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              <text>    5.4      Prof. Francisco Mauro Salzano, entrevista, 23 de julho de 2012   01:11:00   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     pós graduação  formação de pesquisadores  CNPq  docência  orientação Francisco Mauro Salzano Rosanna Dent .mp4 salzano-20120723.mp4 2:|28(1)|39(1)|48(8)|64(7)|79(1)|96(11)|114(3)|124(11)|138(5)|156(4)|170(6)|189(13)|220(7)|229(14)|237(7)|252(10)|265(9)|279(3)|295(11)|308(1)|327(5)|351(6)|364(5)|382(3)|397(13)|409(12)|420(14)|436(6)|462(2)|475(7)|490(3)|511(14)|536(6)|554(4)|575(4)     0   https://youtu.be/6YTeVWO1w4U  YouTube         audio    pt-br     0 Salzano comenta sobre criação do programa de pós graduação e primeiros orientandos           colaboração e acordos ; doutorado ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; orientação ; prática ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       817 Salzano comenta sua experiência como professor           Formação Acadêmica ; prática ; rotina de trablaho   Formação Acadêmica ; Prática                       1388 Salzano comenta sobre distribuição de seus orientandos em departamentos pelo Brasil e mundo           Formação Acadêmica ; Instituições de formação ; Mudanças importantes na ciência ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; Redes científicas e circulação                       3406 Salzano comenta seleção de orientandos e suas temáticas de pesquisa           Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa ; instituição de fomento ; orientação ; prática ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3827 Salzano comenta relação com Nancy Flowers, Carlos e Ricardo             colaboração e acordos ; indígena ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       4150 Salzano comenta vida familiar           concepção de ciência ; concepção de cientista ; Moral Economies   Moral Economies                       oral history Esta terceira entrevista com o professor Francisco Salzano foi realizada no Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, em 23 de julho de 2012. Nessa entrevista, Salzano conta sobre a fundação dos programas nacionais de pós graduação e o processo de sua obtenção de doutorado em São Paulo. Comenta sobre suas primeiras orientações dentro da faculdade de filosofia, sobre a formação de pesquisadores e a ampliação da pesquisa científica, também na graduação, com a elaboração do programa de iniciação científica pela CNPq. Conta sobre sua experiência e gosto pela docência, que se iniciou ainda durante sua graduação. Discorre sobre o panorama da pesquisa em genética no Brasil, elencando os departamentos mais influentes no campo no Brasil. Ainda, relembra o trabalho de seus orientandos e seus paradeiros atuais. Ainda comenta sobre seu trabalho em colaboração com Nancy Flowers na publicação do livro Xavante in Transition, publicado em 2002.   DENT: Então, hoje é 23 de julho. Estamos aqui na Universidade Federal com o  Dr. Francisco Salzano. Hoje queria perguntar-lhe um pouco sobre a parte de ser  professor, de ensinar, porque isso é uma parte muito grande da influência que  você tem dentro do campo da genética, não?! E eu vi fora da oficina que tem  um arbol [árvore].    SALZANO: Uma árvore genealógica.    DENT: É. Ótimo! Muito interessante. E isso foi preparado faz 15 anos?    SALZANO: É. Faz tempo.     DENT: Ah, sim.    SALZANO: Foi quando eu fiz 70 anos. Fizeram uma homenagem e aí a Loreta  [Brandão de Freitas] preparou essa.    DENT: [Risos] Acho ótimo.    SALZANO: Mas está desatualizado.    DENT: Exato. Está totalmente desatualizado. Aqui só anotei os nomes das  pessoas que estão lá como-- não sei que é a palavra... herederos [herdeiros]?    SALZANO: Ah, herdeiros. Netos. Filhos, netos intelectuais, digamos.    DENT: Então só anotei os &amp;quot ; filhos intelectuais&amp;quot ; , podemos dizer. E queria  iniciar perguntando como foi que fundaram o programa de pós-graduação. Que  foi o motivo, quando decidiram já iniciar um programa de pós-graduação?    SALZANO: Inicialmente, o Cordeiro e eu tivemos que ir a São Paulo para obter o  doutorado. Naquela época não havia mestrado, nem uma institucionalização  formal nacional dos programas de pós-graduação. Ao voltarmos, o que havia  aqui era, na faculdade de filosofia, uma regulamentação sobre o doutorado, que  era mais ou menos semelhante a do São Paulo, onde nós obtivemos o nosso  doutorado. E, então, nós começamos a orientar algumas poucas pessoas dentro  desse esquema da faculdade de filosofia. E, posteriormente, foi montado um  sistema nacional de pós-graduação e então tinha que haver todo um processo  de credenciamento de qualquer curso que desejasse desenvolver tais estudos a  nível nacional. E, então, nós trabalhamos nesse texto. Enviamos primeiro para  o CNPq, que dava um certificado de excelência, digamos, e posteriormente o  conselho nacional de educação é que ficou responsável pelo credenciamento de  diferentes cursos, programas. O nosso programa foi um dos primeiros a ser  credenciado e a partir dessa época, começou a se elaborar formalmente os  cursos das disciplinas que era necessário cursar e montando um programa  específico de mestrado, que estava sendo institucionalizado no Brasil. Então,  o primeiro doutor do nosso programa é o Israel Roisenberg, que foi uma pessoa  muito importante aqui no nosso departamento. Ele fez doutorado comigo, fez um  pós-doutorado no Havaí, com Newton Morton, e posteriormente começou a formar  os seus discípulos. E como falei, acho, ele teve um acidente vascular cerebral  cinco anos atrás e continua em coma. E então, agora, eu estou colaborando com  uma das primeiras doutoras que ele formou, que é a doutora Eliane - Eliane  Bandinelli. Ele fez o doutorado em hemofilia e o grupo aqui continua trabalhando  com essa doença e outras de hemostasia, problemas de coagulação do sangue.     DENT: Como foi a primeira vez que você orientou alguma pessoa dentro de um  programa de pós-graduação. Como foi a experiência de ser o orientador por  primeira vez?    SALZANO: Foi muito gratificante. Eu já estava informalmente orientando outras  pessoas, tanto a nível de pós-graduação como de graduação, estudantes não  graduados. E o Israel foi uma das poucas pessoas que conseguiram finalizar o doutorado.     DENT: E como foi que ele chegou para ser seu orientado? Pediu para entrar para  fazer um projeto com você ou foi uma coisa que surgiu...    SALZANO: Eu não me lembro... Acho que eu convidei ele para começar a trabalhar  e indiquei essa doença que eu já tinha várias famílias localizadas para o  estudo. Só posteriormente é que foi montado um sistema formal de acesso quando  aumentou muito o número de candidatos. E então, é um processo de aceitação  ou não dos candidatos, a partir de provas e entrevistas.     DENT: E que era o que você procurava para convidar alguém a ser orientado por você?    SALZANO: Colaboradores. Precisava de alguém interessado em que houvesse bom  número de pessoas que poderiam trabalhar comigo. A institucionalização da  pós-graduação foi fundamental para pesquisa científica no Brasil, porque  antes disso não havia um processo formal de recrutamento e formação de  pesquisadores e isso então ampliou muito a possibilidade de investigação  científica. E levou a que o Brasil agora esteja bem colocado entre as outras nações.    DENT: E seu departamento dentro do Brasil também. Está muito bem ubicado  [posicionado], não?    SALZANO: Bom, [risos] não sei...     DENT: Então entrou Israel Roisenberg, mas também já estava você orientando  outras pessoas?     SALZANO: É, inicialmente, mas foi por pouco tempo -- pessoas que não  continuaram trabalhando. E o Israel já estava... Quando ele entrou no  doutorado, antes ele era um bolsista do CNPq, mas, algum tempo depois, ele  ingressou na universidade. Ele já tinha um objetivo claro, de aperfeiçoamento.  Atualmente o nosso programa, como os outros programas de todo Brasil são, vamos  dizer, supervisionados por uma fundação que é a CAPES, que é uma abreviatura  -- Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Todo mundo usa  &amp;quot ; CAPES&amp;quot ; . E, então, os diferentes programas estão divididos por área, e na  área de ciências biológicas existe três ou quatro áreas diferentes. Na  nossa, nós somos o único programa de nível nacional a ter a nota máxima da  CAPES. A nota máxima é sete. Só nós temos sete, e alguns mais importantes  seis, e assim por diante. Quando chega a nível três, eles ficam a perigo de  serem descredenciados.     DENT: Entendi.    SALZANO: E essas avaliações são trienais e muito rigorosas. Bom, anualmente  tem que enviar relatórios, tem uma série de parâmetros para julgamento. É um  processo até certo ponto meio... não é bem desgastante, mas é um desafio.  Preencher todos aqueles requerimentos da CAPES.     DENT: E você, como era de professor jovem? Como era sua atitude frente a uma  aula de estudantes? Como era seu estilo de ensinar?    SALZANO: Eu comecei a lecionar antes de me formar, ainda como estudante num  curso de ensino médio. E não tive grandes problemas nem no primeiro nem nas  aulas seguintes. Porque era realmente a coisa que eu gostava de fazer. E eu  segui, em boa parte, alguns conselhos e direções. Primeiro de um curso de  didática, aqui na universidade e dois graus -- era bacharel, no meu caso  história natural -- era três anos de estudos relacionados à ciência em si, e  um ano depois, que chamava para obter a licenciatura, que era para lecionar.  Aí, então, eles tinham algumas disciplinas, tanto de didática geral como  específica. E, além disso, meu modo de ensinar sofreu influência de um amigo  meu que era professor primeiro no Rio de Janeiro, depois em São Paulo, o  professor Oswaldo Frota Pessoa, que teve um papel muito importante na melhoria  do ensino em geral, ensino de ciência em geral em todos os níveis. A ideia que  ele tinha, a minha professora de didática e outras pessoas, era que se devia  dar o máximo de importância à participação do aluno.     Então, desde o início, eu procurei fazer isso através de leituras que eram  estabelecidas a priori. Antes da aula, os alunos deveriam ler, e depois  discutiam questões específicas sobre o texto que então eram desenvolvidas.  Isso foi feito tanto em relação às disciplinas de graduação como de  pós-graduação e acho que isso tem dado resultados. Então, esses livros  Genética Odontológica e Genética e Farmácia são resultados dos cursos que  eu dava nas duas áreas. Então, eu preparei esse texto especificamente para ser  discutido em aula.     DENT: Eu vi nos documentos que têm no museu de genética lá, tem algumas...  não sei como se chama isso, mas é a lista dos alunos que vão estar na  disciplina. Estavam lá no início, talvez 15 nomes, e depois ao final só três  ou quatro estavam passando a disciplina para receber crédito.     SALZANO: Você viu isso aonde? No programa?    DENT: Eles têm nos computadores lá [no museu da genética], tem uns documentos  scaneados da história do programa, do departamento. Então, lá tem, por  exemplo, &amp;quot ; 1968 -- Genética Humana&amp;quot ; , que era uma disciplina dada por você. E  está lá a lista dos alunos, como escaneado, não? Um PDF. E lá posso ver uma  lista de nomes, talvez 10 nomes. E ao final tem as pessoas que passaram, que  receberam crédito. E acho que neste de &amp;#039 ; 68, de genética humana, está lá  Israel Roisenberg e estão algumas outras pessoas, mas acho que só três ou  quatro estudantes terminaram e estão lá como que eles receberam crédito. E eu  queria saber se é uma coisa dos documentos, que só ficavam alguns nos  documentos ou se realmente de dez pessoas, somente três ou quatro tiveram êxito.    SALZANO: Receberam crédito... Não, não, isso variou muito ao longo do tempo.  E também... isso só na pós-graduação?    DENT: Para mim não foi claro o que eu vi -- se é de pós graduação ou se é de...    SALZANO: Acho que só é a pós-graduação. Porque na graduação a disciplina  era obrigatória, então era geralmente por redor de 30 alunos. E agora na pós,  variou bastante. No início eram relativamente poucos. Depois aumentou e  modificou-se também- no início a disciplina era obrigatório de depois ficou  optativa. Então à medida que foram aumentando o número de disciplinas  oferecidas, diminuiu concomitantemente o número de alunos. Também o número de  créditos que os alunos tinham que obter foi diminuído ao longo do tempo para  dar ênfase à parte de pesquisa. Agora, quem finalizava com crédito ou não,  isso também variou muito. Mas, em geral, aqui na pós-graduação são muito  poucos os que não conseguem. Desistem... antes de serem reprovados, eles  desistem da disciplina. Então, é possível que o que você tenha visto são  falhas de documentação.    DENT: Claro. Claro. Também parecia lá que as pessoas iam às aulas até um  certo ponto e desistiam de ir também. Não sei, você se considera como muito  exigente como professor.    SALZANO: É... médio. [Risos]    DENT: [Risos] ... Médio... E que dizem os alunos?    SALZANO: Em geral, eu exijo as coisas, mas isso depende muito do número de  alunos que se tem, do interesse deles. Então, na graduação, quando a  disciplina era obrigada, era uma coisa, quando a disciplina é optativa e  somente os interessados se matriculam, aí já é uma pré-seleção. Então, é  difícil de eliminar, reprovar alguém.     DENT: E dentro dessa lista que temos aqui [dos &amp;quot ; filhos intelectuais&amp;quot ; ] - eu sei  que é incompleta porque faz 14 anos talvez que se preparou - Deles alguns  estão liderando departamentos de outras universidades? Eu sei que muitos estão  aqui dentro da...    SALZANO: A questão da lista, ela sofreu uma certa seleção...     DENT: Ah...    SALZANO: ... porque são geralmente os professores que ficaram aqui no  departamento, que então formaram novos alunos, arrumaram novas pessoas. Então,  todos esses aqui foram, esses professores com esses aqui do programa, com  exceção da Heirei Mendez, que já estava vinculada a outra instituição que  não a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É outra universidade federal  que existe aqui em Porto Alegre. E ela então formou alunos lá, então não  está aí. Não está aqui na genealogia.     DENT: E tem departamentos de outras universidades do país que estão liderados  por seus orientados?    SALZANO: Ah, um monte. Muitos.     DENT: Sim? [Risos] Todos?    SALZANO: Não, todos não...    DENT: Não sei se me podia indicar então quais são os outros departamentos que  têm programas importantes enquanto a genética das populações humanas?    SALZANO: Ah &amp;#039 ; tá. Então deixa eu ver aqui. Tu quer aqueles que foram  influenciados por meus orientados, ou em geral?    DENT: Ah, as dos [duas] coisas seria interessante ver um pouco.    SALZANO: Só vou pegar o meu currículo. [Som de gavetas] Em geral, no momento,  os programas de genética - que incluem genética das populações- mais  importantes do Brasil, são dois programas da Universidade de São Paulo, um que  está em São Paulo mesmo, na capital, e outro em Ribeirão Preto, que é outra  cidade importante desse estado. E o Rio de Janeiro, também. Universidade  Federal do Rio de Janeiro, que tem um bom programa, ele sofreu altos e baixos ao  longo do tempo. Numa época, o professor Cordeiro foi para lá para reforçar o  programa, mas agora está com um bom nível. Em São Paulo, tem mais uma que é  em Campinas, na Universidade Estadual de Campinas, que também tem um programa  bom. E no Paraná, na Universidade Federal do Paraná, que está um pouco  abaixo. Então, indo para o Norte, acho que o programa mais importante está lá  na Universidade Federal do Pará, em Belém, lá no extremo Norte, que também  é um ramo do nosso grupo. É, os outros não estão num nível tão elevado  assim. Mas tem vários outros, tanto em São Paulo, no interior de São Paulo  como em Brasília. Agora, deixa eu ver uma coisa nos doutores. [Páginas  virando] O Israel foi professor aqui do departamento, ele teve também cargos  administrativos importantes na universidade -- foi pró-reitor de pesquisa.  Depois, o Fernando, Fernando José da Rocha, ele também era professor aqui. Foi  diretor do Instituto de Biociências.     DENT: Agora está aposentado...    SALZANO: Agora está aposentado. A Maria Irene de Moraes Fernandes, também. Ela  foi professora aqui, depois se vinculou a uma instituição de desenvolvimento  agrícola em geral. Chama EMBRAPA -- Empresa Brasileira de Pesquisa  Agropecuária. Então, ela trabalhou durante bastante tempo lá, formou umas  pessoas também, mas agora também está aposentada. Maria José de Melo e  Freitas, ela também foi professora aqui durante um tempo e depois foi para o  nordeste do Brasil e posteriormente para o estado do Amazonas, no Norte, e  colaborou comigo em diferentes estudos depois do doutorado e infelizmente ela  já faleceu. O Arno Schwantes - ele se vinculou a um curso - ah, outro curso  que eu me esqueci, um programa de pós-graduação em São Carlos em São Paulo-  e durante bastante tempo ele formou gente lá, mas agora ele teve problema de  saúde e acho que aposentou.     O Aldo [Araújo], atualmente está aqui no departamento e no programa, e tem  formado muita gente. A Margarete [Mattevi] também, durante muito tempo foi  professora aqui, depois se aposentou e se vinculou a uma universidade privada,  que é daqui duma cidade próxima, Canoas, a ULBRA, é chamada Universidade  Luterana do Brasil, mas agora parece que ela vai parar completamente. O Ramiro  Barrantes, ele é de Costa Rica, então lá formou grupos, lá em San José, e  tem estado em contato comigo. Já foi responsável pelo recebimento do título  de professor emérito lá ;  ele é professor emérito da Universidade de Costa  Rica. A Tania Weimer foi também professora do curso e também se aposentou,  como a Margarete, e foi pra ULBRA, e agora parou totalmente. Bernardo Erdtmann,  ele também foi professor aqui e depois saiu, se aposentou e trabalhou lá na  Universidade de Caxias do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, e agora ele  está aposentado. Maria Helena Franco, ela foi professora aqui do curso,  infelizmente ela faleceu. &amp;#039 ; Bah&amp;#039 ; , tem muita coisa.    DENT: Tem muitos. Acho que tem 44...    SALZANO: É, 39 e mais alguns que eu fiz orientação através do nosso programa  de supervisão à distância. Aí, eu já falei, essa aqui, está lá em... que  agora aposentou também. &amp;#039 ; Ih&amp;#039 ; , todo mundo aqui está aposentado. Wanyce também,  não esteve no programa, mas era professora aqui da genética, e também  atualmente é aposentada. Ela tem publicado alguns livros didáticos. Mara Hutz  é uma das principais aqui do nosso grupo. Lodércio Culpi, ele foi professor na  Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Eu acho que ainda está orientando  algumas pessoas, mas de maneira informal. O Horácio Schneider então foi um  principal elemento da formação do programa de pós-graduação no Pará, em  Belém, do Pará.     DENT: Ele ainda está lá? Na universidade...?    SALZANO: Ele está ativo ainda, e atualmente ele é o vice reitor da  Universidade. E formou não somente muita gente em Belém, como depois formou um  grupo no interior do Pará que também era um de excelência -- em Bragança,  Pará. Depois Maria Regina Borges Osório, ela também foi professora do  departamento, não do programa de pós-graduação. E ela com a Wanyce Robinson,  elas têm publicado muitos livros didáticos. A Sídia Callegari-Jacques é uma  das principais colegas minhas e continua trabalhando aqui. É especialista em  bioestatística. Anete [Trachtenberg] trabalhou algum tempo no departamento,  não no programa, e agora está aposentada. Maria Conceição, ela estava  vinculada, quando fez o doutorado já a outra universidade do nordeste -  Sergipe, que é um estado do nordeste brasileiro, de capital de Aracajú, e tem  lá uma Universidade Federal em Aracajú. Maria Paula Cruz Schneider, era  ex-esposa do Horácio Schneider, e também tem formado. Continua trabalhando lá  em Belém do Pará. Themis Silveira, ela está vinculada ao Hospital de  Clínicas atualmente. Ela foi professora da faculdade de medicina daqui da  universidade. É, bastante gente importante como orientadora e como coordenadora  de investigações. Rosilda dos Santos Silva... ela, acho, que ainda está  vinculada a um programa no nordeste do Brasil, que é a Universidade Federal de  Pernambuco. Lavínia Schüler, você já sabe, ela continua muito ativa. Mônica  Sans é professora do programa de pós-graduação em Montevidéu, no Uruguai.  Sandro Bonatto, depois do doutorado se vinculou à Pontifícia Universidade  Católica do Rio Grande do Sul aqui do lado. Está formando gente e está  trabalhando muito bem. Continua colaborando comigo, e com outras pessoas. Renato  Flores, a vocação dele é programas de extensão, de apoio à comunidade.  Então tem um programa muito forte de apoio à comunidade aqui do departamento,  de proteção às vítimas da violência -- tanto crianças como mulheres.    DENT: E ele está dentro do departamento?    SALZANO: Está no departamento. Mas não no programa, não.     DENT: Ah tá.     SALZANO: Sempre há problemas -- nem sempre a produção é suficiente  científica. É suficiente para entrar no programa, e também o programa tem  diferenças. Tem as pessoas que são do núcleo do programa e tem que trabalhar  muito bem, porque senão vão pros associados. Então é uma luta aí. A Loreta  [Freitas] você já conhece, está desenvolvendo um programa muito bom na parte  de genética vegetal. A Lutécia Mateus Pereira atualmente está trabalhando no  Estados Unidos. Não sei exatamente agora onde ela está trabalhando. Claudia  Leães Dornelles está vinculada ao programa de genética lá também da PUC do  Rio Grande do Sul. Carlos André Lima-Rosa, atualmente ele é professor na  Universidade aqui de Santa Catarina, no estado próximo, em Lajes.    DENT: Em Lages?    SALZANO: É. Lajes: L-a-j-e-s.     DENT: Obrigada.    SALZANO: Ele e a outra, Jaqueline Battilana estão na mesma instituição.  Patrícia Koehler-Santos atualmente está vinculada à pesquisa no Hospital de  Clínicas, aqui de Porto Alegre. A Valéria Muschner é professora na  pós-graduação da Universidade Federal do Paraná, no programa de  pós-graduação em botânica, não é em genética. Aline Lorenz-Lemke está em  Mato Grosso do Sul, no centro do Brasil, dando aulas também, fazendo alguma coisa...    DENT: Não era ela que estava aqui faz dois dias?    SALZANO: Exatamente.    DENT: Era. Conheci a ela.    SALZANO: Então. Stéphane Mazières é francês, e atualmente ele está em  Bordeaux creio, na Universidade de Marseille. Nelson Fagundes é agora professor  do nosso departamento e da pós-graduação. Elizabeth Thompson, atualmente ela  está no Rio de Janeiro trabalhando em um centro lá de investigação  relacionada à computação eletrônica. E a Taiana Haag, ela também está na  PUC [RS] agora. E esses são os doutorados.     E aqueles cincos que tiveram o doutorado direto, sem precisar fazer curso etc.:  Osvaldo Mutchinick, ele está no México, continua ativo, na Cidade do México.  Vilna Furtado, ela estava vinculada à Universidade Federal do Pernambuco, no  Nordeste do Brasil e agora se aposentou. E mesma coisa o Elias, Elias da Silva,  também da Universidade Federal do Pernambuco e também aposentado. Max Drets  foi uma figura muito importante no Uruguai e atualmente também se aposentou. E  o Gustavo Folle foi orientado por ele e vinculado à mesma instituição, é uma  instituição de excelência digamos, lá em Montevidéu -- Instituto de  Investigacíon de Ciencias Biológicas. Tem tido uma tradição muito importante  de pesquisa na biologia.     DENT: Ótimo. Então...    SALZANO: [Inaudível] ... trabalhando.    DENT: Tem pessoas em muitos lugares formados por você.     SALZANO: Sim, depois do mestrado também. Tem alguns que fizeram depois o  doutorado. Mas a Heloisa [Peña] esteve vinculada a uma universidade na  Austrália. A Maria Clara [Mallman] foi professora do nosso curso. A Bernardete  [Telles da Silva] atualmente trabalha numa instituição de psicologia aqui de  Porto Alegre. Clóvis Wannamacher, pessoa importante do departamento de  bioquímica, aqui da nossa universidade. Walkiria Settineri, ela trabalhou algum  tempo na universidade Católica de Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul. Castelo  Branco Mourão, ele estava vinculado, não sei se ainda está, à Universidade  Federal do Ceará, no Nordeste. Ernesto Xavier, ele era do departamento da  medicina preventiva aqui na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele já  faleceu, infelizmente. Rosilda dos Santos Silva -- da Universidade Federal do  Pernambuco -- essa estava no doutorado também. Ela fez doutorado também. A  Judith Viégas esteve muito tempo trabalhando em Pelotas, inclusive num programa  de pós-graduação, mas agora se aposentou. A Isabel foi uma das poucas que  parou, não se desenvolveu...    DENT: Como geneticista? Foi para fazer outras coisas...    SALZANO: É, ela tinha problemas de saúde e tal. A Márcia Schmidt também, ela  andou vinculada à Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mas agora voltou  aqui para Porto Alegre -- trabalha com essa parte de educação científica. No  programa de educação científica em geral. A Vivian [Leyser da Rosa] é lá da  ...Florianópolis, da Universidade Federal de Florianópolis [Universidade  Federal de Santa Catarina, UFSC]. O Sydney [Santos] é de Belém. A Marise  Pedrosa, ela também estava no Nordeste, em Alagoas, e não sei que fim que ela  levou agora. A Maria Lúcia Hamel, ela também é de Belém. A Beatriz Mengotto,  da PUC do Rio Grande do Sul. Carlos Eduardo Pinheiro, lá da faculdade de  medicina de Florianópolis. Guillermo Barreto Rodriguez é da Colômbia.  Bárbara da Silva também estava vinculada ao Pará. Agora ela saiu de lá e  não sei que fim levou. Rodriguez-Delfin é do Peru, está trabalhando  lá. Maria Helena Albarus ficou aqui em Porto Alegre, ela trabalha na questão  de determinação de paternidade. Clarice [Sampaio] Alho, PUC-RS como Eduardo  Eizirik também. E a Cláudia Dornelles. Carla Finkler está numa universidade  do interior de Santa Catarina. Nelson está aqui, Muschner eu já falei,  Jaqueline também, Aline também... Nicole Scherer atualmente também está no  Rio de Janeiro e trabalha como a Elizabeth Thomson, ela trabalha no Laboratório  Nacional de Luz Sincrotron. Estava voltada a esses trabalhos de bioinformática.  A Ana Helena Eller, agora, andou para os Estados Unidos, voltou e acho que não  está vinculada ao ensino, programas de pesquisa. O Leonardo está agora fazendo  doutorado no Hospital de Clínicas. A Daiane não quis continuar o doutorado,  está fazendo medicina e a Roberta também, resolveu não fazer o doutorado.  Está num programa de tratamento de problemas médicos em geral.     DENT: Então dentro de todos esses alunos, tem o centro de Pará está dentro  dos melhores do Brasil e foi instrumental ...um casal, não?... Falou Schneider.     SALZANO: É, o Schneider. Quem começou mesmo lá foi uma pessoa que fez só  especialização comigo, que era o Dr.Manuel Layres -- Layres com ípsilon. Foi  ele realmente quem organizou tudo. É o pai da genética lá. Porque ele era  pediatra, médico de crianças, e aí se apaixonou pela genética. Tinha uma  clínica muito boa lá em Belém. Largou a clínica, veio fazer pesquisa aqui em  Porto Alegre, e aí voltou pra lá. Quando ele voltou nem havia curso de  ciências biológicas na universidade. Ele criou curso, montou as instalações  tudo, e aí começou a formar. Um dos dois primeiros que ele formou formar o  Horácio Schneider e a Maria Paula Schneider, que então depois formaram os outros.     DENT: Sim. Sim.    SALZANO: Então é uma figura muito importante. Ele inclusive depois foi diretor  do centro, foi secretário de saúde do estado, e até tribunal de contas da  União. Ele tinha amigos políticos. E agora ele está trabalhando  principalmente em bioestatística. Ele tem um livrou muito utilizado aí pelos  alunos de mestrado e doutorado em bioestatística.    DENT: Interessante. E vocês publicaram algumas coisas?    SALZANO: Sim.     DENT: Alguns trabalhos juntos.    SALZANO: Exatamente.    DENT: Muito interessante. E dentro de esos [esses] alunos, tem muitos que  fizeram genética botânica, alguns que fizeram genética dos animais também, e  também tem muitos que fizeram genética humana -- ou médica ou das populações.    SALZANO: Isso.    DENT: Dos que finalmente que entraram para ter projetos com trabalho de campo,  que eram as qualidades que você procurava para esos [esses] projetos. Eram  iguais para os outros projetos de teses? Ou estava procurando alguma coisa  específica para as pessoas que iam entrar para o campo para trabalhar com...?    SALZANO: Em geral, eu procurava aproveitar experiência que eles já tinham.  Então, a Loreta, por exemplo, já estava trabalhando com genética vegetal.  Tinha obtido o mestrado uma colega minha, orientação da outra colega, então  se montou um programa baseado já na experiência dela. No caso do Horácio e da  Paula também foi a mesma coisa. O Horácio trabalhou com búfalo na Amazônia e  a Paula com primatas. Eles já tinham uma boa experiência.     DENT: E para as pessoas que fizeram trabalho de campo com você, com os povos  indígenas, era somente porque eles estavam interessados em esos [esses]  projetos ou você tinha que procurar pessoas especificamente para trabalhar no  projeto dos povos indígenas? Como chegaram eles a estar vinculados com esos  [esses] projetos?    SALZANO: O Fernando José da Rocha... fui eu quem indiquei o projeto para ele e  aí ele participou de várias expedições comigo. Medições, né? Medidas  antropométricas. A Lavínia, ela está atualmente especializando em genética  medica, mas ela fez trabalho de campo comigo também, de apoio médico, assim  como Cleiton [Bau], que você conheceu aí, que também fez trabalho comigo,  mais na parte de apoio médico. [Inaudível] coautores, não?    DENT: É, acho que isso cobriu as perguntas que eu tenho de relação de  orientador. Não sei se você tem alguma outra reflexão que acha importante  referente ao processo de selecionar e trabalhar com os orientados.    SALZANO: É, no início era mais uma escolha pessoal. Agora não. Agora tem todo  esse processo de ingresso, então essa escolha já fica menos personalizada.     DENT: E essa influência de alguma maneira os interesses das pessoas que chegam  aqui? Ou o trabalho que fazem?    SALZANO: É, é muito variado. Por isso que tem um monte de gente. Então,  alguns vinham especialmente para fazer doutorado comigo. Por exemplo, esse Luís  Delfin, lá do Peru, ele veio para cá especificamente para trabalhar em  populações indígenas. O Barreto, lá da Colômbia também veio  especificamente para trabalhar comigo, mas aí foi em populações urbanas. E,  em geral, muitos começaram como alunos de graduação - iniciação cientifica.  Um dos grandes saltos da ciência brasileira foi o programa de iniciação  científica elaborado pelo CNPq, que, então, investiu e continua investindo  muito dinheiro nessas bolsas para alunos de graduação. E, em geral, eles  depois vão para o mestrado e eventualmente para o doutorado também. Então,  já há um contato bastante grande antes deles entrarem no programa formal.    DENT: Excelente. Interessante. E esse programa... lembra quando iniciou?    SALZANO: Qual?    DENT: Do CNPq... essa que mencionou.    SALZANO: Ah, agora me &amp;quot ; apertou&amp;quot ; .     DENT: [Risos]    SALZANO: [Risos] Mas faz, sei lá, 20 anos. Faz bastante tempo.     DENT: Estava no contato com o Ricardo Santos e me falou que Nancy Flowers vá  vir para o Brasil.    SALZANO: É?    DENT: É... Que vá vir, vá estar no Rio ;  em uma semana chega. Ele me comentou  que obviamente vocês trabalhavam no livro de Xavante in Transition, não?  Então queria lhe comentar, não, que ela vá vir para o Brasil. Acho que já  tem 94 anos, me falou o Ricardo.    SALZANO: Pois é, já é senior, bem senior. Mas muito ativa.    DENT: E então eu queria perguntar um pouco referente ao livro e ao trabalho com  ela e com Carlos e Ricardo, para saber um pouco... Então publicaram o livro  Xavante in Transition em 2002. Mas eu queria saber se você voltou para o  campo dentro dos dez anos antes como parte do projeto? Ou se trabalhou com  materiais que eles enviaram... Ou como foi essa... Porque era voltar, não?  Depois de 25 anos? Para ver de novo a mesma população que visitou com o Dr.  Neel. Eu queria saber um pouco como era essa experiência, como era essa  pesquisa que fizeram e como era a experiência de voltar depois de 25 anos.     SALZANO: É, mas não voltei lá...    DENT: Não, não foi lá?    SALZANO: A Nancy, ela começou trabalhando muito antes com outros grupos do  Brasil central. Bom, tem a história toda ali no livro. E depois,  então, quando começou a trabalhar com o Carlos e o Ricardo, ela se aprofundou  nos Xavante. E os dois também. Eles trabalharam antes em diferentes outros  grupos populacionais, e na época que estavam terminando, pouco tempo depois de  terminar o doutorado, um pouco antes pro Ricardo, eles me contactaram para fazer  a parte de genética do que eles estavam fazendo de epidemiologia médica, né?  Então aí que surgiu a colaboração e foi muito proveitosa, digamos.     DENT: Então eles tiraram as amostras e enviaram para o laboratório de aqui  para fazer as análises?    SALZANO: Isso. Exatamente.    DENT: E Nancy Flowers, você trabalhou com ela um pouco? Como era a relação?     SALZANO: Pouco tempo. Estive lá no Rio numa época lá, de análise dos dados  pro livro e também para a redação do texto. Depois ela esteve aqui, em Porto  Alegre, também, a convite do programa de antropologia daqui, então a gente tem  tido relativamente, não muito longo, mas proveitoso contato.     DENT: Ótimo. Bem interessante. Eu acho que quando estou lá, eu volto para o  Rio, porque eu saio do Rio para os Estados Unidos, então Ricardo me falou que  se ela chega antes que talvez eu vou poder conhecer a ela lá no Rio. Que  engraçado, porque ela é de Nova Ioque, não? E Nova Iorque fica só a duas  horas de Filadélfia, mas eu vou vir até o Brasil para conhecer a ela.     SALZANO: É, a globalização...    DENT: É incrível, não? Muito interessante. &amp;#039 ; Tá perfeito -- então eu acho  que aí podemos parar para hoje. E se você quer comentar alguma coisa mais...?    SALZANO: Não, acho que está ok. Agora você está sabendo tudo da minha vida.     DENT: Ah, só de algumas partes. Você ainda não me conta da vida familiar, de  toda essa parte... [risos]. Acho que não sei se você acha importante para a  parte da ciência essa...    SALZANO: Bom. Não, minha vida familiar é relativamente tranquila. Não tem  muita coisa para mencionar... Já te falei de meus filhos e tudo.     SALZANO: Sim. E a minha esposa -- continuamos casados faz 60 anos.    DENT: São 60 anos? Certo, porque vocês foram para Michigan com o filho de dois anos...    SALZANO: Exato.    DENT: Incrível! E ela alguma vez foi com você para o campo?     SALZANO: Não, não.    DENT: Os filhos?    SALZANO: Nenhum deles.     DENT: Não se animavam para ser geneticistas?    SALZANO: Nenhum. [Risos]    DENT: Mas ouviram o avô falando que devem ser médicos...     SALZANO: [Risos]    DENT: Tem outros filhos intelectuais por todo o país e toda a América do Sul e  também agora alguns que estão nos Estados Unidos, França... por todo lado...  Perfeito. Muito obrigada então!       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação dessa entrevista são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=salzano-20120723.xml salzano-20120723.xml      </text>
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                <text>Esta terceira entrevista com o professor Francisco Salzano foi realizada no Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, em 23 de julho de 2012. Nessa entrevista, Salzano conta sobre a fundação dos programas nacionais de pós graduação e o processo de sua obtenção de doutorado em São Paulo. Comenta sobre suas primeiras orientações dentro da faculdade de filosofia, sobre a formação de pesquisadores e a ampliação da pesquisa científica, também na graduação, com a elaboração do programa de iniciação científica pela CNPq. Conta sobre sua experiência e gosto pela docência, que se iniciou ainda durante sua graduação. Discorre sobre o panorama da pesquisa em genética no Brasil, elencando os departamentos mais influentes no campo no Brasil. Ainda, relembra o trabalho de seus orientandos e seus paradeiros atuais. Ainda comenta sobre seu trabalho em colaboração com Nancy Flowers na publicação do livro Xavante in Transition, publicado em 2002. </text>
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              <text>    5.4      Prof. Francisco Mauro Salzano, entrevista, 26 de julho de 2012   01:01:00   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     fotografias  trabalho de campo  rotinas de trabalho  doutorado  indígenas isolados  metodologia  Funai Francisco Mauro Salzano Rosanna Dent .mp4 salzano-20120726.mp4 2:|23(10)|33(13)|63(2)|90(5)|118(5)|136(4)|157(6)|161(8)|180(2)|201(2)|213(11)|228(6)|258(12)|272(8)|298(8)|317(2)|345(10)|366(1)|400(2)|425(2)|451(9)|461(3)|478(7)|503(5)|528(1)|573(6)|587(2)|592(1)|594(2)|601(12)     0   https://youtu.be/fwI-nJEKwAg  YouTube         audio    pt-br     oral history Esta entrevista com o professor Francisco Salzano foi realizada no Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em Porto Alegre em 26 de julho de 2012. Trata-se de uma entrevista conduzida a partir de fotos, trazidas pela entrevistadora e do acervo pessoal do entrevistado, a partir das quais Salzano falou sobre vários temas como: viagens para trabalho de campo, identificando pesquisadores participantes das pesquisas ;  rotinas e procedimentos de trabalho com os indígenas ;  sobre eventos como a defesa de seu doutoramento ;  conta casos sobre a realidade dos indígenas isolados. Em face do caderno de anotações da pesquisa de campo, explica sua metodologia de anotações nele. Na parte final, cita algumas colaborações e fala brevemente sobre como lidava com os trâmites de autorização da Funai para pesquisa com indígenas.  DENT: Ok, aqui estamos. Hoje é 26 de julho de 2012. Estamos no Instituto de  Biociências, com o Dr. Professor Francisco Mauro Salzano. Está gravando. Essas  são as fotos de Simões Lopes?    SALZANO: Isso.    DENT: Era uma viagem com o Dr. Neel, com você, e o Niswander também e o Dr. Weinstein?    SALZANO: Weinstein?    DENT: Weinstein, também estava lá. Eu queria saber se me podia comentar de  onde são? Você tirou as fotos? Era com a sua máquina fotográfica? Ou era de  outras pessoas? Lembra?    SALZANO: Acho que não lembro. De maneira geral, não levava máquinas fotográficas.    DENT: Você não...    SALZANO: Talvez tenha sido do Fernando [José da Rocha] que também foi.    DENT: Ah, também estava lá?    SALZANO: Tanto quanto eu saiba. Deixa eu ver uma coisa... Essa aqui é a tese  dele. Vou ver se tem... Simões Lopes... [páginas virando] É... Ele não  estava lá.    DENT: Não? Ele não estava? Entrou depois para o trabalho de campo com os Kayapó?    SALZANO: É. Ele trabalhou com os Kayapós. O trabalho de campo, ele fez com os  Kayapó de uma localidade. É, duas comunidades Kayapó e os Yanomamo e quatro  localidades do Rio Grande do Sul.    DENT: Mas essas fotos de aqui, então, podem ter sido do Dr. Neel? [Ou... dono dos...]    SALZANO: É. Alguém tirou, mas não tem... Isso aqui parece ser uma dança com  um mastro... [fotos virando] Depois tem várias indígenas. Cachoeira, queda  d&amp;#039 ; água, as crianças. Mulheres.    DENT: Acho que lá tem dois, mas aqui. Uma criança... [Risos] Mas sabe que...    SALZANO: Acho que é o Neel, de costas.    DENT: Sim?    SALZANO: Esse outro não sei quem é.    DENT: Não é você lá?    SALZANO: Não.    DENT: Se é dos outros, então...    SALZANO: Uma espécie de dança. Um pouquinho mais pra cá.    DENT: Sim... Essa foi a camioneta de vocês?    SALZANO: Não, não. É um carro, né.    DENT: É um carro que parece parado lá?    SALZANO: Pois é. Esse, eu acho que é o Neel também.    DENT: Ia de terno? Para o campo?    SALZANO: Pois, é. Isso aí, é antes. Isso é antes.    DENT: Porque está com corbata [gravata] lá na fotografia.    SALZANO: Pois, é. Tão formal ele não é. [Risos]    DENT: Pois é. Usavam roupa especial para o campo? Usavam a roupa normal?    SALZANO: Em geral, usava calção. Totalmente sem roupa.     DENT: [Risos]    SALZANO: É. Oh, esse tipo de moradia, de casa já é influência  não-indígena. Porque as casas Xavante eram circulares, lá em São Domingos.  [som de algo abrindo] Credo! Esse sou eu! Não parece.    DENT: Sim. Reconheci.    SALZANO: Isso aqui... essas fotos foram tomadas pelo Chagnon.    DENT: Ah, sim. Essas que são dos Yanomamo.    SALZANO: Yanomamo. A gente subiu uma montanha lá, pra visitar uma aldeia  isolada. Por isso, eu estou suando aqui.    DENT: Claro, porque estavam subindo.    SALZANO: Construção... Ah, pois é. As construções dos Yanomamo são  coletivas. Então, são enormes casas, com essas entradas grandes aqui. Esse  aqui também sou eu. Eu estou entrando aqui, numa delas. Oh, aqui, então, é o  aspecto lá da região, que são serras, de mata forte... Aqui estão  construindo alguma coisa...    DENT: Como?    SALZANO: Isso aqui parece que é uma construção.    DENT: Ah, que estão construindo. Sim, claro.    SALZANO: Que abre, depois fecha. Oh, aqui.    DENT: Assim está fechado, já terminado?    SALZANO: É. Essa já é outra. Essa é outra casa comunal, que eles chamam.    DENT: E vocês, quando fizeram o trabalho de campo lá, ficaram dentro das casas  comunales [comunais] ou ficaram no posto...    SALZANO: Não, no posto. No caso dos Yanomamo, eram as casas dos missionários.    DENT: E, em alguma...    SALZANO: Então, essa era bem afastada da missão. Quase umas três horas ao  longo do mato para chegar lá.    DENT: Em alguma comunidade, ficaram dentro das casas indígenas?    SALZANO: Nós visitávamos. O trabalho era feito lá dentro mesmo de algumas casas.    DENT: Mas se estavam trabalhando durante alguns dias, ficaram sempre no posto e  iam em cada dia para comunidade?    SALZANO: Exato. Não ficamos dormindo lá com eles, não. Isso foi, acho que no  meu caso, a única vez que a gente ficou afastado do posto e na aldeia mesmo-  isolados- foi entre os Txucarramãe... do Parque do Xingu.     DENT: E como era? Por que estava muito longe do posto?    SALZANO: É. Era muito afastado, então... A gente foi de avião leve para um  campo de pouso que ficava ao lado da aldeia, partindo da base lá, do parque-  que é um grupo de casas, bem delimitadas ;  tem um campo de pouso maior, que é  onde ficavam os Villas-Bôas.    DENT: Então, foi uma construção onde antes ficavam os Villas-Bôas, lá no  mesmo lugar?    SALZANO: Então, eles ficavam nessa base. E a gente primeiro ia lá, porque eles  também tinham que fazer a fiscalização e de lá ia pra...    DENT: Ah, entendi, entendi. Interessante! Lembra alguma outra coisa com essas fotografias?    SALZANO: Pois, só dessa subida. Quase morri de cansaço. Suava, porque era  muito quente.    DENT: [Risos] Claro!    SALZANO: Deixa eu ver se tenho aqui uma outra.    [Som de gavetas]    DENT: Achou?    SALZANO: Essas aqui todas são fotografias pessoais.     DENT: Claro, claro.    [Conversa baixa, pouco audível em referência às fotografias]    SALZANO: Esses são índios Kayapó. Um professor lá do Canadá fez uma visita  pra nós e tirou essa no aeroporto de Brasília.    DENT: Aqui, eles estavam lá fora?    SALZANO: Eles estavam no aeroporto.    DENT: Ah, mas tem algumas coisas aqui...    SALZANO: Isso tudo é... Aí, é a defesa de tese. Esse é o Newton Freire-Maia  e o Frota-Pessoa?    DENT: Ah, sim? Ótimo. Que boa foto.    SALZANO: O Newton Freire-Maia e essa é a esposa dele... Esse é um casal que  veio do Pará.    DENT: Ah, sim.     SALZANO: Essa foi tirada lá dentro de [inaudível]?    DENT: Que boa foto. Gostei muito.    SALZANO: Quem tirou essa foto foi a Rita Osmundsen. A Rita era a diretora lá  da... Hoje ela é da presidente da...    DENT: Então, esse corresponde com as fotos do castelo?    SALZANO: Isso, exatamente. Aqui é dentro, dentro do castelo.    DENT: Ah... Seria de... e de organizar.    SALZANO: Esse é um professor... As primeiras viagens que fiz ao exterior.    DENT: Quantos anos você tinha?    SALZANO: Isso foi em &amp;#039 ; 61. 61 menos 28? 30... dá... Eu nasci em &amp;#039 ; 28. Isso aí de &amp;#039 ; 61.    DENT: Então... 23?    SALZANO: 33.    DENT: Um pouco mais do que eu tenho agora. [Risos] Aqui com todo o grupo?    SALZANO: Isso aqui já era... Um congresso qualquer, aí. Uma das principais  personalidades da genética sul-americana... Ele era argentino, mas trabalhava  no Uruguai. Meio gordinho, aqui.    DENT: Eu acho que está fazendo assim, sabe? Por isso, não?    SALZANO: Esse é o pessoal da antropologia. Isso foi tirado num congresso em...?    DENT: Sim. Isso foi aqui?    SALZANO: É... foi aqui. O doutorado do Arno?    DENT: Que legal!    SALZANO: ...São Carlos.    DENT: Tem algumas. Mas do campo não muito?    SALZANO: É... [Risos] Isso aí também mandaram. Por que eu não tiro  fotografia. No primeiro trabalho dos Xavantes, antes de ir, o Neel disse &amp;quot ; Não,  tenho que documentar isso daí&amp;quot ; . Eu comprei uma máquina fotográfica. Aí, eu  tirei algumas fotografias dos Xavantes ...[inaudível]... Aí, logo depois eu  fui pra Europa, no Congresso Internacional de Genética Humana. Aí, tirei uma  fotografia da Torre Eiffel, na França. [Risos] Só que depois, na revelação,  saiu um Xavante em cima da Torre Eiffel.     DENT: [Risos]    SALZANO: Aí, essa foi a minha última experiência fotográfica. [Risos]    DENT: [Risos] Então, tentou umas vezes e depois desistiu?    SALZANO: Desistência total.     DENT: Senão, ia ter toda Europa com imagens também da mata atrás...    SALZANO: Sim, aí não dá.    DENT: Muito bem. Eu queria, então, perguntar algumas coisas, últimas coisas  antes de voltar para os Estados Unidos. Eu estava vendo aqui, [manuseia uma  página do caderno de campo do Professor] isso me pareceu uma coisa incrível.  Estamos na &amp;quot ; caderneta de campo 2&amp;quot ;  e aqui você estava anotando: &amp;quot ; 19 de setembro  de 1968&amp;quot ;  e está anotado que estão lá no campo, que chega Fernando da Rocha...    SALZANO: São os Kubem-kang-keng que são Kayapó, né?    DENT: Exato, e que mientras [enquanto] que estão lá, chegam turistas  norte-americanos... [Risos]    SALZANO: Exclamação! [Risos]    DENT: Exato. Pode me contar alguma coisa disso? Que aconteceu que chegaram os turistas?    SALZANO: É. Era uma aldeia isolada, né? A gente chegou lá, e fomos para uma  missão religiosa. O Lott era missionário. Aqui são as informações sobre  outras aldeias... e daqui a pouco chega um avião de táxi-aéreos, pequenos,  monomotor, dessa empresa: Safari Tours. Ah, não era um, eram três, oh!    DENT: Três aviões [risos] pequenos, disse.     SALZANO: [Lendo] &amp;quot ; Junto com um grupo da FAB [Força Aérea Brasileira], 10  pessoas&amp;quot ; . É, então... é o contato. E tinha um grupo da FAB que estava  consertando um avião ali, que também estava em contato. É isso que eu botei  aí, em termos de transmissão de micróbios, essas coisas...    DENT: Isso foi comum? Você sabia alguma coisa do turismo para as aldeias,  assim, remotas?    