rosanna, eu acho que era isso. [risos] Rosanna ou Rossanna?DENT: Rosanna.
WEIMER: Rosanna. Acho que era isso, mas não tenho bem certeza, mas não
tinha prova escrita. A prova... Para o mestrado, eu fiz quando eu cheguei, embora já tivesse praticamente aceita, eu fiz uma prova de conhecimentos, para o mestrado. Mas para o doutorado, não, porque a gente já tinha feito todas as disciplinas dentro do curso. Então era pelo currículo, pelo histórico escolar, pelo currículo, tipo de trabalho que tinha desenvolvido-- [Pausa] Era nesse sentido a avaliação.DENT: E era com projeto já proposto? Ou era para fazer um projeto?
WEIMER: Já era com projeto proposto.
DENT: E como-- Poderia explicar o projeto que...
WEIMER: No projeto de doutorado?
DENT: Sim.
WEIMER: Foi estudo de-- aí eu comecei a estudar populações negras. O grau
de miscigenação negra no Rio Grande do Sul. Então nós estudamos recém-nascidos, crianças... Ah, o projeto inicial era só recém-nascidos e mães. A gente fazia coleta ao nascer. Eu assistia aos partos, milhões de partos na minha vida eu assisti, a gente coletava sangue de cordão umbilical. Mas o projeto inicial a gente tinha... era para estudar o grau de miscigenação na população de Porto Alegre. A população mestiça, quanto de branco e quanto de negro existia. O grau de miscigenação. E se existia um percentual indígena que a gente não conseguiu perceber. Claro que existe, mas estava diluído e a gente não conseguiu detectar. 00:16:00DENT: Detectar... Uhum. E...
WEIMER: Então era um projeto que envolvia-- Projeto grande, da qual
participamos eu e uma colega, a Maria Helena Franco. Ela fazia as enzimas, as proteínas do soro, e eu fazia as enzimas das hemácias, as enzimas eritrocitárias.DENT: E como-- Poderia explicar como era o trabalho de campo, de ir ao
hospital, de tomar amostra?WEIMER: O hospital que a gente-- A Genética funcionava aqui no Centro. Não
sei se-- Em frente ao-- Sabe onde é a Santa Casa? A Genética funcionava em frente à Santa Casa. Então a gente saía dali, ia pra, passava a noite de plantão em geral. Esperando os partos acontecerem. Quando nascia o bebê, a gente coletava sangue de cordão. E no dia seguinte... Ou no dia seguinte de manhã ou de tarde, a gente voltava lá para fazer entrevista com as mães. Então tomava dados pessoais das mães e coletar o sangue das mães também.DENT: E como era o processo de explicar para as mães o que vocês estavam
fazendo, por quê--WEIMER: [Pausa] Era na base da entrevista, a gente explicava o que era que
estava fazendo, ela tinha que dar o consentimento, naturalmente. Não existia naquela época o termo consentimento por escrito, mas ela dava o consentimento verbal. E a gente fazia, depois que ela-- " O bebê a gente coletava de qualquer forma, com ou sem o consentimento dela, porque tinha que ser ao nascer e ela estava numa situação que não podia dar o consentimento. Então se eventualmente ela não consentia participar, a gente descartava aquela amostra. Mas em geral, a gente conseguia, explicava calmamente qual era o objetivo e ela entendia. A gente procurava fazer numa linguagem... Que explicar miscigenação racial já não dá-- " não, é bem complicado para determinadas 00:18:00pessoas. Porque a Santa Casa era e é um hospital público, não é bem público, mas é um hospital que atende população de baixa renda com muita frequência. Então nem sempre era fácil explicar, mas a gente conseguiu. Acho que eu não me lembro de nenhum caso assim que tivesse tido [pausa] rejeição a participar. Aí depois a gente passou para estudar também um grupo de crianças em idade escolar. Então aí a gente fazia-- consultava a escola, tinha autorização da escola, mandava pareceres, explicava nas escolas, mandava termos para as mães concordarem. E aí as famílias que concordavam, a gente coletava sangue das crianças. Mas nem todas as famílias... aí sim, nem todas as famílias concordavam.DENT: E era difícil explicar? Como era a maneira de explicar um projeto assim
para uma população-- acho que ainda, agora seria, sempre é complicado...WEIMER: [É.] 19:08 Sempre é complicado. É, sempre é complicado.
DENT: [explicar os estudos genéticos]. Então como vocês faziam para tentar...
WEIMER: 19:15 Pô, agora tá me perguntando uma coisa que eu já nem me
lembro. Mas a gente tinha, não sei, a gente tinha, procurava ter uma linguagem mais-- " Mais no sentido de conhecer a população, saber o que que está acontecendo. A gente dava como retorno para eles, a gente fazia os grupos sanguíneos que essa população em geral não tem grupo sanguíneo. Então a gente sempre dava um retorno para as famílias dos resultados. Porque os resultados de enzimas não têm muito sentido para eles. Então a gente fazia os grupos sanguíneos e dava-- Esse retorno eles tinham. Era alguma forma de a gente explicar melhor para eles, porque eles não sabiam o que era. E o grupo sanguíneo é uma coisa importante para a saúde. Então essa informação a gente sempre fazia e dava para as crianças e para as mães. E 00:20:00a coleta nas escolas foi mais complicada, porque na escola, tu vai lá e coleta da criança, mas as mães, tem que visitar uma a uma nas suas residências. Aí se teve uma perda muito grande. Porque não se encontrava residência, ou porque quando chegava lá, a mãe tinha concordado em dar da criança, mas não concordava em ela participar. Então aí se teve uma perda muito grande.... Mas faz parte.DENT: E como era a experiência de trabalhar com os recém-nascidos e com as
crianças assim? Como era a interação pessoal, a experiência--?WEIMER: A interação pessoal, quer dizer, com as mães, na maternidade, era
muito pequena, porque a gente ia lá, conversava. Talvez pelo fato de elas estarem hospitalizadas, estarem dentro do hospital e-- recém receberam um bebezinho, elas eram mais receptivas. As crianças maiores, a receptividade não era tão boa, não era tão boa. Que as mães, às vezes as mães concordavam e os pais não. Tinham concordado de coletar da criança, mas não concordavam delas fazerem a doação de sangue.DENT: Aí no momento de assim de ir lá e conversar com as mães que estavam
ainda internadas, quais eram as perguntas que vocês faziam? Era com a professora Franco também ou...WEIMER: Era com ela. A gente fazia junto. Ou [pausa]. Não lembro se a
Mara teve algum envolvimento nisso depois. Agora não me lembro. Acho que a Mara-- " Sim, a Mara também participou.... Depois a Mara... Era a Maria Helena Franco, eu, a Mara e a Rosilda. Cada uma fazia uma parte dos estados laboratoriais. A Rosilda era uma estudante de Recife. Então a gente se revezava para ir para os hospitais e para fazer as entrevistas. Então quando 00:22:00uma coletava, coletava para todas, a amostra vinha para todas. Então a gente se revezava nas maternidades, de dia fazendo as entrevistas. Às vezes-- Em geral, a gente, no início, a gente ia entre duas para poder uma ajudar a outra. Então as perguntas eram mais basicamente assim: idade, local de nascimento, filiação, se elas tinhas alguma informação sobre suas origens-- " Mas era muito, as perguntas eram mais, porque era muito mais a conversa para tentar convencê-las a participar do projeto.DENT: Uhum. E quais eram assim os conhecimentos delas da origem da família?
