00:00:00DENT: Hoje é 13 de julho de 2012. Estamos no Instituto de Biociêncais da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o professor Francisco Mauro
Salzano. Se você está de acordo, eu vou pôr o microfone aqui, sim? Então, a
última vez que falamos, você comentou um pouco que foi para Genebra para a
conferencia [congresso], para duas conferencias que realizaram lá. Eu queria
saber um pouco mais, o que você lembra de essas conferencias, do processo de
produção do documento. Eu li o reporte [relatório] técnico que saiu, mas
estava interessada saber um pouco, se podia dar uma pouco de explicação de
como foi que a Organização Mundial de Saúde estava interessada neste projeto
que você com Neel e as outras pessoas que estavam lá presentes estavam armando.
SALZANO: Isso. Me espere aí, que vou... pesquiso no documento aqui.
DENT: Claro, claro.
[Salzano sai da sala, e logo volta]
00:02:00
SALZANO: Então o primeiro foi publicado em 1964 e o segundo em 1968.
DENT: Então aqui, são os reportes [relatórios] do grupo.
SALZANO: Pois é. Esse então é o documento final. Aqui estão os diferentes
membros do grupo que envolve professores da Inglaterra, dos Estados Unidos,
00:04:00França, Austrália, Rodésia, da África. Então, eu e outros professores dos
Estados Unidos. Então, o Neel era o presidente do grupo, e eu rapporteur
[relator]. O que coordenou a produção do documento foi o Professor Kirk de
Austrália. Depois tinha o secretariado da Organização Mundial de Saúde que
envolveram também pessoas tão importantes quanto Alfred Métraux, da França,
e o Joseph Weiner, da Inglaterra. Laughlin também dos Estados Unidos.
Isso foi feito em 1962, como falei, 3 de dezembro. Então, há toda uma
introdução sobre a necessidade dos estudos em populações tribais, os
objetivos, e os dados a serem coletados que envolveriam demografia, ambiente
00:06:00sociocultural, saúde, genética e antropologia física. E as populações
disponíveis para estudo, que envolvia grupos na América do Sul,
África, Ásia, Australásia, e como se deveria montar a pesquisa, equipamentos
e outras facilidades, treinamento de pesquisadores para essas atividades, e aí
a questão da bioética: [Salzano lê] "Relações do grupo de pesquisa com a
população estudada". Está aqui tudo que atualmente é solicitado, está tudo
aqui em 1962. E há uma série de recomendações para a Organização Mundial
de Saúde relativas a esse projeto.
Isso foi seguido por uma outra reunião, documento publicado em '68 que também
incluía um professor da África, da Itália, Estados Unidos, Escócia,
Japão, Holanda, França, Austrália, e como membro do secretariado uma pessoa
00:08:00importante também da Índia, Dr. Sanghvi. E, então, a ideia foi reavaliar o
documento feito anteriormente. Isso foi em '67, e o documento antes foi feito em
'62, então cinco anos depois para ver se havia alguma alteração, alguma coisa
para fazer. Então, inicialmente havia muita polêmica com o término
"primitivo", então foi retirado do título do documento esse termo que é
considerado pejorativo com os grupos. E nesse caso o Neel era o presidente do
grupo, coordenador, eu era o vice coordenador, e o Newton Morton, dos Estados
Unidos, e o Walsh que eu creio que era da Austrália serviram de rapporteurs
[relatores]. Daí, então, se verificou todos os dados, todo o documento que
00:10:00tinha sido feito anteriormente. Se atualizou todo ele [páginas virando], as
populações também foram revisadas. A organização do trabalho de campo...
aqui foi aumentada, com mais detalhes de como deveria ser conduzido o trabalho
de campo. E processamento dos dados que também não tinha antes...
DENT: E durante esses... que, eram cinco anos?... Experimentaram muitas
mudanças nas técnicas disponíveis?
SALZANO: Não muitas, mas havia alguns desenvolvimentos que não existiam antes.
E já havia experiência de trabalho de campo em diferentes continentes, então
já se podia discutir com mais profundidade essas questões da bioética, por
exemplo, e outras.