SALZANO: É, não... de vez em quando, sempre aparecia. Em todas, não, mas em  grande número das aldeias que eu fui, de repente, aparecia um avião com  turistas. Não só estrangeiros, mas brasileiros e outros grupos visitantes. Me  lembro um que funcionários do governo, não eram turistas, chegaram na aldeia  -- eu acho que isso foi em Roraima, lá no Norte -- chegaram e distribuíram uma  série de apitos. Tem uma lenda aí entre os brasileiros que índio gosta de  apito. [Risos] Levaram um monte de apito e distribuíram e foram embora. [Risos]    DENT: E isso deveria ter sido uma coisa muito cara: pagar um avião...    SALZANO: Lógico...    DENT: ... para ir até um ponto...    SALZANO: Sim, sim, lógico... Os turistas, de certo, tinham reserva pra isso. E  essa do governo: &amp;quot ; Ah, o governo paga ;  então, não tem problema&amp;quot ; , para eles.    DENT: E vocês interatuavam com as pessoas que chegavam? [Risos]    SALZANO: Pouco...    DENT: Praticavam o inglês...    SALZANO: Não, não... Não eram muito bem-vindos, não.    DENT: E como responderam os povos onde você estava trabalhando? Eles...    SALZANO: Em alguns casos, eles já estavam acostuma dos. Viam pessoas lá. De  turismo, em Letícia, que eu lhe falei, que é lá na fronteira entre o Brasil,  Peru e Colômbia, quando nós estávamos começando a viagem do Alpha  Helix... Na época, existia um grego, uma pessoa de origem da Grécia que era  praticamente o dono de Letícia. E não só de vários negócios lá de  Letícia, como também ele tinha uma ilha inteira no meio do rio. E ele  patrocinava essas viagens de turismo. Então, ele, em determinados dias,  passava uma mensagem pelo rádio para a ilha dele. Ele ficava lá em Letícia,  que é uma cidade: &amp;quot ; Olha, se vistam como índios que agora vêm uns turistas aí&amp;quot ; .     DENT: [Risos]    SALZANO: Os índios, todos, estavam com roupa comum, né?! Rural, brasileira.  Então, eles se preparavam, se pintavam, o corpo, etc. e tal. E, aí, os turistas...    [Entrevista interrompida]    DENT: E dos grupos, você obviamente, visitou, estudou muitos grupos diferentes,  mas quais eram os grupos onde realmente não chegavam os turistas?    SALZANO: Não existe...    DENT: Não existe?    SALZANO: Impossible.     DENT: [Risos]    SALZANO: Mesmo na aldeia São Domingos, que foi essa na primeira viagem nos  Xavantes, eles praticamente estavam completamente isolados. Mas um dia lá  chegou um barco, com mais turista que o número de Xavante que tinha a aldeia...     DENT: [Risos]     SALZANO: Então... começaram a dançar e os turistas todos circulando, ao  redor, com fotografia.    DENT: E ficavam no navio ou baixaram?    SALZANO: No navio, é. Ficaram no navio... Só ficaram um tempinho e depois eles foram.    DENT: Que coisa...    SALZANO: Mas é muito comum, lá no rio Xingu, pescadores, que fazem pescarias  de lazer, ou grupos turísticos que querem ver o mato... mata. Esses grupos aí  dos turistas lá de Letícia chamavam a cidade &amp;quot ; a porta para o inferno verde&amp;quot ; ,  tchan, tchan. tchan.     DENT: [Risos]     SALZANO: Inferno verde era a mata, claro. [Risos]    DENT: E como comparava o trabalho com os Kayapó, enquanto à facilidade para  chegar lá, com o trabalho que fizeram com os Xavante? Era quase igual?    SALZANO: Mais ou menos parecido. Geralmente era uma base, e a gente aproximava  da aldeia por aviões pequenos.     DENT: Muito interessante. Também nos cuadernos [cadernos], vi alguns nomes que  queria perguntar um pouco se você lembra alguma coisa dessas pessoas?     SALZANO: Sim.    DENT: Na segunda vez que foram para as aldeias Xavantes está anotado que  Francisco Xerente era o intérprete...    SALZANO: Ah tá...    DENT: Ele era um membro da comunidade?    SALZANO: É, pelo sobrenome, pode ser da tribo Xerente, que é uma tribo muito  próxima aos Xavante e que foram contatados antes. E se tornam completamente  aculturados. Então, tinham contato, eles falam o português, adotaram todo o  estilo de vida das populações rurais brasileiras e, às vezes, serviam de intérprete    DENT: E lembra...    SALZANO: Porque Xerente é muito parecido com Xavante. A língua.    DENT: Que David Maybury-Lewis fez um trabalho primeiro com os Xerente para  depois passar a Xavante, não?    SALZANO: É. Eu acho que sim.    DENT: Interessante. E lembra alguma coisa desse senhor que trabalhava como  intérprete? Como era trabalhar com ele?    SALZANO: Era um membro da tribo que nos ajudou. Não tinha nenhuma particularidade.    DENT: Depois, quando estavam trabalhando com os Kayapó, estava lá um senhor:  Dale Snyder, que era inglês, acho. Ele era um missionário inglês?    SALZANO: Onde que está?    DENT: Ah...    SALZANO: Lembra?    DENT: Tá... com os Kayapó... Ah, não estava aqui nos cuadernos [cadernos].  Estava nos documentos, que ele estava ajudando a construir a genealogia das pessoas.    SALZANO: Ah, tá. Esse era um missionário.     DENT: Era missionário?    SALZANO: É.    DENT: Mas não era uma pessoa que realmente trabalhava muito com vocês?    SALZANO: Não, não. Só era um membro da missão que conhecia bem os indígenas.    DENT: Tá, perfeito. Que mais... Então, queria perguntar um pouco, para esos  cuardernos [estes cadernos] que é que você anotou lá, ou como usava o  cuaderno [caderno]? Porque tem algumas coisas que obviamente...    SALZANO: Exatamente ao acaso. Geralmente era mais para anotar o que tinha sido  feito ao longo dos dias. Por que posteriormente eu tinha que fazer um relatório  para a Funai, inclusive. Então, eu tinha que saber quando tinha chegado, onde,  e basicamente o que que se tinha feito nesses dias.    DENT: Sim.    SALZANO: E, de vez em quando, vinham essas anotações... das pessoas que  trabalhavam lá. Depois eu colocava no relatório. Algumas vezes foi importante  para assistência médica.    DENT: Também tem muitas anotações de coisas de idioma, de palavras importantes...    SALZANO: É.    DENT: ...nas línguas indígenas. Como era para você aprender essas palavras?    SALZANO: Aprendi muito pouco. Em geral, só coisas excepcionais. Em geral, a  gente usava intérprete. Não dava tempo para absorver línguas diferentes, de  tribos diferentes... pouco tempo.    DENT: É... eu sei. Estou lutando com o português, que é tão próximo para o  espanhol. Então posso imaginar aprender Xavante ou...    SALZANO: Complicado.    DENT: [Deve ser]. Tá... Também hoje, encontrei a documentação do trabalho  que fizeram com Ayres e Noel Nutels? Queria pedir se poderia me comentar de  novo, o que você já contou. Mas foi o dia que o gravador não funcionou muito  bem, e queria pedir se podia contar de novo um pouco como era a relação com  Noel Nutels, o trabalho com ele... Sim, isso.    SALZANO: É. Mas nós nunca fizemos trabalho de campo juntos.    DENT: Ah, não foi de campo, mas foi um trabalho...    SALZANO: Não, só interação lá no Rio de Janeiro, ou Porto Alegre, ou então  numa das reuniões da Oficina Panamericana de Saúde, que a gente fez. O Neel  organizou. Deixa eu ver se eu tenho aqui... Oh, em &amp;#039 ; 68.    DENT: Ah, olha isso. Então Biomedical Challenges Presented by the American  Indian. E isso foi uma reunião que depois...    SALZANO: The WHO. Oficina Panamericana, que... [páginas virando] tinha várias  pessoas que trabalhavam como consultores da PAHO? Né? Otto Bier... Todos são  membros do comitê. Marcelo Rocha, que é uma pessoa famosa. E aqui são os  participantes que não eram da WHO.    DENT: Claro. E lá tá... Noel Nutels, Niswander estava, Layrisse, Napolean  Chagnon. Você estava? Ah, aqui está. O Doutor Schull, também. E eso [isse]  foi uma sessão especial? Era?     SALZANO: Resultou nesse livro. E aqui está o trabalho do Noel, &amp;#039 ; 68.    DENT: Um-hmm. Ah, sim.    SALZANO: Ele escreveu principalmente a parte do Xingu.    DENT: Então, vocês foram para essa reunião e se viram lá. Mas já se  conheciam antes, não?!    SALZANO: Antes. A gente ficou lá durante 4 ou 5 dias. Foi ele e a esposa.    DENT: E como era ele?    SALZANO: Ele ou ela?    DENT: Ele.     SALZANO: Ele. O Noel. Cabelos revoltos, branco, cabelo branco, porte forte,  gordo, também, mas um gordo forte. E como eu falei, muito expansivo. Sempre  diversão, conversar com ele.    DENT: E você mencionou que foi à casa dele alguma vez no Rio... Sim?    SALZANO: Sim. Várias vezes.    DENT: E como era?    SALZANO: Pois é, uma casa muito bonita, grande, num bairro lá do Rio de  Janeiro. E, como eu falei, tinha aqueles quadros todos. Alguns na parede, outros  embaixo, que ele ganhava dos amigos dele, intelectuais, artistas, etc.     DENT: E a colaboração científica de vocês era só um estudo que fizeram com  Manuel Ayres?     SALZANO: É. Um dos testes era aquela história da tuberculina, que eu te falei,  que foi feita em várias tribos indígenas, junto com o Neel e, ou com o Manuel  Ayres, lá de Belém. Então, como ele era especialista em epidemiologia,  tuberculose, nos correspondeu e no fim publicamos um artigo juntos, combinando o  meu trabalho de campo com o dele.     DENT: Então, estava vendo lá, você me tinha contado antes que foi às vezes  difícil porque não chegava a aprovação da FUNAI para fazer trabalho de campo...    SALZANO: Isso.    DENT: Então, estava olhando lá nos cadernos de campo, um pouco. E tem duas  datas que eu vi até agora, não?! Onde você foi até Brasília, para...    SALZANO: Conseguir...    DENT: ... para conseguir aprovação...    SALZANO: Aprovação, é...    DENT: Lembra qual... eu vi para justo antes do trabalho de campo com Neel, em  &amp;#039 ; 64, e de novo com o trabalho de campo com os Yanomamo, em &amp;#039 ; 67. Lembra quando  era que Noel Nutels estava...    SALZANO: Ah, já, já tinha sido afastado. Eu falei porque ele era diretor em  &amp;#039 ; 64, que foi quando houve o golpe militar.    DENT: Sim.    SALZANO: Então, ele já estava, estava afastado do serviço.    DENT: Mas a segunda vez que... você lembra quantas vezes tinha que ir até  Brasília para retirar o permiso [permissão]?    SALZANO: Ah, em geral,    DENT: Era...     SALZANO: Era quase sempre...    DENT: Quase sempre? [Risos]    SALZANO: Quase sempre tinha que ir...    DENT: Ah, ok.    SALZANO: Um ou dois dias antes viajava pra lá, pegava a autorização.    DENT: Ah, ok.    SALZANO: O que não era grande problema porque Brasília é no Brasil Central e...    DENT: Ficava...    SALZANO: Ficava mais ou menos perto das outras bases.    DENT: Hm... Então, muitas vezes tinha que ir para lá para retirar o permiso  [permissão] primeiro...    SALZANO: Sim.    DENT: Ah, já entendi. Então, foi antes do trabalho de campo de 1964, que era  mais urgente essa intervenção do Doutor Nutels?    SALZANO: É. &amp;#039 ; 64, isso.    DENT: E você ainda tem essa carta, que ele preparou? [Risos]    SALZANO: Não sei, tem que procurar. Deixa eu ver se...    [Som de gavetas, procurando a carta]    DENT: Os reportes [informes] que você enviou para a FUNAI, ao final de cada  trabalho de campo, não guardou?    SALZANO: Desapareceu.    DENT: Desapareceram?! hm... Mas tem mais correspondência do que [você] me  falou. Falou que não, não guardou nada. E, sim, tem algumas coisas...    [Páginas virando]    SALZANO: É. Guarde para mim aí?!    DENT: Claro. Esses são os processos de aplicação [solicitude] para  aprovação do comitê de ética?    SALZANO: Isso.    [Som de gavetas fechando, páginas virando]    DENT: Pode ser que [a carta] será uma coisa para procurar a próxima vez que  estou aqui, não?!    SALZANO: Pode ser. Mas quanto mais o tempo passa, menos...    DENT: Tá bom... a próxima vez, eu vou revisar bem. [Risos] Com mais tempo, e  tudo... Só pra ver se está ainda funcionando, aqui, se está ainda  gravando...sim! Ok. Então... Que horas são? Perfeito, não, eu acho que já me  contou muitas coisas. Eu tenho muita documentação para ler e muitas coisas  para estudar. [Risos] Então, agora eu vou voltar para Estados Unidos para  estudar e a próxima vez que chegue aqui, espero já saber muito mais. [Risos]    SALZANO: Ah, estamos às ordens.    DENT: Imagino que vou querer perguntar de novo outras coisas... não?! Mas tem  sido realmente um prazer muito grande. Não sei se você tem alguma memória ou  história ou alguma coisa mais que tem pensado, que quer compartir  [compartilhar] ou contar?     SALZANO: É, não... acho que está...    DENT: Já me contou muito.    SALZANO: Bastante coisa, é!       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação dessa entrevista são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=salzano-20120726.xml salzano-20120726.xml      </text>
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                <text>Prof. Francisco Mauro Salzano, entrevista, 26 de julho de 2012</text>
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                <text>Esta entrevista com o professor Francisco Salzano foi realizada no Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em Porto Alegre em 26 de julho de 2012. Trata-se de uma entrevista conduzida a partir de fotos, trazidas pela entrevistadora e do acervo pessoal do entrevistado, a partir das quais Salzano falou sobre vários temas como: viagens para trabalho de campo, identificando pesquisadores participantes das pesquisas; rotinas e procedimentos de trabalho com os indígenas; sobre eventos como a defesa de seu doutoramento; conta casos sobre a realidade dos indígenas isolados. Em face do caderno de anotações da pesquisa de campo, explica sua metodologia de anotações nele. Na parte final, cita algumas colaborações e fala brevemente sobre como lidava com os trâmites de autorização da Funai para pesquisa com indígenas.</text>
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              <text>    5.4      Prof. Sandro Bonatto, entrevista, 22 de julho de 2014   1:45:48   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     laboratório  DNA  povoamento das Américas  zoologia Sandro Bonatto Rosanna Dent .mp4 bonatto-20140722.mp4 1:|13(8)|25(8)|38(1)|50(4)|62(2)|75(3)|88(6)|101(6)|114(9)|127(11)|142(7)|156(1)|167(5)|181(2)|192(8)|205(8)|217(13)|227(2)|240(4)|254(12)|268(2)|282(5)|295(11)|308(4)|320(10)|331(12)|343(9)|354(4)|365(14)|376(1)|387(1)|397(12)|410(12)|423(7)|434(7)|444(11)|455(10)|466(6)|478(2)|489(9)|501(2)|511(5)|523(3)|534(10)|544(2)|558(4)|566(3)|580(9)|595(2)|606(7)|620(4)|635(15)|645(13)|658(15)|668(7)|680(8)|695(1)|705(8)|719(6)|731(15)|742(10)|754(11)|764(4)|776(2)|789(2)|799(6)|811(13)|822(5)|833(1)|844(4)|860(7)|870(8)|881(8)|892(10)|902(8)|913(2)|923(10)|934(4)|947(8)|957(12)|967(9)|979(13)|992(3)|1000(11)|1012(9)|1024(14)|1037(3)|1052(1)|1062(6)|1077(5)|1087(9)|1100(4)|1112(4)|1121(8)|1132(12)|1143(12)|1154(1)|1166(6)|1178(9)|1187(12)|1199(6)|1211(3)|1222(9)|1238(5)|1261(8)     0   https://youtu.be/wtlt_mKZFZ4  YouTube         audio    pt-br     0 Bonatto fala de família, gosto por ciência e educação   Então… Bom, eu venho de uma família, de uma cidade muito pequena do interior do Rio Grande do Sul.  &amp;quot ; Então, depois a gente veio aqui pra Porto Alegre pra estudar na Universidade e tal.  &amp;quot ; E… Na verdade, eu, meu campo inicial, meu interesse inicial em ciência nem era tanto Genética, na verdade, né?         concepção de ciência ; economia moral ; valores   economia moral                       128 Bonatto fala sobre experiência e interesses na graduação             Afeto ; economia moral ; entusiasmo ; formação acadêmica ; iniciação a pesquisa ; Mudanças importantes na ciência ; mudanças na teoria ; vocação   Afeto, formação acadêmica ; economia moral ; Mudanças importantes na ciência                       233 Bonatto fala sobre seu interesse em evolução e trajetória zoologia             Afeto ; entusiasmo ; Formação Acadêmica   Afeto                       276 Bonatto fala sobre mestrado e início mudança para genética             Afeto ; diversidade biológica ; entusiasmo ; evolução humana ; formação acadêmica ; Instituições de formação ; mestrado   Afeto ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica                       348 Bonatto sobre descobertas que o levaram a mudar campo de pesquisa             Diversidade Biológica ; evolução humana ; Mudanças importantes na ciência ; prática ; técnicas de pesquisa   Diversidade Biológica ; Mudanças importantes na ciência ; prática                       390 Bonatto fala sobre descoberta, fascínio e mudança de foco para área de evolução e genética           Afeto ; diversidade biológica ; entusiasmo ; paixão pelo trabalho   Afeto                       459 Bonatto fala das várias etapas de sua formação científica           ambiente político ; Contexto Político-Economico ; diversidade humana ; doutorado ; evolução ; Formação Acadêmica ; indígena ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Contexto Político-Economico ; diversidade humana ; Formação Acadêmica ; Práticas ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       650 Bonatto fala da ida como conheceu e se inseriu no departamento e Salzano             afeto ; Diversidade biológica ; doutorado ; entusiasmo ; evolução humana ; formação acadêmica ; Gênero ; indígena ; instituição de formação ; instrumentos ; miscigenação ; Mudanças importantes na ciência ; orientação ; Raça, Etnia e Identidades ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; vanço técnico transformador   . Prática ; Diversidade Biológica ; formação acadêmica ; Gênero ; Raça, Etnia e Identidades                       839 Bonatto conta da montagem do laboratório para pesquisas em DNA e seu tema de doutorado           Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; fator externo à pesquisa ; Formação Acadêmica ; instrumentos ; Prática ; técnicas variablilidade genética   Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Prática ; técnicas de pesquisa                       945 Bonatto fala sobre experiência na graduação, do contexto universitário sob a ditadura militar e do início do interesse pela pesquisa em evolução             Afeto ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; Diversidade Biológica ; economia moral ; entusiasmo ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa   afeto ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica                       1518 Bonatto explica a sua mudança da entomologia para a genética e para estudos em seres humanos           Avanço técnico transformador ; classificação da diversidade biológica ; Diversidade Biológica ; doutorado ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; prática ; processamento de dados ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; prática                       1890 Bonatto fala da experiência de pesquisa nos EUA e de como isso transformou a sua agenda de pesquisa           ancestralidade ; Avanço técnico transformador ; classificação diversidade biológica ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; coleta de dados ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; doutorado ; etnia ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; grupo continental ; indígena ; Instituições de formação ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; troca de amostras ; viagem   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2746 Bonatto comenta sobre coleta e análises de amostras biológicas nos EUA e aspectos éticos formais e informais para seu uso           colaboração e acordos ; coleta de dados ; Ética ; ética formal ; Formação Acadêmica ; grupo continental ; orientação ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa ; troca de amostras   Ética ; Formação Acadêmica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       3052 Bonatto discorre sobre experiências acadêmicas e pessoais durante o doutoramento na UFGRS e estágio nos EUA           Afeto ; colaboração e acordos ; doutorado ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; orientação ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho ; técnicas de pesquisa   Afeto ; Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3421 Bonatto fala da sua experiência e desafios como professor universitário e pesquisador no Brasil           concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia moral ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; instrumentos ; orientação ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho   colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3859 Bonatto diz da importância da interdisciplinaridade para os estudos sobre genética e evolução humana           antropologia ; Avanço técnico transformador ; classificação diversidade biológica ; colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; doutorado ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; história ; instrumentos ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Redes científicas e circulação                       4665 Bonatto comenta spbre o papel de Salzano e do Departamento de Genética da UFRGS para o campo da genética das populações           Afeto ; Avanço técnico transformador ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; economia moral ; evolução humana ; grupo continental ; indígena ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; ontribuições importantes à ciência ; orientação ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; valores   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia moral ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       5091 Bonatto explica algumas transformações na genética com a genômica e as dificuldades de pesquisa no contexto brasileiro           Avanço técnico transformador ; coleta de dados ; Contexto Político-Economico ; fator externo à pesquisa ; indígena ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; processamento de dados ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Contexto Político-Economico ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       5668 Bonatto comenta sobre o uso de amostras antigas e as condutas de pesquisa e limitações nos estudos com populações indígenas atualmente           Afeto ; classificação diversidade biológica ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; coleta de dados ; desconforto ; Ética ; ética formal ; ética informal ; etnia ; grupo continental ; indígena ; orientação ; paixão ao trabalho ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; resistência do pesquisador ; técnicas de pesquisa   Afeto ; Diversidade Biológica ; Ética ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       6098 Bonatto reflete sobre a sua prática científica            Afeto ; Avanço técnico transformador ; coleta de dados ; elação afetiva com sujeitos humanos ; ética formal ; indígena ; Interdisciplinaridade ; medicina ; Mudanças importantes na ciência ; paixão ao trabalho ; Prática ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Afeto ; colaboração e acordos ; Economia moral ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades                       oral history Sandro Bonatto, biólogo, explica a origem dos seus interesses científicos. Conta como ele estudou genética relacionado à filogenia, o que o levou à aprovação de um projeto de doutorado nos Estados Unidos, mas a escolha eventual de ficar no Brasil para os estudos de pós-grado. O narrador monta um laboratório para esse objetivo e por fim conseguiu estudar o povoamento da América com uso de DNA. Parte do seu estudo discute o povoamento da América e uma hipótese apresentada foi a de houve um povoamento inicial na Beríngia e que depois houve o povoamento das Américas em seguida e não há hipótese de que os primeiros habitantes vieram direto da Ásia para a América ;  esse trabalho foi realizado com o material genético colhido por Dr. Salzano, em suas pesquisas. O narrador relata sua transição da entomologia para a genética e a continuidade da ausência de trabalhos de campo e sua relação com processo de ética em estudos com indígenas. Bonatto relata sua atuação na genética humana na PUC, onde tem relação com o departamento de Zoologia e que o limite inclusive é a falta de alunos de pós-graduação para orientar. Bonatto também lembra da construção da genética na PUC, o qual se esforçou para a construção do laboratório junto ao Projeto Genoma. Reclama que ser professor reduz as possibilidades na pesquisa, inclusive o tempo para dedicação.   Essa entrevista diz respeito à genética das populações e à história do povoamento nas Américas e as dificuldades que se tem hoje de fazer análise de dados e fazer com que o estudo seja mais avançado. Além disso, mostra a relação do professor Salzano com outras áreas de conhecimento de estudo que não necessariamente era a sua área principal.   DENT: Então hoje, no dia 22 de julho de 2014. Eu sou Rosanna Dent, doutoranda  em História e Sociologia das Ciências na Universidade de Pensilvânia. E tenho  o prazer de conversar hoje com o professor Sandro Bonatto da Universidade, da  PUC. Estamos aqui no campus da PUC hoje em Porto Alegre. Então, professor,  muito obrigada por seu tempo. [risos]    BONNATO: Não por isso.    DENT: Eu queria iniciar só pedindo para você nós fazer um apanhado do seu  interesse na Genética. Quais eram os impactos, o âmbito familiar, de criança,  que primeiro se interessou na ciência? [risos]    BONNATO:[Certo] Então-- Bom, eu venho de uma família, de uma cidade muito  pequena do interior do Rio Grande do Sul. Então, depois a gente veio aqui para  Porto Alegre para estudar na Universidade e tal. E--Na verdade, eu, meu campo  inicial, meu interesse inicial em ciência nem era tanto Genética, na verdade,  né? Eu sempre gostei muito de ciências, a gente-- Meu irmão é professor de  Física e de Astrofísica ali na universidade federal também, então na nossa  família sempre teve um interesse em Física. Apesar de os meus pais, na  verdade, nem terem educação, muitos anos de educação. Eles eram do interior  e tal, mas sempre achavam importante isso. E um dos motivos por que que a gente  veio para capital foi exatamente para permitir que a gente estudasse em bons  colégios, para poder depois fazer uma boa universidade. Então a gente sempre  teve muito interesse em ciência. E ele foi para área da Física e eu gostei,  gostava muito de Biologia e tal, então resolvi fazer, trabalhar com Biologia.  Mas não sabia exatamente qual área, em quê da Biologia, né?    E no começo, eu me interessei muito, e tanto que durante a graduação, eu  comecei a trabalhar com Zoologia, com animais. Mais especificamente com insetos,  entomologia. Então durante toda a minha graduação, eu trabalhei com a parte  de insetos. E tive disciplinas de Genética, mas eu não gostei da Genética na  época. E o motivo é que eu comecei a estudar... Quando comecei a ler muitos  livros e começar a ter uma ideia do que que era a Biologia, quais as áreas  mais interessantes, eu gostei muito de evolução, então comecei a ler  pessoalmente muito sobre evolução. E na época, a Genética tinha muito pouco,  pelo menos as disciplinas da graduação, tinham muito pouco de evolução. Era  muito, e principalmente, o que tinham de evolução era mais essa  microevolução, assim, genética das populações clássicas, de equilíbrio de  Hardy-Weinberg. E eu não me interessava muito por aquilo. Eu não via muito  evolução na Genética. Conversando com meus professores, impressão que  ninguém fazia-- Não conhecia o Salzano ainda. O Salzano não dava aula para  gente. Eu não conhecia ninguém que fizesse evolução no sentido mais-- Na  época, não se trabalhava muito com evolução, microevolução então-- Não  me interessei por nenhum grupo que pudesse, de pesquisa, no departamento de  Genética, que tivesse fazendo alguma coisa que me parecesse mais evolutiva,  né? Era muito microevolução e tal, e não me interessei muito. E aí  continuei na Zoologia, né?    Mas sempre estudei muito, sozinho, a parte de filogenia, de evolução de  grandes grupos. Me interessava por essa área e achei que a Zoologia era o  melhor caminho, assim, né? Para fazer isso. Depois, eu acabei continuando nessa  área, e durante o mestrado, eu fui fazer mestrado em entomologia, em  sistemática de insetos. E é isso que eu fiz durante [risos] o meu mestrado.  Mas eu realmente sempre lia muito e me interessava muito pela parte da  filogenia, a parte da evolução da sistemática. Não tanto a descrição de  espécies, a parte mais tradicional da taxionomia, mas mais me interessava mesmo  pelo aspecto evolutivo.    Bom, e estava, assim, trabalhando com isso e etc. Mas como eu gostava dessa  parte de filogenia e estudava sozinho, quando eu estava fazendo mestrado lá na  faculdade de Curitiba, no Paraná, eu conhecia várias pessoas e tal, e aí  conheci uns professores da Genética lá de Curitiba. E aí eles disseram: &amp;quot ; Pô,  a gente não tem ninguém aqui, no departamento, que trabalhe com a parte mais  de filogenia e evolução&amp;quot ; . E aí me convidaram, disseram: &amp;quot ; Não quer dar uma  palestra sobre como usar dados genéticos para fazer evolução e filogenia já  que a gente não tem nada, ninguém aqui?&amp;quot ;  Eu, aluno de mestrado, né? Mas  gostava muito disso e disse: &amp;quot ; Tudo bem, posso fazer, mas vou ter que ler um  pouquinho. Deem alguns, uns dois meses para eu ler mais sobre isso.&amp;quot ;  Que eu  realmente na época não estava, não estava lendo muito sobre a parte dos dados  genéticos. Eu achava que não tinha muito, não tinha muita conexão. E aí  comecei a ler, né, peguei alguns artigos.    Nesse sentido, foi aí que minha vida mudou em termos de carreira científica.  Porque eu comecei a descobrir artigos recentes que estavam saindo sobre  filogenia. Filogenia molecular usando dados de DNA, que eram, estavam recém  saindo na época, né? para fazer estudos dos insetos mesmo, entre outras  coisas. E junto com isso eu descobri estudos, os mesmos estudos que estavam  também na época de evolução humana usando DNA mitocondrial. Que foi aquela,  na época lá, da década de 1980. Começo da década de 80 com Mark Stoneking  lá, né? Pessoal do Wilson etc.    E aí isso, aquilo ali me fascinou totalmente, porque aí eu vi que realmente o  que eu... Como eu me interessava muito por evolução, e também por processos  evolutivos, mas mais a longo prazo assim, história evolutiva de populações  mais a longo prazo... E quando eu comecei a ver aqueles artigos, que eles faziam  exatamente o que me interessava... Não só a filogenia de como os grupos  evoluíam dentro e entre os continentes, mas a gente poderia também trabalhar  com tamanho da população e estimar rotas migratórias e tal. Realmente eu não  imaginei que desse para fazer isso, porque na época-- Aí eu, de certo modo,  parei a minha tese de descrição de insetos e coisas assim e comecei a ler  centenas de artigos, não só para fazer a palestra, mas principalmente porque  aquilo era realmente o que me fascinou muito.    Então com isso, eu descobri que, sim, dava para fazer muitos estudos  interessantes de evolução usando dados moleculares de DNA. E essa área  principal seria a área da Genética e tal.    Bom-- Eu já estava pensando em fazer um doutorado no exterior, nos Estados  Unidos basicamente, né? E aí nessa época então eu fui, contatei vários  pesquisadores nos Estados Unidos para tentar, né, me candidatar a um programa  de doutorado. Por vários motivos, eu acabei sendo selecionado e acabei  escolhendo ir para Nova Iorque, para a Universidade de Nova Iorque, lá que  fazia... Na época, eu não achava que eu poderia trabalhar no doutorado, pelo  menos sozinho, fazendo um estudo de evolução humana. Pelo menos não de  indígenas, porque não conhecia ninguém aqui, assim, diretamente. Não tinha  amostra, não tinha nada. Aí eu resolvi trabalhar mais com a parte de filogenia  molecular mesmo no primeiro momento de doutorado e aí Nova Iorque era um ótimo  lugar. Por causa [inaudível] americanos e tal, que é centro dessa área.    Muito bem, aí fui fazendo isso, estava acabando o mestrado, e aí apliquei para  uma bolsa do CNPq, essas de doutorado integral. E obviamente demora vários  meses até esse processo se concluir, normalmente. Em situações normais.  Então nesse tempo que eu estava finalizando o mestrado, até sair as respostas  e até as coisas burocráticas se encaixarem, eu-- O pessoal daqui da Genética  de Porto Alegre, mas a maioria do pessoal trabalhava com... Não sei se tu  conheceu, deve ter ouvido falar da Helga Winge, que trabalhava com plantas e  tal, né? Ela me convidou para ficar alguns meses aqui em Porto Alegre, nesse  intervalo antes de ir para o exterior, para ensinar e ajudá-los a fazer  filogenia com dados moleculares que eles estavam obtendo, né, com as plantas. E  também não tinha muito conhecimento. Eu disse: &amp;quot ; Tá, ótimo, volto para Porto  Alegre, fico alguns meses aqui e, né, me preparo para quando sair da bolsa,  sair tudo direitinho, eu vou pros Estados Unidos.&amp;quot ;  Bom, vim, né?    E aí, que que aconteceu? Aconteceu um desses planos econômicos brasileiros...  Na época de hiperinflação, teve vários planos econômicos tentando resolver  o problema da hiperinflação. E um desses planos, justamente nessa época, fez  foi que o governo congelou, né? Assim, bloqueou o uso de verbas, diminuiu  durante, sei lá, não me lembro quanto, muitos e muitos meses. Então, eu  recebi a notícia que eu tinha ganho a bolsa integral, só que ela não seria  liberada agora. Seria liberada dali a vários meses, quando o governo voltasse  de novo a liberar verbas etc. E aí eu fiquei mais tempo em Porto Alegre do que  eu estava esperando, né? Fiquei esperando eles liberarem. Eles disseram: &amp;quot ; Tá  certo, tu ganhou a bolsa integral, não tem problema, só que em vez de sair  agora, deve sair daqui a vários meses até quando as coisas funcionarem.&amp;quot ;     DENT: Isso foi em qual ano?    BONNATO: Boa pergunta. Foi 1987, eu acho. É, acho que 1987. Exatamente. Acho  que é, é. Foi mais ou menos por aí. 87, 88. Acho que foi perto de 87.    E bom, então aqui em Porto Alegre, comecei a frequentar o departamento, né? E  conhecer as pessoas, conheci o próprio Salzano, que eu não conhecia  pessoalmente. Mas ainda estava tranquilo assim na ideia de fazer meu doutorado  nos Estados Unidos com outras coisas. Parte molecular, evolução, mas não com isso.    Só que aí eu conheci a Loreta. [risos] Que estava aí, e aí a gente começou  um relacionamento, começou a namorar e tal. Mas assim, a gente realmente  acertamos o nosso relacionamento, tipo um mês antes, um mês assim. Aí um mês  depois o CNPq me disse: &amp;quot ; Pronto, está aí a bolsa, pode ir pros Estados Unidos  a hora que quiser fazer o doutorado integral&amp;quot ; . E aí ela não tinha como, ela  estava no meio do mestrado, tinha família e tal. Fiquei naquela e disse: &amp;quot ; Não,  não vou&amp;quot ; . [risos] Vou apostar no meu relacionamento pessoal e não, não nisso  que eu queria já há muito tempo e tal. Estava tudo certinho, mas aí acabei  desistindo da bolsa.    E eu resolvi ficar então em Porto Alegre, né? E aí, bom, eu tinha que fazer  alguma coisa. Dessa convivência com o Salzano, com o pessoal, eu disse: &amp;quot ; Ah,  vou, vou tentar retomar aquele interesse que realmente me fascinou de estudar  evolução humana usando dados. Mas dados de DNA, dados de sequenciamento  mitocondrial naquele momento, coisa que o pessoal não fazia ali. E vou propor  para o Salzano então, e ver se ele me aceita no doutorado para fazer isso. Aí  ele já me conhecia, e aí ele disse: &amp;quot ; Não&amp;quot ; .    Mas ele disse: &amp;quot ; Não, não para isso. Eu tenho uma proposta para ti que--&amp;quot ;  E  assim como me lembro da... Eles fizeram, ele e a Sidia fizeram, foi doutorado da  Sidia durante-- Um levantamento de todos os estudos de genética de  populações, de indígenas, nativos americanos etc, que saiu aquele livro. Ele  disse: &amp;quot ; Eu quero fazer a mesma coisa para populações urbanas. Estudos de  populações urbanas etc. que tem muita coisa, quero que tu compile e vamos  fazer um livro sobre isso&amp;quot ; . Aí eu disse: &amp;quot ; Não&amp;quot ; . [risos] &amp;quot ; Não estou  interessado nisso, em populações urbanas, em questões de miscigenação e de  coisas, assim, de que acontece. Meu interesse é realmente entender a evolução  mais a longo prazo, questões de povoamento das Américas, como é que os  índios chegaram aqui, como é que os humanos evoluíram. Não, isso eu não  quero.&amp;quot ;  [risos] &amp;quot ; Aí e eu quero fazer isso, eu quero fazer com DNA mitocondrial,  como o pessoal lá dos Estados Unidos está fazendo, e entender etc etc.&amp;quot ;  E ele  me disse: &amp;quot ; Ah, mas a gente não tem nada aqui, não tem laboratório para  sequenciamento de DNA, não tem, não tem condições.&amp;quot ;  Bom, aí eu disse: &amp;quot ; Tá,  eu monto. Faço. A gente faz essas coisas, né? Vamos fazer.&amp;quot ;     Então, então o que eu acabei fazendo é estudando um monte de, assim, dessa  parte de montar o laboratório, de comprar, de começar a comprar coisas  simples, e aprender todas as técnicas de sequenciamento, e toda parte  molecular. E minha experiência era de secar insetos e fazer desenho para  descrever espécie. E a parte mais de fazer filogenia. Mas na prática mesmo, eu  nunca tinha trabalhado com nada de molecular e ninguém no departamento  trabalhava com a parte de DNA e sequenciamento. E aí, bom, e aí foi um longo,  demorou bastante, porque a gente, na época no Brasil era muito difícil ainda.  Conseguir equipamento do exterior, levava muitos meses para importar. Não  tinha, era muito caro. Então a gente tinha que inventar, a gente mesmo  inventava. Ia numa vidraçaria, comprava vidros para fazer sequenciamento e, ou  seja, a gente meio que inventava as coisas. Que dava para fazer. Com pouco  dinheiro e as poucas condições de importação que se tinha e demorava muito  tempo. Então, demorou bastante para conseguir montar um sistema de  sequenciamento que funcionasse razoavelmente bem, né? E aí quando a gente  conseguiu e tal, Salzano concordou, disse: &amp;quot ; Tá bom, já que tu insiste.&amp;quot ;   [risos] &amp;quot ; Não desiste, então vamos fazer, né? Vamos. Concordo&amp;quot ;  e tal.    E aí começou o meu estudo mesmo, a parte de estudar a evolução humana,  principalmente questão do povoamento das Américas usando dados de DNA, dados  genéticos moleculares.    DENT: Poderia voltar um pouco para falar um pouco mais sobre o contexto, assim,  a experiência na graduação? Como era, assim, aquele momento, estar na  universidade? Ainda estava no final da ditadura, né? Tinha algum efeito, como  era a vida diária dentro da universidade?    BONNATO: Então, era o final da ditadura. A gente sabia, obviamente, que tinha  ditadura e tal. E era assim... Eu não senti nenhum tipo de problema pessoal e  nem na Biologia. Porque a Biologia, eu imagino que nas Ciências Sociais,  nessas, né? Nessas áreas talvez pudesse ter bem mais problemas e mais  questões assim relacionadas ao que podia e não podia estudar talvez e outras  coisas. Na Biologia, não tinha, a gente não sentia nada em relação à  pesquisa em si. O ambiente da universidade... A gente não sentia, eu não  sentia nenhum problema. Mas obviamente de vez em quando aparecia.    Tinha um pessoal desconfiava que um que outro aluno pudesse ser um informante do  exército, pela maneira que ele se vestia. Mas assim, nunca foi provado nada, de  vez em quando tinha algumas manifestações relacionadas à questão do retorno  da democracia.    Eu me lembro--Um momento muito assim, que ficou mais claro para mim isso, foi  naquela época, se fazia uma reunião, tipo um mini congressinho de estudantes  de Biologia. Que depois acabou, mas era muito famoso na época. A gente ajudou a  organizar inclusive um ano e tal. Nessa época, a gente convidou principalmente  estudantes do Uruguai. Acho que vieram alguns da Argentina, mas vieram muitos do  Uruguai. Então Uruguai também, né? Também estava sob regime da ditadura, então--    Eu me lembro de uma das festas que se teve. Na época dava para fazer festas  dentro da universidade, nos bares da universidade e tal. Se vendia álcool e  coisa que hoje em dia não pode, né? E então, tinha festa e aquela coisa e o  pessoal começava a cantar assim: &amp;quot ; Vai acabar, vai acabar a ditadura militar&amp;quot ; ,  em espanhol assim, né? Então eu via assim realmente era um problema, era uma  coisa comum a todo mundo. A todos nós. Mas não afetava diretamente.    Acho que realmente a ditadura estava no final e na nossa área não tinha nenhum  problema acadêmico diretamente. Então não, assim, não sentia, não sentia  nenhum tipo de repressão a qualquer coisa que a gente fizesse. Obviamente, eu  nunca fui, não estava ligado em nenhum movimento que pudesse de repente ter  pessoalmente alguma-- Sentir alguma repressão maior. Obviamente, o pessoal mais  da área mais ligado mais à política, dos diretórios acadêmicos, falavam  mais, mas realmente acho que era-- Como eu entrei na universidade em 1980, e em  1980 já não tinha mais muita--    DENT: Já bem mais tranquilo-- [risos]    BONNATO: É, já estava bem mais tranquilo. E como eu disse, na nossa área,  não tinha muito-- Então nesse sentido, não teve, não senti nenhum problema.    DENT: Teve alguma pessoa, algum professor, algum colega, alguma experiência que  foi muito marcante na graduação para, assim, confirmar que você queria ser cientista?    BONNATO: Olha, nenhum em especial, na verdade. O que me marcou, na verdade  mesmo, que eu vi que era isso que eu queria, foi... No começo, acho que é  muito comum. No Brasil, pelo menos, é muito comum isso. Vejo pelos meus  próprios colegas e pelas conversas depois. Nos primeiros meses a gente não tem  certeza se é aquilo mesmo que a gente quer, né? Porque as disciplinas,  principalmente naquela época, as disciplinas iniciais, o primeiro semestre,  segundo semestre, primeiro ano eram muito disciplinas não da área da Biologia  mesmo. Tinhas que fazer outras, Matemática, Química, Física... E coisas  básicas e tal. Então a gente sempre ficava em dúvida. Então nos primeiros  meses, no primeiro ano a gente muitas vezes fica em dúvida. Naquela época, eu  não fazia nenhum... Normalmente, no primeiro ano, não se faz estágios de  pesquisa. Não fazia estágio nenhum e nem sabia que área. Por exemplo, se  fosse fazer pesquisa, que área eu fosse fazer.    Mas o que realmente me marcou foi quando eu conheci a biblioteca. Da  universidade. E aí eu comecei a olhar, eu ia na biblioteca, comecei a ir nas  estantes. As bibliotecas não eram muito grandes. Não são muito grandes as  nossas, mas... Bom, tinham muitos livros antigos e tal. Comecei a olhar os  livros, comecei a ver as lombadas dos livros, aí lá, livro do Darwin de  evolução e outros livros e tal. E só lendo os títulos, já olhava assim:  &amp;quot ; Isso eu quero dar uma olhadinha&amp;quot ; . Aí comecei, começava a olhar os livros. E  depois os artigos, os periódicos.    Mas eu não sabia inglês. Na verdade, né, nossa... O ensino de inglês era  muito ruim. Então não sabia inglês o suficiente para ler um livro normalmente  nos primeiros meses. Aí eu disse: &amp;quot ; Não, vou ter que ler isso&amp;quot ; . Aí eu pegava o  livro, pegava o dicionário. Ficava lendo horas a fio os livros e em, sei lá,  dois, três meses, já estava lendo normalmente. Pelo menos a leitura já nesse  primeiro momento de livros técnicos assim. E aí, assim, eu vi que cada vez eu  queria ler mais e lia outro livro com outro nome interessante de evolução não  sei o quê, ou de alguma coisa interessante. E aí eu vi que realmente eu queria  entender aquilo, queria saber como é que funcionava, queria. Tudo que estava  ali eu estava interessado em entender.    E as bibliotecas nossas, não sei se ainda... A biblioteca da Biologia na época  era separada em duas partes. A parte dos livros e uma segunda parte dos  periódicos. Num primeiro momento, eu nem sabia que existia a parte dos  periódicos, onde se fazia, onde tinham os artigos científicos. E aí um dia eu  passei aquela barreira que tinha lá e comecei a ver os periódicos. E também  comecei a folhear e ver o que que tinha, as áreas de interesse, e aí vi mais  ainda. E aí vi não só o livro, que é o produto final, mas os artigos mesmo.  Como que as pessoas faziam, que tipo de experimento, que tipo de análise, que  tipo de perguntas se poderia fazer. As várias áreas de evolução,  principalmente. E aí eu vi que realmente tinha um campo muito grande.  Evolução de comportamento, evolução de não sei o quê, toda essa parte...    Então, o que realmente me mostrou que eu... para dizer que eu realmente queria  ser cientista, eu vi que eu queria entender tudo aquilo, queria saber, queria  aprender cada vez mais e que eu tinha facilidade. Eu lia, via a metodologia,  aprendia e via como é que funcionava, já queria aplicar e já. Ir atrás e  pegava as referências, ia atrás... Então eu vi que realmente, assim, me  parecia que eu, que a minha mentalidade era bem apropriada para pra estudos  científicos, né? E aí realmente eu comecei a ler muito, ficava horas lendo na  biblioteca livros e periódicos gerais assim, tentando... Li tudo que me  interessava. Como eu não fazia nenhum estágio naquele primeiro ano, um ano e  pouquinho, eu tinha liberdade para pesquisar o que eu quisesse. E não aquilo  que, sei lá, mais apropriado da minha, do estágio que fosse fazer. Então,  então realmente, comecei a.... Li de tudo, li, lia livros de evolução de modo  geral, de sistemática, de métodos de filogenia, evolução do comportamento.  Comecei a ler coisas. De interesse. Eu acho que para mim isso foi muito bom,  porque me abriu bastante, né? Lia e via métodos, e perguntas de todas as áreas.    Então quando eu fui fazer meu primeiro estágio, que no fim, virou um estágio  até o final. Que é sistemática de insetos, taxionomia de insetos. Pessoal do  laboratório só via aquilo, pegava os insetos e via os artigos, os artigos de  1800 e tanto, 1700 que descrevia as espécies. E aí via se era uma espécie  nova ou não, desenhava e tal, descrevia. E eu ficava lendo métodos de  filogenia, evolução do comportamento e tal. Além de toda teoria da  sistemática e [inaudível] na época, [inaudível] filogenética. Porque eu já  tinha começado, já tinha um conhecimento e aí me interessava por essas  questões mais de metodologias modernas e processos e etc.  DENT: Depois de fazer  o mestrado, assim, sobre uma coisa animal, específico, filogenético, né? Como  era a transição para a área de genética humana?    BONNATO: Sim, a parte humana. Olha, como é que eu posso dizer? Eu, assim, em  termos científicos, eu não-- Muita gente me pergunta quando eu digo: &amp;quot ; Ah, eu  sou entomólogo, eu fiz mestrado em entomologia, com sistemática de insetos  e--&amp;quot ; . &amp;quot ; Como que mudou tanto?&amp;quot ;  Na verdade, para mim, em termos, pensando  intelectuais, científicos, não foi uma mudança muito grande.    Eu me interessava por evolução, filogenia de organismos. Os humanos, nesse  sentido, eram mais um organismo, ou seja-- Passar de inseto para humanos só  muda o organismo, mas as perguntas não eram necessariamente muito diferentes.  Nesse sentido, não foi uma transição tão grande assim. Agora claro, a  diferença é que o grau de conhecimento que se tem, de perguntas. A evolução  humana em relação ao que se tem qualquer outro organismo, é totalmente  diferente. Então nesse sentido, o detalhamento que se pode obter em termos  técnicos, científicos, é muito maior. Então, eu vi que enquanto que para  estudar filogenia de um grupo qualquer não existia praticamente nada, em  humanos tem que ler uma quantidade muito grande-- Conhecer muita coisa que tem,  milhares de estudos de várias áreas diferentes etc.    