WEIMER: Muito pouco. Muito pouco.
DENT: Então normalmente não-- elas identificaram assim "ah, o meu pai, ele
é negro, a minha mãe é--"?WEIMER: Não, não, isso em geral a gente não perguntava, porque a gente
fazia uma classificação. Baseada na cor da pele, no tipo de cabelo, na forma do rosto, dos lábios e do nariz, a gente fazia uma classificação: branca, mulata clara, mulata escura e negra. A gente fazia a classificação. [Pausa] Mas no final, para a análise, isso não adiantou, não pesou... A gente não usou esse dado. Porque a gente pegou aqueles indivíduos que eram considerados, a gente separou mais em brancos e não brancos. Na hora de fazer a análise do grau de miscigenação, foi utilizado simplesmente esses dois critérios: brancos e não brancos.DENT: E com as crianças na escola, como funcionava a amostra, fazendo
amostragem? Tinha assim uma enfermeira que estava na escola? Como--?WEIMER: Não, não. Nós mesmos fazíamos a coleta. Nós fizemos
00:24:00treinamento, principalmente eu. Eu já fazia isso em Salvador. Eu fiz o treinamento em Salvador. Eu sou farmacêutica. Então em Salvador, a gente fez um treinamento para fazer a coleta. Então em Salvador, eu já fazia a coleta. Já fiz coleta então dos recém-nascidos, já fiz coleta de mães. Fazia coleta quando-- Porque no laboratório em Salvador, tinha atendimento ambulatorial para as famílias, aconselhamento genético. Então em geral famílias que tinham crianças com problemas iam lá, então, se precisava fazer coleta, quem fazia coleta era eu. Então eu tinha um bom treinamento de-- " E as outras pessoas fizeram treinamento também. Fomos ao pronto socorro, ficamos no banco de sangue treinando para fazer, aprender a fazer coleta, e a gente fazia a coleta. A gente tinha o consentimento das famílias, aquelas famílias que consentiram, as crianças-- Em geral, as crianças eram tranquilas. Ficavam na fila porque quando-- Se tinham medo, mas um, como um já fez, os outros também não se sentiam. Para as crianças, foi tranquilo. Paras as mães, é que era mais complicado. É que elas não queriam participar muitas vezes. [risos]DENT: Sim. E as escolas, quais eram, como vocês escolheram quais escolas visitar?
WEIMER: Pô, e agora... Nós mandamos a solicitação para um número muito
grande de escolas públicas. Nós procuramos escolas públicas. E aquelas escolas que concordaram, aí a gente ia lá, mandava solicitação, ia lá e conversava com a diretora. E aguardava que viesse o retorno. Então aquelas escolas, as escolas foram escolhidas em função daquelas que concordavam em participar.DENT: E ficaram em toda a parte da cidade? Como era o processo de chegar lá,
como era a realidade das escolas públicas naquela época?WEIMER: Muitas escolas eram bem pobres. Algumas bem estruturadas, outras
00:26:00menos. Mas isso era variável, porque em geral a gente... [pausa] foi em diferentes regiões da cidade que a gente foi. Então-- agora não vou saber te dizer, Rosanna, quais foram as escolas que a gente foi ver, que a gente mandou para várias, e nem todas concordaram. Então, tinha que ter primeiro o aval da escola. Em função do aval da escola, a gente mandava as solicitações para as crianças. Eram crianças [pausa] entre 8 e 10 anos, por aí. É-- Entre 8 e 10 anos mais ou menos.DENT: E as crianças perguntavam sobre o estudo? O que que estavam fazendo?
WEIMER: Não, não. As crianças não.
DENT: Poderia comentar um pouco sobre quais eram os pontos mais importantes do
estudo? Enquanto os resultados-- Do doutorado, do trabalho de doutorado. E como, talvez, um pouquinho sobre como combinava com os outros projetos. Assim, o projeto da professora Franco, a parte que fazia a professora Mara.WEIMER: As análises-- Como é que eu vou te explicar-- " Como amostra, a
gente pegava a amostra, então cada pessoa-- " AMaria Helena Franco fazia as proteínas do soro. Ela fazia haptoglobina, célula plasmina, albumina, transferrina. E essa parte toda ficava com ela. A Mara fez G6PD. A Rosilda fez PGN, se eu não me engano. E eu fiz, inicialmente era adenilato quinase, adenosina desaminase e hemoglobina. E a parte de grupos sanguíneos que a gente fazia como retorno para as famílias, isso não entrou no trabalho 00:28:00inicial. Depois na hora da análise de miscigenação racial, a gente interagiu os dados de todos foram usados para análise de miscigenação racial. Cada um usou os seus dados para caracterização, para ver frequências, distribuição, qual é os alelos frequentes ou não, a ocorrência de variantes raras-- E na parte de, eu acho que hemoglobina ficou com a Mara. E na hora da análise de miscigenação racial, a gente juntou os dados de todo mundo. Foi uma análise conjunta dos dados de todo mundo. Foi feito análises parciais, mas a publicação final foi com os dados de todos. Porque aí fica mais, resultado mais consistente.DENT: Poderia comentar um pouco sobre a colaboração, a experiência de fazer
um trabalho de doutorado que estava muito em colaboração com as colegas?WEIMER: Ah, foi muito tranquilo, porque a gente tinha interação muito boa.