DENT: E você, dentro desse grupo, quando estavam preparando o documento e
fazendo todo o processo de conversar e ver, que foi o que você aportou? Que foi
o papel que você teve dentro do grupo? Era dividido entre pessoas para algumas
00:12:00responsabilidades, ou como foi produzido o documento? Como foi o processo?
SALZANO: Em geral, se fazia subgrupos que tratavam desses diferentes aspetos,
que eu falei ainda há pouco. Então, cada um discutia. Cada subgrupo discutia,
montava a redação e depois era submetido ao grupo todo, sobre que deveria
ficar, que deveria ser alterado, etc.
DENT: E qual era o subgrupo que você era parte?
SALZANO: Agora... já não me lembro mais.
DENT: Faz muito tempo...
SALZANO: É. Mas... não me lembro agora...
DENT: Você mencionou que sacaram [tiraram] do nome o término [termo] "primitivo".
SALZANO: Isso.
DENT: Qual era a polêmica que existia? Teve pessoas que estavam de ambos lados
na conversação ou simplesmente foi um... Ou como foi?
SALZANO: Inicialmente a gente estava muito ingênuo com relação a esse termo.
Então, na verdade, foi até cuidadosamente definido para evitar qualquer
problema de interpretação errada. É apresentado aqui o que a gente queria
00:14:00dizer com isso. Mas, o fato é que quando depois que isso foi publicado, vários
colegas questionaram esse termo mesmo com o condicionamento que a gente fez,
poderia haver interpretações errôneas. De pessoas melhores, ou menos
capacitadas. Então, por isso se mudou. Mas não havia nenhuma diferença de
opinião tanto no primeiro como no segundo quanto a inclusão ou não desse termo.
DENT: Imagino que você estava muito involucrado [envolvido] na parte de
identificar os grupos para estudo aqui em América Latina, não?
SALZANO: Exato.
DENT: Que era o que você procurava para um grupo perfeito para um estudo de população?
SALZANO: Aquele que seria... no caso aqui, dos grupos tribais, seriam aqueles
que estivessem o menos possível influenciados pela sociedade circundante.
Então para esses deveriam estar mais ou menos isolados das populações urbanas
00:16:00e conservando o máximo possível a sua cultura. Cultura e aspetos biológicos também.
DENT: Lembra algo da experiência de ir para Genebra neste tempo, nos anos '60?
Como era para você? Já viajou antes, não? Mas, lembra algo de como era viajar
para lá?
SALZANO: Foi muito agradável. Em '62 já tinha participado de outras viagens
internacionais. No congresso de genética humana, que ocorreu na Itália, e
então não havia grandes problemas, digamos, de adaptação ao ambiente
europeu. E foi bastante agradável porque o pessoal lá da Organização Mundial
de Saúde foi muito simpático e acolhedor. E posteriormente eu fiquei em
contato com eles durante várias décadas, na verdade, como membro do comitê
00:18:00consultivo sobre essa questão da genética.
DENT: E, das pessoas que estavam lá presentes, dos científicos [cientistas], a
parte do Neel, que você já trabalhou com Professor Neel muito tempo, alguma
outra pessoa lembra que iniciou lá uma relação de trabalho, uma
correspondência, ou uma colaboração?
SALZANO: De colaboração mesmo, não. Mas nós estivemos principalmente em
contato com o Professor Barnicot, que é da Inglaterra e que estava fazendo
trabalho de campo na África e na Grécia. Achava que era interessante trabalhar
na Grécia também. [Risos]
DENT: Sim? Por quê?
SALZANO: Pelo ambiente na Grécia. [Risos] E tinha um problema específico que
se relacionava com alta frequência de hemoglobinas anormais que a gente falou
noutro dia, lá na Grécia. Então ele combinava a importância biológica do
trabalho com o ambiente agradável das ilhas gregas...
DENT: [Risos] Claro.
SALZANO: ...e da cultura grega em geral, né? E outra pessoa que a gente teve
bastante contato foi o Doutor Carleton Gadjusak, que é americano, e que
inclusive ganhou o prêmio Nobel. Outra pessoa que tivemos muito contato foi o
00:20:00Bob Kirk. Robert Kirk que estava realizando um trabalho similar ao nosso na Austrália.