Agora, eu acho que talvez, assim, a transição, ou o impacto não tenha sido  tão grande, porque na verdade, eu não trabalhava com os humanos mesmo. Essa  talvez seja... Eu nunca tive contato com tribos indígenas ou com populações,  com as pessoas mesmo, certo? Então, eu trabalhava com sangues, com DNA que  tinha ali. E como meu interesse era mais de povoamento, ou seja, uma coisa de  quinze, vinte, vinte e tantos mil anos atrás, nem as populações atuais, na  verdade, me interessavam tanto. Eu não estava interessado em entender como os  Xavante, ou como os Suruí, ou como, sei lá, evoluiu especificamente. Na  verdade, representavam amostras de uma história bem mais antiga. Então, e eu  não tendo esse contato direto com as pessoas... Não, assim, nesse sentido,  realmente, era mais um organismo. Se fosse sangue, ou se fosse DNA de humano,  DNA de inseto, em termos científicos, não fazia diferença.    A única diferença é que, obviamente, aquela espécie, a espécie humana, tem  muito mais informação, então as questões são muito mais amplas, muito mais  interessantes. Mas em termos práticos mesmo, não, a minha transição não foi  tão grande. Porque não tive, não tinha que ir nas tribos e conhecer e obter  os resultados, interagir pessoalmente e tal. Então, nesse sentido, não teve--    Acho que imagino que quem tenha passado de uma área de lidar com um  invertebrado, um organismo que não tem praticamente interação nenhuma e  passar para estudar evolução humana ou genética humana, mas interagir  diretamente com as pessoas... Deve ter sido-- É muito diferente, acho, que da  minha experiência. Então, nesse sentido, não teve realmente muito impacto  assim. Não estudando também tanto as populações em si. Também faria-- Acho  que se eu tivesse, se o meu estudo fosse mais voltado a entender uma tribo. Aí  possivelmente teria estudado mais questões de comportamento, mais  antropológicas mesmo. Então, mas como não era, não é o meu interesse  científico, então, aí tinha milhares de coisas para estudar. Mais técnicas,  então no fim, eu acabei não, acho que não tendo essa transição muito  radical. Eu imagino que talvez a Maria Cátira ou outras pessoas que têm mais  contato com questões mais de comportamento ou mais éticos, de repente, isso  possa, sem dúvida, ter mais. É bem diferente da minha experiência, que foi  mais realmente como um objeto de estudo. Do que como entender aquelas pessoas mesmo...    DENT: Poderia explicar um pouco mais sobre a tese de doutorado? Assim, já fez  todo o trabalho para montar o laboratório e aí iniciou o trabalho com DNA  mitocondrial. Poderia explicar um pouco mais o estudo, que que era, qual era o impacto?    BONNATO: Então, o meu objetivo, que eu tinha dito para o Salzano, é que eu  queria realmente entender e estudar o processo de povoamento das Américas.  Então para isso a gente precisava gerar e ter informação do máximo possível  de populações. De onde tivesse o material. Mas naquela época, era tudo muito  difícil. Tanto gerar os dados, quanto obter informações, e não tinha  internet, computadores eram um horror-- A gente nem tinha computador pessoal.  Então assim, então foi um processo bem mais longo do que a gente esperava.    Ou seja, só para gente, uma comparação-- Eu fiz, fiquei quatro meses no  laboratório do Mark Stoneking, lá na Pensilvânia, na Penn State. Então,  naqueles quatro meses, eu, na verdade, interagia com muita gente, fiz um monte  de coisas da parte mais de análise, um monte de coisas. A parte do laboratório  mesmo, de gerar os dados, eu demorei mais ou menos um mês, se tanto, para  fazer. Então, naquele um mês, eu fiz mais do que quatro anos aqui no Brasil.  Pelas condições, né? Ou seja, lá bastava, assim, o material estava sempre  ali, não tinha que esperar meses para vir um material radioativo, que ficava  semanas de alfândega, e aí já tinha que ter-- Conseguir outro, porque já  tinha decaído-- O filme que a gente usava lá era um filme que em dois dias o  material, o sequenciamento saía. Aqui no Brasil, precisava de um mês. Porque  era um filme de baixa qualidade, então para ter a informação, precisava de um  mês. Ficar a radiação atuando no filme. Então, assim, as coisas foram  extremamente mais demoradas. Muito demoradas.    Mas aos poucos, a gente foi obtendo informação, eu fui entendendo toda parte  de análise, da metodologia, de como analisar, inventando coisas e fazendo--  Porque era uma área muito nova, essa área de análise mais populacional, de  usar o DNA mitocondrial para questões como essa assim. Relativamente recente. E  não usar, não só a filogenia, aquela árvore da relação entre as  moléculas, mas também dali tentar entender quando que foi o processo de  colonização, de expansão populacional e etc. Coisa que realmente não era  muito comum na época. Pessoal fazia aquelas coisas mais clássicas. Fazia  filogenia dos humanos como um todo, estimar alguma coisa de quando que era a  raiz da árvore, ou saber quando os humanos, a espécie humana surgiu etc. Mas  essa parte mais populacional e bem mais recente era novidade, então a gente  estava, a gente tinha que inventar coisas, imaginar e tentar usar aquela informação--    Tinha que pegar sequências que estavam publicadas e escrever manualmente lá no  computador, porque não tinha um GenBank com as sequências para gente baixar na  hora e analisar. Tinha que escrever, pegar sequência mesmo de algum trabalho  publicado. Cada um publicava de uma maneira diferente, então tinha que tentar  ainda juntar as coisas e, como eu disse, eu não tinha um computador pessoal na  época. Então tinha que usar um computador da faculdade de Física, que era um  computador velhíssimo e horrível. Então, muito demorado mesmo, muito  difícil. Mas no fim, fui juntando as informações-- Muita, tudo que eu pude  obter de DNA, de sequências, de populações americanas-- Mais de outras  populações, da Ásia, da Sibéria, principalmente, mas da Ásia, para fazer as  comparações--  [pausa] Deixa eu ver--    Que tem de interessante? Assim, num primeiro momento, tinha a grande questão  que tinha na época, era: &amp;quot ; Quantas ondas migratórias?&amp;quot ;  E o que prevalecia, na  época que eu comecei, era a hipótese, teoria das três ondas migratórias lá  do Greenberg. Que cada um dos grupos daqueles linguísticos teria vindo em  momentos independentes etc. etc. E era o que os primeiros estudos de DNA  mitocondrial do grupo do Wallace e outros diziam que sim, que era, comprovava e  que dados de DNA mitocondrial favoreciam essa hipótese. E eu não tinha nenhuma  hipótese. Queria saber o que que ia acontecer. Quando as primeiras análises  que eu fiz primeiro me mostraram que tinha mais, aquela história dos quatro  grandes haplogrupos, eu vi que tinha um quinto haplogrupo. Quando eu juntei,  tinha dois estudos diferentes que davam quatro grupos. Só que eles não tinham  comparado entre si. Quando eu peguei as sequências, anotei, fiz-- Manualmente,  entrei elas, e fiz, junto e vi que, na verdade, um dos grupos não era comum  entre eles. Então na verdade tinha um quinto grupo.    E depois, deixa eu ver-- Quando eu comecei a fazer as análises e comecei a  juntar uma grande quantidade de informação. Eu comecei a ver que esses  haplogrupos, cada um deles tinha uma estrutura muito semelhante entre si. Em  termos da profundidade e da diversidade dentro dos haplogrupos. E é isso que me  chamou atenção. Disse: &amp;quot ; Ah, mas não tem muito sentido isso, se os grupos  vieram em momentos diferentes, não deveriam ter a mesma idade, a mesma [inaudível]&amp;quot ; --    Mas quando o pessoal fazia as primeiras análises, eles pegavam uma tribo ou um  conjunto de tribos, todas as mitocôndrias simultaneamente, faziam a filogenia e  estimavam quando que aquelas sequências mitocondriais nas populações  começaram a diversificar. E obviamente, como a diversificação, o pessoal  encontrava uma idade muito antiga e etc. E eles não conseguiam entender  exatamente como é esse, como é que podia, né-- Se era mais recente, como é  que podia ter um coalescência, uma idade de diversificação muito antiga,  então de repente não houve o bottleneck. E talvez a colonização seja muito  mais antiga ou então, tinha um monte de hipóteses.    O que eu me dei conta era que, se cada haplogrupo tinha uma diversidade  semelhante e uma profundidade semelhante, que talvez o que teria acontecido é  que cada, durante o processo de povoamento no primeiro momento, teriam  sequências, grupos diferentes. E que a diversificação tenha, dentro dos  haplogrupos, acontecido após a colonização. E que esses grupos, os ancestrais  desses grupos, na verdade, já vinha diversificado, ou já vinha pelo menos  separados antes do povoamento. E que estimar a idade de povoamento ou alguma  coisa assim com essa profundidade da relação entre os haplogrupos na verdade  estava estimando coisas que tinham acontecido na Ásia e não durante o  povoamento. E aí eu comecei a fazer umas análises, foi a primeira vez acho que  alguém fez uma análise da dinâmica de diversificação, não considerando  todas as sequências simultaneamente, mas separando para cada grupo. Cada um  deles tinha uma história, né? Até para ver se as histórias, se realmente era  correto que elas tinham vindo com um ancestral comum, cada uma delas  diversificado após... Elas tinham que ter uma história, padrões de  diversificação, de idade e etc. muito semelhantes. E foi, no fim, realmente o  que a gente encontrou.    Deixa eu ver-- Nessa época, eu estava, já tinha começado a fazer essas  análises, já tinha várias análises e uma coisa que achei interessante--  Então, eu estava descobrindo que existia uma evidência de que realmente todas,  pelo menos todas as populações que a gente analisou, da América do Sul,  América Central e América do Norte, tinham essa origem única, essa ideia de  uma origem única. Mas tinham alguns fatores que eram difíceis de explicar. Por  que que os esquimós e os atabascos [inaudível] tinham menos diversidade,  tinham só alguns haplogrupos e os daqui não? Que o pessoal achava que estaria  relacionado com questões de entrada em épocas diferentes.    Então nessa época, que eu já estava fazendo essas análises, que eu fui lá  para Penn State com o Mark, aí eles pediram para dar um seminário lá. O de  sempre, né? Aí, bom... Eu disse: &amp;quot ; Mas eu preciso explicar isso, preciso  explicar-- Preciso entender por que que tem acontecido essa, esse padrão aqui.&amp;quot ;   Estava lendo durante bastante tempo, muita informação. Realmente a biblioteca  lá era milhares de vezes melhor do que a nossa aqui, então tinha muito mais  artigos e artigos mais antigos e de outras áreas mais antropológicas. Que a  gente não tinha muito aqui. E aí eu comecei a ver um monte de informações  interessantes que me ajudaram a perceber alguns fatores que foram importantes  pra, na época, explicar toda essa hipótese de processo. Uma delas, que essa  ideia de que o berço, digamos, da diversificação da população ameríndia  era a história da Beríngia. De que eles não simplesmente vieram da Ásia,  cruzaram e passaram, né? Mas essa noção de que eles ficaram durante alguns  milhares de anos no que seria a Beríngia antes, diversificando. Quer dizer, no  primeiro momento, possivelmente diminuindo a população, mas depois  diversificando, criando essas mutações exclusivas nas Américas etc. Antes de  alguma maneira, passar lá, as geleiras, seja pela costa...    Na época, eu achava que era naquele espaço, naquele corredor aberto lá entre  as geleiras, porque na época as estimativas de tempo de diversificação davam  mais antigas que 20 mil anos. Então a melhor explicação era ter vindo do  meio. Mas depois com os genomas mitocondriais que a gente sequenciou e fez  análise, o tempo de entrada no continente já estava mais próximo de 18 mil  anos. Então agora a gente já sugere que seja pela costa quando as geleiras  estavam já começando a retrair, né?    Mas essa noção, para mim, foi muito importante, na época quando eu li alguns  artigos, aquela da [inaudível], do [inaudível], que no outro contexto falava  de que talvez os--pudessem ter ficado algum momento ali e tal. E aí eu vi:  &amp;quot ; Não, essa realmente é a melhor explicação.&amp;quot ;  A ideia de que a Beríngia foi  realmente um lugar em que os ancestrais dos ameríndios ficaram durante muitos  milhares de anos diversificando e criando e, com isso, acumulando algumas  mutações exclusivas antes de fazer essa passagem realmente para o continente e  colonizar o continente todo, né? E aí que eu criei essa noção do  [inaudível] Beríngia. Ideia de incubar na Beríngia e depois só diversificar  e [inaudível] simplesmente passar direto da Ásia para América e assim--    DENT: Quando você estava fazendo as análises em Penn State, tinha levado  material biológico do Brasil para analisar lá? Ou estava trabalhando com  amostras lá na Penn State, ou eram as duas coisas?    BONNATO: [Sim, sim. Não.] Não, lá, eles não tinham... Eu acho que eles  tinham amostras do Neel. Mas não, não trabalhei-- Eu levei DNA. Depois eu  trouxe de volta tudo. DNAs e soro, daquelas amostras antigas do Salzano de  várias populações diferentes que ele tinha aqui. E aí lá eu sequenciei  alguns dessas, algumas dessas amostras. Assim, só as nossas... E aí depois  trouxe de volta, não trabalhei com nenhum material biológico deles lá. Na  época. Até porque, o material era-- Segundo eu me lembro que o Mark falava e  tinha uma pessoa que estava lá trabalhando, tentando resgatar, na época-- As  condições eram muito mais precárias que hoje, eles não estavam conseguindo  usar essas amostras muito antigas, que só tinha soro, que já tinha congelado e  descongelado dezenas de vezes por vários motivos ao longo de décadas--E não  estava conseguindo resgatar esse material para poder fazer alguma coisa de--Mas  os nossos aqui eram, a gente tinha DNA que o Salzano, de algumas amostras de  populações mais recentes que ele tinha coletado e a gente tinha extraído o  DNA mesmo, então já tinha um DNA de boa qualidade, esse deu para sequenciar.  Mitocôndria lá, parte da mitocôndria e alguma coisa que eu consegui fazer  desses soros mais antigos, mas no fim esses foram muito pouco, então não  realmente--A qualidade estava muito ruim, não deu para fazer praticamente nada.  Acabei usando mesmo foi essas sequências dos Suruí, [inaudível], Xavante e tal.    DENT: E como era o processo regulatório, imagino que deve ter sido complicado  levar amostras biológicas ou--    BONNATO: Na verdade, eu-- Não foi complicado, não. Mas eu teria que perguntar  para o Salzano. Na verdade, essa parte foi ele que-- [pausa] Não consigo me  lembrar como é que foi exatamente. Na época, 1994. A gente começou isso em  93. Não tinha, a regulação era muito mais, não era tão estrita como é  hoje. Então, Salzano tem várias licenças de estudo etc. Então eu acredito  que-- Não me lembro de ter sido-- Como seria hoje, extremamente penoso. Mas eu  tenho impressão-- Eu não me lembro de ter feito nada. Assim, né? Então acho  que, na verdade, quem fez, que levantou o que era necessário e cuidou disso  certamente foi o Salzano, que tinha todas, tem as licenças--Era o responsável  pelas amostras assim. Então na época foi tranquilo. Pelo menos não me impediu  de fazer o estudo e trazer de volta e tal, o material todo.    DENT: E tinha que passar por algum processo na universidade para aprovar o projeto?    BONNATO: Não. Na época, não precisei. Mark não me pediu nada, nenhum tipo  de-- Não.    DENT: Assim, chegou como um pesquisador visitante na Penn State e participou na  vida do departamento?    BONNATO: [É, isso.]. Exatamente. Deixa eu ver se tinha alguma-- Pensei numa  coisa, deixa eu pensar o que que era. [pausa] Não, lá não tive que fazer  nada. Obviamente, eu acho que-- Não me lembro, mas eu acho que devo ter  apresentado para o Mark ou coisa assim. Tipo, cópia da licença que o Salzano  tem, né? Que é o que ele sempre usa, de estudo dessas amostras antigas de  biológicas aí daquelas populações. Então eu acho que eu devo ter  apresentado para ele, mostrando que né? Mas nem tenho certeza, porque afinal o  Salzano é tão conhecido, né? E tão respeitado. Mas possivelmente, sim, mas  não precisei fazer nenhum, assim, não precisei-- Esse projeto não precisou  passar por nenhum    DENT: Comitê de Ética--    BONNATO: [Comitê...] é, não, lá na Penn State, não. Até porque na  verdade-- É, na verdade, é isso, só uma pequena parte assim, né? Do projeto  em si. Eu sequenciei algumas amostras lá. E meu projeto mesmo foi uma grande  quantidade de, na verdade, foi principalmente de analisar dados já publicados.  Se eu pegar-- Não me lembro agora, mas acho que deve ser uns 20% de toda  minha-- As análises do trabalho da minha tese e tal foi de coisas que eu  sequenciei. Na grande maioria, enfim, foi coisas que já estavam publicadas,  né? ue não tinha com-- essas amostras todas, todo esse material. De América  Central, América do Norte, Ásia, tudo isso compilei para fazer a análise,  essa análise completa. Então não tive, não, lá não precisei passar por nada.    DENT: E na UFRGS, para ter aprovação da proposta, do projeto de tese, tinha  que passar por um comitê no departamento para ter uma aprovação do projeto?    BONNATO: [Sim, o científico...] Era assim-- Como se fosse qualquer outro  organismo. Ou seja, fiz o projeto, passou pela análise da avaliação do  projeto pela qualidade científica do projeto e aí a gente colocava lá  que--Que as amostras e etc., o Salzano tem aquela licença de estudo para essas  amostras e foi só. Não precisou passar por nenhum comitê de ética de--Porque  na época, não tinha. Que eu me lembro, acho que só tinha para estudos, nem  sei se tinha, mas imagino que para estudos--    DENT: [inaudível] em 96, então não tinha um comitê de ética.    BONNATO: Isso. É, exatamente. Então, não tinha isso e acho que para parte de  Genética, de evolução, mesmo que tivesse, nem sei se naquela época, ainda  seria-- Teria que passar por esse. Talvez 96 né? Mas então, não tinha. Então  realmente foi só avaliação científica, técnica. Não de ética.    DENT: Mas eles fizeram comentários? Eles retornaram algumas coisas para mudar?  Como era esse-- Assim, não falando da parte ética, mas toda parte de aprovar  projeto. Como foi-- Lembra como funcionava?    BONNATO: [Sim, sim] Acho que como-- Como é-- Bá, deixa eu me lembrar como é  que era. Tem tantos processos diferentes. [pausa]    DENT: Já estava aprovado com o CNPq para uma bolsa local? Já que não aceitou  a bolsa internacional.    BONNATO: É, aí funciona, aqui no Brasil funciona normalmente assim-- &amp;quot ;   Programa de pós-graduação tem uma cota de bolsas. Aí tu passa pelo processo  do Programa e no momento em que tu é aprovado, se tu tem uma classificação  que te permite pegar uma das cotas de bolsa, então, então assim... No momento  que tu entra no Programa-- No meu caso, eu precisava da bolsa. E no momento que  eu entrei no Programa, já tinha bolsa. E o Salzano tinha os projetos, em termos  de recurso e tal, os projetos dele. E aí eu me lembro que eu fiz um, usei esse  projeto meu que eu fiz, do povoamento e tal, e o Salzano, assim como ele usou  para conseguir verbas, assim como vários outros que ele fazia. Mas a gente na  época, tinha, acho que ainda tem. Eu acho que eu propus o projeto para entrar.  Um dos requisitos do processo de seleção para o doutorado é fazer um projeto  e aí faz uma avaliação. Depois, tem obviamente uma qualificação. Agora eu  não me lembro. [risos]    Porque agora já tem tanto dos meus alunos, a gente mesmo já mudou tanto aqui e  lá que agora tentando lembrar como foi a minha qualificação...[pausa] Não me  lembro, só me lembro da minha defesa de tese, que foi o atual reitor da USP.  Marco Zago foi um dos-- Mas a qualificação eu não lembro. Eu só me lembro  que o pessoal achou que era muito ambicioso. E que não, que não dava-- [risos]  Isso aí não é-- não dava para fazer. Não tinha como fazer, ainda mais um  cara que era entomólogo e que era especialista em entomologia. E-- mas não me  lembro assim, não me lembro como é que foi. Mas certamente teve algum tipo de  arguição na entrada. E depois em algum momento acho que teve a qualificação,  mas eu não consigo lembrar como é que foi a qualificação.    DENT: E durante o tempo que você ficou em Penn State, como era o ritmo diário  do trabalho? Como era aproveitar de só quatro meses lá para fazer--    BONNATO: [Sim, sim. Olha,] foi muito intenso. Eu trabalhava de manhã até o  último ônibus sair do campus para ir para o lugar onde é que eu morava. E  eu-- No começo, eu fiquei alguns dias na casa de uma brasileira que estava  trabalhando com Masatoshi Nei lá. Que era do Rio de Janeiro. E depois eu acabei  ficando na casa, no quarto de um grupo que trabalhava-- Um trabalhava com o  Mark, outro trabalhava com outro pesquisador lá. E aí acabei alugando esse  quarto. E aí eu-- Foi intenso. Eu ficava até, me lembro agora, meia noite e um  pouquinho, que era o último-- A hora que saía o último ônibus lá do campus,  da Penn State para onde eu morava. Até uma que outra vez eu perdi e fui a pé.  Não era tão longe assim. Mas normalmente era assim, sábado e domingo, sem  parar praticamente. E o pessoal ficava lá... Na verdade, sim, frequentemente eu  ficava sozinho, mas frequentemente tinham vários--A pós-doc do Mark lá, que  era uma sul africana, a [inaudível], ficava lá, tinham vários outros que  ficavam, então era comum assim ficar muita gente de noite e etc. Mas  frequentemente eu era o último a sair, ficava sozinho lá. Botava um Caetano  Veloso, uma fita do Caetano Veloso bem alto e-- [risos] Ficava trabalhando lá,  fazendo milhares de PCRs e coisas assim. E fazendo uns programas de análise,  que eu estava fazendo na época e tal. Foi um ritmo bastante intenso, mas foi  realmente muito, uma experiência muito boa. Poder conhecer e interagir com  pessoas do mundo inteiro que trabalhavam no laboratório Mark e outros ali  próximos. Com várias coisas, várias áreas diferentes, várias abordagens  diferentes, não só de evolução humana, de outras coisas também. E conhecer  gente que fazia análises diferentes e professores, então foi realmente muito,  foi uma experiência excelente. Tanto experiência de vida assim, quanto  experiência profissional. De poder realmente-- Tanto os alunos quanto os  professores. Como só tinha quatro meses, eu tinha que aproveitar e realmente,  foi-- trabalhei muito. [Risos]    DENT: Qual época do ano? Foi no inverno, no verão, lembra?    BONNATO: Foi-- É, foi, sim. Foi o segundo semestre, ou seja, eu cheguei em  começo de setembro e voltei no finalzinho de dezembro. Acho que um ou dois dias  antes do Natal, uma coisa assim. Então cheguei a pegar um pouquinho de neve.  [risos] Ainda que primeira vez que tinha visto neve. [risos] Foi--Aqui teve,  né? Na verdade, teve neve, vi neve aqui, mas quando eu era bem pequeno aqui no  Rio Grande do Sul. Mas neve assim de cair foi nessa época. Então fiquei esses  quatro meses: de setembro a dezembro. Foi interessante, muito bom.    DENT: Como era o processo depois de terminar o doutorado de passar para ser  professor? Como era essa experiência de passar de ser aluno para ser professor?    BONNATO: É uma experiência difícil. Porque aqui no Brasil, principalmente, a  gente tem muita burocracia. Tem muitas coisas administrativas-- Aqui na PUC a  gente tem que dar um pouco mais aulas do que a média. Pelo menos no  departamento de genética, da UFRGS ali. Então, de 100% focado no trabalho,  né? Naquela, na tese, naqueles artigos, 100% mesmo. Em termos de trabalho. De  repente tu tem que gastar muitas e muitas horas da tua semana preparando aula,  dando aula, fazendo coisas burocráticas da universidade. E aqui foi pior,  porque quando eu entrei aqui na PUC, o que eu tinha de laboratório era uma sala  desse tamanho aqui, e não existia Genética na PUC. Não existia.    DENT: Dois metros por dois metros. [Risos]    BONNATO: É, era isso aqui. E lá no outro lugar lá no meio do laboratório de  histologia. E assim, não tinha Genética nem Biologia Molecular, nada de  relacionado com... Então, eu não tinha laboratório, então no primeiro  momento, além das aulas e coisas assim, eu tinha que fazer análise. E para  fazer análise, contar com a ajuda do Salzano, da Loreta que estava lá, para  fazer a parte de laboratório que eu quisesse fazer. Fazer emprestado lá na  Genética. Mas aí eu consegui, a gente conseguiu aprovar um projeto bastante  grande de genômica, não de humana, mas fazer parte do projeto de genoma  brasileiro que esse de começar a genômica no Brasil. E aí nisso se espalharam  25 laboratórios assim, equipamentos no Brasil. A gente se candidatou e aí eu  consegui como coordenador, consegui. E aí, com esse, fazendo parte desse  projeto de genômica brasileira, eu consegui apoio da universidade para criar  esse laboratório aqui. E aí mudou bastante, porque realmente em termos de  condições de trabalho. A gente conseguiu esse laboratório grande, bem  equipado com dinheiro do CNPq e um pouquinho da universidade. E aí a gente  conseguiu começar a realmente produzir. A Genética na PUC começou assim,  podendo fazer esse laboratório.    Mas a rotina muda muito, né? Porque infelizmente diminuiu muito o tempo que a  gente tem para dedicar. E a gente mesmo fazer as coisas. Então, claro, começa  a ter aluno, aí os alunos fazem e tu ajuda e-- Mas diminui bastante o tempo.  Então, isso é um problema que a gente tem no Brasil. A gente tem muito, os  professores e pesquisadores gastam muito tempo com atividades extra pesquisa em  si. Mesmo extra ensino. É um país, tu já deve ter percebido, muito  burocratizado. Com muitas-- As pessoas acham que criar burocracia é controlar,  é cuidar, é fazer. Há um exagero nisso, né? Então, então finalmente a  gente diminui, acaba diminuindo o ritmo de produção científica própria  assim. Por causa disso.    E outra-- Pensando na parte de estudos de evolução humana, um problema a mais  que eu tive, até tenho um pouco aqui ainda, é porque--O programa de  pós-graduação principal, que até agora eu sou coordenador é de Zoologia. E  é uma Zoologia mais clássica assim, de modo geral. Então é muito difícil eu  fazer ou conseguir alunos que queiram trabalhar com genética humana, evolução  humana, neste curso de Zoologia. A maior parte dos alunos tá interessado em  trabalhar com outros animais que não os humanos. Então é difícil para mim  conseguir alunos, uma quantidade razoável de alunos para trabalhar com  evolução humana aqui na PUC. Pela natureza do programa em si.    No começo, inclusive, o pessoal achava que eu não deveria trabalhar com  evolução humana na Zoologia, porque o humano não deveria fazer parte da  Zoologia. Eu disse: &amp;quot ; Mas como assim?! Nós, humanos, não somos--&amp;quot ;  Mas então  assim, durante um tempo, o pessoal disse: &amp;quot ; Não, melhor não fazer, continua  com-- Faz uns trabalhos aí de animais e tal. De humanos, tu orienta lá na  UFRGS se for necessário e tal, porque não cabe.&amp;quot ;  Até por ser o pessoal da  Zoologia. Os pesquisadores da Zoologia no Brasil são meio conservadores. Alguns  dos coordenadores iniciais aqui do Programa achavam que: &amp;quot ; Não, tudo bem, mas  fazer e colocar-- Fazer teses e artigos de evolução humana, genética, pode  ser prejudicial na avaliação do Programa na hora que a entidade, a CAPES, essa  que avalia os programas, olhasse-- &amp;#039 ; Não, mas como assim?! Tem nada a ver.  Genética Humana?! Num Programa de Zoologia, não poderia ter Genética Humana!&amp;#039 ;   E poderia até ser prejudicial para o Programa e achar que estão colocando  áreas de pesquisa que não são da Zoologia.&amp;quot ;  Então isso, isso me diminuiu um  pouquinho a quantidade. E a intensidade do meu trabalho com evolução humana  depois que eu entrei aqui. E tanto os que eu orientei ou coorientei depois, o  Nelson, coisas assim, foi sempre com o Salzano. O Salzano orientando lá, eu  coorientando, e era um-- Na maior parte das vezes era o meu projeto que o  pessoal fazia aqui... A orientação e o Programa em que as pessoas estavam  vinculadas ficava a Genética e não aqui, porque aqui tinha uma dificuldade. De  conseguir encaixar corretamente esse tipo de projeto na ideia do Programa de  Pós-Graduação que se tem aqui. Então isso diminuiu um pouquinho, por isso  que eu não faço mais tanta coisa de evolução humana por causa disso. Porque  é muito difícil até conseguir os alunos. Quando o pessoal da Genética  pergunta assim: &amp;quot ; Ah, gostaria de trabalhar contigo, evolução humana, onde que  tu orienta?&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, na Zoologia&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, não, na Zoologia, não tenho interesse,  queria trabalhar num programa de Genética, para fazer todas as disciplinas de  Genética&amp;quot ; . Então isso me atrapalha, atrapalha essa parte de evolução humana,  sem dúvida. Porque poucos alunos que gostam de evolução humana de Genética.  De Genética evolutiva humana concordam em fazer uma pós-graduação de nome  Zoologia. Porque a maior parte das disciplinas no fim são das áreas  zoológicas e tal. E os-- Gostariam de fazer mais Genética. Então isso--    DENT: Tem algum vínculo aqui com a Antropologia ou com a Arqueologia nessas  questões de--?    BONNATO: Não, não tenho. Temos um programa de História, que tem um pessoal  que trabalha com Arqueologia. Um bom grupo. Mas não temos nenhuma vinculação,  assim, de pesquisa. Nada, praticamente, em comum. Primeiro é porque-- Realmente  o nosso, foi muito envolvido com a parte mais zoológica. E o pessoal é mais da  área-- Não é da Antropologia Física. Você deve ter visto que aqui no  Brasil, nós basicamente... A Antropologia não é física. Então, no fim,  diferentemente da Argentina e do resto da América. América Espanhola, em que  Antropologia tem Antropologia Física. Nós no Brasil não. Basicamente quem  trabalha com a parte física é biólogo. Não antropólogo. Então tem  pouquíssimos antropólogos físicos. Que fizeram graduação em Antropologia,  que trabalham com Antropologia. Praticamente todo mundo que trabalha com parte  física. Na Antropologia, na verdade, vem de outras áreas, principalmente da  Biologia. Então, não tem muito-- É um viés, digamos, é uma característica,  não sei se-- Pelo que eu me lembro. Conversando com o pessoal, na América  Espanhola não é assim, nos Estados Unidos não é assim. Mas aqui no Brasil,  não sei, não sei exatamente por quê, a Antropologia é basicamente social.  Então eu imagino que os pesquisadores de Antropologia ou de Arqueologia aqui  nem imaginam que, na verdade, que possa ter gente que estuda evolução humana,  história humana pela parte mais evolutiva. Em outras áreas que não sejam a  parte social assim. De História mesmo.    DENT: E se você tivesse que escolher, assim, um campo de conhecimento no qual  você se coloca, qual seria?    BONNATO: [risos] Acho que é evolução. É. Evolução, porque tem muitos, né?  Tem realmente hoje em dia uma boa parte dos meus estudos e minhas publicações  são de evolução de organismos de modo geral. Seja-- São não humanos. Muitos  mamíferos, baleias e [inaudível] marinhos, primatas, mas também tem outros,  outros organismos. E mesmo, assim, como eu disse, obviamente evolução humana  tem questões a mais, questões científicas a mais pelo grau de conhecimento e  pelo refinamento da pergunta. Quando foi exatamente a entrada? Foi 18 mil, 21  mil ou 14 mil? Isso para um animal é absurdo. Se tu disser assim: &amp;quot ; Foi entre,  sei lá, 20 mil e 100 mil anos&amp;quot ; , está todo mundo muito contente que se fez um  progresso enorme. [risos] Evolução humana, 3 ou 4 anos já é uma briga enorme  decidir se a hipótese do Clóvis ou pré Clóvis é não sei o quê. Então é  questão de poucos, né, um detalhezinho de poucos, 2, 3 mil anos. O que todos  outros organismos já é algo assim, né? Pegando-- 100 mil anos de erro já  está, já é excelente. Então-- Mas fora essas questões a mais, assim, de  resto as abordagens são muito semelhantes. Ou seja, as abordagens que eu-- O  tipo de pergunta básica, o tipo de metodologia de análise para trabalhar com  uma baleia, para trabalhar com, sei lá, com macaco, não difere do que a gente  faz com humanos. Então realmente o que eu faço é isso. É entender a  história evolutiva de espécies. E cada vez mais a história mais populacional,  não tanto a filogenia, que a gente faz também alguma coisa, mas-- Mas  principalmente pegar espécies ou populações e entender como elas evoluíram  em termos populacionais, a própria dinâmica demográfica e assim, populações  passaram por bottlenecks genéticos ou não, se expandiram. A questão das  baleias, por exemplo, é uma das coisas que mais me interessam, tenho trabalhado  bastante. Entender como que foi toda a história evolutiva das baleias e  consequências da caça e tal.    Mas a abordagem é muito semelhante, não difere quase nada. Quer dizer, isso é  uma das coisas que para mim foi importante de certo modo. Parte do sucesso no  estudo de animal foi por eu trabalhar também com a parte de evolução humana e  desenvolvimento de metodologias de histórias evolutivas, história  populacional, demográfica... Assim, quase a totalidade de métodos novos são  desenvolvidos para estudos de evolução humana. E geralmente publicados em  revistas de evolução humana ou de genética evolutiva, coisas assim. A grande  maioria dos pesquisadores que trabalham com evolução de animais não consulta  livros, periódicos tipo American Journal of Human Genetics. O cara nunca vai  fazer uma coisa dessas, né? Mas ali, por exemplo, é um exemplo de uma área em  que está sempre surgindo novos métodos. E que pode, e tanto faz, então--  Então aplicar isso para qualquer organismo, desde que tu tenha os dados. Então  uma das coisas que eu acho que para mim foi importante é que, conhecendo e  estudando essa área eu consigo aplicar rapidamente as questões de evolutivo de  outros organismos. Métodos que estão recém saindo e que a maior parte os  pesquisadores em evolução animal só vai saber depois, porque não consultam  esse tipo de periódico.    DENT: Então se identifica, se identificaria como geneticista ou como zoólogo, ou--    BONNATO: Evolucionista. [risos]     DENT: [risos] Evolucionista.    BONNATO: Tá, não, até posso dizer que-- Entre os dois, se eu tivesse que  escolher, eu seria mais geneticista nesse sentido, sem dúvida, porque a base  assim das perguntas e dos métodos, sem dúvida, são métodos mais que a gente  poderia dizer mais genéticos. Genética evolutiva, genética populacional. Usar  a propriedade genética, genômica para entender a história e tal. E menos  zoológica, sem-- Nesse sentido, sim. Mas é, na prática, são as duas coisas  juntas. Sem dúvida. Ou seja, quer dizer, a gente poder-- Eu já descrevi  espécie nova, gênero novo, usando dados genéticos, a gente faz lá filogenias  populacional de espécies de aves e descobre que tem um gênero novo lá e tal.  Então, assim, é Zoologia no sentido mais estrito. Mas usando metodologias  totalmente genéticas. Assim como questões aí de conservação, de organismos.  ? Então assim, é sem dúvida uma mistura das duas coisas. Não é só  genética, no sentido clássico. Porque tem todo esse componente extra de  classificação, taxionomia, até descrição de espécies, conservação, que  não é muito da área da genética. Mas toda metodologia que eu uso... A  informação é derivada da genética, da genética molecular. O estudo de  variabilidade genética molecular.    DENT: No processo de fase estudos sobre o povoamento das Américas, por exemplo,  você comentou, entra informação de muitos campos de conhecimento diferentes.  Poderia comentar um pouco sobre os métodos, as coisas difíceis que se encontra  fazendo um estudo que traz dados de muitos campos diferentes? Como lidava com  esse problema?    BONNATO: É, não, é assim. Por exemplo, na época que eu estava no doutorado  fazendo esses artigos e as hipóteses aí, teoria sobre o povoamento inicial...  A própria hipótese, o modelo aceito na época era aquele modelo das três  ondas migratórias e que era um modelo multidisciplinar. Um modelo com dados  genéticos, dados linguísticos e dados de morfologia. Anatomia dental etc. E  realmente isso é uma dificuldade muito grande, porque na hora que a gente vai--  [fala ao fundo inaudível] [risos] Na hora que a gente, por exemplo, tentava  entender quais eram as evidências linguísticas para aqueles três grupos... E  toda a discussão novamente que existia na época e continua existindo afinal de  contas... As evidências de linguística, que que diz sobre a questão do  povoamento é muito difícil, porque as metodologias usadas na época e a mesma  informação de língua é muito diferente do que a gente estava acostumado a  usar como evidência em genética, por exemplo. Morfologia nem tanto, porque  morfologia é um pouquinho mais próximo assim. Até pela minha experiência de  taxionomista. E a gente usava, no primeiro momento, todo desenvolvimento foi  feito com morfologia, então isso até que não era tão, mas a parte  linguística, por exemplo, era muito, muito diferente. Então isso dificulta  muito, porque a análise crítica fica meio... Na verdade, no caso da  linguística, eu não tinha condições de avaliar... A qualidade, digamos, da  informação e do resultado. Eu usava o que os outros linguistas... As críticas  favoráveis e contrárias dos linguistas, eu não tinha condições, né?    Mesma coisa agora, por exemplo. Com os estudos que a gente faz em colaboração  com o Rolando. Mesma coisa, quer dizer, essa parte mais moderna que ele faz de  morfometria já tem muitos detalhes ali que eu não consigo acompanhar realmente  o que ele, né? Do que ele propõe e dos métodos novos e-- No fim, tem que--  Que acho que na verdade é o padrão hoje em dia. Quanto mais sofisticado as  áreas vão ficando e mais ao mesmo tempo multidisciplinares... A gente tem que  confiar nos colegas, cada um tem uma área de expertise, obviamente a análise  do padrão final é simultâneo, mas a geração do dado e o quanto se confia  naquele resultado a gente tem que confiar no colaborador, porque a gente não  tem condições de ser expert em todas essas áreas. E nessa época, eu via a  parte da... para mim, a parte do estudo das línguas era o mais óbvio. Que eu  não tinha condições realmente de avaliar o quanto que aquelas afirmações de  que eram três grandes grupos e os outros dizendo que não, na verdade, era  totalmente sem sentido aquela informação que eram três, e era mais ou menos.  Realmente eu não, não, até porque na época... Agora, a maior parte das  áreas, é o caso da linguística, é um exemplo típico, está ficando mais  quantitativa, já tem métodos mais semelhantes aos métodos que a gente usa, de  fazer filogenia com línguas, com dados de variabilidade linguística, muitos  mesmo método que a gente usa para fazer dados de DNA e tal. Mas na época, era  muito aquela coisa do especialista, né? &amp;quot ; Não, eu estudei já 30 anos milhares  de línguas e aí eu sei que é assim e...&amp;quot ;  Ficava uma coisa muito, era muito da  autoridade, né? Mas-- Então assim realmente eu não tinha condições nenhuma.  E as informações também eram mais difíceis. É basicamente livros, a gente  não tinha acesso a muita informação, então mesmo que se quisesse, seria  muito difícil conseguir todas as informações e tal, dessas áreas mais diferentes.     DENT: Agora como colaborador do professor Salzano que vai ser, assim... Grande  parte da minha pesquisa é sobre o trabalho dele e etc. Queria ver se você  poderia assim explicar um pouco o lugar dele no campo da Genética Humana e dar  assim uma perspectiva sobre as contribuições mais importantes que ele, ele fez  até agora, né? Que continua fazendo.    BONNATO: Sim, sim. Bom, é-- Só posso dizer sobre basicamente essa parte de  genética de populações indígenas. Porque as outras grandes contribuições  dele, eu... Como eu não sou geneticista humano nesse sentido, né? Quer dizer,  cheguei depois e cheguei interessado especificamente na questão de evolução  humana e povoamento das Américas e não de Genética Humana como um todo. Como  vários outros pesquisadores têm, ou seja, que entendem e trabalham, estudaram  questões, outras questões de Genética Humana, essas outras eu não tenho  condições de avaliar... Só pelo que a gente ouve falar, realmente teve para o  Brasil e para a América Latina, teve uma contribuição importante sobre todos  os estudos de genética humana como um todo. Mas assim, eu mesmo nunca li, não  trabalho, nunca, não tenho interesse com genética, por exemplo, médica, ou  genética desse tipo de coisa. Então é uma área que só o que os outros me  falam. Mas me parece óbvio por tudo que eu já conheço do Salzano que  realmente teve essa mesma contribuição que teve para genética de populações  humanas, nativas e tal. Então, nessa área, é óbvio. Quer dizer, o que a  gente lê é-- Realmente ele tem uma capacidade de trabalho, de congregar  pessoas e juntar. E apoiar grupos que se interessam por trabalhar, desde o  começo, é muito grande. Então assim, a minha experiência pessoal dele é  que, assim, é isso que eu falei, ou seja, é pegar um entomólogo que trabalha  com insetos [risos] [inaudível]. O cara diz que quer trabalhar com Genética,  fazer sequenciamento de DNA mitocondrial para entender evolu-- Povoamento das  Américas. E ele, apesar de relutantemente, depois concordar e me apoiar 100%.  Me dar toda autonomia e apoiar 100% revela que é uma pessoa realmente muito,  muito capaz. Acho que sim, de identificar pessoas que têm condições de fazer  o que prometem. E muito generoso nesse sentido de que, né? Se a pessoa tá  interessada e quer fazer uma coisa interessante, diferente, que é uma coisa que  no primeiro momento ele não domina... Essa parte de molecular, de DNA, ele não  dominava na época. E concordar em apoiar tudo que foi possível, até ajuda a  fazer, criar um laboratório meio novo. Dar todas as condições, é uma pessoa  que, assim, que é realmente generosa. Sabe da sua contribuição, da sua  importância e apoia todo mundo que quer. Que quer fazer alguma coisa, né? E  é, contribui nisso.     E a capacidade dele, ou seja, sendo uma área totalmente nova, que ele não  tinha envolvimento. O que ele conhecia bastante mesmo na época era a parte de  proteínas. Que foi todo o começo, durante boa parte da história dele do  começo da evolução da genética de populações indígenas foi com proteína.  Quando começou o DNA era uma coisa muito nova, muitas coisas diferentes que  não existiam de proteínas, que é a parte mais, que é a genética de  populações clássica. [inaudível] da filogenia, do DNA. São áreas muito,  assim, muitas coisas diferentes e novas. E a capacidade dele de ler, acompanhar  e poder analisar criticamente os artigos que a gente ia produzindo pra... É impressionante.    Outra coisa que impressiona a gente quando a gente vai em congressos, de  qualquer lugar da América... Principalmente América do Sul, mesmo lá nos  Estados Unidos, lá na Penn State e tal. O respeito, né? Que todos os  pesquisadores têm com tudo que ele fez, com a história dele e com ele  pessoalmente. Como ele é como pessoa. As pessoas gostam dele. É bastante  interessante. Então acho que teve realmente uma, eu vi aqui na América, na  América Latina, teve um papel, assim, essencial, acho que na criação da  genética de populações humanas e no desenvolvimento, porque ajudou e  contribuiu para desenvolver na Argentina, no Uruguai, no Chile. Muito, muito,  muito. E fora na Venezuela. Então assim, teve um papel muito importante.    Essa parte mais das teorias iniciais, daquelas com o Neel e tal, eu não tenho,  assim, tanto conhecimento porque eram mais questões de populações mais local  mesmo. Como eu disse, quando eu cheguei, o meu interesse era mais nessa parte  de evolução mais antiga e tinha tanta coisa, tanta coisa nova que eu não pude  estudar muito, assim, profundamente, as contribuições originais dele, dessas  questões. Mas assim... O pouco que a gente lê assim, e leu, li na época, leu  e conversa, realmente, a contribuição dele para o fundamento mesmo, da  genética de populações humanas. Não só da América, mas [inaudível]  funcionamento, de dinâmica microevolutiva e populações isoladas e pequenas é excepcional.    Fora o resto, né? Todas as coisas que ele ajudava no departamento. Ou seja, as  outras áreas que o pessoal vinha lá: &amp;quot ; Ai, quero fazer genética vegetal&amp;quot ;  e  tal. &amp;quot ; Não, não, eu ajudo, eu faço, eu ajudo a orientar, eu oriento, não é  minha área, mas, né? É uma área importante, preciso ajudar a desenvolver.&amp;quot ;   Então, como tu disse, a quantidade de áreas que ele orientou não sendo  especialista... Mas conseguindo orientar e fazer excelentes trabalhos e grupos  que surgiram, importantes. Não só lá no próprio departamento de Genética,  mas no resto do Brasil. Em que ele concordou em orientar e... E os trabalhos  saem direitinho, apesar de ser uma área muito diferente do que ele estava acostumado.    DENT: Algum comentário final, alguma coisa que eu saltei, que você gostaria de  destacar um pouco mais ou algum episódio importante que não toquei [risos] nas perguntas.    BONNATO: [risos] Deixa eu pensar. [pausa] Olha, não me recordo nada. Sempre  tem, né? Mas é... A hora que a gente vai pensar, a gente não pensa em nada.  Geralmente quando faz alguma conversa, alguma coisa que aparece...    DENT: Não, claro que nunca vai, uma entrevista não vai capturar toda uma  trajetória profissional. Quais são assim as perspectivas para seguir  trabalhando na área de populações humanas? Você tem interesse em seguir  nessa linha ou está já mais focado para o lado--?    BONNATO: Pois é, eu tenho interesse. Mas é, eu acho que as perspectivas não  são muito fáceis, na verdade. Eu acho, assim, pensando uma perspectiva da  história um pouquinho, né? Da ciência, da genética de populações humanas.  E as diferenças entre os países, das condições, a gente tem momentos  cíclicos. Então, assim, em termos de tecnologia e condições de trabalho.  Então assim, quando a gente, imagino, né? Quando o Salzano começou, por  exemplo, com genética de proteínas, num primeiro momento, obviamente, não  tinha equipamento, não tinha expertise no Brasil. Mas no momento que se  adquiriu e tinha os equipamentos mais simples, durante alguns anos, não sei  exatamente quantos, certamente as condições, digamos, de trabalho não eram  muito diferentes, de gerar dados mesmo, de analisar os dados, digamos, aqui no  Brasil, aqui no departamento de genética lá, e nos Estados Unidos. Aí depois  veio o ciclo do DNA. Então nos primeiros vários anos, que [inaudível]  sequenciamento e condições, a gente não tinha nada. Então estava totalmente,  como eu disse... Dava para fazer em quatro, dava para fazer em dois, três meses  nos Estados Unidos o que aqui demorava vários anos. Mas, né? Pela velocidade,  em algum momento a gente conseguiu, né? Tipo, eu aqui, criar esse laboratório.  Tínhamos um equipamento de sequenciamento muito semelhante ao que tinha na  maior parte das universidades, dos laboratórios de pesquisa semelhantes ao  nosso em termos de populações humanas. Não obviamente os enormes. Mas de  populações humanas mais, assim, semelhantes, em universidades boas. Então  durante alguns anos, a gente conseguiu permanecer assim semelhante, conseguia  produzir. Por exemplo, eu sequenciei lá os genomas mitocondriais aqui, no mesmo  nível que vários sequenciaram lá, a gente conseguiu publicar paper lá na  American Journal. Um dos primeiros estudos mais amplos de fenômenos  mitocondriais de ameríndios e tal. Num laboratório aqui relativamente pequeno  e tal.    