A gente interagia muito bem. Uma ajudava a outra. Não tinha. Acho que como a gente conviveu tanto na coleta, porque a coleta era uma coisa complicada. Imagina passar a noite no hospital assistindo parto, fazendo coleta, coletando sangue de bebê. Então a interação tinha que ser muito boa para poder funcionar bem.DENT: Então, depois de terminar o doutorado, você ficou na universidade?
WEIMER: Fiquei na universidade.
DENT: Como professora?
WEIMER: Como professora. Pouco antes de terminar o doutorado, ainda
durante o doutorado, eu fui contratada pela universidade. Então eu já terminei o meu doutorado já dando aula. Os últimos anos do doutorado, eu já tinha envolvimento em disciplinas, em aulas. Envolvimento geral como professora. 00:30:00DENT: E entrou como professora em qual ano?
WEIMER: 1976.
DENT: E como era o processo de contratação, de concurso nessa época?
WEIMER: Nessa época existia concurso, mas eu não sei te explicar bem o que
é que aconteceu. Houve o que a gente chama de... Que aqui no Brasil de vez em quando acontece, o trenzinho da alegria. Houve uma contratação assim... Todas as pessoas que estavam na universidade, trabalhando em tempo integral, que era o caso. No doutorado, a gente tinha tempo integral lá. Ia de manhã, ficava o dia inteiro, era tempo integral, dedicação exclusiva. Então as pessoas que tinham esse tipo-- Houve uma contratação em todos os departamentos. Então entrei eu e mais seis colegas. Que eram o que estavam nessa situação. [pausa] A Maria Helena Franco entrou. A Mara, nessa ocasião, estava trabalhando no Rio de Janeiro, então a Mara não entrou. A Mara veio depois.DENT: E foi contratada para dar aula, especificamente da Genética?
WEIMER: Sim. Fui contratada para o Departamento de Genética.
DENT: Como era a mudança na vida diária de passar de ser doutoranda para ser professora?
WEIMER: Mais responsabilidade, mais compromisso, mais atividades. Então a
gente tinha que conseguir, conciliar o tempo para continuar com o doutorado e dar aula. Mas valia a pena. Era um sacrifício maior, mas valia a pena. Porque antes tu tinha o compromisso com o curso, com a universidade, mas a tua dedicação era exclusivamente a tua pesquisa e-- Então de repente tem que dar aula, preparar aula-- " E tinha bastante aula para dar, mas eu acho que valeu a pena. Não tenho nenhum arrependimento disso. 00:32:00DENT: Essa contratação-- O doutorado, a contratação para ser professora,
tudo isso estava acontecendo durante o governo militar.WEIMER: Tava.
DENT: Como era o ambiente na universidade naqueles anos?
WEIMER: [pausa] Como é que eu vou te explicar isso-- Dentro do departamento,
a gente não sentia grandes coisas. Embora mais em termos de brincadeira, era uma brincadeira, digamos de mau gosto, mas era uma brincadeira. Se dizia que tinha microfones espalhados, que a gente tinha que cuidar o que dizer. E efetivamente teve colegas nossos que foram presas pelo regime militar e coisas assim. Mas dentro da universidade, não tinha esse tipo de coisa. Eu senti muitas vezes em sala de aula. Às vezes a gente ia dar aula e tinha uma manifestação naquele dia nas imediações, e a gente ficava presa. Eu me lembro bem de uma vez que era-- A gente tinha aula, uma turma que era muito grande que se dividia em várias turmas menores para dar aula prática. E eu tinha que dar aula duas turmas de tarde e um colega ia chegar para dar as turmas de noite. E ele não conseguiu chegar. E eu dei as duas aulas da tarde e as duas da noite, porque ele não conseguiu entrar. Alguns alunos que estavam dentro da faculdade. Uma turma ficou menor porque só os que estavam lá dentro, porque cercaram o coisa, digo, para não circular pessoas, a rua foi fechada, então o colega não conseguiu entrar. [pausa] O ambiente, nesse sentido, era muito tenso. A gente sentia a tensão dos alunos, tensão-- Agora, em Salvador, eu já dava aula. Antes de começar a trabalhar na 00:34:00universidade, em 65, 66, eu, na faculdade, eu dava aula. E aí também eu tive de, enfrentei a ditadura militar nesse período que foi muito complicado. Aqui em 74 já estava mais calmo, já estava mais-- A partir de 76 já estava mais calmo, existiam algumas manifestações estudantis, então no dia que tinha manifestação, era um caos a cidade.DENT: Mas em Salvador, como era a experiência de dar aula durante a ditadura?
WEIMER: Era complicado. Eu dava aula pro segundo grau. Sabe o que é segundo
grau? Escola que a gente chama hoje-- [pausa] Hoje chamam escola fundamental e escola secundária. Era escola secundária, eu dava aula pro segundo grau. Já pessoas de dezessete, dezoito anos, dezenove. Já com manifestação política, então às vezes era complicado. Era complicado. Eu me lembro de dar aula e da porta da sala tinha dois militares, dois soldados esperando terminar a aula para prender alunos que estavam dentro da sala de aula.DENT: E isso acontecia também na universidade?
WEIMER: Na universidade também. Nessa época, acontecia na universidade
também. De a gente estar em sala de aula, e colegas-- Chegar o militar estar na porta esperando que, para prender colegas que estavam na sala de aula, era complicado.DENT: E no departamento da genética, tinha uma professora que foi presa, ou
tinha mais?WEIMER: Teve uma. Que eu saiba, teve uma. Inclusive ela terminou saindo do Brasil...
DENT: E foi para a França.