DENT: E como foi a comunicação com eles e vocês? Fizeram intercâmbio de
publicações? Ou escreveram cartas e correspondência? Quais foram os temas que comunicaram?
SALZANO: Então como disse, especialmente dessas pessoas, a gente continuou
intercambiando informações e... Logo, mais ou menos concomitantemente nessa
época, foi lançado o que se chamou "Programa Biológico Internacional" para os
quais várias dessas pessoas também estavam envolvidas, né? Especialmente o
professor Weiner, que foi o coordenador principal da parte de antropologia
biológica do Programa Biológico Internacional. Então, nós fizemos outras
reuniões independentes dessa da WHO em épocas diversas, saíram vários
documentos a respeito, pelo menos uns dois ou três livros, nos quais a gente
analisou em detalhe os dados obtidos a partir dessa filosofia.
00:22:00
DENT: Então o programa biológico internacional foi patrocinado pelo WHO?
SALZANO: Não.
DENT: Foi separado?
SALZANO: Foi separado. Era do IUBS. International Union of Biological Sciences.
DENT: E você estava involucrado [envolvido] no programa biológico internacional?
SALZANO: Sim! Bastante!
DENT: Sim.
SALZANO: Digamos que havia um grupou principal, que envolveu o Weiner, e outras
pessoas que depois participaram da segundo reunião. O próprio Gadjusek,
Laughlin, e não está aqui, mas uma pessoa chave era um norte-americano chamado
Paul Baker, da Pennsylvania [State Univeristy] que também tinha um programa
importante de adaptação à altura. E, então, editou ou pelo menos coeditou
com Weiner um dos livros que a gente publicou.
DENT: Você, quando foi para a Suíça para primeira vez, foi a poucos meses
depois de fazer as primeiras pesquisas com os Xavante?
00:24:00
SALZANO: É... O campo foi... em '62. Por aí, mais ou menos.
DENT: Acho que foram em julho, mais ou menos, de '62 para a primeira
experiência com James Neel aqui para as pesquisas.
SALZANO: Exatamente.
DENT: E depois, a poucos meses foram para essa conferencia [congresso]. E como
era a relação entre o trabalho que vocês fizeram lá... acho que eram dentro
dos primeiros trabalhos de campo de genética com grupos tribais... depois para
levar a experiência para a OMS para essa conferência... Lembra como era a
relação entre o que vocês fizeram com os Xavante e o que apresentaram lá
para as pessoas em Genebra?
SALZANO: Não, foi fundamental essa primeira experiência de campo. E a gente
partiu, justamente, da mesma para um projeto de redação desse documento. Quem
realmente, a pessoa chave para montar a filosofia toda foi o Professor Neel, sem
dúvida, que tinha também uma relação muito boa com a WHO, então... isso facilitou.
DENT: E como foi a recepção do trabalho que vocês fizeram com os outros
científicos [cientistas] lá?
SALZANO: O documento, ou o trabalho de campo?
DENT: O trabalho de campo, porque imagino que vocês apresentaram o que fizeram
00:26:00de alguma forma. Lembra?
SALZANO: Foi publicado. A publicação principal que nós fizemos em '62, eu acho...
DENT: Em '64, acho, que saiu.
SALZANO: A primeira de Xavante?
DENT: A primeira, sim.
SALZANO: Ah, tá, pois é. [Risos] Então já foi posterior, em '64. Na
verdade, se constituiu num modelo para investigações posteriores em todo o mundo.
DENT: Então, depois de fazer a primeira reunião, vocês voltaram para o campo
com os Xavante. Lembra de alguma mudança ou uma comparação entre a primeira
vez que foram e a segunda vez?
SALZANO: Aí foram pessoas diferentes com relação à primeira. Então os
estudos foram diferenciados. [Salzano fala baixo] Tira isso daqui de novo [se
00:28:00retira o microfone da camisa do Professor.] Deixa eu ver uma coisa.