Mas aí o que que aconteceu? Aí veio a área genômica. A genômica com a  geração de dados muito grande e com muita, muita análise de bioinformática.  Então que que a gente está no momento? No momento, a gente, eu acho que a  gente passou mais uma fase que a gente tá bem defasado. A gente, assim, é só  olhar. Quer dizer, os estudos recentes... Poucos, nos últimos dois, três anos,  dessa parte mesmo de povoamento das Américas, mesmo Genômica populacional. Os  caras pegam dezenas de indivíduos, ou no caso da parte mais populacional e  fazem genoma de dezenas de indivíduos e fazem, tem lá, 30 ou 40 pessoas de  bioinformática e fazem análises sofisticadíssimas. Então, assim, a geração  de dados, a gente, nesse momento está totalmente atrasado. Até porque no  Brasil a gente não tem, é muito difícil fazer a parte de serviço. Então, a  gente poderia combater isso ou poderia se equiparar se a gente tivesse  condições fáceis de fazer, gerar dados como um serviço. Não no próprio  laboratório, mas-- Mas aí a gente, no Brasil, não tem. E para mandar para o  exterior, tem problemas seríssimos. Então, a gente não... Mesmo que eu tenha  o dinheiro para fazer essa, sei lá, 100 mil reais para fazer um estudo amplo de  genômica populacional, de seja o que for. Eu não vou conseguir fazer. Porque  aqui no Brasil a gente não tem os equipamentos. E para mandar para fora, mandar  para algum outro lugar para fazer como serviço, demorar meses, sei lá quanto  tempo para conseguir, se é que vai conseguir.    Então a gente não consegue gerar os dados e a gente está também muito  atrasado na parte da análise. A gente não tem bioinformatas suficientes, em  número grande para gente conseguir isso. Mesmo que eu gerasse dados de, sei  lá, 100 genomas de índios para fazer uma análise totalmente, nunca ninguém  tem essa quantidade de dados para fazer. Então, não vou conseguir no Brasil  pessoas para me ajudar a fazer uma análise. Equivalente ao necessário que tem  que ser hoje em dia. Seria assim, sei lá, sete ou oito bioinformatas fazendo e  analisando e não existem essas pessoas no Brasil. Eu teria que necessariamente  me associar e aí tem todas essas dificuldades com vários laboratórios do  exterior e pesquisadores e tal. Mas que, assim-- Seria um pouquinho [inaudível]  de mais dez que saberiam fazer... Então assim, eu acho que, para nós, acho  que, no Brasil, imagino que nos outros países também, não de primeiro mundo,  basicamente não Estados Unidos e Grã-Bretanha, e talvez China. A gente chegou  num outro momento em que está muito difícil para gente acompanhar se quiser  fazer um trabalho de ponta realmente assim, uma novidade grande em termos de  resultados, de métodos, análise, de coisa assim. A gente chegou numa fase, de  novo, que a gente está num descompasso, e que está, é muito difícil  acompanhar. Talvez em algum momento futuro, volte de novo a equilibrar. Mas não  sei porque a questão dos recursos humanos, de pessoal para fazer as análises  das... São cada vez mais multi laboratorial com muitas pessoas de várias  áreas diferentes, principalmente nessa área de análise. No Brasil, nós temos  muita dificuldade de conseguir gente que goste da área mais biológica, que  goste de análise. Biólogo aqui no Brasil gosta de bancada ou ir para campo e  tal. Mas assim, ficar semanas de computador, aprender linguagem de computador e  fazer isso aí é muito difícil. No Brasil a gente conseguir pessoas dessa  área. E é isso que a gente precisa, na verdade, para fazer essas análises que  estão tão sofisticadas pela quantidade de dados que, como eu fazia na época,  sozinho, e pegava computador, e inventava, pegava. Conseguia colocar tudo e  fazer basicamente sozinho, hoje em dia não tem mais condições. Não tem-- A  quantidade de dados e a sofisticação da metodologia inviabiliza que alguém  faça sozinho ou só com uma ou duas pessoas.    Então, assim, apesar do meu interesse ser, continuo tendo interesse em fazer  estudos semelhantes, continuar esses estudos de evolução humana, populacional  etc. Eu estou tendo muita dificuldade em perceber como que eu vou conseguir  fazer isso nessas condições atuais que a gente tem. Ou seja, gerar dados  relevantes pelo volume é muito difícil, comparando com esses centros  genômicos aí que fazem isso muito rapidamente. E que tem grandes, grande  quantidade de pessoas para ajudar a analisar. Então, eu acho que nós estamos  numa fase meio difícil para mim, pelo menos. Nessa área. Eu acho mais ou menos  eu percebo isso pela própria produção científica nessa área. Ou seja, na  década de 90, então, ou 2000. A gente conseguia fazer, ou eu, ou a Cátira ou  o Fabricio e etc. A gente conseguia fazer trabalhos no mesmo nível, né?  Publicar em excelentes revistas. Semelhante ao que qualquer um fazia. Hoje em  dia, a gente, nos últimos dois, três anos, é muito difícil. Tu não está  mais conseguindo, porque é, não-- Como, como o campo avançou, a gente não  depende só mais de um grupinho pequeninho e duas, três pessoas, o teu próprio  grupo fazer. Não tem mais, a gente não consegue, então-- E fazer, a gente  não tem massa crítica no Brasil mesmo. Muitas vezes de conseguir fazer estudos  mais amplos com dezenas de pessoas. Todo mundo tem pouco pessoal. Então-- Eu  acho, no momento, para mim, eu estou numa encruzilhada, nesse sentido, de eu  não sei exatamente se vai conseguir acompanhar. Eu não estou conseguindo  acompanhar essas mudanças assim.    DENT: Dentro desses desafios, onde fica a questão de conseguir material  biológico para análises? Isso faz parte do desafio que tem no Brasil para  fazer estudos sobre povos indígenas, sobre povoamento das Américas? Ou é secundário?    BONNATO: Eu acho que-- Assim, parcialmente. Eu acho que obviamente, nós temos,  assim, se a gente considerar que as amostras que já existem podem ser usadas,  seja tecnicamente, seja que seja permitido, né? Por comitês. Rapidamente a  gente usar essas informações ou usar as amostras para gerar informações  genômicas etc. No Brasil ou em qualquer lugar. Não seria tão necessário,  para esses estudos mais amplos em que, né? Não interessa exatamente qual  amostra. Se eu pegar uma tribo ou outra tribo, outra população, pegar um aqui,  uma em algum lugar do Brasil, alguma... Em algumas outras regiões da América  do Sul, alguma coisa da América do Norte representa mais ou menos.    Mas-- Para estudos mais genética de população mais... Mais localizados, sem  dúvida. A dificuldade em conseguir amostras é um problema sério. Eu imagino  que... Eu não trabalho tanto com isso, mas pelo que eu vejo e posso imaginar.  Se eu quisesse fazer um projeto: &amp;quot ; Vou estudar a dinâmica evolutiva de algum, de  um grupo de populações da Amazônia indígena para saber se comparando, sei  lá, se aquele tipo de estilo de vida... O que afeta ou não afeta a  diversidade, a estruturação populacional--&amp;quot ;  Ou qualquer outra coisa. Se  quisesse, eu acho que não conseguiria. Assim, eu vejo pelo Fabrício, que, né?  O estudo genográfico, quantos anos demorou para conseguir obter as licenças?  para fazer a coleta e prum estudo totalmente, muito neutro. Se quisesse fazer um  estudo um pouquinho mais, algumas questões comportamentais ou morfológicas  ou-- Parece que não te viabilizaria, porque hoje em dia fazer um estudo e  demorar anos para conseguir obter a licença, no fim, as coisas-- Acaba sendo  atropelada por outros grupos que conseguem mais rapidamente obter as  informações. Então acho que sim, acho que sem dúvida a dificuldade em, a  demora, acho que a questão toda sempre é a demora. Acho que ninguém, todo  mundo concorda que todo tipo de estudo tem que ter... E ser feita da maneira  mais moralmente aceitável. O que realmente atrapalha é demorar anos para dar  uma resposta. Seja positiva ou negativa. Porque aí as coisas simplesmente não,  tu não consegue planejar... Então, se as análises fossem mais rápidas e  eficientes... As coisas poderiam ser planejadas com mais tranquilidade. E  poderia realmente saber o que se-- O que pode e o que não pode fazer.    Eu acho, sem dúvida, é um problema, acho que no mundo inteiro, não só aqui  no Brasil. É o mundo inteiro, trabalhar com populações, é um problema no  mundo inteiro trabalhar com populações, principalmente nativas. E o desafio  disso, né? E acho que quanto mais as perguntas são mais delicadas, mais  refinadas, mais difícil é, porque mais existe a possibilidade de ter algum uso  errado, ou as pessoas mais desconfiam que isso pode ter algum tipo de mau uso ou  a informação pode não ser compatível com crenças, então esse tipo de coisa  realmente é um problema, sem dúvida. Eu acho que é um problema. No meu caso,  não é tanto. Porque acho que questões mais amplas não precisa de  populações tão específicas.    Agora se houver problemas no uso, por exemplo, dessas amostras mais antigas, já  coletadas em outras condições, em outros momentos, isso aí realmente  inviabiliza. Inviabiliza qualquer tipo de estudo mais-- Isso é uma das coisas  também que me faz reduzir um pouquinho o ritmo, porque uma certa insegurança  de saber... Em que momento, qualquer momento, alguém pode, sei lá, em alguma  situação, impedir que o teu trabalho continue. Pode começar um trabalho  grande, envolvendo muitas pessoas e muitos recursos e muito planejamento e em  algum momento, aparece uma nova regulamentação ou uma denúncia de alguma  coisa que é suficiente para bloquear por meses, anos a fio, de repente, a  continuação. Até que se resolva as questões mais de polêmicas. E aí isso  realmente, mas né? Quando a gente depende de alunos, alunos que têm tese para  acabar, têm prazos e recursos... Têm prazos. Isso, essa insegurança também,  de certo modo, atrapalha um pouquinho. Ainda mais quando começa a ir para lado  mais genômico. Que aí começa, o pessoal começa a desconfiar: &amp;quot ; Ah, mas tem  toda informação, não vai usar para outras...&amp;quot ;  Para, sei lá, qualquer coisa.  Que as desconfianças começam a aparecer. Então, isso é um, é um componente.    Mas eu, na minha, assim, pessoalmente a minha maior preocupação, minha maior  entrave, digamos assim, é esse descompasso tecnológico que a gente tem no  momento. Realmente, a gente tem e observo isso claramente, é uma dificuldade. O  que eu conseguia fazer no mesmo nível de qualquer lugar do mundo, basicamente,  há cinco, seis anos atrás. Hoje em dia, eu sei que eu não consigo mesmo. Até  a gente tenta, mas a gente não consegue... Gerar os dados, a gente não  consegue analisar os dados, a gente não consegue pessoas para nos ajudar a  analisar. Não consegue mesmo. E, assim, colaboração eu gosto, colaboração  é importante, mas também, assim, a gente acaba virando um gerente de... 90% do  tempo só gerenciando pessoas e os egos e não-- E aí, assim, a ciência mesmo  tu acaba ficando mais um gerente de laboratório do que um cientista mesmo...  Fazendo perguntas, tentando resolvê-las e resolvendo todas essas questões.  Quando tu tem, sei lá, 20 colaboradores de vários lugares do mundo, o que cada  um vai fazer, né? Então, assim, isso é uma, é uma coisa que eu não gosto  muito. Eu não gosto muito de--    Realmente, minha, meu tipo pessoal de lidar com a ciência é mais realmente  fazer mais, pessoalmente. Estar mais próximo da geração de dados, da pergunta  e não tanto gerenciando grande quantidade de pessoas e mais como, né?  Realmente um chefe de equipe e não um cientista mesmo. Sabe que hoje em dia  nessa área também isso está ficando um pouquinho mais de grandes chefes de  equipe que ficam gerenciando dinheiro e colaborações e menos na pergunta.  Menos nas perguntas e na resolução de problemas mesmo. Eu não gosto muito  disso. Eu prefiro realmente estar mais, fazer a análise, eu gosto de fazer a  análise, pegar e tentar imaginar uma análise diferente para responder uma  pergunta meio diferente também. Mas isso está cada vez mais difícil  realmente. Na área de genética humana, nessa parte, porque realmente, o tipo  de dado e o tipo de pergunta que têm importância hoje em dia... São coisas  que exigem quantidade de dados e redes de colaborações muito grandes. Então  por esse motivo em parte também é que eu realmente acabo ficando mais com os  outros animais não humanos em que as perguntas ainda são mais fáceis de  resolver em equipes menores. E não tem tantos grupos, assim, poderosos no mundo  inteiro em termos científicos lidando com isso e que fica realmente muito difícil.    DENT: Alguma coisa mais que gostaria de comentar? [risos]    BONNATO: Agora eu não recordo mais nada, deixa eu pensar. [risos] Apareceu  isso, né?    DENT: Não, mas também sempre podemos conversar de novo. [risos] Se ocorrer  alguma coisa, &amp;quot ; ah, a Rosanna, você precisa pensar nessa questão também&amp;quot ; . Aí  só avisar. [risos]    BONNATO: Sim, é. Tá. Até quando tu fica?    DENT: Ah, até final de setembro. Eu vou avisar com tempo que eu vou fazer uma  apresentação sobre uma pequena parte da pesquisa que eu venho fazendo.    BONNATO: Claro. Ah, legal. Vai fazer lá na, lá na Genética?    DENT: Sim, acho que vai ser uma coisa mais específica sobre o trabalho de campo  e os trabalhos mais cedo do professor Salzano, mas aí vou avisar.    BONNATO: [Legal. Sim. Sim.] Deve ter tido muita história, né? Ele deve ter  contado muita história interessante.    DENT: [risos] É, ele tem. [risos]    BONNATO: Esses trabalhos aqui deviam ser, deviam ser heroicos assim, né? Uma  aventura, tipo, porque--    DENT: São crônicas de aventura. [risos]    BONNATO: Imagina, 50, década de 60, todas as condições, ruins que se tinha e  as dificuldades, deve ser uma época bem interessante, bem emocionante. Eu  gostaria de ter ido fazer algum trabalho de campo assim em populações,  gostaria de ter tido, não teve oportunidade na época que eu-- Praticamente  Salzano já não fazia mais e quando fez, precisava de um médico e não de um  entomólogo assim. Mas eu gostaria, eu gostaria sem dúvida de ter contato.  Diretamente com as populações indígenas, ter uma experiência. Ter uma  experiência, mas as coisas mudaram, né? Não tinha mais quase condição. Mas  devia ser uma coisa realmente muito, muito interessante, muito interessante, imagina.    DENT: Sim. Não, ele conta histórias, então vou, vou tentar, assim, fazer uma  apresentação. [risos]    BONNATO: Vai virar-- Pretende fazer algum livro, alguma coisa?    DENT: Ah, eventualmente, a tese vai, espero. [risos] Vai fazer um livro com a  tese, mas primeiro tenho que escrever. [risos] Tenho que escrever a tese primeiro.    BONNATO: [Sim, claro. Claro. [risos] ] Sem dúvida.    DENT: Bom, agradeço muito seu tempo e disponibilidade.    BONNATO: [Não por isso. Então tá bom.] Se tu precisar mais alguma coisa, se  eu lembrar alguma coisa interessante--       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=bonatto-20140722.xml bonatto-20140722.xml      </text>
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                <text>Prof. Sandro Bonatto, entrevista, 22 de julho de 2014</text>
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                <text>Sandro Bonatto, biólogo, explica a origem dos seus interesses científicos. Conta como ele estudou genética relacionado à filogenia, o que o levou à aprovação de um projeto de doutorado nos Estados Unidos, mas a escolha eventual de ficar no Brasil para os estudos de pós-grado. O narrador monta um laboratório para esse objetivo e por fim conseguiu estudar o povoamento da América com uso de DNA. Parte do seu estudo discute o povoamento da América e uma hipótese apresentada foi a de houve um povoamento inicial na Beríngia e que depois houve o povoamento das Américas em seguida e não há hipótese de que os primeiros habitantes vieram direto da Ásia para a América; esse trabalho foi realizado com o material genético colhido por Dr. Salzano, em suas pesquisas. O narrador relata sua transição da entomologia para a genética e a continuidade da ausência de trabalhos de campo e sua relação com processo de ética em estudos com indígenas. Bonatto relata sua atuação na genética humana na PUC, onde tem relação com o departamento de Zoologia e que o limite inclusive é a falta de alunos de pós-graduação para orientar. Bonatto também lembra da construção da genética na PUC, o qual se esforçou para a construção do laboratório junto ao Projeto Genoma. Reclama que ser professor reduz as possibilidades na pesquisa, inclusive o tempo para dedicação. &#13;
Essa entrevista diz respeito à genética das populações e à história do povoamento nas Américas e as dificuldades que se tem hoje de fazer análise de dados e fazer com que o estudo seja mais avançado. Além disso, mostra a relação do professor Salzano com outras áreas de conhecimento de estudo que não necessariamente era a sua área principal. </text>
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              <text>    5.4  Unknown Date   Profa. Eleidi Alice Chautard Freire Maia, entrevista, 18 de fevereiro de 2022   2:40:42   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética A transcrição e processamento dessa história oral foram realizados com o apoio do CNPq e do NJIT e seu uso aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (CAAE: 57344322.1.0000.5149)   Eleidi Alice Chautard Freire-Maia Jéssica Bley da Silva Pina mp4 freire-maia-20220218 2:|29(9)|47(5)|67(4)|86(4)|105(9)|124(10)|144(5)|161(9)|179(4)|208(12)|229(10)|253(5)|274(4)|297(12)|316(1)|345(13)|364(2)|382(6)|401(2)|430(4)|450(7)|470(2)|496(2)|517(1)|538(1)|556(12)|575(1)|593(8)|611(6)|630(5)|646(4)|668(4)|686(5)|703(10)|732(5)|753(5)|773(3)|798(5)|818(8)|840(2)|859(1)|876(10)|896(11)|916(10)|934(11)|957(3)|979(7)|997(10)|1020(10)|1040(8)|1064(15)|1082(2)|1102(4)|1125(2)|1151(15)|1176(4)|1205(7)|1225(9)|1254(2)|1282(4)|1302(10)|1320(12)|1339(11)|1363(4)|1384(9)|1404(2)|1436(1)|1455(4)|1488(3)|1507(12)|1525(11)|1550(4)|1569(12)|1589(3)|1611(6)|1633(6)|1656(2)|1683(7)|1710(9)|1740(4)     0   https://youtu.be/rKZ-8ZnHgXo  YouTube         audio    Português       Eleidi Alice Chautard-Freire-Maia foi pesquisadora na área de genética humana e médica e professora titular da Universidade Federal do Paraná entre 1989 e 2013. Atuou no Laboratório de Genética Humana da mesma Universidade nos anos 60, que deu origem ao Departamento de Genética. Esteve casada com o também pesquisador e geneticista brasileiro Newton Freire-Maia. Nesta entrevista, remonta sua trajetória acadêmica como pesquisadora, com ênfase nas práticas de pesquisa em genética por ela trabalhados em vários projetos. Entre seus temas de pesquisa, destrinchados durante a entrevista, estão os casamentos consangüíneos, as malformações congênitas, a ligação genética, a displasia ectodérmica e os polimorfismos ligados à enzima butirilcolinesterase. Eleidi relembra as reuniões e congressos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Genética, sua relação com o geneticista brasileiro Francisco Salzano e o trabalho de diversos companheiros que cruzaram por sua trajetória. Comenta sobre as técnicas de trabalho em laboratório, como a PCR, e as técnicas de pesquisa com DNA, especialmente fala sobre as especificidades e dificuldades do fazer científico no Brasil. Ainda, reflete sobre questões ligadas às mulheres cientistas e à relação entre ciência, fé e religião.   Esta entrevista é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da Universidade Federal do Paraná, a pesquisa em genética humana e médica no Brasil entre os anos 60 e 90, as técnicas de trabalho em laboratório, e a rede intelectual em torno das Universidade do Paraná, Rio Grande do Sul e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência.    FREIRE-MAIA: Mas sabe, Jéssica, só para te dizer, antes de você fazer as  perguntas. Logo depois da entrevista, eu pensei umas coisinhas, assim, que  talvez eu não tenha completado o que você pudesse ter interesse. Entende?    PINA: Sim.    FREIRE-MAIA: Daí se você quiser deixar para o fim também.    PINA: Não, vamos, vamos começar por isso, porque aí já está fresco na sua  cabeça, você já está pensando nisso.    FREIRE-MAIA: Eu marquei aqui, sabe, porque você me fez uma pergunta, quais  seriam os meus trabalhos mais importantes.    PINA: Sim.    FREIRE-MAIA: E eu, o que eu lembro é que eu disse que toda pesquisa que eu fiz  de alguma forma, ela foi importante para o meu desenvolvimento com uma  pesquisadora, não é? Como abrindo às vezes outros horizontes. Eu acho que eu  devo ter falado um pouco da consanguinidade, depois eu falei dos trabalhos de  ligação que eu fiz na Inglaterra. Quer dizer, eu fiz um grande na Inglaterra e  depois eu consegui fazer alguns aqui no Brasil. Esse eu acho que eu não dei  aquele fecho, que eu fui através do trabalho de ligação por eu ter orientado  um dos meus estudantes, acho que eu falei, o Sergio Primo-Parmo, na época era  meu estudante de mestrado, nós percebemos, ou eu percebi, que a gente tinha uma  amostra muito grande e podíamos fazer o trabalho de frequência das variantes  daquela enzima para o Brasil, que não existia nada assim, com uma amostra tão  grande também. Eu acho que nós tínhamos a chance de separar o grupo que tinha  sido identificado como mais descendente de europeu, outro afro brasileiro, né?  Então a gente fez esse trabalho, que é um trabalho que pode ser considerado  uma genética de populações humanas, mas que também tem aqueles toques da  época, assim, que é também os trabalhos dentro da antropologia física.  Então, naquela época havia um pouco dessa intromissão também do geneticista  no trabalho do antropólogo físico. Daí depois surgiu depois de fazer esse  trabalho. Agora eu não me lembro dos detalhes, faz muito tempo, não é? Nós  já tínhamos aqui em Curitiba sido despertadas também para essa  butirilcolinesterase, essa enzima que na época era chamada colinesterase do  soro. Depois os bioquímicos deram esse outro nome, pelo professor Bernardo  Beiguelman. O Bernardo Beiguelman, que até publicou um livro sobre determinadas  variações de enzimas de proteínas que podiam afetar a saúde humana, e ele  vinha sempre para Curitiba dar aula para os mestrandos, e sempre fazia a  palestra, e sempre falou muito em alguns temas que ele achava que seria  importante desenvolver no Brasil. E um deles era da butirilcolinesterase, até  ele também fez trabalho e ele orientava um moço, que na época era estudante  de medicina, médico. Até pouco tempo, eu sei que ainda era professor da  Universidade de Campinas. E eles, até o sobrenome desse moço é Magna, até  quando eu estive no estado de Campinas e me encontrei numa mesa redonda junto  com o Magna, que ele participou da mesa redonda sobre também uma parte da  história da ciência da genética, não é? E ele, o Magna, achava que tinha  sido uma influência do Bernardo Beiguelman, não posso dizer que não tenha  havido nada, porque realmente é o Bernardo Beiguelman foi quem disseminou  aquela ideia de que seria interessante fazer alguns trabalhos tanto de  butirilcolinesterase como de deficientes de G6PD, etc. Mas, para nós, aquilo se  tornou algo factível quando eu vi aquela amostra tão grande, e estudando  também a butirilcolinesterase cada vez nos interessamos mais, porque é-- E  ela, essa linha de pesquisa, se tornou a minha principal linha de pesquisa  depois que eu deixei praticamente de fazer trabalho de ligação genética, e  foi a que me acompanhou até o final do meu trabalho de pesquisadora. E o  interesse foi bom, porque a butirilcolinesterase tem, é-- Digamos, em várias  ligações com aspectos clínicos, e também até com aspectos que não são  patológicos. Então, da parte de aspectos clínicos, nas revistas de análises  clínicas, revistas de medicina, eles já sabiam que pessoas que aumentam de  peso aumentam a quantidade de colesterol de triglicerídeos. Quando eu fazia os  exames da butirilcolinesterase, em média, aquelas pessoas que tinham uma  atividade mais alta da butirilcolinesterase, provavelmente por causa que ela era  mais sintetizada nessas pessoas, então havia isso. Havia também a ideia de a  gente fazer uma associação com doenças cardiovasculares, não é, a  aterosclerose, que esses problemas, como diabetes. Então, se abriu um campo  assim, maior para nós. E também sobre peso, mesmo peso, estudando o peso.  Desde o peso normal até obesidade, estudando só obesidade. Também estudamos a  altura. E esse, digamos, eu, eu sempre disse, penso assim, que foi formado um  nicho científico para nós. Como tem esses nichos, não é, ecológico, em que  algumas espécies proliferam, porque não tem tanta competição, ou tem uma boa  alimentação etc. e tal. Praticamente não tinha geneticista fazendo isso fora  do Brasil. Era principalmente bioquímico, e os bioquímicos estão utilizando  as suas técnicas que são completamente diferentes, trabalhando às vezes com--  Para fazer purificação, estudar atividade, é, estudar, digamos, às vezes, as  estruturas proteicas, então trabalho mais de bioquímico. E o bioquímico, eu  não tinha essa formação de estudar grandes populações. Então eu podia  fazer o estudo genético em populações aplicada nessa-- Aqui sobre o  conhecimento dessa enzima. E tinha mais uma coisa, e também pelo fato de que eu  lembre, tinha um geneticista que trabalhava com drosófilas e, assim, com uma  enzima semelhante a butirilcolinesterase, e isso também nos ajudou. Não que a  gente tenha procurado o nicho, sabe? Mas depois que eu refleti sobre alguns  anos, provavelmente de trabalho, eu percebi isso, que nós tínhamos encontrado  isso, e eu no começo, eu também fui um pouco forçada por que eu podia fazer.  Forçada pela falta às vezes de verba de auxílio em pesquisa da época, e que  eu poderia fazer um tipo de trabalho que não seria tão caro como o trabalho de  ligação. E também tinha para mim esse interesse de uma certa relação com  aspectos clínicos, de modo que a maior parte dos nossos trabalhos deixaram de  ser ligação para se transformar em trabalho de associação. São coisas que  têm alguma semelhança. A associação é quando você percebe que, por  exemplo, duas características que você está estudando, elas-- Se é que tem  variação, que determinadas variações delas se encontram juntas numa  frequência maior do que seria esperado pelo simples acaso. Então, outra coisa,  que daí vem a formação que eu tive lá, com os trabalhos de consanguinidade,  principalmente pelo apoio da análise estatística que foi feita pelo, junto,  né, orientada pelo professor Krieger e pelo professor Calógeras, então, e  depois eu complementei aqui com cursos dos professores da estatística da  matemática, completando a minha formação nessa parte. Então eu pude fazer o  trabalho da associação também com muita facilidade e utilizando até  metodologias que é-- De multifatoriais. Então eu também procurava, eu reuni  várias características que sempre trabalhava com um determinado tipo da  amostra, com o controle, às vezes pareava por características importantes. Por  exemplo, você vai trabalhar com o peso, tem que saber parear por sexo, não é,  por idade, por altura, etc. e tal, né? Então, e isso tudo são variáveis, e  então as análises que dei início, eu aprendi como a partir da consanguinidade  me serviram muito nessa fase dos trabalhos da associação. Então a gente  procurou a associação, como eu já falei, com o peso, altura, obesidade,  diabetes, problemas cardiovasculares, síndrome metabólica, que é um problema  ainda mais grave dessas relações anormais de colesterol, triglicerídeo e etc.  E até chegamos a fazer um trabalho também da sociedade para procurar uma  variação, para ver se haveria uma tendência para a pessoa, é, ter a  infecção pelo bacilo que traz a lepra, não é, um que agora até me falou  agora de cabeça.    PINA: Hanseníase?    FREIRE-MAIA: Hanseníase, então o nosso trabalho com a butirilcolinesterase,  nós fazíamos alguns trabalhos em que a gente tinha, fazia atividade, a gente  via um loco que é um outro gene que também acaba tendo interação com o gene  butirilcolinesterase e também afeta o fenótipo das pessoas que é o gene  [inaudível]2. E fazíamos depois, mais para o fim, fizemos a análise do  próprio DNA para caracterizar as variantes pelo DNA. Então misturávamos um  pouco, assim, da parte bioquímica. E ali, então porque na hora que você me  perguntou, eu quis dizer que houve uma importância para mim ter feito esses  trabalhos. Mas você talvez também quisesse saber os trabalhos, assim, para os  quais eu dou mais importância no sentido da sua finalização, pelo resultado  que eles tiveram. Então, os que eu fiz de forma independente, não foi tão  independente, não é, porque a parte da ligação foi o doutorado e, claro, já  tinha bastante independência, mas também teve orientação do John Edwards.  Mas eu acho, aquele trabalho é um trabalho, para a época, um trabalho bastante  importante quando, depois de ter perdido um pouco da importância, porque esse  assunto, ele ganhou assim, muito desenvolvimento e já houve técnicas novas,  etc. E o trabalho que eu, me deu um prazer muito grande, que foi uma coisa bem  original, que ninguém nunca tinha achado, é que nós achamos uma-- Estudando  esse loco x2c5 +, que ele é responsável por uma avaliação que cria uma banda  extra quando você faz a determinação da enzima através de eletroforese. E  ela é chamada banda c5, porque a nova normalmente aparece em quatro bandas,  então todas as pessoas da população teriam essas quatro bandas, e cerca de 10  a 12% têm essa banda c5, e nós, examinando essas pessoas, porque eu já tinha  uma ideia por causa de um trabalho anterior o nosso, deu um mau resultado que eu  não estava entendendo, porque assim, nós acabamos dentro de um trabalho  também de genética das populações, acabamos vendo que as pessoas que tem  essa banda c5+, se tem em média significativamente alguns quilos a menos. E  isso com o pareamento de sexo, de idade, de altura. Às vezes até acho que de  raça, raça entre aspas até, e isso depois até foi refeito. Então, esse  trabalho é um trabalho que me deu muita satisfação, e por causa até da tua  entrevista, sabe, você fica fazendo com que eu me lembre e eu então entrei--  Eu até não tinha conhecimento do trabalho que eu vou falar, o grupo que é,  como continuou trabalhando nisso, que foi um grupo de Nebraska, que até nós  temos um trabalho publicado com eles. E um pesquisador francês, que é o  Patrick Masson, de Nebraska, até da Oksana, o grupo da Oksana Lockridge. E  esse, eles fizeram um trabalho, porque já havia a ideia de que um outro que  esse tal locus x2 provavelmente é um loco já que depois eles descobriram que  eles chamam acho que de RAPH1. E esse, esse RAPH1, eu não vou saber explicar  exatamente, mas uma parte desse gene ela acaba fazendo parte da estrutura da  enzima da butirilcolinesterase, para dar lá uma sustentação. Fica lá um  fragmento fazendo parte da estrutura, isso era uma coisa já conhecida, e eles,  a hipótese pelo tudo que eles fizeram, que evidencia para, eu acho que é como  suporte. Isso é, que as pessoas que são x2c5+, além daquele pequeno  fragmento, uma outra parte do gene RAPH1, ela também-- Ela é, digamos, é  transformada lá no, num pedaço de polipeptídeos, e ela junta também na  butirilcolinesterase e isso caracteriza o x2c5+ do ponto de vista bioquímico,  ele é diferente. E esse trabalho eu vi que saiu acho que publicado em 2017,  aqui no nosso departamento, quando eu deixei lá de orientar, que o laboratório  ficou sendo dirigido por dois professores que foram meus orientados de mestrado  e doutorado, que são o Ricardo Lehtonen Rodrigues de Souza e a Lupe Furtado.  Até eu participei desse trabalho, que foi de uma das orientadas deles, é, que  eles também chegaram a também a ver algumas famílias e estudar um pouco--  Deram assim um pouco de sugestão de que poderia mesmo ser esse gene, RAPH1.  Então eu acho esse meu trabalho sobre o peso muito interessante, é, porque a  pessoa, essas pessoas já nascem com essa possibilidade de ter uma atividade  maior, e a minha hipótese é mesmo que haja de alguma forma alguma  participação da butirilcolinesterase no metabolismo de lipídio. Então é  algo que também vai ter que ser explorado mais para a frente. Então eu acho  que é isso com relação aos dois trabalhos. Que é o de ligação e esse da  associação de peso inferior, em média, um pouco inferior no fenótipo x2c5+.  Vou tomar um pouquinho agora de chá.    PINA: É-- Só uma coisa, a tua fala me suscitou várias perguntas, assim. Só  que a gente foi conversando e eu esqueci de fazer a introdução da entrevista.  Hoje é dia 18/02/2022, eu sou a historiadora Jessica Bley, e eu estou  entrevistando a professora Eleidi de Freire-Maia, geneticista brasileira. Muito  obrigado, professora, por estar aqui comigo. Essa entrevista está acontecendo  de forma remota. Eu estou em Florianópolis e a professora está em Curitiba.  É, bom, cara, essa quinta aba aí passou bem longe de mim [risos], certeza que  eu não tenho ela porque eu sou gordinha a vida toda.    FREIRE-MAIA: [risos] É que também, não é, o peso é uma característica  multifatorial, não é? Depende, provavelmente, de vários genes e também,  logicamente, de alimentação, de exercício, né? Então, a genética tem uma  parte, então é até uma coisa muito interessante a gente conseguir indicar um  gene. Isso é muito interessante, porque devem existir vários, não é?    PINA: Sim, com certeza.    FREIRE-MAIA: E nem todos os que são também c2c5+ tem também peso mais baixo,  não é, porque vai depender de fatores ambientais, não é, de forma muito  forte. Mas é interessante.    PINA: É interessante fazer esse exercício, não é, de imaginar o que tem  dentro da gente.    FREIRE-MAIA: Aí, só para falar, esses fragmentos são o de uma proteína  chamada lamellipodia, que ela é codificada pelo gene RAPH1.    PINA: Bom. Sobre a primeira pesquisa que a senhora citou da colinesterase, a  senhora falou que veio de uma amostra muito grande. Que o tamanho dessa amostra  te deu a ideia de fazer essa pesquisa. Na primeira entrevista a senhora falou  sobre essa amostra, por que que essa amostra era tão grande? Como foi a coleta  e a formação dessa amostra?    FREIRE-MAIA: A gente sabe em geral, né? Na parte de todos os trabalhos que nós  fizemos de populações, a gente sempre tinha amostras grandes. No caso, como a  gente estava querendo ter um grupo, de certa forma grande desse c2c5+, e como  só cerca de 10% da população tinha essa característica, nós tivemos que ter  então uma amostra grande por esse motivo. E depois a gente escolhia ali com uma  certa liberdade os nossos controles, porque os controles, 90% quase da amostra  eram c2c5-, mas tínhamos essa possibilidade de parear, não é, porque eu  imagino que a gente pareou por sexo, altura, idade, etc. Então por isso que as  amostras em geral eram grandes. Porque a característica em si, apesar que para  a genética, até 10, 12% é ótimo que a gente trabalha com coisa bem mais  rara, mas para o que a gente queria, né? Ainda mais que nós depois também  estávamos trabalhando com o peso, né? Como eu comentei para com você, tinham  vários fatores influenciando, então, quanto maior for a possibilidade que a  gente tivesse de ter a maior amostra seria muito bom. Eu não lembro os dados,  sabe? Se nós tínhamos 125 pessoas c2c5+, 125 pessoas c2c5-, então só com  isso já precisaria mais ou menos 1250, né? Mais 1250. Não sei se a amostra  chegou perto de 6000, eu já não lembro. Ou 5000. Eu também não lembro, sabe?  Agora foi bom você fazer essa pergunta, porque na realidade essa, eu não sei  se nós usamos a mesma mostra que o Sérgio Primo-Parma usou no trabalho  anterior que nós fizemos, como eu falei para você, um trabalho dentro de  antropologia. Ali era aquela amostra, e ele precisou, porque nós precisamos de  casais que um fosse, ou que os dois, o do pai e mãe pudessem, ou os dois, ou  até, de preferência, só um deles passar, é, ter essa esse fenótipo c2c5+.  Então isso também reduz muito o próprio, a ligação, é, a possibilidade,  então a amostra tem que ser grande. Agora, com uma coisa aconteceu perto de  1990, eu não sei se a gente usou a mesma mostra que já estava estocada há 10  anos. Eu não tenho certeza porque a gente fez também atividades enzimáticas,  eu teria que ver os trabalhos, tudo bem?    PINA: Como é que foi-- Perdão, pode falar.    FREIRE-MAIA: Mas é sempre assim, mesmo que a gente às vezes é obrigado a ter  amostra muito grande para para selecionar o que nos interessa, a gente ainda tem  uma amostra que possa ter assim, um certo valor para que a gente eventualmente  tenha um resultado estatisticamente significativo.    PINA: Como é que foi o processo com o Comitê de Ética para usar essas  amostras para esse projeto?    FREIRE-MAIA: Eu lembro que quando-- O que eu lembro, né? Que quando houve a  necessidade de fazer os projetos, seguindo o comitê de ética, que tinha sido  recém formado, eu acho que nós pedimos para que eles liberassem o uso de todas  as nossas amostras já estocadas. Eu tenho quase certeza que foi feito isso, e  que, logicamente, eles aceitaram, não é, que era um trabalhão de pesquisa que  estava dentro de freezer. E a gente podia continuar agora no caso do que eu  trabalhava, havia muito o anonimato, não é? Às vezes a gente tinha um número  lá de um banco de sangue, então isso nos ajudou muito. Porque havia uma  proteção, não é, de quem tinha fornecido aquele sangue.    PINA: E foi um processo demorado, foi um processo burocrático, ou foi  rapidinho? Foi fácil? Teve que falar com muita gente, com pouca gente... A  senhora lidou com essa parte burocrática ou a senhora designou?    FREIRE-MAIA: Não, eu acho que eu lidei. Eu tenho impressão que-- Eu não  lembro que tenha sido difícil, sabe? Eu não consigo lembrar o nome do  pesquisador. Acho que é um médico que era do interior de São Paulo. Não  tenho certeza se ele era de Botucatu. E ele que trabalhou muito, acho que para a  criação mesmo desse sistema de ética em pesquisa em seres humanos. Eu acho  que havia sim, um bom fluxo de comunicação entre nós, sabe? Não lembro que  tivesse sido algo assim difícil, não é? Eu teria que ver a forma como a gente  documentou também, não é? Devia ter havido muita documentação para que  essas amostras realmente fossem, pudessem ser consideradas, você vê, imagina  as amostras também que o Salzano coletava das comunidades indígenas que nós  também guardamos algumas. Isso era algo assim, um tesouro, não é? Ninguém  vai se desfazer disso. E eu, então, nem sabia ver, só sabia o nome da  comunidade, não sabia quem eram as pessoas, nada, provavelmente o sexo só  coisas assim, não é? A idade.    PINA: Teve alguma técnica ou tecnologia nessa pesquisa da colinesterase que foi  fundamental para a pesquisa?    FREIRE-MAIA: Bom, de começo, para separar os fenótipos, a gente usava  inibição enzimática, então, do mesmo soro ou plasma de uma pessoa. Num deles  a gente colocava o inibidor com o substrato, quando a enzima agia, e no outro  não. E depois a reação dos dois comparada até visualmente, eu acho que até  eu falei para você que havia minha dificuldade, que eu não tinha instrumento  para ler. A gente olhava e já meio que ia no instituto de bioquímica para que  aquilo pudesse ser lido. Cheguei acho que a falar isso, né?    PINA: Sim, sim.    FREIRE-MAIA: É, depois já começamos com o mesmo processo de fenótipo  utilizando, daí, esses os espectrofotômetros, depois espectrofotômetros  melhores para poder até separar melhor ou, na realidade, era para poder fazer  uma boa, uma boa determinação da atividade enzimática que nós precisamos  daí de um de um espectrofotómetro, acho que de luz ultravioleta. E sempre foi  muito importante naquele começo as eletroforeses em gel de amido que nós  fizemos à base de maizena, porque era muito caro comprar o tal do amido do  [inaudível 36:00]. Mas depois começamos a trabalhar com a poliamida. E pro  desenvolvimento não só dos nossos trabalhos, mas para o desenvolvimento do  estudo da genética humana ao nível molecular, sem dúvida, o mapeamento do  genoma teve sua importância, mas do ponto de vista técnico foi a PCR para mim,  não é, naquilo que me tocou para depois fazer, inclusive, sequenciamento, foi  extraordinária. Porque a gente não tinha como tentar trabalhar com um gene  naquela quantidade imensa de genes como separá-lo, e a PCR dá essa  possibilidade de você multiplicar, multiplicar, multiplicar o segmento que te  interessa daqui do DNA, que você já sabe como é, por causa do sequenciamento  do genoma humano. Então, as duas coisas ali pareadas, um deu o conhecimento e o  outro deu a possibilidade de você utilizar esse conhecimento tendo uma técnica  que naquela amostra que você tinha de uma infinidade de genes, de repente,  multiplicar um pedaço e aquilo ficar, sei lá quantos, agora já não lembro  quanto, se é milhão de vezes mais, então sobravam os outros genes ali, mas  aquilo era como o ruído, uma coisa que não interessava, na hora que você  fosse estudar aquilo ali nem aparecia, sabe? Eu acho que ele foi brilhante. E  também só podia ser, eu imagino que podia ser um bioquímico, porque os  bioquímicos estão acostumados a lidar com impurezas. Eu acho, isso é a minha  maneira de pensar e eu penso, eu já ia querer fazer alguma coisa que fosse  pura, mas nem precisava ser pura, se você aumenta, aumenta, aumenta, aumenta  aquilo que te interessa é impureza, não é nada. Você está acostumado,  bioquímico está acostumado que mesmo qualquer purificação, imagino que  sobra, não é, os resquício de alguma coisa que não é aquilo que você  deseja. Espero que os bioquímicos concordem comigo.PINA: É interessante essa  visão não é de que a formação do bioquímico é que permitiu ele  desenvolver o PCR.    FREIRE-MAIA: Eu acho isso, sabe?    PINA: Interessante. É--    FREIRE-MAIA: Químico, também químico, até um químico poderia, não é? Eu  até não sei a formação dele. Mas eu acho que ele era bioquímico.    PINA: A senhora poderia, talvez assim, falar um pouco mais do PCR e mapeamento  do genoma humano para uma leiga como eu, assim, porque deu para entender que foi  algo muito importante, que o PCR parece que isola o gene, mas eu queria entender  melhor assim, no-- A diferença que ele fez na tua pesquisa.    FREIRE-MAIA: É, na realidade, sabe, no nosso departamento quem primeiro  trabalhou com PCR foi a professora Maria Luiza Petzl-Erler. Ela trabalhou muito  com o Salzano, com as comunidades indígenas, e ela é do departamento de  genética. Ela foi a minha orientada em mestrado, e a linha dela de, depois que  deve ter feito doutorado na Alemanha, foi uma linha de trabalho com uma  genética de compatibilidade, trabalhando muito com os soros. E a Maria Luiza  também, que fez algo tão interessante, porque não sei se já existia um  aparelho chamado termociclador, em que uma hora ele adquire uma temperatura,  depois você programa, depois eles deixam de ter aquela temperatura, e assim  vai. Então é um ciclo de temperaturas que são programadas naquele aparelho. A  Maria Luísa não tinha isso quando ela começou, então ela fazia uma  sequência de banhos-maria, te ver só, ela, que foi um a uma das minhas  orientandas, que ajudou a desenvolver a essa técnica do gel de amido com  maizena. Até tenho a impressão que na publicação, eu tenho impressão que  só ela e o Sérgio Luís Primo-Parmo eram os meus orientandos e eles que  fizeram acho que a publicação, se eu não me engano, na Ciência e Cultura,  então a Maria Luiza já tinha todo esse jogo de cintura de brasileira, de  trabalhar em laboratório que falta as coisas. Bom, eu talvez, até sabe, omito  algumas coisas. Faz tempo, né, que eu não trabalho, e também nessa fase foi  principalmente o Ricardo que desenvolveu essa a parte toda técnica, não é? Eu  olhava resultado, criticava, conferia essas coisas. Mas o que a gente precisa, a  gente precisa, então, do plasma de uma pessoa, porque ali você vai encontrar  muitas células, é, digamos, linfócitos, não é, que estão carregando, tem o  seu DNA. Então é, e elas têm núcleo, eu não vou saber explicar tanto  detalhe agora, mas é ali que é feita a extração do DNA. Então o processo é  uma receita, né, digamos, entre aspas, um processo de química mesmo ali. E que  você seguindo aqueles processos, quando chega no final, você extrai o DNA de  cada uma das suas amostras. E depois você pode até estocar aquele DNA e depois  você vai utilizar uma fração daquele DNA para você fazer a PCR. E o que que  a PCR, o que que é, qual é a lógica da PCR? Na temperatura as duas cadeias do  DNA, elas se abrem quando a temperatura fica alta. Depois elas também se fecham  quando baixa a temperatura. Esse é o papel do termociclador, abrir e fechar,  abrir, fechar. E existindo o que a gente chama de prime, que é um segmentozinho  de DNA que a gente escolhe, ele não é muito grande, mas ele tem que ter um  certo número de nucleotídeos, e que a gente já sabe pelo, é, sequenciamento  do genoma humano que aquele pedaço vai se acoplar no pedacinho do nosso gene.  Então ele tem que ser um-- Não pode ser tão pequenininho, porque por acaso,  pode ter um outro gene que também tem aquilo. Então a gente, existe esses  primers, que são ligados numa das fitas e o outro do outro lado da fita, e  existem enzimas, isso normalmente no nosso corpo, que é que uma delas é a DNA  polimerase, que vai, digamos, a enzima tendo um primer, ela vai dando sequência  desde que as fitas esteve aberta, ela vai completando lá com os nucleotídeos.  Isso acontece nos organismos vivos, quando o DNA está se replicando, né?  Quando, se você, é, uma célula, vai se dividir em dois, ele tem que fazer  isso. Então ele faz. É um processo biológico que foi imitado no laboratório.  Então, o que que a gente faz? A gente coloca o DNA polimerase, que é comprada,  a gente manda fazer os primers de acordo com aquele segmento de DNA que nos  interessa. A gente compra nucleotídeos e para algumas coisas nucleotídeos são  marcados também para depois ver a parte de fosforescência, coisa assim, ou  outra, outra marca. E provavelmente outras coisas que entram naquela solução.  E a gente imita o processo no termociclador. E isso tem lá o programa e você  manda fazer infinitas vezes. Em geral, coloca de noite e vai buscar de manhã  que aquilo ficou replicando, replicando, replicando, replicando, o que replicou  foi exatamente o teu gene, o pedaço do teu gene que te interessava, que você  já limitou com aqueles primers, sabe, de um lado para o outro. É isso, essa  aqui é a tal da PCR. Porque tem no fundo, é, o laboratório imitando o que  acontece numa célula. Claro que tem outras acho que enzimas, mas também para  fazer ligar as, enfim, você até teria que dar também mais uma olhada para ver  o que eu esqueci. Mas realmente é isso. Você vê que hoje todo mundo fala da  polimerase, não é, que a polimerase chain reaction, né, a reação em cadeia  da polimerase, essa polimerase fora de série. E aí usa, você tem uma  polimerase especial, acho que de uma bactéria, se não me engano, que aguenta  alta temperatura. Porque a polimerase é uma enzima, e para enzima aguentar  outra temperatura ela, em geral, fica desnaturada, não é? Então é, você vê  que é muito bonito isso, não é?    PINA: Lindo, lindo, lindo. Eu fiquei impressionada.    FREIRE-MAIA: Uma vez, acho que quando eu ainda lembrava bem numa palestra que eu  fiz, eu falei isso, uma pessoa veio falar comigo: &amp;quot ; Mas é ético a gente fazer  isso?