TW Foi para França.
DENT: Como, assim, esse ambiente obviamente deve ter sido muito tenso...
00:36:00WEIMER: Muito tenso.
DENT: Como era, por exemplo, assistir a congressos, participar de eventos
científicos, viajar? Foi mais complicado por causa da ditadura?WEIMER: Na época que eu comecei a participar disso, já não era tão
fechado, já se conseguia então nos congressos principalmente... os primeiros congressos eram coletivos da Genética com a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência. E na Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência existia mais manifestação política. Mas isso aí eu não sei te dizer se foi-- Não, olhando agora, o que que aconteceu depois, não tem muita diferença. Essa dificuldade de ir, de-- Porque no regime militar, teve uma coisa diferente. É que o aporte financeiro para pesquisa foi muito grande. Foi uma maneira de, digamos, eles-- Então tinha toda a coisa ruim da repressão da ditadura, do temor, não podia falar, não podia dizer, não podia expressar tua maneira de falar, porque qualquer coisa que tu dissesse podia ser interpretado errado. Mas por outro lado, teve um financiamento à pesquisa bastante grande.DENT: E foi isso que fez possível contratar seis professores no mesmo momento?
WEIMER: [Provavelmente.] Provavelmente. Porque foram seis professores para
a Genética. Para o resto da universidade toda, teve. Isso eu não sei te dizer, mas eu acho que sim. E deve ter sido uma coisa assim, porque no Brasil tem muito isso. Seguram dinheiro, seguram dinheiro, seguram dinheiro. De repente, tem que investir isso e tem que ser até o fim do ano. Então, deve ter sido uma coisa desse tipo. Eu nunca.... Nós nunca ficamos sabendo 00:38:00exatamente o que aconteceu, mas foi um número muito grande de professores, porque para Genética, foram seis. Foram sete. Seis além de mim.DENT: Nossa!
WEIMER: Foram sete. E o critério era esse: quem estava fazendo cursos com
bolsa, mas mesmo que tinha uma dedicação efetiva. E quem definiu isso foram os chefes de departamento. Os chefes de departamento que indicaram, provavelmente em colaboração com os coordenadores dos cursos. O chefe de departamento é que indicaram as pessoas que estavam nessa situação e que poderiam ser contratadas.DENT: Aí então você entrou como professora em 76, e aí ficou com os mesmos
interesses ou mudou um pouco o enfoque da pesquisa?WEIMER: Depois do doutorado, eu continuei trabalhando em colaboração com o
Salzano com algumas coisas, mas comecei a trabalhar, me interessar por Genética Animal. Daí eu comecei a trabalhar com Genética Animal simultaneamente. Eu orientava na parte de Genética Humana, mas orientava também na parte de Genética Animal. Essa parte de Genética Animal custou um pouco a... Demorei um pouco a me dedicar exclusivamente a isso, porque ainda tinha os compromissos, toda parte-- " Sempre que chegava amostra de populações indígenas, eu fazia todos aqueles marcadores que-- " Inclusive, depois que-- Depois que a Rosilda foi para Recife, eu passei a fazer a parte, os marcadores que ela fazia, eu continuei para não morrer a coisa, eu continuei fazendo. Então toda essa parte de marcadores de enzimas eritrocitárias, eu continuei fazendo das populações indígenas.DENT: Poderia comentar um pouco sobre esse trabalho com populações
indígenas, se era diferente, se era igual com o trabalho de doutorado? 00:40:00WEIMER: Era igual, porque na verdade, quer dizer, o meu envolvimento era gerar
resultados. Eu não tinha parte de análise estatística e de organização dos dados e redação das publicações. Isso ficava por parte do professor Salzano. Então eu fazia, eu tinha-- Chegava as amostras, eu analisava, fazia toda parte de laboratório era por minha conta, e eu repassava pro Salzano os dados já semianalisados no sentido de frequências, esses resultados mais básicos, eu passava para ele. A interação com os outros laboratórios de outros departamentos e a análise conjunta ficava por conta dele. Em geral, quem fazia a parte estatística disso tudo era a professora Sidia. Já conversou com ela?DENT: Ainda não. [risos] Então, você nunca participou de trabalho de
campo na área indígena?WEIMER: [Não, não.] Não, não, de indígenas, não. Porque na-- O
acesso, parece que agora está até mais difícil, mas o acesso às populações indígenas era um troço muito complicado. Tinha que ter o aval da FUNAI, tinha que ser uma série de avais, e em geral, o Salzano viajava com o Girley, que era quem fazia a coleta. E teve uma vez que a Lavinia foi. A Lavínia Schüler porque era médica. Então ela foi, mas no sentido de dar apoio logístico de atendimento médico às populações. Então nesse ponto o Salzano era muito... Muito restrito, então teria que ter uma função específica na coleta. Então, eu nunca participei, embora eu tivesse muita vontade de ter ido, nunca fui.DENT: Nesses trabalhos sobre as populações indígenas, como geneticista
00:42:00com um, assim, entendimento do trabalho do professor Salzano, poderia comentar um pouco sobre o impacto e importância desses estudos sobre povos indígenas, assim, no campo mais geral? Como tem sido o impacto do professor Salzano, do trabalho dele, quais têm sido, assim, os aportes mais importantes ou-- Não sei, eu sei que não é exatamente o campo que você conhece mais, mas--WEIMER: [Não] Em termos científicos, eu acho extremamente importante a
gente conhecer as populações que a gente tem. Conhecer o que que a gente tem. Agora não sei te dizer em termos práticos, se isso teve algum retorno para as populações indígenas. Acho que não.DENT: Eu penso mais assim, estava perguntando mais no nível acadêmico.