[Som de abertura de uma gaveta]
Então, essa aqui é uma cópia do trabalho, do primeiro de '64 como você
falou... Então incluíram as pessoas que fizeram trabalho de campo lá. Agora,
em '67 a gente publicou todo um conjunto de artigos que foram em número de dez.
A maior parte publicada no American Journal of Human Genetics que começa aqui.
E um ponto importante foi essa revisão desses estudos que eu fiz junto com
00:30:00Professor Neel, inclusive algumas hipóteses e generalizações do estudo.
Inclusive um ponto chave que é a questão de como seria a estrutura
populacional desses grupos tribais; chamado o modelo fissão-fusão que foi
depois submetido a diferentes análises matemático-estatísticas que se
interpretasse exatamente... analisasse quantitativamente qual seria o efeito
genético dessa estrutura.
DENT: E você mencionou que as pessoas que foram para o campo na segunda vez
eram diferentes.
SALZANO: Isso.
DENT: Quem estava lá no campo?
SALZANO: Pois é, aqui tenho... [páginas virando]
DENT: Ainda estava colaborando com Junqueira?
SALZANO: Deixa eu mostrar a série toda... [página] 394 ...'67...
[Salzano se levanta e busca o American Journal of Human Genetics volume 19,
número 4, 1967]
00:32:00
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Sete [artigos] saíram nesse número
especial e depois dois ou três outros, que eram mais de natureza médica,
saíram em outras revistas. Então, o trabalho de campo mesmo. Acho que... não
lembro se David [Maybury-Lewis] voltou lá também.
DENT: David voltou?
SALZANO: Não sei, não me lembro. [Salzano revisa os nomes na publicação] Mas
o Niswander, sem dúvida, foi um dos que eram lá do NIH, participou do trabalho
de campo. Esses todos são da parte do laboratório do... Weinstein, David
Weinstein também, que era médico. Que eu me lembro é assim... seria o
Niswander, o Weinstein...
00:34:00
DENT: O Professor Neel.
SALZANO: O Neel. Eu. Isso.
DENT: E a experiência... Como vocês já tiveram essa experiência antes,
alteraram alguma coisa em o que iam fazer para a segunda vez que voltaram? Quais
foram as aprendizagens que tiveram do primeiro tempo de campo para o segundo?
SALZANO: Se procurou aprofundar mais... esse primeiro estudo poderia ser
considerado como estudo piloto. E para aprofundar, por exemplo, a parte da
morfologia e da questão da higiene oral, foi o Niswander. E para aprofundar a
questão dos estudos médicos, foi o Weinstein. E se fez uma série de outras
coletas de material biológico que não tinha sido feito antes.
DENT: E coletaram sangre [sangue], urina, todo isso... de novo?
SALZANO: Exato. Porque eram outras aldeias. Não eram as mesmas.
00:36:00
DENT: E todo foi certo lá? Ou tiveram algum problema, alguma dificuldade?
Porque no trabalho de campo sempre coisas acontecem, não?
SALZANO: Claro.
DENT: Lembra de alguma coisa lá que foi inesperado?
SALZANO: Pois é, os estudos... na primeira vez a gente foi na aldeia de São
Domingos. Nessa outra foi no Simões Lopes que era outro posto da FUNAI, e São
Marcos que era uma missão religiosa católica. Eram estruturas mais ou menos
diversas da que a gente tinha visto antes. Em São Marcos havia muito mais
influência dos Padres do que havia nas duas outras aldeias. Mas especialmente
isolados realmente era o pessoal de São Domingos. Os dois outros já tinham um
00:38:00pouco mais de influência não-indígena.
DENT: E viram alguma influência na biologia dessa aproximação das culturas,
ou experiência com a missão, todo isso?
SALZANO: Não assim muito marcante, digamos. Poderia dizer que as principais
diferenças seriam com grupos já mais aculturados, digamos. Ou não-indígenas
do que propriamente entre essas três populações.