&amp;quot ; , porque ela achou, assim, que ele estava dizendo, criando vida. Não,  não estamos criando nenhum ser nem nada, mas nós estamos chegando naquele  ponto de multiplicar o DNA, não é, que é para fazer trabalho. Mas ela ficou  achando que sempre-- Que a gente estava burlando alguma coisa ética, ou  religiosa, não sei.    PINA: Essa pessoa era uma pesquisadora, um pesquisador, um cientista?    FREIRE-MAIA: Não, eu acho que é uma pessoa da plateia que me perguntou isso.    PINA: É-- A senhora comentou também que essas técnicas, não é, da PCR, essa  amostra grande que a senhora tinha, ela te possibilitou essa pesquisa, porque  ela ficou menos cara que a tua pesquisa sobre ligação, né? Queria que a  senhora explorasse um pouco mais desse fator de uma pesquisa menos cara. E por  que que isso influenciou no teu trabalho?    FREIRE-MAIA: Eu, até, sabe quando-- Eu não lembro quantos trabalhos sobre a  ligação eu consegui publicar, talvez uns cinco ou seis. Mas é-- no início,  se fosse escolher vários genes, era impossível mesmo esse trabalho que eu usei  para o meu doutorado. Nos Estados Unidos ele tinha feito as tipagens de,  digamos, de várias enzimas, mas uma às vezes foi feito uma num laboratório,  outra em outro, os estudos de hemoglobina no outro laboratório, então mesmo  lá naquela época nos Estados Unidos. Porque daí o Newton Morton, que era o  responsável pelo grande projeto, ele passava para esses laboratórios e ele  usava depois para, logicamente, para o trabalho dele. E esses pesquisadores  também, estudando aquela proteína, aquela enzima específica que já era linha  de pesquisa deles. Então eu nunca teria condição de fazer isso aqui no  Brasil, se nem nos Estados Unidos foi um só laboratório que fez. Então eu  poderia, como eu fiz com a butirilcolinesterase, estudar a butirilcolinesterase  em alguns sistemas sanguíneos. Eu acho que as que nós vimos, eu não lembro  exatamente na publicação, que foi do trabalho do Sérgio Primo Parma, também  a Maria Luiza Petzl-Erler também foi o trabalho de ligação. Daí não foi com  a butiril, ou foi com o sistema sanguíneo MNS, eu acho que foi com RH. Então  isso a gente conseguia fazer. Mas logo depois também é, digamos, o  conhecimento já exigia outras metodologias. Acho que eu comentei com você, que  também surgiu essa metodologia da hibridação de células somáticas. Pegavam  célula somática humana e hibridizado com a célula de camundongo ou de rato  criava uma célula híbrida. E porque eles viram que essas células, à medida  que elas se dividiam, elas iam perdendo os cromossomos humanos. Então daí eles  faziam cultura daquelas células com poucos cromossomos e viam quais proteínas  e enzimas estavam sendo expressas naquelas células e que eram humanas, a ponto  de que, chegou num dos trabalhos, tinha um cromossomo humano, então eles  puderam dizer que algumas das coisas que estavam naquele cromossomo, não é,  não, claramente não tudo-- Então, já com isso, houve uma quantidade imensa  de trabalho que usou, usaram a hibridação de célula somática, então você  veja, daí é outro tipo de trabalho. Trabalhar com cultura de célula,  hibridização. Então, em geral, quem trabalhou com ligação não foi para  esse rumo. Até eu lembro que era um pesquisador holandês, não estou lembrando  bem o nome dele, mas foi ele que deu, assim, esse impulso. Claro que também  aquilo não durou sempre, não é, até eu não sei se não houve um pouco de  parada dos estudos de ligação e começou a existir mais trabalho para tentar  sequenciar o genoma humano, não é, aquilo ali, e houve muito trabalho, sabe?  No meio, eu não poderia realmente continuar, eu já tinha essa consciência,  não que eu não tenha feito o trabalho de ligação mais tarde, que eu  participei de um trabalho de Newton Freire-Maia, Marta Pinheiro, que o Sérgio  Primo Parma também participou, de uma displasia ectodérmica determinada por  gene do cromossomo X, conhecida pela sigla CST, que é Crise [inaudível]  Renner. Então, daí eu só trabalhei com poucas coisas, e trabalhei com gene,  quer dizer, a gente sabia quem tinha doença quem não tinha, não é, só de  pela clínica. E existia um grupo sanguíneo do, existe um grupo sanguíneo  determinado no cromossomo X, talvez haja mais, mas naquela época a gente  trabalhou com esse XG. Acredito que a gente também tenha entrado com alguns  sistemas outros, porque nós, em trabalho de ligação, a gente exclui filho  ilegítimo, porque eles atrapalham. Eles atrapalham depois o julgamento da  ligação, digamos, alguém que está ali que não, não poderia estar. Já para  os estudos da pesquisa, então havia uma certa frequência de filho ilegítimo,  talvez de 5 a 10%. Então, a gente também fazia, em todos os trabalhos de  ligação, a gente também fazia esses sistemas para eliminar filho ilegítimo,  às vezes filho adotado também que realmente que não, não tem porque a gente  saber, não é, mas aí a gente simplesmente tira. Ou às vezes é filho que a  maternidade eles te enganam e trocam as crianças, não é?    PINA: Caramba.    FREIRE-MAIA: Isto acontece. Deve ser pouco, espero.    PINA: Mas pode ser também filho extraconjugal?    FREIRE-MAIA: É-- O tal de, em geral, quando eu falava filho ilegítimo, bem,  antigamente eram extraconjugal. Agora usei a palavra correta que é, hoje eu  também acho que não existe isso de filho ilegítimo, porque todo filho, como  dizem, é legítimo e pode ser, digamos, no próprio certificado, não é, de  nascimento. Mas a gente usava a palavra também em inglês, que era  illegitimacy, é, illegitimacy.    PINA: É-- Das coisas que a senhora queria falar da última entrevista, tem mais  alguma coisa que a senhora anotou?    FREIRE-MAIA: Eu anotei alguma coisa que não é talvez importante. Assim, mas  quando eu falei ali daquelas sugestão do PTC e Kell, que o McKusick colocou a  sugestão colocando o primeiro trabalho nosso, e depois só mais tarde que houve  realmente com outro trabalho o estabelecimento, eu falei que eu, bem, anos mais  tarde, meu marido viu, não é? Na Science, que realmente quem estudou esse PTC  viu que ele realmente estava ligado mesmo com ele, estava no mesmo cromossomo  que eu, que o Kell que a gente já tinha sugerido. E eu falei, até que eu acho  que saiu um trabalho na Science 2002, foi 2000-- Início de 2003. Não sei,  talvez nem-- Mas é que como eu vi que eu falei errado, porque eu até me  interessei por ver esse trabalho, e daí eu vi que é uma Science de 21 de  fevereiro de 2003, porque daí eu falei para você, que eu estava falando que a  professora Glaci Zancan tinha dito, talvez seja um receptor e era um receptor.  Então, esse é o trabalho que fala também do receptor. Na hora eles sabem que  aquele receptor está no mesmo cromossomo daquele grupo sanguíneo Kell. Uma  coisa que eu falei para você e pode, não é, que possa ter dado uma ideia  errônea, eu acho que até eu falei errado, que quando eu enviei a tese pro  Salzano, eu-- Não é que eu tenha enviado para uma secretária, eu enviei para  o Salzano, mas eu já enviei a tese definitiva com capa, com tudo. Ali foi  talvez uma falta de delicadeza da minha parte, a gente quando é jovem, às  vezes é o mais, assim, a área de impulso, não é? E o seu, e porque o Salzano  estava fazendo o papel do meu orientador através de uma, de uma grande  gentileza e amizade, não é, porque ele não tinha sido meu orientador e ainda  ia arcar com alguma crítica que alguém fizesse eventualmente, né? Então, ali  a gente não pensou nisso. Então, até às vezes é bom que isso fique  registrado, porque quando a gente tem mais jovem, a gente ultrapassa um pouco a  linha de chegada. Mas não mandei para a secretária, não, mandei para ele.  Outra coisa que eu comentei, até você me fez uma pergunta, que é da forma  como eu falei que eu nunca tive assim, tanto interesse de trabalhar com, com o  auxílio que não fosse público, eu acho que isso é uma coisa minha, assim, da  ligação com o que é público, sabe? A minha formação educacional, ela foi  quase que totalmente em escola pública. A escola pública, eu tive a felicidade  de estudar numa época em que as escolas públicas eram muito boas, eu entrei  com 4 anos no jardim de infância do instituto de educação aqui de Curitiba. E  eu saí com 18 anos, com o diploma de professora, não é? Falamos normalista,  não é, professora na época de primeiro grau. E depois eu estudei na  Universidade Federal do Paraná, e eu fiz humano na Universidade Católica, para  poder, algo que eu nem usei, mas regularizar, que eu poderia ser professora,  digamos, de inglês, porque eu tinha terminado a Cultura Inglesa, então a  Cultura Inglesa aqui, eu estudei um pouco de italiano e francês, e isso eu fiz  nessas escolas particulares, então acho que eu estou muito assim-- E eu  trabalhei como funcionária pública em grupos escolares até 4 anos, cerca de  uns 4 anos, um pouco mais, e depois também na Universidade Federal do Paraná.  Então eu tenho esse sentimento, e eu me sinto bem, sabe, de ter trabalhado  dessa forma. Claro que cada época é uma época. Outras épocas podem ser  outras. E quando eu falei isso, eu não quis dizer que eu não acho importante o  auxílio da empresa na pesquisa. E até hoje, eu não sei como está, mas eu  sempre fui muito favorável àquelas incubadoras dentro das Universidades  Públicas, fazer também aquela união com empresas, né? Para quem trabalha com  uma pesquisa aplicada que possa gerar um produto, gerar um processo  tecnológico, enfim, uma invenção também, então, não é, pode ter ficado  assim, que eu valorizei tanto essa parte pública, mas eu sou, eu acho muito  importante essa colaboração. E na época em que eu não era professora que  começaram essas incubadoras. Isso era muito difícil. Não sei como hoje está.  Muitas vezes, o empresariado brasileiro já tem tudo que já vem do exterior.  Pode ser até que com as startups a coisa seja diferente, mas eu sou muito  favorável, porque eu acho que isso aí é extremamente importante para a  economia do país e seu próprio desenvolvimento, às vezes das empresas e de  pesquisadores que são muito mais voltados para a pesquisa que leva aplicação.  Então era mais para completar o que eu disse, para não ficar estranho. E  também tem tanta fundação, né? Que como foi a Fundação Rockefeller, que  ajudou tanto os departamentos de pesquisa, principalmente ligados à biologia no  Brasil. E que também são extremamente importantes, não é? Então, o nosso  departamento de genética, quando começou em 1951, ele pode ser alavancado  também, com certeza, pela organização, pela Fundação Rockfeller e os outros  também, então era só para esclarecer. Você me fez uma pergunta também  sobre, eu sei que você tem interesse em gênero, não é? Então, você me fez  uma pergunta se eu acho que-- Se realmente eu, eu às vezes era respeitada por  mim mesma ou por causa que eu era, por causa do meu marido que tinha tanta  importância como cientista, como ser humano. E eu nunca senti, assim, nada nem  que ninguém, assim, que me dizer como, que me desrespeitasse aqui no Brasil.  Mas eu posso te contar uma coisa que me aconteceu. Eu já falei em outras  entrevistas, que me aconteceu quando eu estava na Inglaterra. Eu cheguei lá em  1970 e já entrei nesse projeto. E um ano depois, em 71, teve um Congresso  Internacional de Genética Humana. Foi o primeiro Congresso Internacional de que  eu participei. E eu levei, digamos, o começo desse trabalho, e naquela época  os trabalhos eram apresentados oralmente e não era ainda essa fase de tanta  gente, de ter painel assim. E a sala onde o nosso trabalho seria apresentado era  pequena, mas tava cheio. E também o nosso assunto era muito, é, eu acredito  que era só sobre a ligação genética, porque eu lembro que quem me antecedeu  foi o Renwick, que trabalhava também na Inglaterra, em Londres, com ligação  genética, principalmente com parte assim de programação e parte teórica  também, um pouco numérica de fazer, de, acho que ele desenvolveu um método  bem para a gente ter uma certa avaliação da significância daquele resultado  de ligação que a gente obtivesse. E ele fez lá, ele já era um, era um  cientista respeitado, e apresentou assim até meio que deu um pequeno show, para  você entender, ele provavelmente no hotel um cabo de vassoura ou a própria  vassoura, não lembro, e um lençol, porque ele tinha lá uma certa, ele fazia  sempre uma distribuição lá dos log scores, que eram os resultados finais lá,  da ligação. E como que ele se distribuía, então, a curva era feita pelo  lençol, com aquele, segurando por lá com aquela vassoura. Isso eu não  esqueci, ninguém deve ter esquecido, não é? Então ficou muito marcado. E ele  terminou, e eu acho que ia ser a seguinte, fui eu, que já não foi uma coisa  fácil, não é? Eu muito jovem e ficar na frente lá daquela audiência, que  era de geneticistas que trabalhavam com genética humana, muito famosa. A mesa  também famosa, eu lembro de um deles, que era famoso, os outros até eu  esqueci, que também deviam ser famosos, mas você tem de qualquer maneira, eu  só lembro de um. Daí quando eu terminei, aí vem a história do gênero.  Quando eu terminei o presidente da mesa me agradeceu como ele agradecia a todos,  como ele introduzia também antes da gente se apresentar o trabalho, então, no  final, ele me agradeceu. Mas ele não-- No agradecimento ele me agradeceu muito  pelo meu charme. Olha, eu sempre fui branquinha e corada, a pele assim, meio  fininha. Quando nossa, então muito mais, mas o sangue veio, deve ter ficado  roxo, e o que eu senti mesmo foi raiva. Olhei, não sei se raiva no sentido,  assim, eu fiquei com uma colérica, digamos, em relação a ele. Eu fechei a  boca e eu era muito nova, mas se eu não, se eu já fosse uma pessoa mais  amadurecida, em outra época, eu teria olhado para ele e dito: &amp;quot ; Agradeço muito  o senhor ter feito essa observação sobre o meu charme, mas foi uma pena o  senhor ter esquecido do Renwick. O senhor devia ter elogiado a gravata dele&amp;quot ; .  Foi o que eu, sabe, porque você vê, eles não tinham noção. Ele achava que  ele estava me fazendo uma gentileza. Não estava em desfile de modas! Não  está, não era concurso de miss, não era nada. Que história é essa? E isso  era um inglês. Não vou falar o nome porque, mas era um inglês. Agora eu vou  falar um pouco de outros ingleses. Por isso que eu fiquei muito chocada até,  sabe? Num dos congressos da Genetical Society, eu já tinha amigos ingleses,  alguns eram um pouco mais novos que eu, que estava fazendo doutorado. Eu estava  sentada assim, junto deles assistindo essa provavelmente era a última sessão  do ano, que em geral acontecia lá por novembro, dezembro, e era em Londres. Ah!  Eu já sei até quando foi, porque se eu estava junto com aquele grupo foi  realmente em 1970. Novembro de 70, eu acho, não-- É, novembro de 70. Ou 71,  mas acho que é 70. E tinha uma jovem pesquisadora australiana, que  provavelmente estava na Austrália, deve ter feito um estágio lá, e veio se  apresentar. E eu sempre, sabe, mesmo não tendo tanto interesse em roupa, mas eu  gosto muito de cor. Eu gosto muito da parte estética. Eu lembro até hoje que  ela estava com uma roupa verde e ela era uma moça muito bonita, loira. E já,  já devia ter assim, um pouco de, era uma roupa verde e com [inaudível  1:06:54]. E ela estava de bota, provavelmente ela, 71, porque eu também estava  usando bota. Você sabe que quando terminou, eu fiquei tão bem impressionado  com o trabalho dela. Era um trabalho evolutivo, sobre evolução, se não me  engano, de hemoglobina em Canguru. Deve ter estudado, não sei, não sei  explicar agora, mas era evolutivo da hemoglobina em Canguru. O trabalho do valor  dentro da-- Do entendimento de Canguru, né? De quem é o especialista ainda  trabalhando com hemoglobina. Quando terminou, estava encantada com aquela moça.  E o que que eu conheço, colegas disseram, se referiram a roupa dela, a bota.  Sem cabimento. Então você veja que-- Aquele início da década de 70,  acadêmicos, não é, pessoal de universidades inglesas, homens, eles tavam ali  muito estranhos mesmo, não é? E eu, então eu acho que. Que isso podia ser  meio geral na Europa. Isso eu nunca tive com o meu orientador. Meu orientador  era uma pessoa, assim, avançada, sabe, e também do ponto de vista humano. Eu  acho que aí também tem algum problema humano nessa, nesse problema da não  valorização, não é, no sentido da mulher, de modo que eu, quando o homem é  culto e, entendem, não é mesmo naquela época, quando não se falava tanto de  diversidade, de nada. Ele sabe respeitar a mulher como respeita um homem. Deixa  eu ver o que mais-- Você me fez uma pergunta do MIM, né? Do McKusick. Eu até,  você sabe que funciona ainda, é uma coisa muito boa para as pessoas terem  informação sobre genética humana, genética médica. Eu vi pelo meu celular,  só que no começo eu não era ainda OMIM, o &amp;quot ; O&amp;quot ;  foi quando se tornou online.  Era só Mendelian Inheritance in Man, era MIM, mas era um livro impresso.  Começou um livro não muito grosso e foi aumentando, aumentando. Chegou num  ponto que era muito grosso e depois eu até não sei se não tinha mais de um  volume, e que foi criado o mesmo pelo Victor McKusick. E eu tive a oportunidade  de conhecê-lo. Eu acho que até uma vez num congresso brasileiro, mas eu  conheci lá em Paris na época. E também, é, esse, falando um pouco desse  congresso de Paris, ele me deu uma grande oportunidade de conhecer muitos dos  geneticistas que eu conhecia pelos artigos e pelos livros. Então ele foi muito  importante para mim, como também foi a própria Inglaterra de eu conhecer os  pesquisadores britânicos, né? E às vezes, algum outro pesquisador de fora da  Índia também, que fazia a visita, enfim, de outros países, não é? E eu, o  Victor McKusick, eu fui pesquisar para ver se era mesmo MIM, e depois OMIM, e  ele é considerado o pai da genética médica, né, no mundo, e eu sei que eu, o  professor Oswaldo Frota-Pessoa considerava o Newton Freire-Maia o fundador da  genética médica no Brasil, por causa também de ter iniciado aconselhamento  genético, começado a fazer trabalho de genética com pessoas que têm  patologias. Eu acho que era isso. Não sei se acrescentou alguma coisa, mas  sempre às vezes, alguma coisa que possa ser corrigido ou complementado.    PINA: Acrescentou bastante, sim. É, a senhora falou que essa questão do  gênero, a senhora sofreu muito na comunidade europeia, né? Esses episódios,  assim, na comunidade brasileira não teve nenhum episódio.    FREIRE-MAIA: Não tive nunca, que eu lembre, não. E eu comecei, sabe, na  comunidade brasileira, assim, deu participar de congresso já em 1965. Eu nem  tinha terminado a graduação, foi o primeiro congresso da Sociedade, da  Sociedade Brasileira de Genética, que era junto com a Sociedade Brasileira para  o Progresso da Ciência. E em 65, se eu conhecia algum pesquisador, é porque,  porque tivesse visitado o departamento de genética, isso eu não sei te dizer  agora, então, porque depois, quando houve o nosso curso de mestrado, eles  vinham para dar as aulas na pós-graduação. Daí, mas e em 65, eu não lembro  se eu fui no congresso 1966, 1967, aos 1968 eu não, não fui. Então eu fui  sendo conhecida, ainda solteira e fui sendo conhecida nos congressos e fazendo  amizade, não é? Sempre tive amizade com essas geneticistas do Rio Grande do  Sul. Mas algumas da minha idade, alguma um pouquinho mais velha, e depois,  logicamente, também as mais jovens um pouco com o grupo de São Paulo, não é,  da capital. Já ali por, eu acho que em 1969, eu conheci a professora Eliane  Azevedo da Bahia. Eu sei do seu, até desculpe falar o que eu vou falar, mas eu  sei desse teu interesse pelas pesquisadoras brasileiras e a Eliane Azevedo é  uma pesquisadora de muito valor, e até depois de não estar mais fazendo  trabalho só de genética, ela desenvolveu a linha de ética em pesquisa,  orientou mestrado, doutorado. Ela foi reitora da Universidade Federal da Bahia,  então, ela foi orientada do cientista Newton Morton, fez doutorado com ele no  Havaí, e ela trabalhou na Hospedaria de Imigrantes nesse projeto que depois eu  utilizei os dados para fazer o estudo de ligação. E eu, eu conheci a Eliane  num Congresso de Genética Humana em Porto Alegre. Eu lembro bem disso. Ela  tinha recém chegado do Havaí, e já começamos a ser amigas. E aí, Eliane,  quando eu estava em Birmingham, e que eu ia às vezes para o Instituto Galton,  lá em Londres. Eu fui uma das vezes em que a Eliane estava fazendo um estágio,  eu acho que também trabalhando com enzima, e o professor Moacyr, doutor Moacyr  Mestriner que foi professor de genética, bioquímica humana em Ribeirão Preto,  também estava lá. Eu acho que foi lá que eu conheci o professor. Não tenho  certeza se foi lá que eu conheci o professor Mestriner. Anos mais tarde, uma  das minhas colaboradoras, professora Maria Angelina Canever de Lourenço, que  faleceu há 2 anos, ela esteve no laboratório do professor Moacyr Mestriner,  para aprender as técnicas de eletroforese, que depois nós utilizamos para o  estudo de butirilcolinesterase. Então, eu pude aproveitar, aí o professor  Moacyr Mestriner, eu não sei se ele teve também formação em bioquímica,  porque ele, dentro do nosso grupo da época, ele era o que trabalhava muito com  a parte bioquímica da genética. Então os dois, eu estive com os dois, eu, a  Eliane, até fiquei mais sai com ela, provavelmente jantamos, tudo, mas o que eu  já conhecia, né? Em 68 e devo tê-la encontrado, não sei se foi em 72, e o  Mestriner realmente eu estive no laboratório vendo ele aplicar as enzimas ali  no gel. Provavelmente feito com amido [inaudível]. É, é isso.    PINA: A minha orientadora, ela tem um artigo sobre, né, do ponto de vista da  história da ciência, sobre a Eliane Azevedo.    FREIRE-MAIA: Formidável.    PINA: Sim, depois posso te mandar se a senhora quiser, um trabalho bem legal,  bem interessante.    FREIRE-MAIA: Eu tenho muita admiração pela Eliane, de vez em quando nós nos  comunicamos pelo WhatsApp.    PINA: Legal. Legal. A senhora conheceu a Cora Moreira?    FREIRE-MAIA: Eu conheci nesse começo ali de frequentar as reuniões, não é,  no SBPC, não é? Eu lembro dela alta, magra, porque ela foi eu acho que uma das  fundadoras, não é? Dessa parte, iniciou a genética humana lá na Bahia, não  é? Sim. Mas eu acho que não era no hospital onde a Eliane depois começou,  tenho a impressão que eu devia ser talvez Faculdade de Filosofia, Ciências  não é, e Letras talvez, eu lembro dela. Ela é muito amiga do grupo, um pouco  mais velha que eu, né? Galera muito respeitada, professora Cora. E ela também  tinha equipe. Conheci algumas pessoas da equipe dela.    PINA: Entendi, é, a gente tá atrás de notícias dela porque tem pouca  documentação sobre ela.    FREIRE-MAIA: Talvez a professora Eliane saiba alguma coisa. Ou posso encaminhar  vocês para quem trabalhou com a professora Cora, até eu tenho um amigo que  tinha ligação com pessoas do grupo da Cora, sabe?    PINA: Ótimo, ajudaria bastante. É, bom, falando, né, a senhora já falou um  pouco do Congresso de Genética que acontecia dentro da SBPC, uma das perguntas  que eu queria te trazer hoje é: Qual, como é que foi a primeira reunião de  genética dentro da SBPC que a senhora foi? Os detalhes da viagem, as pessoas  que você conheceu, os trabalhos. Quero saber.    FREIRE-MAIA: Olha, eu o que eu posso dizer é que eu estava tão nervosa. Eu  estava muito nervosa, porque eu ia apresentar esse projeto Curitiba 3. E na  realidade, as 3, era eu, a Maria da Graça, que eu já falei, Azevedo, não é?  E que depois ficou com o sobrenome do marido Fialho, e a Ieda Procópio de  Aguiar, que depois casada se tornou Volter. Aí, por algum motivo eu não pude  ir, e a Maria, a Maria da Graça, ela acompanhou o professor Newton Freire-Maia,  na época que eu chamava de professor, junto com a primeira esposa dele. Os 3  foram para Leiria, em Portugal, para fazer um trabalho de consanguinidade em  Leiria. Então, eu estava sozinha. E eu era a mais nova ali. Eu é que sabia  menos de genética. Então eu ia falar muito da parte da metodologia, não é?  Eu fiquei muito nervosa. E eu, às vezes, como título era um título, assim,  abrangente, falava provavelmente em educação, aspectos clínicos, teste de  inteligência, não é? Não sei como é que era o nosso resumo. Eu cheguei a  escutar pessoas da área humana, quer dizer assim, das ciências humanas  falando: &amp;quot ; Oh! Esse trabalho, quero assistir esse trabalho!&amp;quot ; . Eu pensei, meu  deus, esse trabalho vai encher de gente na sala. E não sei, a troco de que  naquela época, sabe, a SBPC não era como, mas anos mais tarde, ela se tornou a  programação fixa e acabou. Só que lá as vezes eles trocavam, e eu fiquei  tão feliz que puseram a minha para o último dia, quer dizer, a minha a sessão  onde eu participaria, não é? Porque daí muita gente já tinha ido embora  também, não é? E ali, provavelmente, só ia geneticista, então isso foi uma  coisa meio cômica. E eu estava tão nervosa. Bom, eu achei extraordinária,  não é, você poder assistir, sempre achei isso na SBPC até hoje, você  assistir às vezes reuniões de outros assuntos, com outros pesquisadores, e  outros intelectuais também, não é? Então é uma reunião muito rica e para  mim era, em 65, era a segunda vez que eu saía de casa assim, sem família,  porque primeiro foi em 64, quando eu fui lá para São Leopoldo com a Maria da  Graça, que eu acho que eu falei para você e com a Ieda que nós apresentamos  também esse mesmo trabalho Curitiba 3. Então essa era a minha segunda viagem,  né? Eu lembro que eu fiquei hospedada assim, um tipo de um pensionato de  freiras, sabe, que não era longe. A gente podia ir a pé para onde estava sendo  realizada, eu não sei se era a Faculdade de Medicina, a reunião toda, não é,  aquela época não era assim a quantidade de gente que tem hoje, não é, para  assistir. E eu lembro que eu estava tão nervosa. E eu tinha amizade com o grupo  também do professor Ladowski, que é da fisiologia aqui de Curitiba,  pesquisador também, que ele-- E ele era muito amigo do pessoal da USP, da  bioquímica, da fisiologia. E eles iam para Ouro Preto. E eu numa dessas disse:  &amp;quot ; Ai eu vou conhecer Ouro Preto&amp;quot ; . Então eu não sei se era tarde, se eu fui com  eles, não sei se foi mais do que isso. Eu só sei que alguém anotou que eu fui  para que eu falhei, sabe, aquelas sessões da SBPC, porque depois, né, na  vinda, eu sei que eu não é que ele me chamasse atenção, mas ele disse: &amp;quot ; Eu  soube que você foi visitar--&amp;quot ; , o Newton Freire-Maia, não é, &amp;quot ; Você foi para  Ouro Preto com o professor Ladowski&amp;quot ; . E eu um medo, não é, agora que vem aí um--    PINA: [risos]    FREIRE-MAIA: Eles chamavam Pito naquela época, e ele falou: &amp;quot ; Fez muito bem,  sabe por quê? Cultura é muito importante&amp;quot ; . [risos]    PINA: Ai que alívio.    FREIRE-MAIA: E o professor Ladowski, se não me engano, era pernambucano, porque  depois ele saiu de Curitiba, voltou para Recife. E eu acho que ele tinha vindo  de Pernambuco para Curitiba, ele provavelmente era médico, trabalhava na  Faculdade de Medicina dos Maristas, que depois mais tarde isso se transformou na  PUC. E o professor Ladowski era um homem culto, ele era casado com uma mineira.  Não sei se o Ladowski que era mineiro, mas ele entendia muito da história de  Minas Gerais. Nossa. Ele mostrava: &amp;quot ; Esse banco aqui foi aonde que o Cláudio  Manuel da Costa escreveu--&amp;quot ; , não sei, o outro e o outro. E eu sempre gostei de  história, estudei, assim, o que era necessário, né? Porque a gente por esse  tempo, tirar boa nota e tal. Mas hoje eu vejo que se eu tivesse ido também para  o campo, de pensar que a ciência me puxava mais, mas o campo da história é um  campo muito bonito, mas eu no ginásio, chamava ginásio lá, o tal do primeiro  grau. Eu, se fosse para perguntar da história do Brasil, o que mais me tocou  foi Inconfidência Mineira. Então, para mim, aquela visita para Ouro Preto foi  muito importante, então a minha primeira, a minha primeira reunião da SBPC  também foi bem histórica. E quando eu vi o túmulo do Tiradentes lá no museu,  eu estava andando e vi que no chão que tinha lá o túmulo, tinha dentro,  nossa, fiquei muito emocionada. E então estou lembrando disso para ter contar  que também as reuniões têm isso, né? Que também eu provavelmente me  entrosei um pouco. O pessoal da bioquímica de São Paulo tem isso, eu também,  entre os jovens a gente conhece os outros, não é? Devo ter conhecido mais  gente da USP. Me tornei assim um pouco mais ligada com, até cheguei a conhecer  talvez lá, mas que não lembro, foi assumir uma tese, não é? A . Eu acho que  a Maria Helena, as duas foram gentis comigo. Não sei se eu te conto uma coisa,  nem sei se vale a pena, depois, se for na entrevista, mas é pra ver coisas  assim, bem femininas. Então, elas me chamaram antes da reunião que elas já  tinham me visto lá, de certo, ajeitando alguns slides, alguma coisa. Elas me  chamaram, falaram: &amp;quot ; Eleidi, a sua anágua está um pedaço, está aparecendo&amp;quot ; , a  gente usava anágua. Nem sei bem como era, para assim, não é, para-- Não sei  se o vestido não era forrado, ou se era uma combinação que está, mas era  anágua mesmo, porque era na cintura. Ai, daí se eu levanto, eu fiquei nossa,  imaginei me apresentar ali na frente. Meu vestido era um azul forte, ainda a  anágua branca, já viu. Eu sei que daí, eu saí dali, me dei uma escondida  atrás lá, numa escada, e levantei o cós ali no meio para depois, quando fosse  o apresentar, estivesse em forma. Você vê que talvez se fosse um homem não  teria seu problema. Isso tem um pouco a ver, pois de gênero também. Obviamente  se a camisa dele tivesse fora da, mas nós, mulheres, sempre tínhamos esse  lado, né? Imagina se vai aparecer a anágua.    PINA: Uma preocupação, né? E dessas reuniões de genética da Associação de  Genética e da SBPC, em algum momento estar nessa reunião, nessas reuniões, te  deu uma oportunidade de parceria, de pesquisa, uma oportunidade de pesquisa de trabalho?    FREIRE-MAIA: Olha, os meus trabalhos com a butiril, é, não tinha, fora o  professor Magna, junto com o professor Bernardo, trabalharam pouco tempo com  isso, não tinha outras pessoas para eu fazer muita parceria. Eu vou pensar um  pouco-- É, com relação ao professor Salzano, logo depois do meu doutorado já  começou a nossa parceria, com a parte das comunidades indígenas. E a gente  teve a parceria também com o Henrique Krieger, que eu já tinha sido orientada,  assim, como a gente pode chamar assim de uma iniciação com o Newton  Freire-Maia, que ele formou o grupo dele, então eu, quando eu conheci o  professor Calógeras, que já houve por causa da própria ligação com o  professor Freire Maia. Agora, a gente tinha bastante, conversava muito. Eu  lembro que uma vez o professor Warwick Kerr, ele quis que eu fizesse uma  análise, ou se eu, o que eu achava dele usar a metodologia de ligação usada  na espécie humana para ele estudar a ligação em abelha. Daí eu expliquei  para eles, não é, escrevi uma carta explicando que, para abelhas, o que ele  fazia era o mais indicado, que aquela metodologia toda tinha sido realmente  feita para a espécie humana e para, principalmente, em geral, para duas  gerações. E ele, do jeito que ele fazia, fazendo criação de abelhas, podia  ter várias gerações, a metodologia que ele estudava estava perfeita. Eu acho  que uma vez também, mas daí já havia muito entrosamento com esses  pesquisadores, eu tive, eu e Newton Freire Maia já éramos casados nessa  época, depois, talvez não sei se década de 80 nós fomos, ele foi convidado  para ir para Salvador. Eu acho que eles davam os cursos lá. E eu não sei se a  gente já planejou antes, mas eu indo para lá, nós, comecei um projeto também  de butirilcolinesterase com populações baianas. Eu e também tive trabalho em  que eu fiz as análises em trabalhos da Eliane, relacionados com casamentos  preferenciais na Bahia, eu acho, em Salvador, são trabalhos, porque foram  publicados, em relação a, por exemplo, a cor da pele e outros traços, se  havia alguma preferência para aqueles que eram classificados como branco,  casado com um branco, mulato com mulato, negros com negro, ou se casava, quando  casava branco com mulato, se acontecia exatamente de uma forma assimétrica se a  mulher era branca e o homem era mulato, ou a mulher era mulata e o homem era que  era branco, que não é verdade, não é? Em geral, quando é o escuro, a mulher  pode ser um pouco mais escura, em geral naqueles trabalhos, viu. Então nós  fizemos uns trabalhos assim dentro da antropologia, eu tive essa participação  nesses trabalhos, cujas amostras foram coletadas pelo grupo da Eliane. Eu estou  lembrando de dois trabalhos. Depois outros trabalhos foram por causa, às vezes  pessoas que vinham ser orientadas aqui, né? Eu tive trabalho com o João  Guerreiro de Belém do Pará, mas ele fez mestrado comigo. E eu acho que é mais  ou menos isso. Não sei se eu estou esquecendo alguma coisa, até a minha linha  de pesquisa por ela ser assim que pouca gente trabalhava com ela, limitou esse  aspecto de às vezes de muita, muito entrelaçamento com outros grupos, né?    PINA: A senhora pode comentar mais e falar mais, assim, dessa experiência da  parceria com o professor Salzano depois do doutorado?    FREIRE-MAIA: Bom, eu lembro, não é, do professor Salzano me mandar, não é, a  documentação sobre as informações daquelas comunidades indígenas. Também  havia o grupo que ele chamava-- Daqui a pouco eu talvez eu lembre. Que  provavelmente são já miscigenados, sabe? Assim, dizer geral, são populações  ali, ribeirinhas da Amazônia, e que então isso para mim foi muito  interessante, trabalhar com a comunidade indígena. E realmente, o interesse  também do professor Salzano é que ninguém tinha ainda trabalhado com o,  estudando a butirilcolinesterase. E realmente pela parte étnica, não é, dos  indígenas que são mais, às vezes são mais, assim, asiático, foi  interessante ter feito esse trabalho, sabe? E poder caracterizar, eu acho que  eles são trabalhos de um, não sei até o que que você acha como historiadora,  eles têm o seu cunho histórico. Porque essas populações, elas vão se  modificando, não é? Às vezes aumenta, diminui, e às vezes alguns grupos vão  para outros locais. E eu, é uma caracterização, e também eu tive comunidades  indígenas aqui, que é do grupo aqui de Curitiba, mas cedeu amostras. Quer  dizer, colegas meus que tinham ido para, eu penso, estudar os Guaranis aqui do  Paraná. A professora Maria Luiza Petzl, onde trabalhou muito com o professor  Salzano, ela trabalhou muito, o sistema dela é muito importante por causa da  grande variabilidade. Então dá muita informação interessante. E nesse  trabalho que ela fez com o Salzano, usou provavelmente muita amostra dele, mas  ela também fez é, a Maria Luiza Petzl-Erler, ela fez também, eles fizeram  coletas em Mato Grosso do Sul. Então eu também colaborei estudando a  butirilcolinesterase utilizando das comunidades indígenas no Mato Grosso do  Sul. E também pesquisador da Fiocruz, que trabalhava junto com o Salzano, eu  também usei materiais que tinham sido coletados por eles. Então, é, foi  muito, eu achei muito interessante esse trabalho. Agora, o Salzano, para mim,  sempre foi um mestre, não é? É, eu acho o livro dele publicado junto com  Newton Freire-Maia sobre populações brasileiras, que depois foi publicado em  inglês nos Estados Unidos, também acho um livro histórico aqui, sabe. Um  livro histórico de biologia histórica, poderia talvez dizer genética  histórica, é mais do que genética, porque tem demografia ali, tem muita coisa  sobre a parte das comunidades, tanto eu imagino que tenha também sobre  afro-brasileiros. Eu, já faz algum tempo que eu não leio, é um livro que  sempre me encantou. Então eu acho que o professor Salzano, para mim, também  foi um mentor. Sempre tive boas discussões com ele. Eu, o Salzano nos visitava  bastante. E a seriedade do Salzano, não é? Qualidade em pesquisa,  organização dele, utilidade como ser humano também, sabe? Então foi uma  influência boa. Eu costumo dizer, não sei se eu já falei para você, eu acho  que a minha geração, assim, de geneticista, eu estou falando dos que  trabalhavam com genética humana, que são os que eu conheço melhor, eu acho  que nós fomos muito privilegiados pelos nossos, é, digamos, orientadores.  Porque eles também eram muito amigos, eles eram sérios, eles eram, eles eram  seres humanos muito especiais, e eles eram de uma categoria científica de  primeira categoria. Então, por exemplo, o Newton Freire-Maia, o Salzano, o  Frota-Pessoa, que eram muito amigos, não é, e depois, as gerações logo  depois deles que vieram, não é, que também o Antônio Cordeiro também, que  é da mesma geração. Que também era um pouquinho, tinha um pouco mais de  idade do que o Salzano, que faleceu faz pouco tempo, e que estudava muito a  parte de evolução, daí não era genética humana. Mas ali a amizade deles era  tão grande que eles todos também trabalharam com, na realidade com  drosófilas, depois passaram para a genética humana. Então eles foram todos  muito importantes, sabe? Nós fomos privilegiados. Mas depois os que foram um  pouco mais jovens que ele, até um pouco mais velhos, que também era uma  geração que nos deu ali um ambiente intelectual, de respeito, de ensinamento,  sabe? Que eu não sei se hoje isso existe. Às vezes, quando alguma coisa cresce  demais, é, certos valores se perdem, porque também eram valores assim, unidos  por uma amizade verdadeira, não havia essa coisa de competição, ser melhor  que o outro, sabe? Eu acho que eles todos tinham consciência de que eles eram  muito bons. Eram seguros, não precisavam ali de picuinhas.    PINA: Nessas pesquisas que a senhora fez com o professor Salzano, utilizando as  amostras de indígenas, a senhora chegou a ir na nas comunidades indígenas, ter  contato com os sujeitos humanos?    FREIRE-MAIA: Não, porque eu já recebia o plasma que já estava estocado, né?  Lá em Porto Alegre sempre eu recebi o plasma, mesmo o dos meus colegas aqui do  departamento, eu recebi o que eles tinham coletado. Acho que talvez tenha até  deles recebido também hemácias E recebi também da pessoa, Maria Luiza. Eu  acho que eu gostaria até ter ido em comunidade indígena. Eu tenho muito  respeito pelas comunidades indígenas também. As comunidades indígenas são  tão ameaçadas pela cultura nossa, atual, pela nossa política, por tudo, né?    PINA: Mas, do ponto de vista da pesquisa, teria feito alguma diferença a  senhora ter conhecido as comunidades?    FREIRE-MAIA: Eu acho que para o que eu estava examinando não. E eu acho que  para o antropólogo é que precisa mais, não é? Ou que se eu tivesse iniciado  a pesquisa naquela comunidade, daí sim teria que ir lá ver bem o que está  sendo perguntado, como está sendo perguntado, como está sendo respondido, né?  Como está sendo feita a parte da coleta. Mas como eu já tinha material para  trabalho, daí não.    PINA: É, eu queria saber também, ao longo do teu trabalho na Universidade  Federal de Curitiba, ali no departamento de genética, esses anos todos, né, se  dedicando ao departamento, como a senhora poderia descrever a relação do  departamento de genética de Curitiba com o departamento de genética do Rio  Grande do Sul?    FREIRE-MAIA: Olha, eu acho que sempre foi muito bom. Então você vê, eu e o  professor Bento Arce Gomes fomos os primeiros que foram fazer o doutorado em  Porto Alegre. Porque nós não tínhamos doutorado aqui, depois foram o  professor Edemir Cavalli, o professor Lodércio Culpi e o professor Ives José  Sbalqueiro. E esse é o que eu estou lembrando, então aí eu já estou contando  cinco professores do nosso departamento, não é? É, eu acho que foram eles que  fizeram esse tipo de, esse doutorado, né? E eu sei que o, eu acho que o Salzano  foi orientador do Lodércio Culpi, a Margarete do professor Edemir Cavalli, do  Ives Sbalqueiro, e o Bento Arce Gomes deve ter sido-- O Salzano também. Acho  que está faltando um aí, o Edemir, o Ives, ah, o Lodércio. Eu não sei, deve,  eu não sei se havia ali uma coorientação de Newton Freire-Maia no caso do  Lodércio, não tenho certeza. Eu, havia talvez algumas coorientações aqui do  grupo de Curitiba, sabe? Talvez no pessoal da citogenética, o Francisco Marsalo  tenha feito alguma orientação, mas eu não tenho certeza, então eles tiveram  toda essa influência. Eles tiveram influência de definir, participar de cursos  na nossa pós-graduação, o professor Salzano, eu acredito que o Israel  Rosemberg deve ter vindo, também, provavelmente a Margarete fez algum curso com  a citogenética. Tem mais. Eu sei que o Aldo, Aldo... Agora eu não...    PINA: Arce-Gomes?    FREIRE-MAIA: Não, Aldo, o Aldo que é que nós tínhamos um Aldo, mas esse é o  outro, é o Aldo de Porto Alegre. E o Aldo ele até participou da minha banca de  doutorado. O Aldo também deve, ele veio porque ele começou a trabalhar com uma  evolução de borboletas. E até uma das orientadas dele depois veio a ser  professora no nosso departamento, mas depois acho que ela voltou para Porto  Alegre. Então ele também teve uma certa influência aqui. Então sempre houve  entrosamento. Agora, com Maria Luiza Petzl foi muito grande. Maria Luiza tem  muita publicação em conjunto com o grupo de Porto Alegre. Com a Mara Rutz, com  o Salzano, com a que trabalha muito com a parte também da informática... Você  já me falou o nome dela, como é, agora me escapou.    PINA: Nossa, também. A-- Virgínia, não.    FREIRE-MAIA: A Virgínia até veio fazer doutorado aqui, sabe? Com o grupo do  professor, então também teve isso. Muita gente também de lá acabou vindo  para cá. A Virgínia veio fazer o doutorado dela com o grupo do professor  Cavalli e da Nyusi Ribeiro, a Virgínia, não é, que era de lá, mas é a...  Daqui a pouco a gente lembra, enfim, a Maria Luiza Petzl tem muito trabalho com eles.    PINA: A gente foi andando na conversa e ficou uma pergunta que eu queria te  fazer sobre as reuniões da SBPC e da Associação de Genética que ficou para  trás, que eu te perguntei da primeira, mas eu queria ouvir da senhora, se tem  alguma, é, reunião, para além da primeira que te marcou muito, que foi muito  fundamental na sua formação como geneticista.    FREIRE-MAIA: É, [risos] eu, sabe também porque essa história de ficar nervosa  foi várias vezes. Eu lembro que a Ieda Aguiar estava comigo. Eu não sei se foi  a reunião de 67 ou 66, porque eu também estava desenvolvendo um trabalho com  uma amostra junto com o neurologista e o Newton Freire-Maia. Uma amostra de  crianças que eram, as informações eram coletadas numa escola de crianças com  problemas de intelectuais. E eu lembro que ao fazer a análise até uma grande  amiga, Lúcia Garcia da Fonseca, que era assim, um pouquinho mais velha que eu,  mas que ela veio já era mãe de dois meninos, eu acho que até de três, e veio  terminar a parte da História Natural. E a Lúcia, brilhante a Lúcia, e a  Lúcia logo começou a trabalhar com o Newton Freire-Maia em minha pesquisa de  casamento consanguíneo. Não sei se é só estudante, porque, ou continuou  depois. E o pai da Lúcia era um grande estatista da. Daqui a pouco eu lembro,  mas do órgão da fundação que faz o censo. Como é? A--    PINA: IBGE?    FREIRE-MAIA: Eu acho que ele era do IBGE. E ele, então, queria eu acho que  fazer um tipo de uma análise diferente, além de fazer aquela que eu fazia. E a  Lúcia, &amp;quot ; Ah, o meu pai vai te dar ideia&amp;quot ; . Ele veio aqui me visitar, ele quando  vinha também fazia a palestra para nós, não é, por causa do, eu não sei se  ele era também professor da universidade, mas ele frequentava congressos  internacionais, ele era um pesquisador de valor. E aí ele disse: Olha, tem  alguma coisa que você, mesmo quando você não acha que dá zero, às vezes,  não lembro exatamente o que que era, você pode dizer que aquilo, qual é o  limite daquilo. Olha, não sei te explicar agora. Mas eu usei aquela metodologia  para dar alguma significância lá, para o valor que eu tinha, e eu apresentei  aquilo lá. Era também oral. Ficava a sala com aqueles que eram os nossos,  digamos, os mais velhos, os pesquisadores, não é, de olho na gente. E o  professor Saldanha também trabalhava com esses problemas de retardo mental. E  eu lembro que ele me fez uma pergunta, que agora eu não lembro bem, mas era  sobre aquela análise. Eu acho que ele achou meio diferente, né? Depois, no  aparelho, eu dei, respondi, né? Não acho que eu nem consegui responder, o  professor que era muito amigo do Saldanha, o Bernardo Beiguelman que levantou, o  Bernardo Beiguelman, aquele tamanhão dele, com o vozeirão, falou para o  Saldanha e começou a discutir com o Saldanha que como que o Saldanha dizer  aquilo e &amp;quot ; pá pá pá, pá pá pá&amp;quot ; , porque aquilo que eu tinha feito eu tinha  feito por causa de tal motivo, porque não sei, não sei o que. Eu fiquei quieta  ali [risos], é, aquilo, achei ótimo isso. Nunca esqueci. Sou muito agradecida  ao Bernardo.    PINA: [risos]    FREIRE-MAIA: Até o quando eu fui para Campinas naquele encontro que foi o  Magna, eu, e o professor Lúcio Azevedo, que falamos sobre a história da  genética, ali houve uma homenagem ao professor Bernardo que foi feita pelo  Magna, porque o Bernardo foi quem começou o Departamento de Genética Médica  na Universidade de Campinas. E o Magna, até há poucos anos, quando eu fui lá  ele era ainda da Faculdade de Medicina e desse departamento. E a senhora do  Bernardo e uma filha vieram de São Paulo para assistir essa homenagem. Então,  depois que eu apresentei a minha parte, eu disse que eu queria dizer algumas  coisas a respeito do Bernardo. Porque eu, eu sempre tive muita admiração pelo  Bernardo. Achava o Bernardo às vezes muito instigante. Às vezes a gente até  não gostava de umas coisas que ele dizia, sabe? Mas ele era estimulante. Ele  fez muito bem para o pessoal mais jovem também. E eu contei essa história,  porque eu achei que elas iriam gostar. Acho que eu contei nesse momento, mas uma  coisa que eu falei do Bernardo, que eu acho muito bonita, é que o Bernardo  Beiguelman tinha um carinho muito especial pelo Newton Freire-Maia, e ele,  quando se dirigia ao Newton Freire-Maia em carta, ele chamava o Newton de Lamed  Vav. E eu dei uma olhada para saber bem o significado, e o Lamed Vav, eu acho  que em alguma história judaica, agora eu não vou saber explicar direito teria  que consultar, mas é aquele que une a sabedoria, bondade, tudo, que só pelo  fato dele existir, digamos, a comunidade poderia ser salva, digamos, se um Deus  raivoso, irado, achasse que esse grupo aí, tá terrível, melhor destruir, mas  pelo Lamed Vav vou ter consideração e vai ser, algo assim. Então era algo  super especial dentro da história judaica. Então eu lembro que eu terminei o  que eu falei sobre o Bernardo, e eu disse que o Bernardo para mim também era um  Lamed Vav. Eu acho que a família dele também ficou muito agradecida. O que  mais que você me perguntou? Então isso já juntou com outras histórias, viu?  É, a gente de idade gosta de contar história. O meu marido falava que depois  de certa idade a gente abre a boca e não para mais.    