WEIMER: Ah, no nível acadêmico. Não, no nível acadêmico, acho que teve
impacto bastante grande. Salzano é muito conhecido por isso aí. E eu acho que é um trabalho bastante importante no sentido de que a gente tem que conhecer o que é que a gente tem. E ainda tem muitas populações indígenas que mereceriam estudos. Só que a dificuldade de acesso, a FUNAI cada vez complica mais. Então se tornou praticamente muitas vezes impossível se conseguir ter acesso às populações para fazer as coletas. [pausa] Mas tem, foi, tinham dados muito interessantes. A gente, quando a gente começava a estudar, a gente via de repente uma população que era completamente diferente de todas as outras que a gente estava acostumado. As frequências alélicas diferentes, alelos novos, variantes novas, então tinham coisas muito, muito interessantes. Então cada população que a gente estudava... Teoricamente "se é indígena, vai ser tudo igual". Não era. Eram diferentes. Os resultados eram diferentes. Era um trabalho muito bonito. Muito estimulante, muito interessante. 00:44:00DENT: E na questão, assim, ter autorização para fazer pesquisa-- Quando
você fez doutorado, tinha algum processo de aprovar o projeto para--WEIMER: Tinha-- O projeto tinha que ser aprovado no departamento. Mas em
termos como tem hoje um comitê de ética, não existia. Naquela ocasião, não existia um comitê de ética. O que a gente teve... A gente aprovou o projeto nos hospitais onde a gente, na Santa Casa a gente teve que ter aprovação no hospital para fazer. Mas não existia um termo de consentimento livre e informado como existe hoje, não existia. Mas a gente teve aprovação do hospital onde a gente fez a coleta e das escolas onde fez as coletas. E das famílias. Como eu te disse, os recém-nascidos a gente coletava. Nasceu, coletou. Não tinha... Porque a gente coletava não só de brancos, de negros, coletava de brancos e negros. Nasceu, coletou. Não podia perder isso. E no dia seguinte, a gente consultava as famílias e as mães. Em geral, elas não criavam problemas. Eu imagino, vendo de fora hoje, porque eu não sei se a gente tinha um discurso tão convincente. Eu acho que como elas estavam dentro do hospital, sensibilizadas, elas interpretavam que aquilo fazia parte do trabalho. Fazia parte da hospitalização dela. É assim que eu interpreto hoje. Na ocasião, não sei se eu me dei conta disso. Talvez quando eu fui coletar nas famílias nas escolas, que aí já foi a coleta já foi mais difícil, nos hospitais a gente nunca teve, não me lembro de ter tido alguma paciente ter se negado a participar. Elas achavam tudo tranquilo, tudo normal. Acho que por isso, elas estavam dentro do hospital, aquilo ali fazia parte do hospital. Nas escolas, já era diferente. [risos] Mas não tinha um comitê 00:46:00de ética, não tinha. Isso foi uma coisa mais recente. Não sei de quantos anos tem isso.DENT: Formalmente, foi instituído no ano 96.
WEIMER: É, foi uma coisa muito mais recente.
DENT: Mas o processo de avaliação do departamento, sabe como funcionava para
ver o projeto?WEIMER: Sei como funcionava quando eu comecei a participar como professora.
Então deve ter sido-- O projeto era-- O curso de pós-graduação e o departamento têm um-- Na verdade, não era o departamento que julgava. Era o curso de pós-graduação, porque era um projeto de doutorado. Então o curso de pós-graduação tinha um conjunto de professores que se-- Um colegiado que se reunia. Então dentro desses colegiados sempre um professor era relator do projeto. Então o professor lia, verificava a viabilidade, a-- Sei lá, se estava tudo correto, se tinha viabilidade de ser feito, se tinha validade científica. E dava seu parecer. E os outros apoiavam ou não, concordavam ou não e o projeto era aprovado pelo comitê, o órgão colegiado, que era a comissão de pós-graduação.DENT: E naquela reunião de avaliação tinha uma discussão, uma conversa
sobre questões éticas ou qual ia ser--?WEIMER: Tinha, tinha, tinha.
DENT: E poderia descrever um pouco quais eram os assuntos mais comuns, se
tinham projetos que tinham que ser mudados ou se--?WEIMER: Tinha, muitas vezes tinha projeto que tinham que ser mudados. Quer
dizer, como não tinha o comitê de ética, a gente... O projeto foi aprovado... Ou se não foi aprovado ainda ficava pendente. "Projeto está aprovado desde que tenha aprovação das instituições onde vai ser realizado". Que o Hospital 00:48:00de Clínicas, que o Hospital Santa Casa aprove, que as escolas aprovem, que as famílias aprovem, esse tipo de coisa. E se tinha algum projeto, agora estou falando não como sendo avaliada, mas quando eu fui avaliar. Se tinha algum projeto que a gente achava, "não, isso aqui está mal, tem que reestruturar nesse sentido". Então muitas vezes o projeto não era rejeitado, mas ele voltava para ser reestruturado. Ou às vezes, a gente dizia "simplesmente não dá, esse projeto tem que mudar, não dá para ser assim". Isso acontecia às vezes.DENT: E tinham problemas que acharam como mais frequentes para questões
éticas lá na--?WEIMER: Ah, isso eu não sei te dizer. Não me lembro disso. Porque isso
era-- Cada projeto era um projeto. Não me lembro, isso realmente eu não me lembro.DENT: Ah, também faz muito tempo. [risos]
WEIMER: Faz muito tempo, é.
DENT: E entre mil outras coisas que um professor tem que fazer.
WEIMER: [É, é.] E aí também já tem, já... Os últimos projetos já
tinham comitê de ética, então a gente já tinha que ter avaliação, então eu posso te responder já com uma visão deformada da coisa, porque eu participei também de projeto em que tinha que ter o parecer da comissão de ética.DENT: E poderia comentar um pouco sobre esse processo? Como funcionava?
WEIMER: Quando tinha... Isso eu me lembro muito bem quando eu estava na ULBRA
que eu inclusive fazia parte do comitê de ética. A gente tinha, muitas vezes, devolvia o projeto porque estava faltando, sei lá, o aval das famílias, o termo de consentimento não estava bem estruturado. O termo de consentimento passava pra gente ver se estava claro. Se não estava, se estava bem estruturado. Muitas vezes o projeto tinha que ir pra, conforme o projeto, tinha que ir para avaliação do comitê de ética nacional.DENT: Como era aprender ser parte de um comitê de ética? Já sabia ou tinha
00:50:00que fazer um curso?WEIMER: [Não, não, a gente...] Não tinha que fazer um curso, mas a gente,
no momento em que eu fui participar do comitê de ética, eu peguei toda documentação nacional, da instituição, porque existem comitês centralizadores, digamos assim. Então, a instituição já tinha a documentação, e tinha, agora não me lembro mais como é o nome da instituição nacional que tinha, CONEP, CONAB, qualquer coisa assim.DENT: CONEP.