DENT: E como foram as... Você já viajou antes. Sabia como era fazer trabalho
de campo, mas a experiência de compartir [compartilhar] isso com os
norte-americanos, como foi a reação deles frente a chegar lá? Você acha que
foi diferente por de onde vieram, ou que você já tinha experiência
trabalhando com populações indígenas? Lembra de alguma reação deles ao
chegar lá e a ter esse contato.
SALZANO: Não. Em relação a esses dois, nessa segunda viagem não houve nenhum
problema de adaptação. Depois já quando se tratou da viagem do Alpha Helix,
um ou dois membros tiveram problemas, um não podia ir para o campo, coisas
00:40:00desse tipo, diarréia... [Risos]
DENT: Isso acontece, não? [Risos]
SALZANO: A maneira como as pessoas reagem a situações às quais não estão
acostumados é muito variada, então tem que ter cuidado. Tenho uma amiga minha,
que fez trabalho de campo muito tempo lá na Amazônia, disse que num momento
determinado lá, ela foi fazer trabalho de campo com um norte-americano. Seria a
parte da questão da antropologia social-cultural... não é biológica... e o
camarada, logo depois do primeiro ou segundo dia, ficou completamente
estatelado. Ficava no canto, sem se mover, quase uma síndrome de autista... Foi
difícil até de fazer com que ele voltasse para a cidade. Então... situações
extremas, às vezes, ocorrem.
DENT: Lembra se tiveram alguma, se tiveram, diferencia [diferença] de ponto de
vista para chegar lá aos povos indígenas do Brasil, entre você, que é
Brasileiro, e que trabalhou durante um tempo antes nesse campo, e os, como
00:42:00Niswander, que chegaram talvez com outras expectativas? Ou nem sequer uma
diferencia [diferença] entre vocês, mas como eram as reações pessoais dos
pesquisadores de chegar lá?
SALZANO: É... em geral não houve, pelo menos com relação a esses primeiros
estudos, não houve grandes problemas porque inclusive na questão da língua,
nós, tanto os norte-americanos como os brasileiros, eram estrangeiros com
relação aos Xavante, por exemplo. Posteriormente houve alguns problemas, mas
com grupos mais aculturados, digamos.
DENT: E eles gostaram tanto como você de fazer o trabalho de campo, acha?
SALZANO: Pois é, o Neel gostava muito desse trabalho de campo. O Niswander,
mais ou menos. E Weinstein também não era grande adepto. Nos trabalhos depois
com os Yanomama é que tivemos contato com uma pessoa controversa, que era o
Napoleon Chagnon. E ele adorava o trabalho de campo! Ia todos os anos para pisar
00:44:00na mata até que foi proibido.
DENT: Sim... Então, depois dos estudos com os Xavante, seguia trabalhando com o
Professor Neel, mas foi um pouco menos a colaboração. É certo isso?
SALZANO: Em parte. Quer dizer que, na verdade, teve essa expedição da Alpha
Helix, que foi... tivemos uma colaboração bastante estreita. Mas quando chegou
a questão dos Yanomama é que, como a maior parte da população dos Yanomamas
está na Venezuela, ele, então, mudou o foco do trabalho de campo dele para
lá. Então, diminuiu a nossa inter-relação.
DENT: E você não acompanhou para o trabalho de campo com os Yanomamas? Ou foi...
SALZANO: Sim, o primeiro. No primeiro a gente fez no Brasil. E com todos os
cuidados éticos necessários. Já naquela época também havia uma questão de
resistência com relação aos norte-americanos, estrangeiros em geral. Então,
00:46:00para o Alpha Helix inclusive foi designado um pesquisador Brasileiro lá do INPA
para acompanhar se nós estávamos comportando bem, e um almirante, não sei se
era vice-almirante, mas um alta patente da marinha brasileira que foi junto com
um navio para fiscalizar.
DENT: E quando você foi para o trabalho de campo com os Yanomamo...
SALZANO: Os Yanomamo foi antes do Alpha Helix.
DENT: Ok. Foi antes. E depois... Foi para a primeira vez, mas não voltou mais
porque... Por que foi? Por que Neel mudou do pais para trabalhar...
SALZANO: Exatamente.
DENT: ...para Venezuela?