PINA: [risos]    FREIRE-MAIA: Outras coisas dessas reuniões. Ah! Teve uma reunião, né? Que foi  terrível alí. Agora eu misturo, teve uma que foi em Brasília, eu acho que na  época da ditadura teve uma que foi, que não era para ser, e o arcebispo Dom  Arns, ele ofereceu a PUC, eu acho que já era PUC de São Paulo, para que a  gente fizesse a reunião lá. Ali também aquilo foi muito marcante, porque eu  não lembro porque que o governo estava implicando que se fizesse a reunião, de  certo no espaço da USP, os detalhes eu não lembro. Mas aquela lá em  Brasília, eu lembro que havia era um estádio. Não sei se estou misturando as  duas. Eu lembro que era um estádio, e a mesa era grande, o Newton, que fazia  parte da diretoria, ele estava na mesa. E a gente sempre estava com medo que  entrasse policiamento militares, nós vivemos épocas difíceis. Eu lembro muito  também de uma reunião, eu não sei se eu também, pode ser uma dessa, em que  foi feita uma homenagem para Galileu Galilei, sabe? Eu lembro que houve um papo  que meio que reabilitou o Galileu Galilei, eu não sei se essa palavra está  correta, mas que reconheceu o que a igreja tinha feito com Galileu Galilei.    PINA: Eu acho que ele foi perdoado, né?    FREIRE-MAIA: O perdoou, e eu não sei se foi nesse mesmo ano que houve a  homenagem com o Galileu Galilei na SBPC. E eu lembro do Maurício Rocha e Silva  naquela reunião. Não sei se ele era o presidente ou se ele fez um discurso  muito especial, porque o Maurício Rocha e Silva sempre me impressionou. Então,  era nessas reuniões que eu escutava as palestras dele, eu lembro que ele  também mostrando que tinha sido publicado livros sobre a bradicinina, que acho  que foi publicado no exterior, mostrava aquele livro grosso, então  provavelmente tinha sido publicado há alguns meses. Ele foi lá para nos  mostrar. Então você vê que isso foi algo que me marcou, porque o meu marido  sempre falava que naquela época, um pouco depois, não é, se fosse para  alguém ganhar o prêmio Nobel em ciência aqui no Brasil, seria o grupo do  Maurício, seria o Maurício, né? Porque aquilo teve um, foi de muita  importância. O que impulsionou trabalhos com a bradicinina, quem viu o  [inaudível 1:55:19] foi o Beraldo. E o Beraldo era amigo do Newton Freire-Maia  do tempo de Belo Horizonte, quando eles eram jovens, que eu acho que o Beraldo  devia estar fazendo faculdade de medicina. Eu acho que da mesma época foi  amizade com a Olga e com o Baeta Henriques-- Porque eles são todos meio da, e  também com a, que era um pouquinho mais velho, que você também entrevistou,  não entrevistou mas escreveu sobre ela--    PINA: Ah, a Sílvia-- Nossa, hoje eu tô ruim de cabeça. A Aline Prado?    FREIRE-MAIA: A Aline Prado. Porque meu marido também era amigo, outro do marido  da Aline, do Prado, é, que era mais velho do que Newton, mas que ele, se não  me engano, ele era de Alfenas. E eu não sei qual o motivo que eu, o pai do  Prado, ele conheceu o meu marido e disse que o meu marido lembrava o filho dele,  que estava já estudando em São Paulo. Então, o Newton, eu acho que não sei  se conheceu o pai antes, mas eu acho que o Newton quando foi para São Paulo já  se hospedou com a Aline e com o-- Nossa, faltou o primeiro nome do-- Daqui a  pouco vem o nome dele.    PINA: Do esposo da?... É o José Leal Prado.    FREIRE-MAIA: José Leal!    PINA: Eu estou pegando aqui o nome da Silvia.    FREIRE-MAIA: --Que eu também conheci, então, essas reuniões para mim também  eram importantes, de encontro com Beraldo, com o Leal Prado, Aline, e claro que  depois que terminou a ditadura que veio a Olga e o Baeto Henriques, não é, que  a gente pode-- Eu quero ver se eu acho depois foto para você que eu tirei numa  das SBPC com eles aqui. O Newton, então, tinha tudo isso desses, porque, dessas  amizades com outros grupos, não é? E não sei se você sabe, mas a Olga, de  família, assim, de solteira, o sobrenome dela era Bohomolets.    PINA: Sei.    FREIRE-MAIA: E eu acho que, é, acho que russa não é, o Bohomolets. O pai dela  era médico aqui no interior do Paraná, e quando Newton Freire-Maia foi estudar  aquilo, podia que era, que essa, não é uma formação que falta parte dos  membros superiores e inferiores que foi em Guarapuava. Tenho a impressão que  ele era médico em Guarapuava, quem fez a-- Acho que radiografia aí, o estudo  dos restos, vestígios ósseos que ainda essas pessoas com malformações  tinham, foi o pai, eu acho que foi o pai da Olga. E o Newton no trabalho deu o  nome desse osso, porque não é um osso como nós temos, é um osso específico  daquelas pessoas, né? Então um osso modificado, ele deu o nome de osso de  Bohomolets.PINA: Interessante.    FREIRE-MAIA: São os causos da pesquisa, não é?PINA: É, só um comentário  assim. Para além da entrevista, isso que a gente está fazendo, a gente chama  de História Oral, não é? E eu eu pesquisei 10 anos da revista Ciência e  Cultura, então foram dez foram, eu passei muito tempo sistematizando todo mundo  que publicou na Ciência e Cultura de 49 a 58. E aí eu, eu sempre me defrontei  muito com esse problema das mulheres mudarem de nome quando casava, e então foi  aí que eu descobri que a Olga tinha esse sobrenome antes de se tornar Henriques  também, e eu nunca consegui pronunciarc esse sobrenome dela, e agora eu  aprendi, assim, como a senhora falou, do Warwick Kerr, e eu vi ele muito também  na Ciência e Cultura, e eu sempre lia &amp;quot ; Uarwick&amp;quot ;  Kerr, e não &amp;quot ; Varwick&amp;quot ;  Kerr. Eu  acabei de aprender que é com &amp;quot ; v&amp;quot ; .FREIRE-MAIA: Você, eu acho que está certa,  é &amp;quot ; Uarwick&amp;quot ; , mas aqui, digamos, nós, brasileiros, e o pessoal do interior ali  de São Paulo que conhecia o Warwick, sempre o chamou de &amp;quot ; Varwick&amp;quot ; .    PINA: Warvick.    FREIRE-MAIA: Mas é com &amp;quot ; w&amp;quot ; , e não, os mais íntimos o chamavam de &amp;quot ; Viki&amp;quot ; .    PINA: Pra simplificar [risos].    FREIRE-MAIA: É, mas aí você falou alguma coisa que eu. Ah! Já sei. Sobre  Ciência e Cultura, você também me perguntou alguma coisa que me marcou, não  é? Nas--    PINA: Nas reuniões?    FREIRE-MAIA: É, teve uma coisa que para mim foi muito importante, porque eu fiz  uma vez uma palestra e eu acho que foi na SBPC junto com a, com a SBG, era com  SBPC, eu acho. Que eu falei sobre aspectos polêmicos da teoria da evolução.  Porque começou a haver muita, eu também dei aula de evolução, então  começou a surgir principalmente nos Estados Unidos, grupos que eram, que  trabalhavam paleontólogos que trabalhavam com fósseis e que achavam que de vez  em quando havia salto na evolução, porque é, dentro da teoria da evolução,  em geral, se falava que a evolução era contínua, não é, assim. E eles  diziam, não, de vez em quando tem salto porque-- E outros diziam, não é,  porque o registro paleontológico ele não é perfeito. Então vocês não tem  amostra para poder ver essa continuidade na transformação. E eles achavam,  provavelmente mesmo que de vez em quando dava salto, então começou também ser  momento no salto e outros detalhes. Então, aí começaram a existir seus  aspectos polêmicos. Não é que fosse para derrubar a teoria da evolução,  tudo dentro da ciência, mas introduzir que de vez em quando as espécies  poderiam surgir mais rapidamente e outras coisas nesse sentido, né, é que  agora eu não lembro de tudo. E eu fiz uma palestra lá, e me tocou  profundamente, porque eles não me deram uma sala muito grande. Porque havia,  às vezes, conferencistas de uma área mais geral e que às vezes encheriam um  anfiteatro. Só que essa minha conferência ela puxou tanta gente que ficou  gente de fora, sabe, e teve um anfiteatro de um lado que ficou meio vazio,  então aquilo nunca esqueci, e eu me senti muito honrada. E o tipo de pessoa que  estava lá, as coisas que nós falamos de coisas, nossa, eu fiquei  honradíssima. E foi publicada na Ciência e Cultura. Por isso, quando você  falou, juntei. E quem examinou, eu mandei antes porque eu acho muito importante,  às vezes que, pessoalmente, eu falando sobre evolução, que eu era professora  da evolução, mesmo que eu tenha a visão evolutiva no meu trabalho de  genética humana, e às vezes posso até numa discussão escrever alguma coisa,  eu nunca fiz um trabalho experimental em laboratório, como quem trabalha com  drosófila. Nunca fiz nada assim, que fosse dirigido para algum aspectos  evolutivo mesmo, de modo que ali eu estava escrevendo como uma pessoa que eu fiz  até o concurso para a evolução, dava aula de evolução, então eu quis muito  que o Bento da Cunha lesse o meu artigo. Ele leu, deve ter dado sugestões, eu  mudei alguma coisa e foi, eu acho até que. Não, eu não sei se ele fazia parte  da-- Porque ele fez, eu sei que parte do corpo editorial da da editora da USP,  mas é, e esse trabalho, sabe, eu tenho até pena de certa forma que, porque  não, nunca, não é digitalizada, né? Ninguém consegue digitalizar aquelas  antigas, eu acho, né?    PINA: Tem sim. O site da hemeroteca digital do Rio de Janeiro tem a Ciência e  Cultura completa de todos os anos.    FREIRE-MAIA: Que coisa boa, porque eu cheguei a ver, sabe? É, pessoas que me  citaram. Então, é sobre isso. Não sei se era da época, porque a gente  distribuía separada, não é? Que a gente, é, isso é outra coisa. Se você  quiser me perguntar, é coisa da, que não é, como dizem, das &amp;quot ; calendas gregas&amp;quot ; .    PINA: Que ano que foi que a Senhora publicou essa, esse artigo da evolução, a  senhora lembra?    FREIRE-MAIA: Se, depois eu até posso, se você quiser ir perguntando alguma  coisa que possa ter que consultar.    PINA: Não, porque aí eu achava no site para a senhora e te mandava, e eu  também, durante o meu mestrado eu tive contato com a Ciência e Cultura  física. Foi um prazer enorme, assim, foi--    FREIRE-MAIA: Eu acho que até agora eu recebo uma certa, é, uma revista, porque  eu, sabe, eu continuo sendo membro da SBPC e também da SBG, sempre eu pago lá  minha assinatura. Me deixa eu ver, deve estar por aqui, e até mais antigo,  então-- [Eleidi começa a procurar a revista] Desculpe, mas assim a gente para  um pouquinho. Eu só fico, só publiquei isso na SBPC, e agora eu estou vendo  uma vez, sabe? Daí até o Newton, acho que foi o Newton, foi convidado. Ele,  ele diz, não tenho tempo, você podia ler esse livro e fazer a crítica. Ele  provavelmente propôs e eu fiz uma crítica do livro do Konrad Lorenz. E outro  dia, até eu li isso aí, A demolição do homem, não é, o título do livro,  Crítica à falsa religião do Progresso. É um livro muito interessante, sabe?  Para ser lido para a gente ver o tempos atuais, até esse livro foi publicado,  pelo menos no Brasil, em português, em 86, então isso foi publicado na  Ciência e Cultura. E os aspectos polêmicos da teoria da evolução são de  1990, a publicação. E essa outra lá, dessa crítica, é um, é pouca coisa.  É a de 1986.    PINA: É-- A senhora falou das separatas. A senhora tem pedido de separata guardado?    FREIRE-MAIA: Ai, eu nem sei se eu não joguei fora. Se eu tivesse algum, até  para, não sei porque eu guardo muita coisa no meu currículo. Eu sei que quando  eu saí do departamento de genética, ainda tinha aqueles cartõezinhos.    PINA: Isso!    FREIRE-MAIA: Mas sabe que é capaz que um dos meus amigos tenha--    PINA: Ai, por favor, se a senhora tiver--    FREIRE-MAIA: Eu vou perguntar pra ele.    PINA: Nós queremos fazer um estudo disso. Principalmente a minha orientadora,  há muito tempo, porque era assim que se formava a rede, né? Até se a senhora  quiser comentar um pouco sobre isso.    FREIRE-MAIA: Por que você veja, lá no departamento de genética. Já quando eu  entrei, o departamento, provavelmente com essas verbas, não é, que ele recebia  da Fundação Rockefeller, é, pagava assinatura de revistas, então era boa  nossa biblioteca em termos de artigos científicos. Mas também nós recebíamos  o que eu posso chamar de uma revistinha, que o nome era Current Contents, é,  conteúdos correntes, atuais, não é? E era formada do índice das revistas  científicas publicadas, ele não, era até grossinho, não era muito, muito  grande. E a gente ali, eu acho que tinha mais do que biologia, não tenho, acho  que até tinha, assim, você até pode achar isso pela internet, talvez a  wikipédia tenha, é, talvez tivesse por áreas. E ali você via das revistas  que tinham a ver com a tua área, você via os títulos dos trabalhos. Daí  você ia, eu acho que lá atrás, pelo nome do autor, e daí você tinha  direitinho o endereço, não é? E no índice você tinha o nome do trabalho e  você preenchia o teu cartãozinho, era um cartão... E daqui de um lado, então  tinha escrito em inglês também, que é você, que dia, não é, e depois  agradecia, escrevia teu nome e do outro lado você punha o endereço e punha no  correio com o selo. Então a gente, a gente lia o tal Current Contents no  laboratório, e cada um de nós tinha que depois, por, assim, no canto superior  direito, a sua inicial para mostrar que já tinha lido, e ia passando de mesa em  mesa de sala em sala. Era nossa obrigação. Isso, mesmo que ainda como  estudantes, eu acho que provavelmente Newton Freire-Maia, eu via lá quem estava  vendo ou não, certo? Às vezes chamava alguém que não estava por lá, isso eu  não sei. Mas, você veja, até o Current Contents não sei quanto tempo  demorava para chegar. Porque é muita coisa, era despachada em navio, não sei  se vinha de avião, mas acho que não. E daí, até você pedir, até eles  mandarem, você, não sei quantos meses você tinha até passado ali para ter  depois aquelas separatas na tua mesa. E nós pagávamos as separatas. Então, a  gente, quando a gente pagava, as que, digamos, no geral, a gente quando  publicava um trabalho eu não pagava nada para a editora, não sei se algum tipo  de imagem poderia ser paga, eu já não lembro, mas nós não pagávamos que eu  lembro, não pagamos nada. Mas a gente sempre, já se sabia que a gente ia pedir  separata, então você podia pedir cem, duzentos. Eles tinham todos os preços.  Você tinha aquela proforma e você pagava com os dinheiros para fazer pesquisa,  não é, que fazia parte da pesquisa. E daí, você também recebeu o  cartãozinho que vinha de fora, eu também, eu lembro que eu guardei muito o  cartãozinho que vinha de fora, não é? Depois me pergunte uma coisa, eu  lembro, que tem a ver com o gênero, e daí, sabe a, e daí nós ficamos  logicamente distribuindo também, então o gasto era com a compra de separatas.  Eu sei que houve uma época em que eu fiz acho que uma relação de tudo porque  eu guardei, eu fiz para o departamento inteiro tudo o que eu pude de fazer, o  tipo da história do departamento vista pelos trabalhos publicados, espero que  eles tenham conservado. E daí eu também paguei, daí por isso teve uma verba e  daí eu paguei pra um pro Newton, por isso que eu peguei agora, quando você me  perguntou fui direto ali, eu tenho as minhas separatas ou xerox, porque não--  Depois quando não teve mais separata, a própria editora mandava para a gente,  não é? É, por online lá e você imprimia tudo. Mas agora me perdi um pouco.  Ah! Sobraram muitas separadas, então eu fiz um tipo de uma exposição ali,  pros estudantes, para professores lá do nosso departamento, e tinha um hall  grande embaixo pra ele, que era pra cada pessoa ir pegando o que quisesse para  não jogar fora, porque algumas tinham sido expedidas em excesso, não é? E  outras não, mas que foi tudo o que eu pude encadernar. Além das separadas, eu  pedi para os professores até aquela data que me mandasse as publicações  deles, e aquilo que de pessoas que já estavam mortas, ou que eu não, porque eu  também não podia contactar, e eu fui atrás das revistas em bibliotecas, eu  pedi, e eu completei ao máximo, sabe? Porque eu valorizo essa parte histórica.  Agora, eu não sinto que isso seja disseminado, sabe? Eu acho que tem que haver  ali uma formação, porque eu imagino que algumas pessoas acharam que eu estava  fazendo bobagem. Não sei. Espero que estejam guardando bem, porque é uma  história aquilo, não é pelo nome das pessoas, não é pela coisa de  personificação de coisa, não, aquilo ali é história da ciência, né? E  aí, a história do departamento de genética, talvez estejam guardando muito  bem. Porque eu também fiz online, e eu dei online, não entendo porque os dois  servidores, não entendo por que que os dois acabaram, então, aquilo toda que o  meu trabalho foi perdido, não sei. Talvez seja dois acidentes. Quero acreditar  que sim. Complicado, né?...    PINA: É complicado.    FREIRE-MAIA: Porque no meu final, sabe, ali de trabalho, eu me dediquei a isso.  Eu tinha uma aluna de iniciação científica e ela fez o trabalho dela assim,  né? Não é, sobre esses assuntos, mas tudo muito, muito, porque foi um  trabalho difícil e teve pessoas também da bioinformática que trabalharam na  parte online. Eu tive muita ajuda. E como eu tinha um contrato de professor  sênior, eu pedi que o meu contrato de professor sênior fosse-- Eu descobri que  tinha um professor, assim, voluntário, então eu fiquei uns dois anos, ou  talvez um pouco mais, não querendo receber nada, porque até eu tinha  liberdade. E eu não estava, não estava podendo mais pegar nenhum novo  estudante nem para doutorado, porque eu não ia ficar lá quatro anos mais,  então, e então foi isso, e eu tinha liberdade. Se eu precisasse viajar, fazer  qualquer coisa, ficasse doente, eu estava trabalhando lá sem ganhar nada.  Então é, mas eu fiquei feliz de fazer isso, sabe? Espero que sirva. Porque é  uma história. As pessoas às vezes acham, &amp;quot ; não, mas tem o CNPq, tem toda a  plataforma Lattes&amp;quot ; , qualquer coisa, mas aquilo é um conjunto, não é? Um  conjunto de livro, e hoje o livro também já não está tendo o valor para  nada, não. Mas é bom, pega ali, folheia, acha, não é, tudo o que você acha  fácil também pela internet, não é, e você enxerga ali o que que está-- Se  quiser ver de novo, ponha ali uma marca e depois volta ali, já está marcado. E  a história, é história. Agora, o que que eu quero te dizer: no cartãozinho,  quando eu conhecia a Oksana Lockridge, que eu já te falei que foi o grupo dela  agora em 2017 que viu aquela parte da lameripodina com o x2c5+, eu me tornei  amiga da Oksana no primeiro-- Isso, o que eu também não falei para você da  butirilcolinesterase, eu comecei a frequentar, é, comecei a frequentar  congressos internacionais. Eles até chamam de reunião. O meeting.    PINA: Hum.    FREIRE-MAIA: Então, é, o encontro sobre colinesterase fala da butiril, acetil,  às vezes alguma outra, então eram assim, de centos poucas pessoas. E ali você  tinha principalmente os pesquisadores, com os anos aquilo também cresceu, e ali  eu conheci a Oksana Lockeridge, que é um dos grandes nomes, não é, da  bioquímica. E ela, quando me viu, ela falou: &amp;quot ; Eleidi, eu sempre achei que você  fosse um homem. Quando eu vi o teu trabalho sobre ligação--&amp;quot ; , porque eu não  quis escrever Eleidi Alice, e eu quis guardar o meu Chautard. Porque o meu  problema é que o Newton juntou nome da mãe e pai nesse Freire-Maia. Eu não  quis jogar fora o meu Chautard porque era é o sobrenome da minha família. e  disse, não tem importância, podem achar que eu estou querendo aparecer, sabe?  Sei lá de que jeito, não interessa. Vai ser. Eleidi Alice Chautard &amp;quot ; traço&amp;quot ;   Freire &amp;quot ; traço&amp;quot ;  Maia. Deve ter chamado atenção, mas ali foi o que eu pensei,  você vê que eu sempre tive esse lado feminista, mas não daquele lado, assim,  muito-- Às vezes muito impetuoso de umas feministas, sabe? Não era daquele  tipo. Mas eu era na ação. Pois é, a gente, desde quando o cientista, homem e  mulher tem que ser diferenciado na hora que vai produzir um trabalho? Se eu,  homem, não ponho primeiro nome, não tem porque eu por [risos]. Então foi  engraçado, porque a Oksana achava que eu era homem. E eu lembro que a Oksana me  escreveu ali no pedido, ela me fez uma pergunta, sabe, que eu não ia, eu não a  conhecia, não é? Que ela era da área da bioquímica. Então, com relação ao  meu trabalho de ligação, lá do, tanto do meu doutorado em 74, a Oksana, já  fez uma pergunta ali para mim, e já achou que eu era um homem, e eu só fui  conhecer lá por 1991. Depois eu, depois eu comecei a pôr as vezes Eleidi  também, porque na realidade, quando eu sou-- Quando eu sou citada, né, eu sou  Chautard Freire-Maia. Aí vai mais uma coisa de gênero para você.    PINA: Muito, muito interessante. Uma outra professora que eu entrevistei me  relatou a mesma coisa, que ela também estava em um congresso com aquele  negócio que a gente usa, aquele crachá, crachá com só o sobrenome dela, e  aí uma pessoa olhou, olhou ela, olhou-- &amp;quot ; Você é mulher!&amp;quot ; , a mesmíssima  coisa. Eu achava que você era homem, e--    FREIRE-MAIA: Mas, sabe que depois eu vi, também, por exemplo, a Maria Luiza  Petzl, quando ela casou, ela sempre, ela é Petzl-Erler, e a coisa foi longe.  Daí também muita gente também imitando o Newton, não é, Freire-Maia, porque  o nome do Newton &amp;quot ; Freire&amp;quot ;  é da mãe e o &amp;quot ; Maia&amp;quot ;  é do pai. Então, se ele fosse  fazer como todo homem faz, ele seria Newton Maia.    PINA: Entendi.    FREIRE-MAIA: Ele foi feminista também.    PINA: Professora, só para ficar claro para mim, eu não entendi muito bem, mas  a senhora conheceu, mas não, não desenvolveu pesquisas, não desenvolveu  parceria com a Eline Prado, a Olga Henriques e a Sílvia Oliveira de Andrade. A  senhora conheceu as três?    FREIRE-MAIA: A Sílvia não.    PINA: A Sílvia não. E a Olga a senhora só conheceu, a senhora não pesquisou  junto com elas.    FREIRE-MAIA: Não, porque elas eram da área mais da bioquímica, não é,  talvez da fisiologia e também. É, era outra geração. Agora eu tive a  amizade, assim, mais íntima, mais próxima com a Eline. Então eu fiz parte da  diretoria da SBPC durante lá, uma gestão. E eu cheguei a ficar hospedada com a  Eline. O Leal Prado já tinha falecido, e eu lembro da Eline vir num dos  aniversários do Newton. Veio de São Paulo aqui pra Curitiba, eu não sei que  nós fizemos uma festa, não sei se foi quando ele fez 80 anos, que foram feitas  duas festas, uma de 80, outra de 70. Eu acho que foi de 80. Então, com a Eline,  eu já tive, eu cheguei a conhecer as filhas da Eline. Até a filha dela, que  depois foi trabalhar em Paris, não sei se foi o Instituto Pasteur, ficou  morando em Paris, já não sei mais sobre ela. Conheci uma filha dela, artista  plástica e um filho que era, era bem mais jovem, era, deu já estudante já  desenvolvendo o trabalho com informática. Então, a minha, o meu relacionamento  foi maior com a Eline do que com a Olga, a Olga era aquela amizade que o Newton  falava muito neles e eles também ficaram foragidos, né? Durante muitos anos.  Só depois, acho que de anistia, que eu vim a conhecê-los pessoalmente. E eu  lembro de ter visto um filho deles, provavelmente nós nos encontramos talvez  estando convidados para um jantar na época, assim, às vezes de algum congresso  em São Paulo. Mas a amizade do Newton era grande com todos eles, e o Beraldo  demais, e o Beraldo também eu tive bastante contato, mais com o Beraldo do que  com, do que com o Baeta e com o, eu não-- O que que eu ia dizer é do que o  Leal Prado, e o Leal também morreu cedo. Agora o Beraldo, quando eu e Newton  nos casamos, nós fomos para conhecer a família e alguns irmãos e sobrinhos do  Newton de Belo Horizonte. Fiquei até hospedado na casa de um irmão e da  cunhada dele. E o Baeta, o Beraldo, que já me conhecia, nos convidou para  comer. Eu lembro sempre o que eu Newton já tinha ido com o Beraldo numa das  cidades mineiras, ali do lado de Belo Horizonte, para comer um-- Aquele  franguinho que é em pedacinho. É, mas eles dão outro nome.    PINA: Frango à passarinho?    FREIRE-MAIA: Frango à passarinho. E daí nós fomos na cidade histórica que é  mais próxima de Belo Horizonte, então eu também, quando eu ia para Belo  Horizonte, sempre tive contato com o Beraldo, a amizade do Beraldo e do Newton  era muito grande.    PINA: Legal. É, professora, eu acho que pra-- Ah não, me lembrei, são duas  perguntas, a última que eu estou guardando e uma que me ocorreu enquanto a  senhora falava. Que, se na ocasião que a senhora deu aquela palestra sobre as  polêmicas, não é, da evolução, em que encheu o auditório, se naquela  ocasião a senhora já tinha retornado para o cristianismo ou não.    FREIRE-MAIA: Como foi a data que eu dei para você? 89?    PINA: Não, foi em 91, eu acho, 90.    FREIRE-MAIA: Já tinha-- É, já tinha, não alterou nada, sabe?    PINA: Uhum.    FREIRE-MAIA: É complexa essa parte de espiritualidade. É uma coisa muito interior.    PINA: Entendo.    FREIRE-MAIA: E o cristianismo poderia ser. Digamos que eu tivesse nascido na  China e tivesse essa mesma tendência espiritual. Bem, seria outra coisa, se  fosse no Japão era outra. E aqui é o que no ocidente foi o cristianismo.  Então, isso mostra que, o Newton sempre dizia que eu era uma católica moderna.  Só que das vezes, isso bem no começo, mas daí hoje nem sei o que ele diria.  É muito amplo. Sabe que essa parte sempre eu fui muito-- Eu fui muito exigente  até nessa parte religiosa. E no sentido, e muito verdadeira, sabe? Até no fato  de eu ter me afastado, e também no fato de eu ter voltado. Porque na hora que  eu voltei, eu não voltei por causa da religião. Eu voltei por causa dessa  minha parte interior, que eu acredito que faz conexão com algo maior. Então, e  a minha religião, fui batizada na igreja católica, e a igreja católica, e há  várias coisas na igreja católica que eu gosto. Eu, por exemplo, gosto de  trechos do evangelho, muito. Todo dia eu recebo e leio um trechinho que leio,  eles até falam bem curto, porque eu não gosto de muita conversa, fica só na  parte religiosa. Não gosto de muita conversa, assim, em nível religioso,  porque as pessoas se perdem demais. Então eu tenho isso diariamente, sabe?  Escuto e até mando para duas pessoas que me pedem. Não que eu fosse mandar  assim, porque eu acho que isso é um respeito, e às vezes eu digo, &amp;quot ; olha, na  hora que vocês não quiserem, vocês me falem que eu não vou ficar sentida&amp;quot ; .  Então, já aconteceu com outros dois que eu perguntei, eles não responderam.  Daí eu parei porque às vezes a pessoa é animada, mas depois não quer aquilo  todo dia, né? Agora, até quando, eu estive essa semana tão entrosada com as  com as festas, aí, da família, quando eu vi eu não tinha mandado isso que eu  mando, acho que eu durante três, ou dois, ou três dias, daí dois dias, eu  acho. Eu mandei ontem e um dos meus amigos falou assim, &amp;quot ; Eleidi, se você  deixasse mais um dia eu já ia ligar pra saber o que que tinha acontecido com  você&amp;quot ; . É, então é, faz parte, não é? É alguma coisa mais ampla, não é,  assim, uma coisa fixada em dogmas, em rito. É mais, assim, em preceitos humanos  de perdão, de aceitação, de fé, de misericórdia. Mesmo de alegria,  liberdade. Então, são valores de exaltação assim, mais dos valores humanos  para, não é, de respeito mesmo a humanidade. Mais, mas também com o  sentimento de uma pertença, algo maior, sabe? Então eu não posso negar, eu,  essa é a minha verdade. Quando eu voltei, na realidade que eu aceitei isso, que  eu passei esses anos todos nem me incomodando. Mas de repente eu vi que eu tinha  que aceitar, porque às vezes havia comportamentos meus que mostravam que eu  estava sendo, não sei se a palavra é ambígua, não é? Como é que eu ficava  aceitando ser madrinha de neto e de outro filho de amiga, como? Uma vez até eu  falei daí com um amigo nosso padre. &amp;quot ; Olha, padre, eu nem estou na igreja, tem  uma só que também padre de mentalidade bem aberta de dia, não tem a menor  importância. Você vai ser a madrinha, eu vou batizar, e acabou. Então é algo  mais fluido, mas isto não significa que não seja firme. É inexplicável.    PINA: Eu entendo. Quando a senhora fala, assim, porque meus princípios  religiosos são muito parecidos com o que a senhora descreve, então eu te  entendo profundamente.    FREIRE-MAIA: Que bom.    PINA: É, a minha última pergunta, professora, é: o que é ser uma mulher cientista?    FREIRE-MAIA: Ah. Deve ser tanta coisa, não é? Para mim foi tão importante,  sabe? É, eu sei que Newton falava isso, e eu também falo que o meu trabalho  foi com o amor, não é, porque era algo que me satisfazia mesmo nos momentos  difíceis de falta de auxílio. Que mesmo que a gente ficasse zangada, mas não  era com o fato de ter escolhido o caminho errado, não. Não era contra a  ciência, era contra a estrutura que não dava o apoio. E eu sempre trabalhei  com amor. Quando eu digo isso, é que eu vejo aí essa palavra, amor, como  aquilo que você faz com entusiasmo. O que você ponha esforço e que você não  se sente sacrificada, não é, aquilo que você se esforça, isso aqui fica.  Você não, porque o amor, ele é aquele amor, ele é-- Muitas vezes até alguma  pessoa diz, a gente, &amp;quot ; como é que você aguenta isso?&amp;quot ; , e você, &amp;quot ; aguentar o  quê?&amp;quot ; , não é? E o Newton, acho que eu já te falei, ele sempre dizia que ele  era muito feliz, porque ele era pago para se divertir. E eu, eu acho que está  aí bem o espírito dele, mas eu acho que eu, na realidade, seguir o caminho que  me deu muita satisfação. E olha, eu sinto falta. Eu sinto falta, então, isso  de ter essa oportunidade de rememorar junto com você que tem esse interesse só  me faz bem. Mas eu também entendo que eu já não tinha energia suficiente para  dar continuidade. E eu acho também que, é, pela tua pergunta, que a cientista,  da forma como eu fiz esse meu caminho, deu dentro da universidade, ela é  também uma professora, não é? E ela deve levar a ciência também para a sala  de aula, não é? Seja lá disciplina, quer dizer comportamento científico,  não é, no momento que vai não só que vai dar o conteúdo, mas dentro das  observações, depois eu posso até complementar. E ela também, como  orientadora. E para mim, a posição de orientadora foi muito interessante,  porque eu fiz a orientação com muita dedicação. Às vezes os meus alunos  não, talvez não entendessem bem, porque eu participava na pesquisa. Claro que  eles podiam fazer a parte mais pesada, mas eu nunca deixei de participar. E às  vezes na parte da análise estatística, que às vezes era mais pesada, eu  também participava na redação, participava, então eu fazia trabalho  conjunto. E eu sempre digo que orientação para mim eu tirava de letra. Era  como essas pessoas com tendência musical, coisa que eu não tenho, que são  capazes de tocar de ouvido. E eu sempre digo que eu sempre gostei de ser  professora. Eu me esforçava, eu tenho alunos que gostavam muito das minhas  aulas porque vinham conversar comigo, mas ali já era algo que eu tinha que me  preparar. Eu tinha que pensar como que eu vou fazer, de que jeito, não que eu  não pensasse na orientação, mas era algo mais difícil. Talvez porque você  fica ali num palco, não é, você tem uma turma que você tem que, de certa  forma, deixa eu fazer com que prestem atenção, não é? Há sempre um lado um  pouco teatral, não é? Então, isso tudo para mim não era, eu não tirava de  letra, não, não tocava de ouvido, eu precisava de partitura. O que mais que eu  queria te dizer é que eu também acho que a cientista ela deve, deveria sempre  ter uma visão social, não só social da ciência, mas de tudo, enfim. E que  então, isso é algo, para mim sempre foi importante, não é, como cidadã,  você, se você entender o teu papel numa sociedade ou serviço, a importância  de qualquer serviço, de qualquer trabalho, participar de uma comunidade no  sentido, né? Então eu acho que o cientista, ele não tem, que não é uma  coisa lá num pedestal de fazer uma coisa tão, e como dizia o Newton, às vezes  saber tudo de nada, não é? Vai um pontinho lá, sabe tudo de nada. Não, não  é só isso. Tem que ter uma visão mais ampla.A ciência também tem que te  abrir a cabeça, né? E eu tenho um colega que ele, ele não se considera  cientista. Não me considera cientista, não considera os colegas dele  cientistas. Para ele, cientista é só o Rocha e Silva, o Newton Freire-Maia,  porque eu acho que ele viu que todos eles também tiveram às vezes uma  participação também em aspectos filosóficos. Livros, assim, mais gerais,  quando-- Não sei exatamente, porque no tempo que a gente era criança, também  a palavra cientista tinha um outro sentido. Hoje, se você trabalha com  ciência, você está fazendo um trabalho científico. Se você tem uma  carreira, se você faz um trabalho do começo ao fim, você publica, você tem  documentação do qual é-- O que que você é então? Não, não está jogando,  não está fazendo fake news. Você tem que assumir que você é cientista.  Claro que há todos os níveis de cientista. Provavelmente em primeira linha,  segunda linha, terceira, sabe lá, mas todos são cientistas. E eu acho que isso  também é uma responsabilidade de ser cientista. Ainda mais num país como o  nosso, não é, porque é uma classe muito privilegiada que teve assim, um  acesso a uma boa educação, uma, e continua tendo às vezes muita informação.  Participa de grupos também que são, assim, de certa forma, privilegiados.  Então há uma responsabilidade. O Newton sempre nos falava muito da  responsabilidade, da divulgação do trabalho, não só assim, na publicação  em revista científica, mas principalmente ele, que tinha muita facilidade de  comunicação, dava muita entrevista, escrevia muito artigo de divulgação,  notícias para jornal. Os nossos seminários no tempo que a gente organizava,  que eu também era jovem, eu que fazia os cartazes para, lá com especiais  atômicos para convidar o pessoal para as nossas, para nossos seminários, e  também a gente convidava pessoas de outras áreas da ciência. Nosso seminário  era um seminário de formação. Não era o que depois, às vezes se tornou  representar o que que é aquele vai ser o mestrado, que vai ser o doutorado. Era  uma coisa mais ampla, e eram outras épocas também, e aquilo era colocado em  jornal. Quem quisesse vir de fora viria, né? Então o Newton sempre falava da  nossa responsabilidade. Nós usamos dinheiro de impostos para fazer as nossas  pesquisas. Nós temos responsabilidade. Então isso é algo que, cara, cada um  vai fazer também um pouco de acordo com o seu temperamento, uns são mais  tímidos, outros são mais comunicativos, mas um cientista tem que ter essa  responsabilidade de alguma forma. Ele tem que contribuir para que o ensinamento  dele passe para o Ensino Médio. Passa alguma coisa para a escola, Fundamental,  para o nível de outros professores, não é? Eu acho que é uma carreira de  responsabilidade. E eu acho que também a carreira de professora é uma carreira  muito, muito interessante, assim, do ponto de vista humano. É uma carreira  especial mesmo que você fale que os professores em geral não são valorizados.  Mas ele, o professor tem valor, seja o professor que vai ensinar  alfabetização, seja lá os que vão ensinar os princípios teóricos mais  complexos da física. Acho que é isso. Não sei. Às vezes a gente se alonga um  pouco, às vezes se expande num ponto só, mas... Mas eu penso assim.    PINA: Obrigada por compartilhar tua visão. É, a senhora quer falar mais alguma coisa?    FREIRE-MAIA: Quando, eu acho que hoje eu também não lembro de alguma coisa que  tivesse faltado, às vezes a gente toma um rumo, não é? Esquece alguma coisa,  mas o que eu queria dizer é agradecer muito à você pelo seu trabalho, desejar  que você-- Eu sei que você até pública tuas entrevistas, não é? Eu não  sei se você já está, quero saber um pouco de você, se você já está se  preparando para o teu doutorado--    PINA: É, então, eu escolhi não fazer o doutorado agora, porque a vida ela vai  acontecendo, não é? Então, assim, na verdade, eu morava em Belo Horizonte, e  aí o meu namorado arrumou um emprego aqui em Florianópolis, e ele falou,  &amp;quot ; você quer ir comigo?&amp;quot ; . Eu falei, &amp;quot ; vou&amp;quot ; . E a gente casou e estamos aqui em  Floripa há 3 anos. É, e aí o final do meu mestrado, ele foi bem conturbado,  assim, porque eu queria ter uma experiência para além da academia, e arrumei  um emprego numa agência de marketing, e fui tentando terminar a dissertação,  e aí eu também tive um adoecimento mental, assim, significativo. É, tive que  fazer terapia, acompanhamento no psiquiatra, então isso fez com que o meu  mestrado na verdade durasse 3 anos. Eu consegui defender só ali no final de  2019. E aí eu estava muito cansada, muito exausta. Eu falei, não, eu vou  descansar. E, né, continuei trabalhando, só que aí eu, no início da  pandemia, eu decidi voltar para a área de educação, porque além de  historiadora, eu sou pedagoga. E eu falei não, o que me faz feliz é a  educação. Seja com a história ou na pedagogia. E aí voltei para essa área.  Só que, é, eu tenho um princípio assim, de que eu não, eu não aceito ser  desvalorizada no meu trabalho, e trabalhar hoje com educação no Brasil é  muito difícil, não é? E aí eu decidi que eu que eu ia fazer, eu fiquei  pensando, tá, ser historiadora também é difícil, os departamentos estão  muito saturados, não é, não tem quase concurso para professor de história  nas universidades públicas, mas eu também quero mexer com pesquisa. Então a  minha alternativa de ser historiadora hoje é trabalhar com pesquisa quase que  voluntariamente, não é, assim, com algumas bolsas, algumas coisas assim. E  também voluntariamente quando necessário. Então por isso que eu estou sempre  junto da minha orientadora, e eu decidi não fazer o doutorado agora por causa  que esse ano é ano de eleição. E eu acho que vai ser muito complicado esse  ano, e eu não queria passar essa eleição de dentro da academia. Porque a  academia também contribuiu muito para o meu adoecimento mental. É, e também  porque eu não-- Eu não quero fazer o doutorado sem bolsa, porque eu acredito  que essa é a nossa profissão--    FREIRE-MAIA: Concordo.    PINA: --E que, como cientista das ciências humanas, o meu trabalho, o meu  conhecimento que eu produzo é digno--    FREIRE-MAIA: Claro.    PINA: --De pagamento, então eu não cheguei, eu não ficaria em paz com uma  bolsa nesse governo ou nessa situação de eleição, então por enquanto o meu  doutorado, ele está um pouco distante. Eu penso nele-- Penso até essa  entrevista, não é só o projeto, mas é para mim também, para ver se a sua  trajetória pode se transformar no meu doutorado futuramente, quem sabe? Mas a  minha ideia é sempre trabalhar como-- Minha maior inquietação é como que as  mulheres também são produtoras de conhecimento e que a gente tem que estudar  isso ao longo da história da humanidade, um conhecimento produzido pelas  mulheres, assim.    FREIRE-MAIA: É importante isso. Agora, é interessante isso de você se dedicar  também nesse... Nessa parte da entrevista, porque você está formando, você  está caminhando, depois você vai estruturar isso da melhor forma. Eu acho isso  muito bom agora, talvez por causa de você se interessar, assim, pelo gênero.  Hoje eu pensei um pouco-- Quando eu era criança, não sei hoje como você, como  pedagoga, não sei como são os livros hoje que as crianças lêem. Porque em  termos de ciência, eu lembro dos meus livros. Talvez depois do que hoje é  Ensino Fundamental, eu lembro que tinha texto sobre Oswaldo Cruz e sobre o Vital  Brasil. Isso eu lembro. Talvez o Vital Brasil por causa do soro antiofídico, e  aquilo, as crianças vendo cobras, serpentes. E Oswaldo Cruz, eu lembro. E daí  eu pensei assim, será que tinha alguma menina, alguma mulher? Olhe as mulheres,  eu acho que se falava eram mais as mulheres do exterior. Daí eu lembro daquela  que era cega, surda e muda. A Helen Keller.    PINA: Hum.    FREIRE-MAIA: E isso, eu não sei se eu tinha nos livros, mas a gente escutava  falar dela. Claro que da Madame Curie também era algo que se falava. Também  ela ganhando, acho que ganhou dois prêmios nobel. Acho que foram dois... É.    PINA: Sim, dois.    FREIRE-MAIA: E aí também a Florence Nightingale, que eu acho que criou os  primeiros cursos de enfermagem. Sabe, então você veja, era, era muito  distante, não é, do Brasil. Eu não lembro que se falasse de alguma  Brasileira. Talvez nas artes, não é? Talvez nas artes, por causa da Semana de  Arte Moderna. Mas isso eu não lembro. Quando eu era pequena, pode ser só mais  tarde, a Tarsila do Amaral, mas eu acho que isso demorou. E havia muitas  brasileiras, né, de valor. Escritoras, não é, brasileiras também, que eram  muito importantes. Agora, o que que eu ia te dizer mais-- Bom, fico feliz aí  que você casou, que está morando em Florianópolis, que você está formando  aí a tua, o que você deseja. E eu queria também dizer que se você tiver a  necessidade de alguma foto, você me peça, porque daí eu vou olhando. É,  porque eu, da outra vez você falou mesmo dessas que tem Beraldo, o que eu tenho  aqui na SBPC, se você se interessar.    PINA: Interessa, sim.    FREIRE-MAIA: É, e porque vai, porque faz parte do teu acervo, não é? E se  você também tiver que fazer mais alguma pergunta numa outra sessão, alguma  coisa que você acha que tem aqui, complementar, eu estou à disposição.    PINA: Professora, eu te agradeço muito, muito, muito, muito, uma honra  conversar com a senhora, conhecer a senhora.    FREIRE-MAIA: Imagine.PINA: Eu fico feliz mesmo, deixa eu só te mostrar uma foto  da Eline que eu uso, usei na apresentação da minha dissertação. É, que eu  acho que a senhora vai gostar, só um minuto. Ela com o José Leal Prado.    [Jéssica projeta a foto]FREIRE-MAIA: Ai, que graça, ela com o José Leal. É,  que linda.    PINA: Eu amei essa foto, eu--    FREIRE-MAIA: A Eline era muito espontânea, muito alegre, sabe? Falava alto  assim, uma graça, calorosa a Eline. E ele também, eu lembro dele, e eles  vinham também dar aula aqui no departamento de bioquímica, sabe, às vezes  aqui em Curitiba, eram convidados pelo... Por causa da especialidade deles.    PINA: É, eu devo ter essa foto guardada em algum lugar aqui sem o título da  minha dissertação, eu vou procurar, eu vou te mandar. Muitíssimo obrigado,  professora, a gente mantém contato, obrigada mesmo.    FREIRE-MAIA: Felicidades para você.    PINA: Para a senhora também. Até mais. Tchau, tchau.    [Fim da entrevista]       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação desta entrevista estão restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=freire-maia-20220218.xml freire-maia-20220218.xml      </text>
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                <text>Profa. Eleidi Alice Chautard Freire Maia, entrevista, 18 de fevereiro de 2022</text>
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                <text>Eleidi Alice Chautard-Freire-Maia foi pesquisadora na área de genética humana e médica e professora titular da Universidade Federal do Paraná entre 1989 e 2013. Atuou no Laboratório de Genética Humana da mesma Universidade nos anos 60, que deu origem ao Departamento de Genética. Esteve casada com o também pesquisador e geneticista brasileiro Newton Freire-Maia. Nesta entrevista, remonta sua trajetória acadêmica como pesquisadora, com ênfase nas práticas de pesquisa em genética por ela trabalhados em vários projetos. Entre seus temas de pesquisa, destrinchados durante a entrevista, estão os casamentos consangüíneos, as malformações congênitas, a ligação genética, a displasia ectodérmica e os polimorfismos ligados à enzima butirilcolinesterase. Eleidi relembra as reuniões e congressos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Genética, sua relação com o geneticista brasileiro Francisco Salzano e o trabalho de diversos companheiros que cruzaram por sua trajetória. Comenta sobre as técnicas de trabalho em laboratório, como a PCR, e as técnicas de pesquisa com DNA, especialmente fala sobre as especificidades e dificuldades do fazer científico no Brasil. Ainda, reflete sobre questões ligadas às mulheres cientistas e à relação entre ciência, fé e religião. &#13;
Esta entrevista é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da Universidade Federal do Paraná, a pesquisa em genética humana e médica no Brasil entre os anos 60 e 90, as técnicas de trabalho em laboratório, e a rede intelectual em torno das Universidade do Paraná, Rio Grande do Sul e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência.</text>