WEIMER: CONEP. Então toda documentação do CONEP eu sentei para estudar
para ler para ver o que que dizia, o que que tinha que ser feito. Então não foi bem um curso, mas foi um estudo, um aprendizado.DENT: [Um estudo] independente. [risos]
WEIMER: Um estudo independente. [risos]
DENT: E era uma mudança grande iniciar, ter um processo de um CEP para
revisar as pesquisas? Mudou muito a experiência de ser pesquisadora ou de participar de--?WEIMER: Não, porque é aquela história. Embora não existisse-- " Porque
quando eu passei a participar do CEP, eu já elaborava projetos que tinham que seguir as normas éticas. Então as normas éticas, uma parte já está contigo, tu já sabe como é que é. Então outras, quer dizer no caso específico, eu já trabalhava só com populações, com animais. Então tinha, mas eu participava também das discussões das populações humanas. Então muita coisa que a gente já tinha feito de consultar as famílias, consultar as escolas, consultar os-- Isso já basicamente já existia. Tinha só que a maneira como informar as famílias tinha que ser diferente. Então acho que não teve grande diferença. Teve um aprendizado, realmente um aprendizado bastante grande, porque coisas que a gente fazia tinha que seguir as normas da instituição, a gente seguia. Mas a partir de agora, a gente tem 00:52:00que seguir, ver se as normas da instituição estão sendo seguidas. É uma visão diferente, não mais de ator, mas de julgador. Mas foi uma experiência válida e bastante boa, eu fiquei lá até sair da instituição.DENT: Bom, acho que aí eu saltei um pouco [risos] da cronologia. Então
talvez podemos voltar para ver um pouco mais já formada, doutorada, professora. Ia desenvolvendo os temas de interesse na carreira profissional. E comentou que ficou trabalhando com questões de fazer as análises para os estudos--WEIMER: De populações indígenas. Continuei trabalhando com populações
humanas. Desenvolvi alguns projetos, isso mais em função do interesse de um aluno, eu desenvolvi projetos com câncer. Marcadores genéticos de câncer. Aí tinha que ter.... Aí já tinha que seguir as normas do comitê já. Eu acho que nessa época, já tinha TCLA e tudo mais. [pausa] Deixa eu ver mais o que foi que eu fiz. E paralelamente trabalhando com populações, com Genética Animal. Então durante muito período, eu fiz a parte de Genética Humana, com estudos de câncer, com populações indígenas, com populações negras, foi quando a Cátira fez o mestrado e o doutorado dela com populações negras. Usando os mesmos marcadores. E já derivando para populações, para estudos animais. Então foi mais no fim que eu parei completamente de fazer toda parte humana. Mas foi mais no fim da minha vida acadêmica.DENT: Poderia comentar um pouco sobre a experiência de ser orientadora e como
comparava ser orientadora com ser orientada pelo professor Salzano? [risos] 00:54:00WEIMER: Na verdade, é o momento que tu é orientada pelo Salzano tu aprende
muito como orientar. Porque o Salzano era uma pessoa assim que, muito exigente. Muito... [pausa] Não sei se continua assim, mas ele era muito exigente, mas muito correto. Então, a gente aprendia a forma que funcionou com a gente, funcionou muito bem. Então isso a gente usa como modelo, como exemplo. A orientação é uma coisa mais complicada porque, quer dizer, no momento que tu está orientando, está sendo orientado, tu tem o teu relacionamento com o teu orientador, então tu tem que ter um respeito. É uma relação, digamos, bilateral. Tu tem, no momento em que tu está orientando, tu tem várias orientados. E de cada orientado, tu tem que agir de uma forma diferente, porque as pessoas são diferentes. Então é uma experiência, bastante, muitas vezes, bastante complicada, dependendo da pessoa que tu está orientando. Mas é uma experiência muito válida, muito boa. Ensinar é uma coisa muito boa. Tanto na aula, quanto na orientação, ensinar é uma coisa muito boa.DENT: E a experiência de orientar afetou, mudou as pesquisas que você ia
fazendo? Influenciou a trajetória dos seus interesses?WEIMER: [Não.] Não, na maioria das vezes, com exceção desse aluno que
estava-- Foi um aluno muito complicado, porque ele começou com outro orientador. E ele queria fazer uma coisa muito-- Foi um dos projetos que eu me lembro que foi rejeitado no curso, porque ele queria fazer uma coisa relação de ciência com religião e não tinha-- O projeto estava completamente desarticulado. E aí ele ficou completamente perdido. Não, mas não, eu já trabalhava com câncer, eu já estava trabalhando com câncer. Não, não 00:56:00mudou não. Não mudou, não. Ele se encaixou, me procurou, porque outra área de interesse dele era estudar genética do câncer. Mas eu já estava trabalhando, porque eu já tinha feito outros projetos. O dele não foi o primeiro.DENT: Aí tinha uma experiência na Bahia, e depois chegou na UFRGS e depois
passou para a ULBRA. Então poderia comentar sobre as dinâmicas de cada departamento? Como era? Quais eram as mudanças? Porque permaneceu muito tempo na UFRGS...WEIMER: Muito tempo na UFRGS.