SALZANO: Entre os Yanomama também a ênfase de trabalho foi mais entre missões
religiosas protestantes do que aqui, que foi entre o pessoal da FUNAI, dos
postos de FUNAI.
DENT: E, nesse tempo, você estava trabalhando em outras coisas também...
Imagino muitas.
SALZANO: Lógico.
DENT: Então que mais estava fazendo ao mesmo tempo como seus trabalhos de campo
junto com os professores Neel e Keiter?
00:48:00
SALZANO: Bom, teria que olhar a lista de publicações, mas em geral continuei
trabalhando na parte de estudos urbanos. Também em colaboração com outras
pessoas em populações rurais brasileiras, neo-brasileiras. Enfim...
DENT: Depois eu gostaria muito de ter uma cópia de seu currículo de lattes
completo, porque o que tem no internet de CNPq, somente vai até 1980.
SALZANO: Ah, tá.
DENT: Acho que você tem tantas publicações que não pôde pôr todo. [Risos]
SALZANO: Eu tenho todo o currículo completo no computador. É só eu te mandar.
DENT: Agradeço muito. Então, você, por que não quis ir para Venezuela para
fazer pesquisas?
SALZANO: Não é que eu não quis. [Risos]
DENT: Por que não foi, então? [Risos]
SALZANO: Não fui porque havia pessoas lá suficientes para fazer o trabalho de
campo com Neel. Especialmente, um amigo meu que era o Miguel Layrisse que então
foi quem coordenou todo os trabalhos lá junto com o Neel.
00:50:00
DENT: E com interesses científicos estavam igual... estavam concordando sempre?
Ou você teve outros interesses no tempo que Neel foi para lá e você ficou
fazendo pesquisas...
SALZANO: Não, nós continuamos mais ou menos sintonizados com relação às
ideias. Lógico que pequenas diferenças sempre existem, mas em geral nós
estávamos bem sintonizados. Tanto à importância dos diferentes problemas que
deveriam ser desenvolvidos.
DENT: Depois do tempo que você ficou para fazer o pós-doutorado em Michigan,
voltou para Michigan algumas vezes?
SALZANO: Várias vezes.
DENT: E foi para fazer o que, exatamente?
SALZANO: Por exemplo, esse... Eu fui para lá justamente para ajudar na
interpretação e redação de vários desses artigos aqui de '67. [Salzano
indica as publicações na mesa] Lá eu fiquei um mês, parece. E posteriormente
também fui em outras épocas justamente para fazer a inteiração na análise
dos dados, verificação na coleta.
00:52:00
DENT: Foram para o viagem da Alpha Helix. Lembra em qual ano? Foi '80?
SALZANO: Hm. [Risos] '80, a época é em '80. [Salzano se levanta] Tenho que
olhar ali no meu currículo. Vou abrir aqui [som das gavetas]. Olhe, o
currículo em papel é esse...
DENT: Olhe isso!! [Risos] É um documento de cem páginas... Mais!
SALZANO: Sei lá... É... Então vamos ver aqui... [som de páginas virando]
00:54:00'81, '82... Não estou encontrado agora mas... Há um que a gente deu ênfase na
parte dos Ticuna, não?... Isso foi posterior... Talvez tenha sido '80. Está
00:56:00aqui... É... '80 saiu a publicação, então o trabalho de campo foi ao final
da década de '70. Na parte brasileira, além de mim havia, o professor
Mestriner, Moacyr Mestriner e Aguinaldo Simões, que são de Ribeirão Preto; o
Dale Lawrence, que era dos Estados Unidos, que também era o NIH; Peter Smouse,
que era dos Estados Unidos, da parte principalmente de antropometria, análise
matemática; William Oliver, que era médico, lá de Ann Arbor; e o Spielman,
que era também da parte da morfologia. Então, o trabalho foi publicado em '80
00:58:00no Annales of Human Genetics.
DENT: E você comentou que neste época estavam cauteloso com a presencia
[presença] dos norte-americanos ou dos estrangeiros. Pode comentar um pouco
como era o ambiente para fazer pesquisas? E estavam ainda baixo a ditadura
militar nessa época.