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              <text>    5.4  Unknown Date   Profa. Eleidi Alice Chautard Freire-Maia, entrevista, 21 de janeiro de 2022   2:47:50   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética A transcrição e processamento dessa história oral foram realizados com o apoio do CNPq e do NJIT e seu uso aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (CAAE: 57344322.1.0000.5149)   Eleidi Alice Chautard Freire-Maia Jéssica Bley da Silva Pina mp4 freire-maia-20220121 2:|24(3)|39(17)|62(9)|79(4)|99(9)|113(8)|132(14)|149(12)|167(10)|184(9)|206(5)|227(6)|251(5)|265(2)|281(2)|305(11)|330(1)|349(6)|365(3)|382(7)|398(4)|413(2)|427(12)|449(1)|480(14)|495(13)|513(2)|530(11)|547(2)|565(2)|583(8)|598(9)|616(4)|634(2)|649(5)|664(9)|685(6)|700(11)|719(9)|735(12)|754(2)|771(5)|790(1)|804(9)|821(9)|837(8)|856(7)|874(3)|891(3)|906(9)|923(3)|940(7)|957(9)|972(12)|994(12)|1014(9)|1035(10)|1051(10)|1074(5)|1097(7)|1112(8)|1129(9)|1150(7)|1167(11)|1183(3)|1202(11)|1220(6)|1237(10)|1256(6)|1273(1)|1296(11)|1317(1)|1335(3)|1352(6)|1368(13)|1385(6)|1404(11)|1419(7)|1434(6)|1449(7)|1471(8)|1494(9)|1528(4)|1566(7)     0   https://youtu.be/dTMvUyMNuPk  YouTube         audio    Português       Eleidi Alice Chautard-Freire-Maia foi pesquisadora na área de genética humana e médica e professora titular da Universidade Federal do Paraná entre 1989 e 2013. Atuou no Laboratório de Genética Humana da mesma Universidade nos anos 60, que deu origem ao Departamento de Genética. Esteve casada com o também pesquisador e geneticista brasileiro Newton Freire-Maia. Nesta entrevista, remonta sua trajetória acadêmica como estudante e pesquisadora, desde os trabalhos orientados pelo professor Newton Freire-Maia, passando pela sua atuação como professora auxiliar da UFPR, seu trabalho como bolsista na Universidade de Birmingham, orientada pelo professor Dr. John H. Edwards, até seu doutorado em Genética e Biologia Molecular na Universidade do Rio Grande do Sul. Entre seus temas de pesquisa, destrinchados durante a entrevista, estão os casamentos consangüíneos, as malformações congênitas, a ligação genética, a displasia ectodérmica e os polimorfismos ligados à enzima butirilcolinesterase. Eleidi relembra as reuniões e congressos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Genética, sua relação com o geneticista brasileiro Francisco Salzano e o trabalho de diversos companheiros que cruzaram por sua trajetória. Comenta sobre as técnicas de trabalho em laboratório, como a PCR, especialmente sobre as especificidades e dificuldades do fazer científico no Brasil, por exemplo a utilização de maizena para a realização das eletroforeses. Ainda, reflete sobre questões ligadas às mulheres cientistas e à relação entre ciência, fé e religião.   Esta entrevista é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da Universidade Federal do Paraná, a pesquisa em genética humana e médica no Brasil entre os anos 60 e 90, as técnicas de trabalho em laboratório, e a rede intelectual em torno das Universidade do Paraná, Rio Grande do Sul e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência.    PINA: É, eu me chamo Jéssica Bley da Silva Pina, sou historiadora e pedagoga e  hoje eu vou entrevistar a professora Eleidi Freire-Maia. Hoje é 21/01/2022.  Estamos fazendo essa entrevista de forma remota e estou em Florianópolis, Santa  Catarina, e a professora está em Curitiba, Paraná. É, eu peço que a senhora  fale o seu nome inteiro por completo e se apresente por gentileza.    FREIRE-MAIA: O meu nome é Eleidi Alice Chutar-Freire-Maia.    PINA: Pode se apresentar da forma como a senhora costuma se apresentar.    FREIRE-MAIA: Ah eu-- Eu sou, eu fui professora, né? E pesquisadora na área da  genética humana e médica. E eu fiz o curso de História Natural, como  graduação. E enquanto eu estava fazendo esse curso, eu fui convidada  para--como estudante para trabalhar no-- No então Laboratório de Genética  Humana e que deu origem ao Departamento de Genética. E aí em 1967, eu fui  nomeada como professora da Universidade Federal do Paraná. E eu, eu trabalhei  até mais ou menos, talvez uns 8 anos, mais ou menos. E aí sempre me dediquei  às pesquisas em genética humana e médica.    PINA: Como é que era um dia de trabalho comum nesse laboratório que a senhora  mencionou agora?    FREIRE-MAIA: Bom, quando eu entrei como estudante. Nós, o que, é-- Os que eram  estudantes como eu, que estavam estagiando, trabalhávamos naquelas horas entre  as aulas. Ou quando eu tinha terminado, às vezes, um período, eu tinha uma  brecha. E nós, era interessante, porque havia ao abrir a porta principal, já  à direita, tinha uma mesinha com um livro, ponto e nós colocamos a hora,  colocamos o nosso nome na saída, fazemos a mesma coisa. E-- E quando eu  comecei, eu já fui fazer parte de um projeto muito amplo, de certa maneira  muito importante, sobre estudo de filhos, de casamentos consanguíneos. E-- eu  costumo dizer que eu-- como eu era ainda estudante eu não tive dificuldade em  fazer esse trabalho do ponto de vista operacional. Depois eu digo, se você  tiver interesse, o que que era isso, mas do ponto de vista teórico, ele estava  muito avançado para os conhecimentos que eu tinha, porque eu comecei a  trabalhar no departamento de genética em 64, que foi o ano em que eu comecei a  ter, disciplinas de genética. Eu entrei na graduação, em 1962. E em 64, tinha  a genética, era uma genética geral, muitos princípios sobre probabilidade, e  nosso professor era o professor Francisco Antônio Marsalo. E no quarto ano, que  seria em 1965, que eu ainda nem tinha feito, é que teria a genética humana e evolução.    Então a gente chegava e eu acho que desde o começo o professor Newton Freire  Maia colocou o nosso nome em um painel. Era um painel, acho que até que deve  ter vindo do exterior, para nós naquela época, em 64, era algo tão especial.  E ao lado do nosso nome, que tinha sido colocado com letras de plástico, havia  uma luz, então a gente acendia. A gente assinava o ponto assim: acendia aquela  luz com maior orgulho. Ia para uma sala, às vezes essa sala era dividida com  algum colega também que você estava estagiando. E nós fazíamos aquilo que o  projeto exigia de nós. Então, se você depois quiser que eu fale um pouco dos  projetos, eu falo, e de vez em quando o professor Newton Freire Maia nos  chamava. E aí ele também, ele tinha na sala dele, que era uma sala muito  grande, ele trabalhava sozinho, ele tinha uma campainha assim na-- se não me  engano, era na própria mesa onde ele trabalhava. E ele tinha uma forma de nos  chamar. Através da, digamos, do ritmo da sonoridade do nosso nome, então o meu  era &amp;quot ; tam tam tam&amp;quot ; , &amp;quot ; E-lei-di&amp;quot ; . E do professor Bento Arce Gomez era &amp;quot ; tan-tan&amp;quot ; ,  &amp;quot ; Ben-to&amp;quot ; . E assim seguia [risos]...    PINA: [risos]    FREIRE-MAIA: --De modo que, naquela época a gente ficava assim, um pouco  amedrontada, em geral. Estou falando por mim, os outros eu não sei, mas talvez  um pouco &amp;quot ; aí, o que será que o professor Newton quer?&amp;quot ; . &amp;quot ; Será que alguma  coisa que eu fiz que não está correta?&amp;quot ;  ou enfim, a gente tinha um respeito  muito grande por ele, admiração pelo conhecimento todo dele. Então-- essa era  a forma nossa. Esse laboratório, ele pegava o meio andar do oitavo andar do  prédio onde hoje, hoje tem acho que as ciências humanas lá. E tinha um  corredor no meio e salas dos dois lados. E tinha uma sala muito grande, que era  o laboratório. Mas no meu projeto de pesquisa não se usa, eu não usava o  laboratório assim para a pesquisa, mas aquele laboratório era usado para fazer  experimentos com os estudantes, que nós fazíamos experimentos com drosófilas  para poder digamos, é, de certa maneira entender determinadas leis, preceitos  dentro da genética. E ali, quando eu chegava, se era pela manhã, quando  chegava às 10hrs, se não me engano, também era batida aquela campainha assim.  Daí bastante para não chamar, que tinha o cafezinho. Então, todos se reuniam  lá, e sempre o professor Freire Maia estava presente. O único professor  naquela época lá era o Francisco Antônio Marsalo, além do professor Freire  Maia. Todos nos reuníamos, existia um gravador, até os que são da minha  época. Lembro que era a marca Geloso. Nossa, ter um gravador naquela época  também era uma coisa especial e ali eram colocadas-- acho que Titãs, e nós  também escutamos música. Muitas vezes música erudita, e ali havia muita  conversa sobre ciência. A maior parte delas realmente iniciada, desenvolvida,  complementada pelo professor Newton Freire Maia. E pra nós, aquilo era uma  coisa maravilhosa porque aprendíamos muito, não só em termos de genética  como de cultura geral. E também se-- Se constituía assim um encontro muito  amistoso. E quando eu chegava, não sei se era 10:15hrs, ou 10:10hrs também, eu  acho que, se não me engano, tocava aquela-- talvez a secretária tocasse aquela  companhia e cada um voltava para o seu trabalho. E isso acontecia às 4:00 da  tarde então da mesma maneira. Eu não sei se você gostaria de que eu falasse  mais alguma coisa. Vou seguir o seu caminho.    PINA: É-- A senhora pode falar dos projetos que a senhora comentou dos projetos  de pesquisa? Seria interessante te ouvir. Dos projetos de pesquisa que a senhora  desenvolvia nesse laboratório.    FREIRE-MAIA: Ah, então eu fui convidada para esse projeto que foi dado o nome  Curitiba 3. Não sei se já tinha havido 2, né, Curitiba 1 e 2. E esse projeto  como eu falei, ele tratava de estudos sobre filhos de primos em primeiro grau,  era muito amplo. Porque essas crianças, elas seriam estudadas do ponto de vista  clínico, o que aconteceu através de uma equipe de pediatras do Hospital de  Clínicas da nossa universidade, que foram o doutor Israel Katy, doutora Leide  Marinoni, e o doutor, é-- O primeiro nome dele agora me escapou, é-- José  Geraldi. E as crianças, depois eu digo, como as crianças foram escolhidas, as  crianças, elas eram estudadas, então, sobre-- em geral eram crianças normais,  mas eram estudadas sobre vários aspectos, assim, clínicos. A pele, se havia  mancha ou o tipo, por exemplo, de se a orelha era em abano, se a orelha não  estava bem implantada, coisas que agora eu estou lembrando, que, logicamente,  essas crianças tinham mais alguma coisa que ficava demonstrada no exame. Elas  também eram seguidas-- as crianças também na época, se submeteram a testes  de QI, e foi uma psicóloga, a professora Iris Montserrat, que fez esses testes.  E uma antropóloga, doutora Muller, ela era especialista nessa parte, dentro de  antropometria, em antropologia, então ela levava aquele aparelho antropômetro  e ela calculava as medidas das crianças para várias pequenas partes do corpo.  Então era um eu não lembro bem se passava de 50 medidas. Essas crianças  também eram pesadas, era visto a estatura, e nós também, quando terminava o  ano letivo, íamos a Secretaria de Educação e tínhamos o digamos, os  resultados de rendimento escolar dessas crianças.    E como que essas crianças foram escolhidas? Então, você vê que até agora o  que eu falei da minha parte foi essa parte do rendimento escolar para conseguir  dados. Mas como que nós descobrimos as crianças? Houve um trabalho muito  amplo, intenso, ligado também logicamente, com permissão da Secretaria  Educação. Eu Acredito que na época, vários órgãos foram contactados. E  nós tivemos a relação total dos grupos escolares de Curitiba, e visitamos  todos eles, então quem fazia as visitas éramos nós que trabalhávamos no  projeto. Eu esqueci de dizer que éramos três. Maria da Graça Azevedo, Iêda  Procopiak de Aguiar e eu. Nós, três estudantes do curso de história natural,  e as três fomos convidadas para fazer parte desse projeto. Então, nós íamos  nessas escolas com o questionário, participamos também da feitura desses  questionários com reuniões com o professor Newton Freire Maia, ele também nos  explicou muito como que nós tínhamos que nos posicionar, como que deveríamos  fazer perguntas e, caso houvesse dúvidas, tivéssemos depois que encontrar os  pais dessas crianças, como que nós também deveríamos nos comportar não  somente do ponto de vista humano, social, mas também do ponto de vista de-- de  como ou não induzir, né? No sentido das respostas como nós queríamos, enfim.  Então, de posse desses formulários, então íamos aos grupos escolares.  Tivemos ajuda, acho que havia uma kombi da Universidade Federal que foi posta à  nossa disposição. Em geral, íamos, acho que dois de nós conversamos com os  professores, distribuímos. Era uma carta aos pais com várias perguntas,  perguntas sobre o número de filhos, sobre-- sobre o emprego, e a pergunta  principal é se o pai, a mãe. eram primos em primeiro grau. Se não eram primos  em primeiro grau, se eram primos em outro grau, ou se simplesmente eram de  famílias, de origens diferentes. Também era perguntado sobre quantos filhos  é-- o qual se houve criança que faleceu, qual é a origem do do falecimento.  Eu não lembro se nesse questionário existia também perguntas sobre abortos.  Acho que sim. E quando nós pegávamos o material, nós observamos a criança e  fazíamos uma classificação étnica, né? Mas mais simples.    E então, é. Era isso. Quer dizer quando nós vimos, desculpe, eu até me  atropelei. Isso era o questionário, as crianças levavam para casa. Os pais  devolviam e a gente recolhia, e dentro do departamento de genética, nós  escolhemos os controles. Então, para cada criança, filha de primos em primeiro  grau, que era separado aquele grupinho e os outros controles, né? Para cada uma  dessas crianças. É-- nós escolhíamos, então, uma criança que viesse de uma  família cuja, para ter um certo nível socioeconômico semelhante, cuja  profissão do pai fosse mais ou menos semelhante e o número de irmãos. É--  Às vezes, essa parte da mortalidade, talvez fosse um pouco também levar em  conta essa parte étnica que a gente, de certa maneira, havia. Se a criança de  que, né? Se ela era afrodescendente, se ela era mais um tipo europeu-- Aqui no  Paraná é muito difícil a gente detectar assim de uma forma simples, se  tivesse, se fosse descendente de comunidades indígenas, porque realmente a  contribuição para a população de Curitiba atual ela era pequena. E nós  então escolhíamos, às vezes escolhíamos dois, depois discutíamos qual seria  o melhor, e esse era um trabalho que tomava tempo, sabe? Tomava muito tempo.  Então por isso que eu falei que a parte operacional era simples. Porque foi de  fazer a discussão dos questionários, foi de ver toda a parte ali da  logística, como funcionaria as escolas, conversar com as professoras, explicar  para as crianças o que a gente queria, voltar a buscar os questionários e  fazer essa separação, e tendo feito essa separação, os controles e os  grupos, digamos, de controles, e um grupo de seus-- Dos filhos de pais  consanguíneo. Eles eram entregues para os outros profissionais, da área  clínica, psicologia. E eles nunca souberam quem eram os controles nem os os  consanguíneos, eles só sabiam o grupo escolar, o nome das crianças, e eles  iam fazer o trabalho deles.    E esse trabalho demorou muito tempo para ser feito, do ponto mesmo de vista da  coleta, e do ponto de vista da sumarização dos resultados das codificações  que nós fizemos. E eu acho que-- eu não sei se já na época, eu acho que  talvez não tivesse ainda sido codificado para computador, e que isso tenha sido  feito só mais tarde, porque foi eu acredito que ali, perto da década de 80  mais ou menos que esses dados foram todos analisados com programas de computador  na universidade de Brasília. É, eu e Newton fomos nessa época, eu já era  casada com ele, e nós fomos para fazer parte das discussões e da análise. E  eu participei bastante das análises, e também me ajudou bastante, porque lá  tinha o grupo do doutor Henrique Krieger, em Brasília. E ele e o doutor  Calógeras, eles participaram da parte dessa análise, né? E eu participei  junto com eles, e só mais tarde então que esses trabalhos foram publicados,  foi publicado no American Journal of Medical Genetics como um conjunto, teve uma  parte que foi muito diferente. A maneira de publicar teve uma parte  introdutória, depois a parte clínica, a parte de mortalidade infantil, a parte  de gente menos escolar. Junto com essa parte psicológica. E no final houve uma  outra parte de conclusões, então foi um trabalho com sete partes. Uma  discussão também com uma parte, foi um tipo um pouco diferente. Então você  veja, eu entrei no departamento em 64, eu acho que esse trabalho demorou quase  uns 20 anos para ser publicado, porque daí ele ficou parado na fase de espera  de-- Espera de de análise, e eu acho que nem na nossa universidade, naquela  época não havia esse tipo de análise. Nem sei se em outras universidades,  porque foi depois da década de setenta que as universidades começaram a ter  aqueles grandes computadores para que pudessem-- Se pudesse haver análise,  muitos dados, provavelmente. Não sei isso agora pela sua pergunta, isso veio  assim me suscitou, que provavelmente até Newton Freire Maia nem pretendia fazer  essa análise tão complexa. Teria talvez uma análise com a-- Com as máquinas  enormes de calcular que nós tínhamos no departamento de genética, se não me  engano, a marca era Frieden. São máquinas que são máquinas para museu.    PINA: A senhora pode descrever essas máquinas, por favor? E como era usar elas?    FREIRE-MAIA: Olha, eram umas máquinas muito grandes. É-- E como é que eu  posso te dizer-- Talvez desse, eu estou aqui na frente do meu, no meu computador  que é da Lenovo, que é o tamanho normal de um notebook. Então elas eram mais  largas do que isso. Então nós tínhamos o teclado delas, e os números ali, e  nós fazemos os cálculos, né? E à medida que nós vínhamos fazendo, o  cálculo se deslocava uma parte da máquina que era mais alta e mais comprida,  se deslocava para a direita, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda.    PINA: Entendi    FREIRE-MAIA: E aí ia sendo feitos aqueles cálculos, e provavelmente tinha um  mostrador para mostrar esses certos resultados. Faz tanto tempo isso, mas eu sei  que uma máquina dessas foi guardada lá no setor de ciências biológicas, acho  que deve ter um pequeno museu lá. Muito diferente das máquinas de calcular  pequenas que não existiam, que já vieram com programas. Eu não sei se essa  já tinha algum programa, talvez tivesse um quadrado, sabe? Eram máquinas que  vinham do exterior, naquela época o departamento, eu estou dizendo por causa  que eu entendo que sim, mas eu não vi quando elas chegaram, mas naquela época,  quando eu entrei no Laboratório de Genética como estagiária, o departamento,  o laboratório recebia verba da Fundação Rockefeller. A Fundação Rockefeller  ajudou muito a pesquisa Brasileira nesse início. A genética, sem dúvida. Eu  sei que eu, lá em Porto Alegre, o departamento do Rio Grande do Sul também  recebia. A USP também recebia. Esses três eu tenho certeza, provavelmente  outros, talvez também de outras áreas. E eu imagino que essas máquinas tem  que ter vindo dessas verbas, né? E nós ganhávamos, eu também ganhava ali  aquelas horinhas que no final do mês eram computadas por um dos estudantes que  também trabalhavam no departamento. Elas eram computadas e cada um tinha o seu  pequeno salário. Era irrisório, era irrisório mesmo.    PINA: [risos]    FREIRE-MAIA: Mas era a política lá do senhor Newton Freire Maia, que todo o  trabalho teria que ser remunerado. Claro que para nós sempre também era bom,  né? Mas não era nada assim que a pessoa pudesse usar como algum emprego, né,  não era isso, era para estudar mesmo, para fazer carreira. E ali [inaudível]  como algo suplementar.    PINA: A senhora comentou que nesse projeto, a parte de execução assim, a  senhora teve pouca dificuldade, que era simples, que a senhora teve mais  dificuldades na parte teórica. A senhora poderia falar mais disso, por favor?    FREIRE-MAIA: É porque essa parte é teórica, sabe? É uma parte até que eu  acho que foi muito desenvolvida nos Estados Unidos, que é sobre a carga  genética, em inglês é genetic load. Essa palavra carga, hoje eu não sei, mas  muitas vezes ela era utilizada de forma errada dentro da genética. A carga  genética se refere à, digamos, aos genes que são deletérios na população  ou que diminuem o valor adaptativo dessa população quando em comparação com  aquilo que é considerado normal, que são os os genes que levam a melhor valor  adaptativo e melhor sobrevivência em geral. Então, o casamento, o que que o  casamento consanguíneo faz? Quando um casal que é filho de casamentos-- que um  casal que é consanguíneo casa eles, na realidade, eles têm origem comum,  alguma origem comum. Ou eles são filhos de-- de um tio com uma tia, ou de dois  tios ou de dois tias, enfim, então eles têm uma origem comum, né? Porque os  pais deles são irmãos. Então eles acabaram tendo os mesmos avós e assim vai.  Então, o que que acontece nesses casamentos? Nesses casamentos, muitas vezes os  filhos de casais consanguíneos eles poderão-- Eles em teoria, eles vão ter  mais homozigose do que a população em geral. Qual homozigose que interessa?  Para o pesquisador, é dos genes raros, porque a homozigose do gene em comum  está tendo aí nos filhos de casais que não são consanguíneos. Mas se a  família tiver algum gene raro, recessivo, e que nem se expressou porque ainda  não houve possibilidade de estar em dupla dose, possibilidade essa que é dada  pelo casamento consanguíneo, então, digamos, são famílias que às vezes nem  sabem sobre esses gêneros deletérios. Mas eles então podem se expressar numa  criança que seja, que tenha recebido em dupla dose tanto do pai como da mãe,  de modo que o estudo dos filhos de casamento consanguíneo quanto a mortalidade  deles, quanto as-- Digamos, as doenças genéticas que eles mostraram ao  nascimento. Quanto é o desempenho deles ao próprio crescimento? Será que a  estatura deles vai ser igual ou será que houve algumas homozigoses para gente  que baixa estatura ou que elevam? Enfim, isso permite então que você descubra  pelo casamento consanguíneo genes deletérios que estão distribuídos em toda  a população, mas que ali eles foram unidos e a partir de cálculos  matemáticos você pode calcular quantos equivalentes letais daquele tipo  existem na população. E então é, digamos, uma resposta grande, ampla,  baseada nessa-- nessa teoria que é, na realidade é uma, é mais do que uma  teoria, né? Porque a gente já sabe que há essa homozigose aumentada nos  filhos de pais consanguíneos. Então acho que era mais nesse sentido. No caso,  eu acho que desse nosso trabalho deu para fazer cálculo de equivalência letais  com relação a mortalidade das crianças nessas famílias, que era um dado que  os pais prestavam ao responder o questionário. Uma coisa que eu só toquei  rapidamente aqui, muitas vezes. Nós íamos nas casas para poder esclarecer  melhor alguma coisa do questionário. Fizemos muitas visitas, visitas  domiciliares, muitas, para que eu, digamos, os dados não apresentassem dúvidas.    PINA: Tem alguma visita domiciliar que a senhora lembra e possa me descrever?    FREIRE-MAIA: [risos] Eu lembro.    PINA: Pode descrever à vontade.    FREIRE-MAIA: Nós éramos muitos jovens, sabe? E às vezes, não entendíamos  muito das coisas, e eu sei que uma vez, eu acho que nós entramos num local que  é-- que era uma região muito-- Como é que eu posso dizer, talvez ligada com  prostituição, sabe?    PINA: Entendo.    FREIRE-MAIA: Se eu lembro, não aconteceu nada, deu tudo certo, mas eu lembro  que foi um pouco estranho. E mais outras coisas. Às vezes, eu até agora não  estou lembrando muito-- A gente estava, acho que nós éramos bem atendidos  [pausa]. E eu, talvez, algumas vezes, as famílias também tinham dúvidas, né?  Hoje, talvez a gente tivesse que ter até mais cuidados éticos, sabe? Não que  nós não tenhamos tido. Mas, ué, como é isso? Foi antes de existir aqui a  comissão de ética em pesquisa em seres humanos, provavelmente quando o projeto  tivesse sido feito, a gente teria que aprovar muitas das coisas que seriam  aprovadas, e nós realmente tomamos todos os cuidados. Mas talvez os pais não  esperassem que a gente fizesse visita domiciliar, né? Talvez devesse ter sido  escrito no próprio questionário, várias coisas assim, né? Que seria um  cuidado que eu hoje, eu acho que nós teríamos acrescentado. E também era uma  outra época, sobre certos aspectos. Em termos de violência, era a cidade era  pacata. É, eu acho que é isso tudo, né? Não havia dentro de nós, talvez  essas exigências tão grandes como hoje. Eu acho que há necessidade.    PINA: Na sua experiência como cientista, assim, de pesquisar antes e depois do  comitê de ética, a senhora acabou de falar várias diferenças, né? De  pesquisa em relação à criação do Comitê de Ética, quais outras  diferenças que a senhora enxerga assim--    FREIRE-MAIA: Eu acho que--    PINA: --Da pesquisa, antes da pesquisa, depois.    FREIRE-MAIA: Eu acho que é muito importante. Eu acho que no nosso departamento,  talvez pela postura ética do senhor Newton Freire Maia, os nossos trabalhos  sobre certo-- Nesses aspectos foram muito protegidos porque era tudo muito  cuidadoso. Mas isso nem sempre acontece. E eu, mais tarde, ainda não havia  comitê de ética até o trabalho desenvolvido por mim, a gente fazia a coleta  de sangue, né? Claro que a pessoa não querendo não ia, não doaria, né,  teria que ser pedido. E eu acho também que as próprias revistas  internacionais, elas não tinham tanto cuidado com a publicação de fotos,  sabe? Coisas assim que eu lembro, eu acho muito importante existir em todos os  níveis, né? Mesmo das próprias revistas, que eu acho que eu vi publicações  em que não se pedia a autorização do-- Das pessoas que estão sendo  estudadas. Claro que nunca se fez nada assim de, de abusivo, mas as próprias  revistas, quer dizer, não havia esse comportamento cuidadoso, né, que é necessário.    PINA: A senhora falou em coleta de sangue, em coleta de amostras. Isso foi  dentro desse projeto? Curitiba 3.    FREIRE-MAIA: Não, isso foi só depois que eu fiz a minha pesquisa, já na  Inglaterra, eu já era professora aqui da Universidade Federal do Paraná.    PINA: Entendi. Depois do projeto Curitiba 3 o que é que a senhora fez?    FREIRE-MAIA: Quando eu entrei no departamento de genética como estudante, já  havia um colega meu da mesma turma da história natural, Bento Arce-Gomez, que  depois foi o meu colega como professor do departamento de genética. E o Bento  também já tinha entrado antes de mim. E ele estava, digamos, desenvolvendo um  projeto coordenado pelo professor Newton Freire Maia. E eu fui convidada para  colaborar. E era um projeto sobre fissuras, lábio, palatinas, problemas de  lábio leporino e palato ofendido. E esse projeto era desenvolvido no Hospital  de Crianças de Curitiba, que existe até hoje. Hoje já faz parte do Hospital  Pequeno Príncipe. E havia um médico que era responsável por essa parte, a  parte clínica. E ele também era um cirurgião. E ele sempre que havia casos de  cirurgia, ele fazia aqui cirurgia reparadora. E nós éramos chamados. E nós  também tínhamos um questionário para preencher sobre aquela família. E nós,  é-- Tínhamos como muito interesse saber sobre a irmandade daquela criança,  quantos irmãozinhos ela teve, se ela teve um outro irmão que pudesse ter  nascido com a censura palatina, por que esse tipo de trabalho era para calcular  risco de recorrência. O que que é o risco de recorrência, e porque está  dizendo, né, de a possibilidade daquela mesma anomalia vir a acontecer numa  nova gestação. E esse tipo de dado era utilizado na.. Nas consultas de  aconselhamento genético. Depois, claro, de se publicarem os trabalhos.    Então, mesmo que no exterior houvesse trabalhos com risco de recorrência,  sempre era importante ter dado o brasileiro, né, por causa da diversidade  genética diferente. Vários outros fatores também. Então esse trabalho,  também depois foi publicado no exterior. Então você veja o-- Para o senhor  Newton Freire Maia lhe convidava esses os alunos para desenvolverem o projeto  sob a orientação dele, sobre a supervisão, a correção né? Mas ele nos dava  aquela responsabilidade também dentro de realmente-- de que aquele projeto  dependia muito de nós. Nós não estávamos ali apenas executando ordens, nós  estávamos como pesquisadores. E lembre-se que nessa-- Dá para lembrar que  nessa época não havia curso ainda de mestrado nem doutorado na nossa  universidade. Então esse trabalho também do professor Bento Arce-Gomez,  também nós, na realidade, ele era o responsável e eu colaborava, né? Mas a  responsabilidade era dele. Eu também lembro do professor Newton me convidar  para um trabalho... É, não havia, assim, quem no nosso departamento fizesse os  dermatóglifos, né? Que não são apenas as impressões digitais, é toda a  impressão da palma, da mão e dos dedos, né? Essas linhas todas. E até eu  estive na USP, e o professor [Pedro] Saldanha, eu acho que me orientou como que  eu deveria fazer os índices dos dermatóglifos. Eu também tinha  estudado--Existia um livro em inglês cujo título era Palms and Shoes. Então,  eram os estudos tanto das palmas da mão, acho, que como da sola dos pés. E ali  tinha toda a metodologia. Era como, então, como se a gente fosse dar um  resultado clínico para a palma da mão e a ponta dos dedos, né? Daí isso era  muito usado nos trabalhos de descrição de casos, descrição de famílias com  doenças, e eu tive o privilégio, quando eu fui para a Inglaterra, de conhecer  o professor [Lionel] Penrose. O Penrose, que é um grande nome da genética  humana, ele já estava com muita idade. E eu fui conversar com ele na época,  havia até uma senhora, uma estagiária que tinha vindo de um país ali do leste  europeu e que estava é-- Digamos isso, estudando com ele também, não sei se  eram os dermatóglifos. Mas ali, naquele talvez, até não sei, Penrose, que foi  um assim-- Na nossa, na genética, um grande divulgador também do uso dos  dermatóglifos, porque, para algumas afecções, algumas doenças, alguns  problemas genéticos, né? Existem alguns dados dermatoglíficos. Então o  professor Newton Freire-Maia, ele, na época, ele dava curso de genética, acho  que humana e médica. Não sei exatamente, mas eu acho que era em Londrina. Era  o início da Universidade de Londrina. E ele pedia para os estudantes trazerem  casos para serem estudados para os estudantes se aprofundarem, e assim também  ter aquele cunho dentro da medicina. E um estudante trouxe o caso de duas  crianças com muitos problemas. Falta de cabelo, problema em unha. Eu não sei  agora descrever todos os problemas, mas eles não tinham os membros perfeitos,  havia uns restos só, às vezes de pele com dermatóglifos. E eu lembro que eu  participei desse trabalho, examinando os dermatóglifos dessas duas crianças.  Esse trabalho, não os dos dermatóglifos, mas os trabalhos genético e clínico  maior sobre essa essa família, teve uma importância muito grande. Por que o  professor Newton Freire-Maia nessa época, ele também tinha muita ligação com  o John Opitz, dos Estados Unidos, que era geneticista. Não sei se eu-- Se o  John Opitz ainda é vivo, geneticista, médico clínico. Eu até eu imagino que  o senhor Newton Freire-Maia-- Eu não me lembro quando que o trabalho da-- Que  eu fiz foi publicado. Ele foi publicado naquela revista italiana sobre gêmeos e  gemenelogia, mas eu não lembro bem o começo do título da revista. Mas eu  imagino que deve ter sido ali no início da década de 70. À parte dele  conversar com o John Opitz, porque isso foi antes, porque eu fui em 70 pro  estágio para a Inglaterra. E eu tenho a impressão que esse trabalho já estava  feito, então foi antes da década de 70. Mas como eu falei, qual a importância  disso? Quando o Newton conversa com John Opitz, o John Opitz diz &amp;quot ; Newton, isso  é uma displasia ectodérmica&amp;quot ; . E daí veio Newton, foi estudar displasia  ectodérmica e viu que era um campo muito estranho, muito estranho, né? Bem a  palavra, um campo que se sabia pouco e os trabalhos também a respeito não  combinavam, dizia-se que eram-- Agora eu vou até inventar, 8 displasias  dérmicas escritas, às vezes dizia que era 5 e assim vai. E nessa época eu  acho que já em 70, Newton Freire-Maia, com a esposa e os filhos, ele foi ser  diretor da-- Ali da seção de genética humana na organização mundial de  saúde, em Genebra. Eu acho que nesse momento, houve a conversa com o John  Opitz, ou antes. E como ele tinha tempo à tarde, porque o trabalho todo da  Organização Mundial de Saúde, ele fazia praticamente de manhã, que ele era  de uma capacidade de trabalho muito grande e rápida, ele começou a estudar  muito sobre a ectodérmica, e ali surgiu essa linha de pesquisa que ele  desenvolveu de uma forma extraordinária. Ele foi, teve como colaborador a  doutora Marta Pinheiro, e publicaram muitos trabalhos e foi, digamos, algo que  fez florescer também em outras partes do mundo os trabalhos a respeito de  displasias ectodérmicas. Bom, eu comecei com os dermatóglifos e deu tudo isso.  Mas como você é historiadora, e isso tem a ver com a genética, né?    PINA: Com certeza.    FREIRE-MAIA: Mas eu tenho mais alguma coisa a dizer. Eu também colaborei, eu  acho que com outras pesquisas sobre malformações congênitas, sabe? Não  lembro agora, exatamente qual foi o meu papel, mas eu acho que foi mais mesmo  nessa, que essa displasia ectodérmica, no que eu acho que foi nessa displasia.    PINA: Essas outras pesquisas que a senhora lembrou agora eram todas do  laboratório de genética junto com com o professor Freire Maia e--    FREIRE-MAIA: É, aquela dos-- Fissura de lábio palatina, esses dos  dermatóglifos, sim.    PINA: E essas que você falou agora por último também. Ou não?    FREIRE-MAIA: Essa que eu falei do--    PINA: Que a senhora falou, &amp;quot ; Eu lembro que eu também contribuí com outras  pesquisas sobre uma formação genética&amp;quot ; .    FREIRE-MAIA: Mas eu estou agora na minha memória. Eu precisava dar uma olhada  no que foi publicado, sabe?    PINA: Aham, não, tranquilo, só o que a senhora lembra mesmo.    FREIRE-MAIA: É, mas eu estou lembrando mais dessas três, e eu-- Começar-- é  uma coisa interessante que eu gosto às vezes de dizer, claro que isso é algo  fora da nossa época e hoje nem seria, talvez nem seria possível, e talvez  nem-- Não seria legal e nem ética, porque hoje há tanta, tantos jovens  competindo para poder pegar uma vaga. Mas, eu e outros dos meus colegas, nós  ajudávamos nas aulas. E quando o professor Newton Freire-Maia viajou para fazer  um trabalho, também sobre o efeito de casamentos consanguíneos em Leiria, em  Portugal, nós ficamos responsáveis por aulas de genética que eram da  disciplina dele. Então, eu acredito que nós já estávamos dando aula já na  parte ali da-- Colaborando, né?    PINA: Nós quem?    FREIRE-MAIA: Eu, o Bento Arce-Gomez, eu acho que o Eglemir João Carvalho  [1:00:00]. Mas agora eu acho que eu me enganei sobre data. É, porque não--  Ainda não demos alguma, mas demos aulas só mais tarde, quando ele acho que foi  para Organização Mundial de Saúde. Mas daí nós já éramos professores.  Porque nós, eu e o professor Bento Arce-Gomez, mais a Ieda Procopiak de Aguiar,  que trabalhou comigo, e mais João Bosco Azevedo. Nós todos fomos-- Nós fomos  contratados em 1967. Já havia três anos-- Não. Já havia dois anos que eu  tinha terminado o curso. Não, está certo aquilo que eu falei, porque eu  terminei meu curso em 1965 de genética, então, em 1965, no final do segundo  semestre, tanto eu como Bento Arce-Gomez, eu tenho certeza, demos a aula para  turma de genética. É, nesse caso para o Newton Freire-Maia, ele punha muita  responsabilidade em cima de nós. Mas por outro lado, eu acho que ele tinha  muita confiança. Eu lembro que uma época, que nós éramos estudantes da  graduação. Eu, o professor Bento, o Oscar [inaudível] [1:02:24], que depois  se tornou um paleontologista, acredito na área vegetal. Então foi de outra  área, nós três, e tenho certeza que também o João Bosco Costa Azevedo.  Então são quatro. Não tenho certeza se eu-- se houve um quinto agora. Nós,  é, participamos de um curso em comemoração de algum aniversário do Mendel,  sabe? Agora já não lembro se era de nascimento, e que foi feito num auditório  enorme do Hospital de Clínicas, que ali havia lugares para 500 pessoas. Então  eu lembro que é-- E nós assumíamos, sabe? Talvez até fôssemos um pouco  pretensiosos, mas deu tudo certo. Mas por outro lado, eu acho que essa  possibilidade de exigir, né, que hoje já quase não existe, ela também dava  um impulso para que nós nos desenvolvêssemos.    PINA: A senhora se recorda de uma aula que a senhora deu nessa época assim?  Pode descrever a experiência para mim?    FREIRE-MAIA: Bem, nessa época, bom, eu lembro que eu, essa palestra-- Olha, eu  lembro que eu falei sobre, sobre doenças, sobre síndromes que eu sei que eu  falei sobre o mongolismo. Porque eu lembro que eu ouvi pessoas na plateia que  deram risada de alguma coisa do Síndrome de Down, e eu passei uma descompostura  assim, meio leve, mas passei, sabe? Eu lembro disso [risos]. Mas eu lembro-- Por  que que eu entrei no departamento de genética? Eu era muito tímida. O Bento  Arce-Gomez tinha entrado lá e dito que ele queria fazer e que acabou, e eu e  ele estudávamos bastante os livros, que era até eu que traduzia em inglês,  que tinha muito trabalho de genética molecular, de trabalho lá do [James]  Watson, do [Francis] Crick, e nós ficávamos assim, atordoados com aquelas  coisas todas tão maravilhosas. Mas eu não tinha coragem, né? De entrar lá e,  se eu me perguntasse o que é que eu queria fazer, eu não sabia o que é que eu  queria fazer. Eu queria participar do departamento. Então eu precisava  realmente ser convidada, mas isso é um raciocínio que eu só fiz mais tarde,  que eu entendi que foi o que me abriu as portas, mas eu queria entrar lá.  Porque eu fui também convidada para participar. Não do departamento de  Zoologia, mas de projetos assim, estágio não é, mas como eu fui convidada  pelo Padre Moore, que era o catedrático, aquilo, se eu quisesse continuar, eu  teria sido Zoóloga, mas eu queria ser geneticista, né? Então eu fui. Até  provavelmente as minhas, as minhas notas nas provas de Zoologia, elas eram muito  mais altas, porque naquela época a minha memória também era muito boa. Mas  voltando. Nas nossas-- Quando eu entrei, tive a aula em 64. Da-- com o  professor, é, Francisco Antônio Marsalo. Nós tínhamos, os alunos da nossa  turma, de fazer uma palestra. Eu estou com uma aula, você me perguntou de uma  aula, era um seminário, e isso para nós, que estávamos começando, e nem  sabia muito de genética para falar a verdade, eu sabia as leis de Mendel e  muito pouco além disso. E nós teríamos que também ser-- É assistir, quer  dizer, assistidos, né, também pelo-- Então nosso professor e pelos alunos que  estavam um ano na nossa frente e pelo professor Freire Maia, que era o professor  deles. E eu realmente me dediquei muito. Era um trabalho de André Dreyfus, um  trabalho de divulgação científica que André Dreyfus escreveu sobre a  diversidade genética em diferentes organismos e como isso, de certa maneira,  influencia a fisiologia do animal da planta lá. E que era examinado, né,  então era a-- eram as consequências fisiológicas da ação dos genes. Eu  achei aquilo fantástico, sabe? Que eu nunca tinha visto nada igual, e André  Dreyfus também foi um grande divulgador da ciência. E ele escrevia muito bem,  mas eu li, reli muito, provavelmente eu dei aquela aula no meu quarto várias  vezes, e então como eu me saí bem. E com certeza a Ieda Procopiak de Aguiar,  que fazia parte do quarto ano, é, eu estava no terceiro, também se saiu bem. A  Maria da Graça também, nós três fomos convidadas para fazer parte daquele  projeto chamado Curitiba 3.    PINA: Por que que a senhora queria ser geneticista e não zoóloga?    FREIRE-MAIA: Olha. Eu acho que eu sempre gostei-- Não que eu hoje não se possa  fazer isso na Zoologia, mas eu sempre gostei muito mais de procurar um  mecanismo, um fenômeno, uma correlação do que fazer uma descrição. E  naquela parte de sistemática, era tudo muito descritivo. Claro que havia a  possibilidade de você achar alguma espécie nova. Mas você faria descrição,  isso eu entendo hoje. Depois que eu mesma pude rever, assim a minha trajetória,  sabe? E realmente a genética lá no, nesse nosso curso de História Natural,  ela estava muito acoplada à evolução. Em outras universidades, pode ser que  quem dê aula de evolução seja o grupo da Zoologia ou da Botânica ou da  Fisiologia, mas era o grupo da genética. Evolução também sempre me fascinou.  E então a genética tinha esse lado, desde o molecular, até chegar na parte  evolutiva. Então eu acho que eu-- eu devo ter na época tido assim, ou uma  avaliação rápida, ou intuição, então ela sempre me encantou mais.    PINA: É-- A senhora comentou que estudou um tempo na Inglaterra, né? Por que  que a senhora foi para Inglaterra?    FREIRE-MAIA: Em 1969, foi criado, começou a funcionar o curso de mestrado de  pós-graduação e no nível mestrado no departamento de genética. Eu trabalhei  bastante para que esse curso existisse, eu já era professora auxiliar de ensino  desde 67. E eu acho que logo depois de 67 outros professores de diferentes  disciplinas que estavam ligadas, assim mais a área científica começaram a  fazer reuniões para que nós pudéssemos fazer aquele processo para  regulamentação dos cursos de pós-graduação. Então, foi criado o curso de  pós-graduação em genética. Não lembro se na época era genética humana  só, ou era genética. E eu fiz esse curso em 1969, apesar de eu já estar no  departamento de genética desde 64, né? Ter 5 anos de até ter dado aulas para  mim abriu assim, eu tenho disciplinas diferentes, genética demográfica. Eu  lembro que me encantava com genética demográfica, depois nós tivemos assim um  embasamento maior dentro da estatística, com o professor de estatística,  professor também de outras áreas mais, e depois vieram os professores também  de fora. Eu tenho quase certeza que o professor do Francisco Mauro Salzano veio  nos dar aula, o professor Henrique Krieger veio, nos deu aula de genética de  populações. Eu acho que o professor Bernardo Beiguelman deve ter vindo  também. Eu sei que esses professores depois deram no curso, de modo que eu tive  ali um embasamento ainda maior, sabe? É, com relação à genética. E já em  69, eu já tinha a ideia de fazer um estágio de-- Com algum pesquisador no  exterior, e eu me candidatei tanto pelo conselho britânico, como pela  Fulbright. E eu tive a sorte de receber as duas bolsas, né? Quer dizer, teria  que aceitar uma delas. E eu pensando, não sei exatamente em tudo, é, porque a  bolsa dos Estados Unidos era numa universidade que eu teria que trabalhar  também, que eu não era humana, realmente, se eu também tivesse ido para lá,  teria sido um trabalho muito interessante. Mas da Inglaterra, eu tinha essa  possibilidade de fazer o trabalho em genética humana. E naquela época nós  não tínhamos assim, é, digamos, esse hábito, esse costume já da  pós-graduação. Eu achei muito importante existir o curso de pós-graduação  em nível mestrado no nosso departamento, mas para mim era tão importante fazer  pesquisa que na época eu nem percebi que eu nem eu cheguei a escrever, sabe,  uma monografia, porque não era ainda exigido um trabalho de peso com dados. Se  a pessoa tivesse, eu faria. Mas era o início da pós-graduação do mestrado,  então eu até cheguei a escrever uma monografia sobre dermatoglifia, e eu não  tinha simpatia pelos dermatóglifos. Você vê que também aí tem uma coisa  bastante descritiva, não é? Agora que é porque apesar que faz a relação  também com a doença, e mais tarde eu até dei aquela, aquela minha monografia  que nunca chegou a se transformar em dissertação de mestrado, que eu já  estava querendo fazer mais pesquisas, me aprofundar, não havia aquela-- aquela  noção é, importante para a carreira fazer um mestrado, fazer um doutorado,  ainda era muito importante naquela época a livre docência. Eu sei que o  professor Francisco Antônio Marsalo fez livre docência, e mais tarde, quando  eu fui fazer o doutorado, houve um professor meu da universidade, que foi um  ótimo professor, que já era meu colega, mas de um outro departamento. Ele não  entendeu, por que eu queria fazer o doutorado. Ele falou, &amp;quot ; por que você não  faz livre docência?&amp;quot ; . Então eu estou falando isso para você perceber qual era  a mentalidade da época. Esse professor é um professor muito bom, e também fez  pesquisa, mas ainda não existia, digamos, essa cultura da pós-graduação.  Então eu fui mesmo para fazer pesquisa. Não estava pensando em doutorado.  Você me perguntou, né, por que que eu fui, não é isso? É que eu fui mesmo  porque eu queria me aprofundar em pesquisa.    PINA: E qual foi a pesquisa, então, que a senhora fez lá na Inglaterra?    FREIRE-MAIA: Eu, sabe, eu fui para Birmingham. E de lá, é, tinha uma unidade  de-- Eu não lembro o nome da unidade, mas fazia parte do departamento de  medicina social. Essa unidade era alguma coisa do desenvolvimento, né? De  criança, algo assim. E quem era responsável por essa unidade era o professor  John Edwards, o John Edwards foi quem descreveu o caso da aberração, que  depois recebeu o nome dele, síndrome de Edwards. Então ele também tinha se  dedicado a essa parte de citogenética, mas ele era muito-- E havia lá no, onde  eu fui estagiar, análise, digamos, necessária, era algumas salas, mas havia um  laboratório e lá eles faziam os cariótipos. Porque ali era no mesmo prédio  da maternidade e da unidade intensiva infantil. Que é como o nosso UTI, eu  tenho a impressão que eram os primórdios das UTIs infantis. Não imagino que  tivesse no Brasil em 1970 já essas UTIs, que tinha essas crianças que já  nasciam com problemas graves, muito de genética, e eles faziam cariótipo. E o  Edwards, não sei se era uma vez por semana, ele tinha reunião. Eu sempre ia  nessa reunião, nessa parte da UTI, para discutir o caso das crianças, o que  que parecia genético, que não era, se era problema de problema cromossômico  ou não. Mas ele-- ele tinha recebido de um pesquisador importante, é, também  inglês de Londres, Renwick, estava muito interessado em estudo de irrigação  genética, que é o tipo de estudo na genética da época em que a gente queria  descobrir genes próximos no mesmo cromossomo. Então, genes próximos, cuja  frequência de recombinação era inferior a 50%, eram chamados de genes  ligados. E o John Edwards já tinha desenvolvido um trabalho com uma parte  matemática para estudo de ligação em genes ligados ao sexo. E Newton Morton,  que é muito importante para a genética brasileira, pesquisador  norte-americano, que também é muito importante dentro dessa parte do que eu  falei da parte de carga genética, eles tinham desenvolvido uma metodologia  matemática para estudo da ligação. E o John Edwards fez algo complementar  para, é, ligação com genes ligados ao sexo. O do Morton era genes  autossômicos. Então John Edwards estava interessado na ligação, Morton,  também, Renwick também. O que que o Morton tinha feito? Ele tinha passado pro  Renwick, se não me engano o material da hospedaria de imigrantes que foi  coletado em São Paulo. Porque foi um projeto muito grande de Newton Morton. Ele  veio ao Brasil, ficou amigo de muitos geneticistas brasileiros, com ele fizeram  o doutorado. Henrique Krieger, Eliane Azevedo lá no Havaí, que foi mais tarde  para onde ele foi. Mas tanto Henrique como Eliane-- Eu acho que Ademar Freire  Maia também trabalhou com ele na parte da hospedaria de imigrantes que era essa  hospedaria que recebia imigrantes, principalmente nordestinos, em São Paulo e  que eram estudados lá, de certo para várias características. E eu não sei  como que isso foi introduzido no projeto do Morton. Então houve ali uma  documentação sobre bem mais de 700 famílias de imigrantes, mais de 700,  porque eu usei 700, e eu excluí algumas, né? E eles eram estudados, né, sobre  o aspecto clínico, por isso que deve a doutora Eliane Azevedo deve ter  participado. E era retirada do sangue, saliva, não lembro agora. Mas-- ah, era  feito testes também de-- Teste de sensibilidade a uma substância química, a  feniltiocarbamida, cuja sigla é PTC. Isso é o que eu estou lembrando. Além  dele, muitos outros dados. Então, provavelmente num grande disco, essas  informações todas foram pros, se não me engano, para o Renwick, que ele  passou para John Edwards, se não me engano.    PINA: Para o que? Não deu para entender.    FREIRE-MAIA: Ele passou esse material para o John Edwards. Então aí tem  Morton, o Renwick, John Edwards, todos interessados em ligação genética. O  John me ofereceu dois projetos. Um é nesse estudo de ligação com a família  brasileiras. O outro eu não lembro [risos]. Acho que desapareceu porque eu  já-- Ele mesmo queria que eu ficasse com essas famílias. Eu poderia entender  alguns detalhes que talvez eles próprios não estivessem entendendo. Eu então  fui fazer esse estudo de ligação genética. O John Edwards tinha uma analista  de computador, Karen Glenn, que se tornou minha grande amiga, que tinha  desenvolvido junto com ele, mas provavelmente com o expertise dela, os programas  de computador para que essas famílias fossem analisadas. Então, a primeira  coisa que eu tive que fazer, se não me engano, é codificar esses dados. Que  dados eram? Das famílias. Nossa, era muita coisa, porque o Morton tinha mandado  esses dados para vários outros pesquisadores, então tinha muito sistema  sanguíneo que tinha sido tipado como ABO, RH, MNS, o Kell, Kidd e assim vai.  Porque aqui a gente fala muito ABO-RH, mas realmente já naquela época, [R.]  