DENT: Então o departamento desenvolveu muito durante esse tempo. Poderia
comentar um pouco sobre a dinâmica do departamento, dos estudos que estavam fazendo, as colegas, como era ser professora lá? [risos]WEIMER: Realmente não sei como te dizer, porque claro, cada vez que tu muda
de lugar tu tem que te adaptar, tem que ter um jogo de cintura para te adaptar nas coisas, mas eu nunca tive grandes problemas de adaptação em nenhum lugar. Na UFRGS, na Genética, claro, como todo lugar, tem atritos em tudo que é canto. Mas eu nunca tive maiores problemas com colegas nem com orientadores, nem com professores. E na ULBRA, também-- " Eu fui para lá convidada por um professor já participar do-- " Olha, eu acho que eu não tive-- Não sei te dizer realmente. Claro que as dinâmicas são diferentes, a universidade da ULBRA é uma universidade particular. As dinâmicas são diferentes. Então tu tem outro modo de agir, tu tem... A preocupação deles é aula e aula e aula. Embora eu tivesse montado um laboratório lá e feito a parte de pesquisa bastante grande, eles tinham interesse em pesquisa também, mas o negócio deles é ter aluno pagante. Isso é uma universidade particular. Eles têm que ter alguém que pague pra-- " E a pós-graduação também era 00:58:00paga, então muitas vezes era complicado, porque-- Mas eu não tive problemas. Como eu vou te dizer "os alunos são melhores ou piores em uma ou outra". Não são. O nível é o mesmo. Claro que tem alunos fracos e tem alunos fortes. A pós-graduação funcionava perfeitamente bem, eu tive vários orientados lá na ULBRA. Tanto de mestrado como de doutorado. Então não-- Não sei te dizer se eu tive alguma-- " Claro, o lugar onde eu mais, minha vida acadêmica maior... Realmente minha vida acadêmica foi na UFRGS. Que eu vivi toda minha vida lá. Então primeiro como estudante, depois como professor.DENT: Aí na UFRGS, você estava aí no departamento enquanto fizeram a
mudança de--WEIMER: Fizeram... Do centro pro....
DENT: [De prédio, né?] [Risos] Para o campus do Vale.
WEIMER: Do centro pro campus.
DENT: E também foi naquela época mais ou menos que fizeram, implementaram
mais o trabalho com DNA. Não é?WEIMER: Foi, foi.
DENT: Poderia comentar um pouco sobre essa transição científica de
trabalhar mais com enzimas, com marcadores sanguíneos, coisas assim, para trabalhar mais com técnicas de DNA?WEIMER: Não, foi uma coisa que aconteceu mais ou menos porque a medida que
surgiram as técnicas de DNA, a informação que se obtém, o resultado que tu tens é tão mais rico e tão mais informativo, que a tendência é mudar mesmo. Porque a proteína, a eletroforese de proteína te dá uma informação, é uma informação importante. Mas é uma informação mais limitada do que te dá o DNA. Então o negócio é mudar para isso. Então tem que ter muito estudo. Alguns-- A Mara saiu, fez um estudo fora. Mas a maior parte das 01:00:00pessoas que migraram, migraram estudando a base da literatura da técnica, apanhando bastante para mudar a técnica, para aprender a técnica. Mas não é uma técnica mais complicada, mais elaborada que a outra. É até uma técnica, depois que tu aprende, até mais simples do que a outra. [risos] [pausa] A mudança pro campus foi uma mudança bastante importante, porque o espaço que a gente tinha aqui era um espaço muito limitado. Então muita coisa a gente não podia fazer pela limitação de espaço. E com o campus, passou a se ter mais laboratórios, as instalações elétricas e de água eram mais novas, então podia colocar mais equipamentos, mais... Nesse sentido, teve um crescimento bastante grande. Eu interpreto assim. Pelo menos para mim, foi um crescimento bastante grande da pesquisa no sentido de ter mais espaço. Mais [inaudível] a criar e a usar coisas que tu gostaria de ter feito e tinha, pensava antes e não conseguia por limitação física. E isso, com a mudança pro campus, isso foi uma mudança bastante grande. Eu acho que o DNA, a mudança pro DNA foi coincidente. Em termos de-- Porque foi nessa época mais ou menos que desenvolveu mais a técnica de DNA. Mas se a gente tivesse no centro, a gente não teria feito. Não teria como. O campus, a ida pro campus propiciou que a gente pudesse desenvolver essas técnicas em questão de espaço, de condições de laboratório. Tinha condições, inclusive, de pedir um equipamento, de comprar equipamento. No centro, não dava mais, não adiantava pedir, não tinha onde botar. [risos] Só se trouxesse para casa. [risos] Ou pendurasse no pescoço. [risos] 01:02:00DENT: O professor Salzano é conhecido por trabalhar muito nas questões
interdisciplinares, de cruzar fronteiras entre antropologia e genética, de algum modo, né? O que que se entende como valor da interdisciplinaridade nesse caso?WEIMER: Eu acho que é extremamente importante em qualquer área que você
tenha. Por exemplo, se está estudando populações indígenas e até fazendo antropologia biológica, é óbvio que ele tem que verificar o que que a antropologia cultural está fazendo. Passando para minha área de interesse no final. Se eu estou fazendo Genética Animal, eu tenho que saber o que que-- " Eu não sou veterinária, eu tenho que saber o que que os veterinários pensam, qual é importância disso, interagir com os veterinários, porque senão a coisa não funciona. Então eu acho que qualquer área que a gente estude, tem que ter uma interdisciplinaridade. No momento que eu estava estudando fazendo a parte de genética do câncer, eu tinha muito contato com os médicos que não só me ajudava a conseguir o material, mas que me davam todo suporte clínico que eu não tenho. Então a interdisciplinaridade, independente de que área tu estuda, é extremamente importante. Tem que ter, senão não funciona. E na parte de populações indígenas, é imprescindível, porque tem a parte linguística. Quer dizer, tem vários grupos linguísticos, e aí, qual é a interação entre eles? Eu não posso fazer, mas um linguista pode me ajudar nisso aí. O antropólogo cultural tem uma visão completamente diferente. Então tem que ter uma interação, senão não funciona.DENT: E no seu trabalho, teve muita interação interdisciplinar com médicos,
com veterinários?WEIMER: Sim, com médicos, com veterinários. Quando eu trabalhava com