SALZANO: Isso.
DENT: Como foi esse tempo para fazer as pesquisas?
SALZANO: Em geral, a gente sempre tem menos problemas com populações
não-aculturadas que com as que já tem contato muito forte com os
"neo-brasileiros". Então, o principal problema que a gente teve nessa excursão
da Alpha Helix foi com um grupo Kaxinawá que era relativamente aculturados e
que... eles ficaram meio zangados porque um dos médicos que estava fornecendo
atenção médica para eles, eles consideraram que não estava dando atenção
suficiente. Então, não dava... "Não, você está bem, pode ir embora." Então
eles queriam que sempre que ter algum remédio, alguma coisa. Uma contrapartida,
01:00:00não? E aí começaram a ficar raivosos e nos ameaçaram com agressão física.
Aí houve um momento, então, eu tive que passar a tomar conta da parta de
exames médicos para subir mais medicamentos porque senão... a coisa ficaria
feia! Mas, aí quando voltamos lá -- era uma aldeia, numa ilha no rio lá no
estado Acre -- quando voltamos para a aldeia, para uma cidadezinha próxima,
eles foram depois reclamar no delegado de polícia que os americanos estavam
levando o sangue deles para vender. [Risos] Então, teve que haver uma
negociação bastante delicada entre, inclusive, o representante brasileiro na
expedição e o delegado da polícia, dizendo que não, não íamos vender o
sangue deles.
DENT: E como foi a perspectiva da polícia? Eles, que sabiam fazer com esse
conflito? Estavam... Que era a reação deles?
SALZANO: Não, eles queriam saber exatamente o que é que era, receberam essa
denúncia de alguns líderes indígenas. E chamaram as pessoas, especialmente
01:02:00esse representante e o chefe da expedição, que era o Neel. Não sei, não
participei da reunião com o delegado de polícia [risos], mas acho que não foi
muito violenta, não
DENT: E o almirante que estava no navio?
SALZANO: O almirante deve ter participado também! [Risos]
DENT: [Risos]... Então, por que acha que a interação com as populações já
com mais contato com os "neo-brasileiros", por que acha que foi tão diferente,
que foi mais conflictivo [conflituoso]?
SALZANO: Não, acho que isso tem acontecido de maneira mais acentuada ao longo
dos anos, né? De influência de grupos bem intencionados até certo ponto
talvez, mas que não tem conhecimento suficiente sobre a importância dos
estudos genéticos. E com isso influenciam negativamente essas populações.
DENT: Não sei se entendei bem. Desculpe. Que tem outras pessoas que estão...
SALZANO: Outras organizações. São as ONGs.
DENT: Ah, organizações.
SALZANO: Eles estão muito preocupados nos aspetos bioéticos e de conservação
01:04:00desses grupos. E isso é correto. Mas muitas vezes eles têm ideias errôneas
sobre a importância do trabalho genético, não só para esses grupos, mas para
a história universal. E eles têm influenciado... bastante. São pessoas
relativamente ingênuas, para desenvolver uma resistência a qualquer tipo de
trabalho de genética.
DENT: E neste tempo, quais eram as organizações que trabalhavam com os grupos
indígenas? Fora da FUNAI?
SALZANO: Bom, agora não sei. São várias. Depois, posso lembrar um episódio
também desagradável que foi recente aí com os Suruí. Mas isso foi agora --
três, quatro anos atrás. Nós obtivemos todos as permissões necessárias,
tanto da FUNAI como de outras organizações de proteção ao índio, e da
própria comunidade. E depois que uma colega daqui do departamento e o pessoal
01:06:00da FIOCRUZ, realizou a coleta do material, uma delegada da FUNASA, que é a
Fundação Nacional da Saúde, que atualmente é a responsável da saúde
indígena, se mostrou contrária a que esse material saísse da aldeia. E aí,
então, não só não saiu, como foi perdido todo o trabalho de quase duas
semanas de trabalho com todos os gastos envolvidos que foram inúteis, né?
DENT: Isso aconteceu faz pouco tempo, falou?