populações indígenas, tinha contato também com os antropólogos. Sempre teve. 01:04:00DENT: Poderia comentar um pouco sobre cada caso desses três, assim,
antropólogos, veterinários e médicos? Como era a interação? Quais eram as coisas que fizeram mais fácil ou mais difícil essa interação entre campos de conhecimento?WEIMER: Olha, eu acho-- " A mais difícil é com os médicos. A mais
difícil é com os médicos, porque o médico tem uma visão, vendo agora, uma visão muito clínica. Eles-- Embora eles tenham interesse no resultado, na parte de pesquisa, é um interesse mais, eu digo assim, fantasioso. "Ai, que bom que estão fazendo pesquisa!" Mas se dedicar à pesquisa, eles não se dedicam. A parte clínica eles ajudam muito, eles-- Então às vezes eles enxergam coisas completamente diferentes. Por exemplo, na ocasião do meu doutorado, eu trabalhei com uma enzima chamada adenosina desaminase. Que é uma enzima que a deficiência dela está associada à deficiência imunológica. Então eu procurei estudar alguns pacientes com deficiência imunológica, não AIDS, não adquirida, deficiência imunológica nata, para ver o efeito, se tinha problemas dessas enzimas ou não. E foi muito complicado, porque os, embora tenha conversado com vários médicos e explicado coisas, muitos deles me mandavam com deficiência imunológica adquirida. Então porque eles, é deficiência imunológica, não interessa, quer dizer, então a gente descobria que era adquirida por entrevista com os pacientes. Mas aí fica complicado, vai dizer pro paciente "não te quero"? Então muitas vezes coletava amostra, fazia o exame, dava o resultado, mas já sabia que o resultado ia ser normal porque não era deficiência genética, era deficiência adquirida. Então nesse sentido, eu acho que com médico, é mais difícil. É claro, na ocasião que eu trabalhei, eu não posso dizer agora se são os médicos, 01:06:00continuam assim ou não. Na parte da antropologia cultural, dos antropólogos, era uma coisa muito tranquila, porque eles tinham interesse também em ver como é que, o resultado da biologia, se correspondia com o resultado deles. E com os veterinários, também foi muito tranquilo, porque também tinha, não sei se com os médicos eu não consegui dar o recado direito, e com os veterinários, eu já estava mais calejada, consegui. Mas eu tive interações muito grandes com veterinários. Inclusive, no final, na ULBRA, eu trabalhava dentro do hospital veterinário.DENT: No caso dos antropólogos, quais eram os projetos específicos que tinha
essa colaboração ou interação com os antropólogos?WEIMER: Eram os projetos das populações indígenas, basicamente. As
populações indígenas, é. As populações negras, porque eles não tinham muito estudo com populações negras e...DENT: E aí--
WEIMER: Agora se eu tivesse trabalhando, talvez tivesse fazendo interação
com historiadores, por causa [inaudível] [risos]DENT: [risos] Sim, podia, assim, colocar na lista, né? [risos]
WEIMER: Não, mas não. Já-- Eu realmente me aposentei, me aposentei.
Não-- Não me arrependo, acho que aposentei na hora certa.DENT: E merecida-- As pessoas não tem que trabalhar para sempre. [risos]
WEIMER: [Não, porque eu penso assim.] É, cada um, cada pessoa é uma
pessoa. Eu acho que na minha profissão como professor, no momento em que eu não tenho mais paciência, não tenho mais, começa a ter, a me irritar com que aluno faz, está na hora de parar! É uma questão de respeito a eles e a mim também. Então-- Não dá. Não é que eles mudaram, é que eu também envelheci. Eu também fiquei menos tolerante. Então está na hora de parar. Eu realmente, depois que eu me aposentei na UFRGS, eu continuei um bom período orientando na pós-graduação, até terminar todos os orientados que estavam. 01:08:00 E na ULBRA foi a mesma coisa. Mesmo sem receber salário, eu continuei orientando todos os estudantes. Eles vinham na minha casa até terminar os trabalhos. Porque eu acho que se eu assumi o compromisso com o estudante, ele não tem nada a ver com meu problema particular de querer parar de trabalhar. E realmente, orientei mais dois alunos até terminarem na ULBRA e na Genética-- Na Genética, até peguei gente nova depois que eu parei de trabalhar. [risos] Quer dizer, Genética para mim é UFRGS, né. [risos]DENT: Sim. Agora, não sei assim, você tem alguma coisa mais que acha
importante comentar que eu não perguntei sobre a carreira profissional, algum estudo importante que--WEIMER: Não, não. Acho que a gente discutiu tudo, falou tudo.
DENT: E sobre o impacto, assim, da carreira profissional na vida familiar e,
assim, ser cidadã de Porto Alegre agora? [risos] Como era, tinha tempo para se dedicar também às coisas fora da universidade? Ou era uma carreira profissional que era muito--?WEIMER: Era uma carreira profissional bastante absorvente. Enquanto eu
estava aqui no centro, que é quando meus filhos estavam pequenos, eu vinha em casa todos os dias, almoçava com eles todos os dias. Quando eu fui pro campus, não dava mais. Felizmente, eles já estavam na idade que já dava para ficar sem isso. O que a gente conseguia fazer fim de semana, no domingo, alguma coisa pessoal, ou quando a gente tirava férias, um mês de férias. A gente tirava e conseguia fazer alguma coisa pessoal. Mas era uma vida-- A 01:10:00gente-- O envolvimento era muito grande. Porque teoricamente eram oito horas. Mas a gente sempre fazia muito mais que isso. Desde o tempo de doutorado. Desde o tempo do mestrado, porque sempre tinha mais-- "? Um dia tem 24 horas, mas a gente tinha que fazer esse dia de 24 horas render, senão não dava conta. Então a parte que eu estava fazendo doutorado e dando aula era-- " Trazia trabalho para casa todos fins de semana e-- As aulas todas eram preparadas em casa, porque durante o dia não dava tempo. Porque além das atividades didáticas, tu tem participação de comissões, tu começa a se envolver com a vida do departamento. Então tu tem que-- É uma profissão, uma carreira muito envolvente. Mas muito boa. [risos] Não é queixa em nenhum sentido, mas era-- Era-- Não era que eu fazia aquilo como sacrifício, era um prazer estar ali.DENT: Bom, acho que essas são todas as minhas perguntas então--
WEIMER: Então tá, Rosanna, se precisar de mais alguma coisa-- Estou às
ordens. Qualquer coisa que tu queiras.DENT: Tá, perfeito. Muito obrigado, professora.