SALZANO: Ao redor de quatro ou cinco anos. Não tenho certeza. Eu não estava
lá, então não sei.
DENT: Ah, entendei. Então você comentou também a presença de esse almirante
na barca. Qual era o ambiente nacional -- já não falando da comunidade, mas o
ambiente nacional -- para a colaboração científico? Porque eu vi, nos anos
'60, que entre Rockefeller e você e outros geneticistas tiveram uma
colaboração muito grande.
SALZANO: É.
DENT: Foi uma mudança com a instalação da ditadura militar, como era, ou como
01:08:00seguia a relação entre países para a colaboração?
SALZANO: Não, o afastamento da Fundação Rockefeller se deu por vontade
própria de mudança de filosofia. Eles consideraram na época que o Brasil
estava suficientemente desenvolvido para continuar sem o apoio deles. E
preferiram voltar o foco da Fundação para a África. Mais especificamente o
problema da fome foi o novo foco de auxílio da Fundação Rockefeller. E
posteriormente eu tive também um auxílio do NIH, mas foi uma questão
episódica. E realmente as instituições brasileiras já estavam
suficientemente capacitadas para desenvolver o trabalho e forneceu o
financiamento para os estudos.
DENT: Mas, ainda tiveram um pouco de resistência para aceitar aos pesquisadores estrangeiros?
SALZANO: Não, isso não.
DENT: Não?
SALZANO: Não. Continuávamos sempre...
DENT: Ah, você não. Mas o governo brasileiro...
SALZANO: Nem o governo brasileiro, que eu saiba, não.
DENT: Ah ok.
SALZANO: Houve uma época em que haviam rumores de que alguns pastores
01:10:00norte-americanos seriam membros do CIA, essas s coisas. [risada] Mas não houve
nenhuma política organizada contra o estrangeiro em geral, digamos.
DENT: Mm-hm. E foi igualmente fácil, ou difícil... foi igual o processo de
planejar e fazer uma pesquisa durante o tempo da ditadura militar? Teve alguma
influência nas práticas científicas?
SALZANO: Isso variou muito da universidade para universidade. O financiamento à
pesquisa no Brasil sofreou altos e baixos, sempre. Então houve um momento na
ditadura militar em que eles estavam apoiando fortemente a pesquisa cientifica.
Então, do ponto de vista de financiamento, pelo menos alguma parte daquela
época, não houve problemas. Lógico, o que houve foi perseguições baseadas
na ideologia. Pesquisadores que estavam ativamente contra o regime foram presos.
Alguns sofreram torturas, essas coisas. Mas aqui na universidade os principais
01:12:00prejudicados foram o pessoal de ciências sociais, lógico. E havia, em todas as
universidades havia um escritório, não? Da CIA. Da CIA Brasileira.
DENT: [Risos]
SALZANO: Que era o Serviço de Segurança Nacional- SNI [Serviço Nacional de
Informações]. Então, nós estávamos sempre sujeitos a controle, mas no meu
caso específico não houve nenhuma perseguição ou restrição com relação
às viagens que eu fazia, para o exterior. Já o meu colega, que foi o criador
do programa de genética aqui, o Professor Antônio Cordeiro, ele foi para
Brasília para montar um centro de genética na Universidade de Brasília. E lá
ele sofreu uma série de problemas. O grupo que estava montando... estava
desenvolvendo um trabalho muito bom... ao final foi completamente eliminado.
Alguns voltaram para Porto Alegre. Professor Cordeiro voltou para aqui. E os
outros tiveram menos ou mais complicações, digamos.
01:14:00
DENT: Ele foi uma pessoa que gostava muito de fazer ou construir departamentos...
SALZANO: Cordeiro?
DENT: Sim... de construir programas e...
SALZANO: Exatamente.
DENT: E com muita visão... de como estruturar as pesquisas e todo. Parece que
foi um ponto muito forte dele.
SALZANO: É... Uma das principais contribuições dele à ciência brasileira
foi essa.
DENT: E aqui temos o departamento como mostra também. [Risos] Se parece bem,
podemos parar lá para hoje.
SALZANO: Ok.