Race e [Ruth] Sanger, dois escritores, dois, desculpa, dois pesquisadores de  grupo sanguíneo já tinham publicado livros sobre os grupos sanguíneos  humanos. Então, era uma infinidade. Também, enzimas, como G6PD, como  colinesterase do soro, enfim, várias enzimas. Também o proteínas, como  transferrina, como hemoglobina, de modo que muita gente de diferentes partes do  mundo fez trabalhos usando esse material. E isso tudo o Morton registrou, estava  pronto para ser feito, então, estudo de ligação. E eu, então, nessa época,  eu comecei a usar computador. Eu fiz até curso de Fortran também. Eu já tinha  levado o livro de Fortran em português, eu fiz também na Inglaterra. Eu  aprendi a usar umas máquinas enormes! Se você quiser saber o tamanho, eu não  sei ali... Um metro e meio, mais ou menos, e por uns, sei lá, quase um metro e  meio de altura ali. Então a gente punha os cartões ali, que já tinham sido  perfurados e tinha máquina para perfurar cartão, que a gente digitava o  cartão perfurado. Depois a gente podia até classificar aqueles cartões usando  aquela máquina grande de classificação que eu falei. E aquilo, então, os  cartões eram jogados ali dentro da máquina, então eu tinha quantos que  estavam com a-- Digamos, o orifício, no zero quanto, no um quanto, no dois  quanto, no três-- Não que nós fossemos fazer o nosso trabalho naquela base,  mas a gente sabia mais ou menos as informações sobre-- Sobre essa família. E  eu não lembro direito, mas eu devo também ter digitado, mas eu não lembro  porque era muita coisa para digitar, e alguma outra pessoa deve ter digitado  para mim. Mas o que eu tive que fazer foi o tal do dicionário genético. Eu  pegava, por exemplo, a hemoglobina, e era aquela coluna, era da hemoglobina.  Então, ali eu ia dar um código: se hemoglobina era normal, você tinha  variante S, você tinha variante C e aquilo tudo, então, era codificado com  0-1, etc. E isso foi o tal do dicionário que foi usado, daí, nas análises por computador.    Era através desse dicionário que cada família era identificada de acordo com  aquele sistema. Você estava estudando, por exemplo, grupo RH. Através do  dicionário, aquela família era colocada como positivo, positivo-positivo,  digamos, negativo-negativo, e assim vai. E a criança também era colocada como  era, porque se ela era filha de dois negativos com um positivo, então é,  enfim, era feito tudo aquilo na base daquele dicionário. E daí havia toda a  programação, a gente pegava um par de genes para descobrir se eles eram  ligados ou não, se eles fossem ligados, provavelmente, né, era de se esperar  que a segregação nos filhos dessa família não seguisse a lei de Mendel da  segregação independente, então que não houvesse a chance de 50% de um  heterozigoto mandar, né? A dupla heterozigoto para os dois genes, né,  distribuir-- Ser distribuído aquilo para os filhos. Haveria uma tendência para  que aquilo que já estava junto no pai passasse para o filho com uma  frequência, [inaudível] menor que 50%. Se fosse muito junto, dificilmente  haveria ali um processo de recombinação para separar. Então, essas crianças  todas eram vistas também através desse dicionário. E daí era feita análise  por uma análise complexa de matemática que era análise de acordo com o-- De  acordo com o trabalho do Newton Morton. No final, havia um resultado para cada  família, e como isso, uma análise chamada sequencial, em termos de  estatística, nós podemos... Nós podemos somar o resultado que uma família  deu com relação a uma análise de um par de genes com outra, com da outra, e  até o final de todas as famílias. E no final, se nós obtivemos o que se chama  lod score igual a 3, ou superior que 3, aquilo já é um caso de ligação  genética, está mostrando que entre aqueles dois genes a frequência de  recomendação não é independente, né, menos que 50%. E a gente também tem o  pico, porque é testado ali. Nós testamos 10%, 20%, 30, até 50, então várias  hipóteses. Ali, então, quando eu dava a ligação, dava um pico às vezes  próximo de 20% próximo de 30. Claro que se fosse um valor alto, tipo 30% e 40,  precisava um número muito grande de famílias para que a ligação aparecesse.    Então também nós trabalhamos com 22 pares de genes. Isso não é muito,  considerando a quantidade de genes no genoma humano, então a possibilidade de  descobrir um caso, a ligação também era baixo. Então a gente poderia talvez  descobrir uma sugestão de ligação. Porque os casos de exclusão de ligação  eram imensos. Porque se dava ali o pico nos 50%, aquilo aumentavam, aumentavam,  aumentavam, então a gente tinha certeza que determinados genes não estavam  ligados. Isso era um resultado, pode-se dizer, é, um resultado negativo, mas é  o resultado. Aquilo não está ligado, ninguém precisa procurar mais. Só que a  gente queria achar um que estivesse ligado, né? Ou uma sugestão, de modo que  se ficavam e esses eram os resultados negativos, ia subindo, dava menos 11,  menos 15, menos 20 agora. O positivo às vezes, dava um e meio. Então isso era  uma sugestão para uma continuidade de trabalho. Dava 2 e alguma coisa. E eu  achei uma sugestão, que depois foi confirmada por um grupo da-- Na época da  Universidade de Indianápolis, nos Estados Unidos. Então, até eu fiquei muito  agradecida ao McKusick, na época existia um livro chamado Mendelian Inheritance  in Men. Antes das coisas serem digitadas e guardadas em computador, era aquele  livro que a gente usava para saber cada doença, cada coisa. E eles no começo  eram volumes pequenos. Depois, no final, eram enormes e depois, quando  começaram a usar computador, aquilo tudo foi passado para um banco de dados, e  eu fiquei muito grata ao McKusick porque ele me coloca como descobridora da  ligação entre PTC e Kell. E PTC era aquele-- Aquela sensibilidade à  substância química. Na realidade, ninguém sabia o que era esse PTC. Eu mesmo  quis desenvolver trabalho nesse sentido. Mas uma vez eu cheguei para a minha  amiga, que foi duas vezes presidente da SBPC, a Glaci Zancan, que também é uma  mulher de-- Né, eu tenho-- Eu estou dizendo também porque eu sei que você  está estudando mulheres, né? Como você já falou ali de algumas que  trabalharam na medicina, né? Uma vez eu te falei sobre mulheres e coloquei a  Glaci, porque Glaci foi extraordinária como cientista e como--. Como  trabalhando na política científica. E a Glaci, eu falei: &amp;quot ; Glaci, eu estou  querendo ver se eu descubro uma enzima que é ao quebrar essa substância PTC,  ela-- A pessoa dependendo se tem enzimas, se tem muito, se tem pouco, vai dar  diferença ali naquela parte da sensibilidade, porque essa sensibilidade era  quantificada, sabe? Ou não tinha sensibilidade nenhuma, a pessoa punha o pó na  boca e não sentia nada, ou sentia super diluída, então, era aquela  quantificação. &amp;quot ; Glaci, está aí a fórmula aí do PTC&amp;quot ; . Ela olhou e falou:  &amp;quot ; Nunca, não tem enzima que corta essa substância. Isso aí é um receptor,  Eleidi, é um receptor, não é enzima!&amp;quot ; . Eu não esqueço disso. Estavam  começando a falar em receptor, eu não entendia nada de receptor, então acho  que eu devo ter esquecido. Mas eu lembro a data porque o meu marido estava  doente. Ele falou &amp;quot ; Eleidi, tem um trabalho aqui da Science que está te  citando!&amp;quot ; . Falei: &amp;quot ; Science me citando, imagina!&amp;quot ; . &amp;quot ; É sim, Eleidi&amp;quot ; , ele estava  adoentado. E foi ali perto, novembro. Eu até hoje guardei essa revista. Daí eu  fui lá e eu estou citada. Tô eu citada e muita gente, que ele fez bem, porque  na hora de eu publicar o trabalho, depois posso falar sobre isso-- Só foi  publicado no meu nome. O John Edwards não quis participar. E enfim, fui eu que  fiquei responsável por aquele trabalho de ligação, e eu fiz um-- eu fiz um  agradecimento enorme para todos aqueles que tinham contribuído com os dados.  Quer dizer que, que &amp;quot ; tiparam&amp;quot ;  os grupos sanguíneos, proteínas, tudo, né?  Mas-- E agora, também perdi. Ah, mas daí um grupo resolveu estudar o que que  era, que era responsável pelo PTC. E eles se basearam em um-- Também no  trabalho. Eu já não... Eu não sei explicar direito para você, mas eles  sabiam que eu tinha dito que estava próximo do KELL. E eu, os outros americanos  achavam que estava no outro cromossomo, se não me engano. E eles então  estudando lá, um receptor, eles identificaram mesmo, no próprio cromossomo,  onde o kel está. E foi um trabalho lindo que eles fizeram. Eles fizeram um  trabalho em diferentes etnias, sabe? E realmente a Glaci Zancan tinha razão,  era um receptor. O receptor que-- para o gosto, né, que a pessoa tem na boca.  Então, esse foi um caso de ligação que dependeu do meu trabalho. E eu segui.  Eu segui em outras pesquisas que eu fiz, eu segui um outro caso de-- de  sugestão, que era entre, que acho que era entre a colinesterase-- Não lembro  se era transferrina. É.    PINA: A senhora pode descrever sobre o laboratório lá na Inglaterra e o dia a  dia, assim, como era... A senhora acordava, como era o seu caminho até o  laboratório, como era o trabalho no laboratório, as pessoas com quem a senhora convivia...    FREIRE-MAIA: Olha, já que eu cheguei o John Edwards tinha conseguido para mim  um apartamento que eu dividiria com uma enfermeira que trabalhava no grande  hospital do campus. Isso tudo era no campus da Universidade de Birmingham. E ela  era enfermeira na ala de cirurgia cardíaca do Hospital Queen Elizabeth, então  o Queen Elizabeth era o grande hospital universitário e ali, onde era que eu  trabalhava, na parte da genética, era da maternidade. A maternidade era  separada e era maior. Então eu fiquei muito feliz. Até hoje eu sou amiga da  Margaret Bus [inaudível] e nós trocamos agora telefonemas, antes era um  cartas.. É, até uma das poucas pessoas com quem eu ainda tenho contato daquela  época, e-- E aí, era um ótimo apartamento, porque a Inglaterra era complicada  naquela época para estudante, tudo era muito caro. Em geral, as casas eram  muito velhas e ali era um prédio novo. Eu tinha o meu próprio quarto e a minha  própria sala. E nós tínhamos, e Margaret também os dela, e nós tínhamos em  comum assim, um hall grande que a gente tinha plantas, a cozinha, digamos, um  local do que seria de banheiro, que era separado da parte de privada, então era  um ótimo apartamento, maravilhoso, localizado ali no campus, que era um bairro  maravilhoso também. O nome era sub hall, o nome do local, eu acho. E o que que  tinha de maravilhoso quando eu descia as escadas, que não tinha-- Não lembro  do elevador, não tinha não. Quando eu descia aquelas escadas, tinha, havia a  recepção. E da recepção para a maternidade tinha um corredor envidraçado e  coberto, então se fazia nos frios de inverno, eu saía lá do meu quarto e ia  lá trabalhar. Eu não tinha problema nenhum. E o John Edwards, né, achava  muita graça de mim, porque eu também trabalhei bastante usando um computador  da bioquímica que ficava nesse prédio, eu acho, do Queen Elizabeth. Só que no  inverno eu já pegava o primeiro túnel ali, que eu entrasse. nunca ia por baixo  das árvores, eu achava muita graça porque os ingleses estavam acostumados.  Então eu estava muito bem instalada. E eu fazia refeições no restaurante da  maternidade que era para médicos, enfermeiros, os técnicos. Porque ali a  maternidade também tinha laboratórios de análises clínicas para as mães e  os bebês. E realmente eu, a única coisa que eu-- Eu acho que até de manhã,  não sei se eu não fazia meu café da manhã lá. Eu só lembro que eu fazia  meu lanche em geral, à noite, no apartamento, de modo que da parte da minha  comodidade, assim, naquilo que tem a ver com o que é necessário para a nossa  vida, eu fui muito privilegiada. E aos sábados, eu saía e ia no que ele  chamava ali da vila. Aquelas lojinhas maravilhosas, pequenas para comprar  queijo, comprar verduras. Enfim, o que eu precisava vinha com essa cola. E  quando eu precisava ir para o centro também era ali que eu pegava muitas vezes  o ônibus também. Então, essa parte foi excelente, e o laboratório lá-- Que  eu lembro que nós também, eu aprendi lá alguma coisa de fazer eletroforese  que eles não faziam em pesquisa. Mas nós fizemos e o John Edwards uma vez me  convidou, já mais para o final da minha estadia, ele me convidou para ir para--  para o departamento de química, não, era de bioquímica. Que lá tinha um  técnico que estava extraindo DNA. Então para mim, para mim, aquilo foi  extraordinário. Foi a primeira vez que eu vi DNA extraído do ser humano, né?    Então ficamos lá, e na hora que-- Aquele no final que ele mexe ali, que sai  aquele novelamento, foi uma coisa assim, que inacreditável, e ele deu então,  para o frasco com DNA para o John Edwards, levou para o escritório dele e  ficava lá, aquele frasco com DNA. Então foi o meu contato assim, de saber que  era possível extrair o DNA. Mas isso foi feito no departamento de química,  então você veja, era ainda no nível da química, né, o DNA já devia estar  sendo estudado para outros organismos, né? Vírus, bactéria. Mas o estudo para  a genética humana só se tornou possível depois de ter técnica, né, a  técnica de PCR, que abriu esse caminho para o estudo na genética humana e  também com o estudo sobre os genes do genoma humano.    PINA: Como é que eu o advento dessas técnicas e dessas descobertas também,  como o DNA e a genômica, influenciaram a tua agenda de pesquisa?    FREIRE-MAIA: Olha para mim, influenciou. Até, não só, bom, depois eu posso  falar do outro, mas para mim influenciou porque eu tive que saber utilizar essas  técnicas, se não a minha linha de pesquisa não avançava, mas eu-- Quando eu  vim para o Brasil, eu comecei a usar eletroforese. Comecei a fazer tipagem  sanguínea. Eu acho que nós também fizemos tudo de saliva para saber o tipo  secretor, se a pessoa era capaz de ter antígenos do tipo AB na saliva. E por  muitos anos eu utilizei técnica eletroforese. Depois eu parei com a parte do  sistema sanguíneo, mas da eletroforese eu continuei depois, depois eu ainda  falo sobre isso. Mas lá por 1990 eu, que eu trabalhava muito com gene, que é o  próprio da colinesterase do soro que eu já falei, com que eu tive um certo,  digamos, introdução já no meu trabalho de ligação genética. E que daí ele  mudou de nome, que se chamou butirilcolinesterase. E eu-- Eu quis estudar a  variabilidade da butirilcolinesterase ao nível do DNA. E eu tive na época, o  moço que tinha feito um mestrado comigo, Ricardo Lehtonen de Souza. E eu disse,  Ricardo, nós temos que entrar na faixa do DNA, e ele já estava interessado,  já devia ter lido. E nós vamos fazer um curso no departamento de bioquímica  da nossa universidade. E lá, é, tivemos as aulas, né, sobre o DNA, a  distração de PCR, não lembro tão bem, porque eu não entrei tão a fundo  depois no trabalho laboratorial. O Ricardo, que fez um, fez mais-- E lá nós  fomos orientados das aulas eram dadas pelo professor Pedrosa, que foi muito  importante também nessa parte para o próprio departamento de genética. Porque  o professor Pedrosa, ele-- Ele coordenou um grande estudo de mapeamento de uma  bactéria, e outros professores do nosso departamento fizeram parte. E com isso,  nosso departamento acabou recebendo, é, muitos, muitos equipamentos para poder  trabalhar. Com o DNA, e daí o Ricardo começou e foi a tese de doutorado dele.  Foram descritas mutações novas aí no do Ricardo, né? Estava até esquecendo,  teve mutação novas do Ricardo, a gente estava interessado em ver certa  relação entre a butirilcolinesterase e a altura. Então foi feito esse  trabalho, mas isso também abriu para estudo de variabilidade. Eu não sei  quantas mutações da butirilcolinesterase nós escrevemos. Escrevemos muitas  raras porque os nossos estudos eram populacionais e às vezes as nossas amostras  eram de 3.000 pessoas. Então muitas coisas raras foram descritas também. E  graças ao Ricardo, é, depois eu-- Trabalhou também comigo, a Lupe Furtado. Os  dois são professores do nosso departamento, o departamento que eu criei em 74,  que se chama polimorfismos de ligação, teve até esse nome porque para os  polimorfismos, o que nos dá uma chance de trabalhar com a variabilidade de  trabalhar com a, com a ligação, e como a ligação é que marcou esse início,  ficou esse nome até hoje. Então eu os dois são os que hoje coordenam o  laboratório de polimorfismo e ligação e quem também trabalhou comigo no  início nessa época, e DNA, também foi a Lia Mikami. E a Lia ainda fez um  estágio nos Estados Unidos, em Nebraska, com a doutora Oksana Lockridge, que na  área da butirilcolinesterase ainda é um nome muito importante. E lá a gente  pode estudar melhor aquelas variações do ponto de vista bioquímico. Porque  ali foi um departamento de bioquímica. E esse trabalho da Lia também, que eu  acho que foi no da Lia, que um pesquisador francês também nos auxiliou para  fazer um estudo, também assim de uma área bioquímica, sobre essa qual a  substância, como que a butiril seria com aquela mutação e se aquilo traria  algum prejuízo para a atividade. Então você veja que é, eu falo às vezes  muito para... Antes, não falava mais para os estudantes da importância do  pesquisador se atualizar algumas áreas de pesquisa, não tem essa necessidade,  né, que elas estejam para trás. Mas a-- Ela, as novas técnicas dentro da  genética humana, essas técnicas abriram campos de pesquisa que nunca antes  eram imaginados, e nem tinha como estudar. E isso faz com que o progresso seja  muito grande. Mas há uma necessidade enorme de atualização. Eu sou testemunha  disso porque eu hoje, conforme a pergunta que a pessoa me faça, de algo atual,  eu não sei se o que eu vou responder realmente está atualizado, porque eu já  estou desatualizada. Isso a pessoa tem que estar trabalhando dentro do  laboratório, lendo aquela bibliografia recente, publicando naquela linha. Se  não a gente, é, se desatualiza. Em outras áreas, às vezes você não, não  se desatualiza da mesma maneira. Então, há uma grande vantagem, porque é um  campo que está com sempre, com novas chances, descobertas, caminhos. Mas essa  desvantagem para os de mais idade, porque eles saem do caminho.    PINA: Como foi a experiência de ser orientada pelo professor  Salzano?FREIRE-MAIA: Olha, eu não fui orientada pelo professor Salzano. Agora  eu vou explicar o que que aconteceu. Quando eu voltei da Inglaterra com aquele  trabalho muito grande, e que depois houve a publicação, eu lá fui orientada  pelo John E. Quando eu cheguei aqui, e eu já, junto com o professor, um  trabalho que era do professor Bento Arce-Gomez queria começar, ele me convidou  para estudar a ligação numa doença de pele, e eu também já comecei a entrar  naquilo e estudar, etc e tal. Daí o professor Newton Freire-Maia me chamou e,  de certa maneira, nos-- Assim meio que nos criticam, desculpe, nos criticou.  Até ele falou assim, vocês dois estão começando fazer projeto novo, vocês  têm é que terminar o doutorado de vocês, vocês têm que fazer o doutorado.  Então nos chamou atenção, como eu falei pra você, a gente tava solta assim,  mas fazendo pesquisa, só querendo ser pesquisador, cientista, nada a ver de  tanta burocracia, mas ele tinha razão. Eu provavelmente, eu tinha começado a  escrever a minha tese. Num lembro, exatamente, ele deve ter falado isso-- Eu  cheguei em dezembro de 73, ele deve ter falado isso no começo 74. Era isso  mesmo, porque nós já fomos para Santa Catarina. Nós já fizemos, tinha  médico que estava trabalhando conosco, já fizemos o trabalho que no fim,  depois não rendeu muita coisa, mas eu comecei mesmo a escrever, e apesar que o  Newton não trabalhava nessa parte de ligação, pela experiência tão grande  dele, ele me ajudou bastante, porque ele dizia: &amp;quot ; Eleidi, não estou entendendo  isso, o que que você quer dizer, qual que é isso?&amp;quot ; . E não lembro bem, mas ele  de certa maneira leu toda a minha tese de doutorado e fez considerações. E  tanto eu como Bento Arce-Gomez, nós nos candidatamos como, para fazer o  doutorado em Porto Alegre no curso de pós graduação. E lá era, não sei,  hoje se ainda é o mesmo nome, genética e biologia molecular, porque um grupo  da biologia molecular tinha nessa época ido para Porto Alegre, começaram a  unir os dois grupos, não é? E nós nos candidatamos. Eu não lembro  exatamente, nós fizemos, é, provavelmente lá tinha muito requisito, mas hoje  com certeza não existe mais isso na regulamentação da pós-graduação em  Porto Alegre. Mas é que naquela época era o começo do doutorado, e havia  pessoas que já tinham trabalhado em genética como eu há 10 anos. publicando,  né? Então, em Porto Alegre também devia existir a mesma coisa. Então, não  havia nem sentido da gente entrar em curso de doutorado junto com outros  doutorandos, digamos, que nunca tivessem desenvolvido tanto a pesquisa, né? Mas  eu tive que me submeter a provas. Eu fiz prova de várias disciplinas. Chegava  lá fazia, claro que eram provas de que muitas vezes eu tinha que ler trabalhos  lá. Decidi fazer. Não era nada, em algumas delas era uma coisa que um  pesquisador saberia resolver, né? Em outras não. Já foi mais o que era  dirigido para estudante. E daí eu passei, eu passei aí em 70. Nossa, foi muito  rápido isso tudo. Que eu passei, e daí mandei a minha tese já para me  inscrever. Você vê que foi assim, uma falta de delicadeza com o Salzano--  Talvez eu não devesse nem contar isso. Mas é a verdade. Eu tinha que ter  mandado até doutorado para o Salzano, porque ele era o meu orientador oficial  do curso.    PINA: Entendo.    FREIRE-MAIA: Só que o Salzano ficou chateado comigo, claro. A gente às vezes,  quando é jovem, sabe? Não faz as coisas por mal, é muito impulso. Os homens  é, eu noto em algumas outras coisas, às vezes a gente, isso foi uma bobagem  que eu fiz. Nunca imaginei que o Salzano, é, fosse se incomodar e o Salzano  ainda, eu acho que me chamou a atenção na banca como orientador. E ele falou  uma coisa, eu acho que foi na banca, que se eu tivesse mandado, não é, a tese  para ele dar uma olhada, não teria feito um erro que eu fiz, de chamar a  transferrina de enzima. Ela é uma proteína. Claro que as enzimas são  proteínas, mas a transferrina é uma proteína. As enzimas também fazem outras  coisas que a transferrina, não faz, então é isso, por isso que você me  pescou aqui. Mas eu sempre tive o maior respeito pelo Salzano. Admiração.  Amizade. Até o último ano dele, eu lembro que eu mandei parabéns pelo  aniversário dele e logo depois ele veio a falecer. Eu não sabia da doença do  Salzano. E o Salzano foi muito bom para mim, como ver como uma pesquisadora  independente recente. O Salzano me ofereceu material para eu estudar a  variabilidade da butirilcolinesterase nas amostras dele de comunidades  indígenas e comunidades também ali ribeirinhas, sabe? Eu sou muito grata ao  Salzano. Eu só não continuei depois com pesquisas com Salzano, eu acho que por  porque as que eu estava fazendo com o Salzano não tinha a ver com aquele  assunto. E elas foram feitas, e era um sistema, o meu sistema não era muito,  assim, não trazia tanta informação sobre tanta variabilidade como outros. Mas  sempre tive uma grande amizade pelo Salzano.    PINA: Quais foram as pesquisas que a senhora desenvolveu com o professor Salzano?    FREIRE-MAIA: Eu tenho pesquisas com comunidades indígenas, sabe? [pausa] Eu  agora não vou lembrar os títulos. Mas eu acho que é sobre, com vários grupos  indígenas. E foi com a-- Com a variabilidade da butirilcolinesterase.    PINA: Então a senhora chegou a desenvolver pesquisas com essas amostras que o  professor Salzano ofereceu?    Eu desenvolvi alunos, meus desenvolveram-- Eu depois também trabalhei com um  pouco da amostra de indígenas que colegas meus coletaram aqui no Paraná por--  Para o professor Cavalli, professor Euclides Fontoura Júnior, e depois com a  professora Maria Luiza Petzl-Erler. Ela foi minha orientada de mestrado. O  doutorado que ela fez na Alemanha, ela começa depois uma linha independente  aqui como professora do departamento de genética da UFPR, e ela trabalhou com o  HLA, com vários sistemas ligados à defesa do organismo, né? E ela depois  trabalhou muito com o doutor Salzano, também com as comunidades indígenas.  Trabalhos muito interessantes.    PINA: Em algum momento você teve contato com os sujeitos humanos que deram  origem a essas amostras?    FREIRE-MAIA: Com as comunidades indígenas, não.    PINA: Mas em outra pesquisa, por exemplo, naquela, na-- Na Curitiba 3 você  tinha contato, né, com as pessoas?    FREIRE-MAIA: Curitiba 3-- Eu também fiz um estudo de ligação em que eu  colaborei junto com Newton Freire-Maia, Marta Pinheiro e também um dos meus  colaboradores, é, Sérgio Luiz Primo-Parmo. Nós estudamos a displasia  ectodérmica, crise [inaudível] Renner, e visitamos várias-- Algumas cidades  ali do sul de São Paulo, Norte de Minas. Coletei sangue, fiz, fizemos o  trabalho, tive contato com essas pessoas. Eu tinha contato, tive contato com os  casos também de distrofias muito musculares. Pessoas que trabalharam comigo  tinham também, às vezes, contato com os doadores de sangue. Mais tarde a gente  já conseguia as amostras vindas ali do centro, né, de-- Agora esqueci o nome  do centro aqui de-- Doadores de sangue aqui do Paraná. Porque, bem no começo,  não existia esse centro e era na saúde pública que eram coletados amostras de  sangue. E eu lembro de pessoas que trabalhavam comigo para coletar o sangue lá.  Então a gente tinha até contato com o doador. E claro que trabalhos que foram  feitos com pessoas com doenças também tivemos contato.    PINA: Nesses casos que você teve contato, como que era interação com a pessoa?    FREIRE-MAIA: Ah, sempre muito boa. Em geral, não é? É raro, às vezes,  alguém que-- Houve uns ou outros casos às vezes que as pessoas não estavam  entendendo, não é, da gente estar estudando uma doença e que é mesmo que a  gente não fosse oferecer nenhum medicamento, ou um tratamento para elas, aquele  conhecimento é um conhecimento que podia depois ser usado no futuro. A gente  sempre dava essas explicações. E elas diriam participar ou não, né? E foram  raras as pessoas que se negaram a doar sangue.    PINA: Bom, é, como era a experiência, assim, de dividir a casa com o seu  marido e depois estar no laboratório com ele. Dividir o laboratório também  com ele. Como é que se dava essa relação?    FREIRE-MAIA: Não, eu acho até que eu vou contar do início, né, porque ele  era meu professor. Então, quando eu voltei da Inglaterra, eu lembro que o  Newton chamou o Bento e me chamou, que éramos os mais antigos ali,  praticamente. E daí na nossa conversa, não sei, nós fomos resolver algum  problema e ele disse: &amp;quot ; Vocês dois podem-- Vocês são meus colegas, vocês  podem me chamar de Newton&amp;quot ; . Porque até aquele momento, eu voltando da  Inglaterra, eu sempre o chamei de professor Newton Freire-Maia, então chamava  de professor Newton, não chamava de doutor. Talvez até no sentido, porque ele  era o nosso professor mesmo, não era o problema do título. E sempre foi. E  então ali que começou Newton, ele estava viúvo, não sei se há uns dois  anos. Eu não, não tinha interesse nenhum assim. E também tinha uma certa  dificuldade, né, porque eu sempre o via muito como meu professor. Mas ele  sempre foi um homem de muita segurança, isso em todos os aspectos, eu acho. E  eu sempre tive uma amizade enorme por ele, e então as coisas foram começando,  né? E daí, realmente nos casamos em-- Em março de 74, não, mas 73 é que eu  estava aqui. É eu-- Eu errei um pouco em algo que eu falei antes. Aquele  trabalho com o Bento Arce foi em 74.    PINA: Qual trabalho só para gente deixar registrado.    FREIRE-MAIA: Porque na realidade, em 73 é que eu estava aqui. É, é aí não,  está tudo certo, eu acho. Em 73 eu comecei o trabalho com o... Talvez eu tenha  feito uma confusão em 73. Eu fiz aquele trabalho com o Bento. Newton me chamou  a atenção, nós tínhamos que fazer doutorado.    PINA: Ah, sim.    FREIRE-MAIA: E daí, talvez até tenha sido esse dia que ele mandou a gente  chamar de Newton. Não sei porque de certo, ele quis amaciar um pouco, não sei,  mas aí então em 73 é que eu escrevi, comecei a escrever a tese, a minha de  doutorado e só foi a defesa em 74. É, agora está certo. Mas em 73 que Newton  começou a me convidar para sair como uma amiga, mas a coisa foi engrenando. De  certa forma, eu acho que já foi mais para o segundo semestre de 73 que ele  começou a me convidar, acho que foi. Então, enfim, lá por 74, em março, nos  casamos. Então você me pergunta, né? Quando eu casei com o Newton, já estava  com um trabalho de pesquisa independente, porque eram as-- Eu comecei na linha  que eu tive nos, na Inglaterra, mas fazendo projetos mais modestos só sobre um  par de genes, seguindo sugestões de ligação, e sempre, às vezes, eu ainda  participava de algum trabalho dele como colaboradora. Nós, no começo, eu não  lembro se ainda é, eu acho que quando casamos, ainda estávamos onde eu  comecei, no laboratório de genética, que é no prédio ali próximo da  reitoria, daí nós nos mudamos para um outro prédio. E logo estava sendo  construído o setor de ciências biológicas, daí. Depois desse segundo  prédio, nós fomos para o futuro setor de ciências biológicas. Mas nesse  prédio, que hoje funcionam instalações da educação física, cada um tinha  sua sala, nós sempre tivemos sala separada. E mesmo no antigo, né? Eu também  tinha minha sala antiga e ele a dele. Então, nós sempre-- Quando eu precisava  de alguma coisa, perguntava, discutíamos. Ele sempre me deu tudo o que ele  escreveu para que eu lesse. E eu fazia o mesmo com o que eu tinha. Eu sempre  falo para os estudantes isso, mas nem sempre às vezes isso é bem entendido,  sabe. É muito importante, a gente dar aquilo que a gente escreve, o escritor  deve fazer isso também, né? Na área da literatura. Porque sempre o outro vai  ter alguma consideração, ou ele vai achar que algo não está bem escrito, ou,  claro, ou vai descobrir mesmo alguma palavrinha que está errada, vai ver que  alguma certa tabela podia ser feita do outro jeito. Então é muito importante  alguém na ciência da tua área, é muito importante que quem participa das  bancas seja da tua área, daquela área. De maior até, mas se possível, da  especialidade, quando isso é importante. Isso porque eu acho que isso, isso  melhora a qualidade dos trabalhos. Todos nós temos que ter um pouco de  exigência sobre nós, para nós melhorarmos, isso é do ser humano. Eu tenho  sempre às vezes falado sobre isso e eu sempre fiz muita crítica, sabe? Que nem  eu, eu acho que em noventa e tantos por cento das vezes eu fui entendida. Aí  fiz bem, mas nem sempre, nem sempre. Daí eu vim a descobrir que há pessoas que  realmente não aguentam críticas, então é meio complicado. Quer dizer, que  talvez o orientador deva antes perguntar ou dizer, né? &amp;quot ; Você é uma pessoa que  gosta de ser, é, eu vou corrigir aqui&amp;quot ; . &amp;quot ; Como que você é, até onde você  aguenta a crítica&amp;quot ; . Não sei, tem que ser aberto. Porque há pessoas que têm  muita dificuldade, sabe? É muito estranho isso porque a área científica é  uma área em que você está sempre sujeito a críticas. Depois que você manda  o teu trabalho, ele vai para os assessores, né? De editor, e depois ele, ele é  publicado e aquilo lá está lá para qualquer um criticar. Então, é, ele,  quanto melhor ele estiver feito, vai ser melhor, não é?    PINA: Então, quando a senhora casou com o professor Newton, a senhora já  estava numa linha de pesquisa independente da dele, mas vocês chegaram a  desenvolver algum projeto de pesquisa juntos?    FREIRE-MAIA: Eu colaborei nesse, nesse trabalho dessa síndrome, é, crise  [inaudível], que é o CST. E eu, junto com o Sérgio Primo-Parma, nós  coletamos sangue, coisa que o Newton não iria fazer, nem a Marta. E nós, é,  examinamos esse sangue e fizemos a análise de ligação, um gene do cromossomo  X. Nós podemos, com os dados que nós tínhamos, que não eram muitos, em geral  com doença a quantidade de informação de poucas pessoas e tudo. Mas nós,  pelos nossos cálculos, nós chegamos à conclusão de que aquele gene poderia  estar próximo de alguma coisa lá, agora já não lembro bem, demos uma  localização aproximada, e isso depois com os genoma humano, se confirmou.  Então, esse trabalho nós levamos a nossa área, a nossa linha de ligação  para fazer o trabalho junto. Outras vezes eles estavam fazendo um trabalho,  lembro de algum caso eu disse com as ectodérmicas, havia necessidade de, eu  lembro de um mais ou menos, havia necessidade de uma-- De uma análise  aritmética, eles pediram para eu ajudar, eu fiz, na displasia. Bom, eu  continuei trabalhando com o Newton na redação dos trabalhos que eu te comentei  dos Curitiba 3, porque eu já estava casada quando nós fomos para fazer  análise lá multifatorial, nos computadores, sabe? De Brasília, já estava  casada com o Newton. Quando eu fui para lá, então, os-- Aquele trabalho de  consanguinidade. Nós ainda trabalhamos juntos depois para a redação para  análise. Não que eu tô lembrando mais.    PINA: Em algum momento a senhora percebeu, assim, sentiu que foi mais vista como  a mulher do cientista, esposa do cientista, do que como uma cientista?    FREIRE-MAIA: Olha, eu mesma, assim, no meio de científico dos geneticistas, eu  nunca senti isso da parte deles e delas nunca. Talvez porque eu já tivesse  começado a fazer parte das reuniões. Já em 65, eu fiz parte de reunião  apresentando sobre esse projeto Curitiba 3, eu lembro da Margarete Mattevi  naquela minha primeira reunião, lembro de outros geneticistas de área de  citogenética. Claro que o Salzano estava presente. Os meus colegas, então,  isso pode ter me ajudado, porque nove anos antes de eu casar com Newton, eu já  estava fazendo a minha carreira e eu participava das reuniões da Sociedade  Brasileira de Genética, que no começo eram feitas junto com a sociedade  Brasileira para o Progresso da Ciência. E vários deles, então, reconhecia o  Bernardo Beiguelman, o Saldanha, Henrique Krieger e Israel Rosenberg, mas houve  um momento em que o Israel Rosenberg me falou, eu não sei se foi na banca de  doutorado minha, que ele disse assim, que ele me valorizou diante, provavelmente  das pessoas que lá estavam. Estudantes também, outros professores novos, que  ele fala, eu, eu sempre gostei demais do Israel. E ele falou que eu ali eu era  uma geneticista, um não tinha nada a ver com o fato de eu ser a mulher do  Newton Freire-Maia. Então, é, foi a única vez que eu, eu não sei as palavras  que ele usou, porque ele era uma pessoa boníssima e muito delicado. Foi uma  grande amizade, a minha banca que eu lembro, teve o [Oswaldo] Frota-Pessoa, o  Salzano como orientador oficial, o Henrique Krieger, o Aldo Araújo, né, de  Porto Alegre, e eu acho que o Moacyr Mestriner. Não tenho certeza se o Moacyr  estava no doutorado. Sei que ele esteve na de catedrático, mas era uma banca de  peso, super peso. Foi muito interessante a minha banca.    PINA: Conta mais a experiência da tua banca, então, por favor.    FREIRE-MAIA: Eu lembro, sabe, que o Frota, o Frota deve ter implicado que  algumas vezes eu usava a palavra locus, que se usava já aqui também, e loci.  Os ingleses falavam muito locus e [inaudível]. E o Frota falou assim: &amp;quot ; Para que  usar locus e loci, se nós temos a palavra loco e locos&amp;quot ; . Isso eu não esqueço,  porque eu também depois fui muito defensora do uso do português em lugar do  inglês, eu até já era, mas nisso do locus, talvez, porque locus é uma  palavra latina, né? E na hora que você não está sendo, não é um anglicismo  que você está colocando ali, porque na hora dos anglicismos, nossa, eu sempre  usei as palavras, é, assignment, os ingleses usavam. Até foi o Newton que me  orientou a usar a palavra atribuição, várias palavras, sabe? Que tinha a ver  com a ligação, porque depois eu fiz um outro trabalho de divulgação, então,  foram usados essas palavras em português, então, isso eu lembro do Frota,  lembro isso do Israel, você vê, faz muito tempo, não é? 48 anos. Muita  coisa, né, para lembrar, muita coisa.    PINA: Mas a senhora lembra bastante. Olhando para a sua trajetória como  cientista, qual-- qual pesquisa, qual o projeto de pesquisa, assim, que a  senhora diria que foi a mais relevante, mais marcante na sua carreira?    FREIRE-MAIA: Olha, eu vou, eu vou dar assim dois aspectos. Eu acho que tudo tem  sua importância, eu acho que esses meus trabalhos, por exemplo, de  consanguinidade com Newton Freire-Maia. eles foram muito importantes também  para me soltar assim na genética de populações, porque sempre trabalhei muito  com genética de populações, tanto populações estudando características  normais como patológicas. E eu tive essa chance depois em Brasília, também de  me inteirar muito de análises multifatoriais, né, que entram várias, muitas  variáveis, usando regressão múltipla e outras técnicas, né? Isso, claro que  começou cedo e terminou lá na década de 80, eu então, aí como o trabalho  que foi para a minha formação, eu acho também o trabalho feito na Inglaterra.  Essa pesquisa sobre esses 22 pares de genes, ela também me trouxe uma  capacidade maior para fazer uma, desenvolver pesquisa independente. E também  abriu, assim, a minha mente para os estudos de genética, com o grupo sanguíneo  com proteínas, como enzimas, porque antes, no departamento, ali era tudo muito  em geral, é, estudos de casos patológicos do ponto de vista clínico  descritivo, exame clínico com raras exceções.    Depois, quando eu estava lá, já o professor Francisco Antônio Marsalo, ele  iniciou o laboratório de citogenética, dentro do laboratório de genética, e  aí começou a ver também pesquisas com citogenética. Já tinha havido alguma  coisa também com o grupo sanguíneo com Henrique Krieger, também trabalhou  lá, mas aquilo quando eu entrei já não existia. Então, é, e isso também  abriu esse caminho para eu ter um leque maior de características para estudo, e  ter também o início dessa linha, independente de ligação genética, que não  foi muito longe por causa das dificuldades financeiras, dos auxílios e também  porque começou a haver logo um progresso muito grande nessa área, com novas  técnicas, com técnicas de hibridação somática. Também, se eu fosse até  estudar ainda, tentar fazer ligação somática, provavelmente quando eu fosse  terminar, eles já tinham até resolvido a maior parte. Eles faziam hibridação  de células humanas com células de roedores, e as células, eu acho que  humanas, eram perdidas, se não me engano agora. E eles iam estudando à medida  que eram perdidas, de culpe, eram perdidos os cromossomos humanos, e à medida  que eles vinham sendo perdidos, aquilo ali sendo estudado do ponto de vista da  expressão de proteínas e enzimas, e de, digamos, se sobrasse um cromossomo  humano, eles já sabiam através do que aquelas-- Ela estava produzindo do ponto  de vista humano. Eles já sabiam que os genes responsáveis por aquelas  proteínas, aquelas enzimas, estavam naquele cromossomo que tinha sobrado  daquele híbrido somático. Então eu também, é, eu fui atropelada por essas  novas técnicas, né? Mas é-- É que não era trabalho para ser feito com as  verbas que nós tínhamos. Da forma como eu fiz na Inglaterra, que na Inglaterra  você vê, a gente já recebeu aquele trabalho, aqueles dados que muitos tinham  colaborado. Muitos, então, haveria necessidade de uma extrema colaboração,  tinha que ter muita gente colaborando, e também os trabalhos de ligação são  caros também, né? Você ter tantas famílias para poder examinar. Mas foi a  ligação também, estudar ligação que fez eu tomar um novo caminho junto com  o professor Sérgio Luiz Primo-Parma. E que ele foi meu orientado em mestrado,  foi desenvolvido um trabalho de ligação genética com a enzima  butirilcolinesterase, porque na minha tese do doutorado havia uma sugestão de  ligação. E o que que eu fiz quando cheguei em Curitiba? Antes de falar do Sérgio.    Quando eu cheguei em Curitiba, eu aceitei para publicação desse trabalho feito  na Inglaterra. E eu não tinha laboratório aqui. Eu comecei o poliformismo de  ligação recebendo do professor Eglemir Carvalho em uma geladeira velha, tendo  lá um pouquinho de dinheiro para comprar uns aparelhinhos muito mixuruca para  fazer eletroforese. Sei lá, frascos, essas coisas, mas era, era uma pobreza,  era uma pobreza. Então, lá num canto lá eu comecei o laboratório, de modo  que eu não tinha como ter dados que eu obtivesse. Daí, eu utilizei algo que é  certo, que eu tive é... Era uma época em que muitos pesquisadores publicavam  no final do seu trabalho os dados, aqueles dados estavam livres para serem  usados por outros, então, o pesquisador, às vezes fazia um trabalho sobre uma  doença. Está lá os dados, e assim foi... Eu peguei a literatura da genética  humana, e essa que tinha dado de enzimas assim. E fui atrás de todos esses  trabalhos e fiquei, acho, procurando famílias que pudessem me dar informação  sobre a ligação. O trabalho do autor não tinha nada a ver com ligação, às  vezes, em geral. Então, com isso, eu juntei algumas famílias e fiz análise,  como eu já tinha falado, essa análise é de um-- É método de sequência,  né? É, numérica, então eu pude somar ao que eu já tinha, então, aquela  sugestão de ligação foi aumentada de modo que precisava estudar aquilo. Aí  eu já estava com o laboratório, certo, um pouco mais implementado e, junto com  o Sérgio Luiz Primo-Parmo, que estava fazendo mestrado comigo, foram estudadas  famílias, através de provavelmente de amostra de sangue que nós tínhamos, ou  que o Sérgio coletou, mas que o Sérgio coletou também-- E daí, tivemos um  certo grupo de famílias, que se apresentavam como informativas para dois locus,  e então nós fizemos a análise. Só que com esses novos dados nós excluímos  a ligação. Foi um trabalho publicado, você vê que houve dois anteriores a  ele que mostraram sugestão, mas sugestão baixa. E esse foi feito com dados  nossos, né? Também tem isso, pode ser que às vezes tivesse alguma coisa  batida errada naquelas coisas que eu copiei, né, só me ocorreu isso agora,  né? É, mas de qualquer maneira, então, foi, foi válido, foi publicado e  aquilo acabou.    PINA: A ciência é assim, não? Ela é feita de processos.    FREIRE-MAIA: É, isso é bonito da ciência.    PINA: Também acho.    FREIRE-MAIA: Ela se autocorrige, não é?    PINA: É. Me chamou a atenção da senhora, descrevendo o seu laboratório, não  é, como ele era, pobrezinho, no início, bem básico, e depois a senhora foi  montando e pode até coletar os próprios dados, descreve mais pra gente esse  esse processo de montar o teu laboratório, os teus esforços, da onde veio as verbas?    FREIRE-MAIA: Por favor. Aliás, verbas que eu lembre sempre vieram do CNPq.  Naquela época, né? Depois, mais tarde, até junto com outros pesquisadores,  recebi da FINEP, recebi da Fundação Araucária, mas nessa época não existia  isso. E eu nunca quis receber dinheiro que não fosse público. E então--    PINA: Por quê?    FREIRE-MAIA: Eu acho que na nossa época também nem havia quase isso, a menos  que o dinheiro fosse dinheiro... Porque você não tem tanta liberdade, né? E  você nunca sabe, né? Se uma empresa vai, vai querer te patrocinar em alguma  coisa, se qual a intenção dela, né? Enfim, talvez fosse por isso demais, mas  não, mas é bem, realmente eu também nunca, ninguém... Não vou dizer que  não tivesse havido ali um toque mais tarde, mas uma, dizer que assim, que  tivesse uma coisa bem estabelecida aí, como é, aberta assim. Como uma  doação, não lembro. Mas eu devo muito ao CNPq. E, infelizmente, o CNPq teve  fases muito duras. Governos muito difíceis, que liberaram muito pouca verba  para ciência. E então isso atrapalhou muito. Agora, só para se ter uma ideia:  no começo, a gente fazia o teste, chamado de inibição enzimática. A gente  descobria se aquela pessoa tinha a variante ou não da enzima, por inibição  enzimática, a gente pegava o plasma dela, colocava lá uma série de  substâncias químicas, colocava numa outra as mesmas coisas, sem o soro da  pessoa, sem seu plasma. E daí a gente deixava no banho-maria para que reagisse.  A gente teria que fazer a leitura, claro que visualmente a gente já via que  tinha alguém ali que era variante, porque não, não conseguiu inibir as  substâncias químicas que estavam ali, que davam cor. Quando a pessoa era do  tipo comum, inibe a-- Não dava praticamente cor ou se desse era uma coisa  pequena, mas para gente ter o dado com segurança quantificado, a gente tinha  que ter espectrofotômetro que a gente não tinha.    Então, o que que a gente fazia? Eu acho que até na época foi bem no começo,  eu tinha um FUX [inaudível], vaga do tipo FUX, a gente pegava, punha todos  aqueles tubos de ensaio na prateleirinha de tubo de ensaio, entrava no FUX, não  sei se o Sérgio segurava, se a gente punha no chão, não sei se nós íamos ao  departamento de bioquímica que era no centro. Ali deve dar uns 5, 6 km, mas  não tinha quase também, na época não tinha movimento. Entravam no  departamento de bioquímica, que na época não era departamento, era instituto  de bioquímica e era da nossa universidade e funcionava no prédio antigo, que  é um prédio famoso, um ícone daqui nosso, das colunas gregas. E daí nós  fazíamos a leitura lá ali, que nós tínhamos uns dados. E eu às vezes falo  essas coisas porque hoje em dia tudo é dado na mão, né? E todo mundo já  estava animado com isso. Se eu fosse esperar o espectrofotômetro não teria  feito seu trabalho. E depois nós tivemos necessidade de um espectrofotômetro.  Depois eu tive esse espectrofotômetro para fazer isso, o que eu fazia na  bioquímica, só que mais tarde nós avançamos no nosso espectrofotômetro,  tinha que ter um outro comprimento de onda. E eram com aspecto, por outro, muito  caros. Eu lembro que eu pedi ali no CNPq, o grupo técnico não me deu. Quer  dizer, o grupo de assessores, né? E me deram um dinheirinho que dava para  comprar um outro que eu já tinha, então a gente usava do departamento de  física, que os físicos têm, às vezes, essa necessidade de ter coisas tão  precisas, né? Só mais tarde que eu consegui comprar esse. Então, a minha  carreira, assim ela foi, é, sendo feita com muita falta, muita falta. Eu,  quando era mais jovem, eu isso me tocava muito e me deixava bem triste. Mas, aos  poucos, as coisas vão acontecendo, né? Eu acho que isso também depende para  que aconteça. Claro que depende de Presidência da República, isso não há  dúvida de que põe como ministro da Ciência e Tecnologia, de quem põe como  ministro da CAPES, ministro disso, quer dizer de presidente CNPq, não há  dúvida. Mas também é muito importante o desenvolvimento da ciência, sabe? E  hoje a ciência, eu acho que se desenvolveu muito. Infelizmente, a ciência não  está sendo valorizada como deveria, por quem deveria, por quem está na  cúpula. Isso é uma pena. Não sei quanto vai demorar para que aqueles que  estão sendo prejudicados agora consigam atingir o que eles teriam atingido se  as condições tivessem sido as adequadas. Mas depois de um certo tempo para mim  também as coisas ficaram mais fáceis, sabe? Eu nunca teria trabalhado com DNA  se as condições fossem iguais às anteriores, não ia ter dinheiro. Depois  todos esses-- Esses insumos, né, esses esses produtos químicos que a gente  comprava, é tudo importado. E tudo acrescido também de problemas de certo do  câmbio. E tudo tem validade, você tem que fazer uma estratégia econômica  para não perder o que você tem, há coisas que nós fizemos, por exemplo,  quando eu comecei, até a Maria Luiza, a minha orientada-- Foi minha segunda  orientada, ou primeira. Maria Luiza acho que foi a minha primeira orientada.  Primeira foi a-- Desculpa, Maria-- Maria Angelina Canever de Lourenço, depois  de Maria Angelina, depois do Sérgio Luiz Primo-Parmo. A gente tinha dinheiro  para poder comprar o-- Como é, até agora esqueci o nome da palavra, é, para  fazer o gel. Que era a marca, era [inaudível] e era produzida, se não me  engano, pela Escócia. Nós não tínhamos para fazer o gel, para colocar no gel  as amostras de soro para fazer a corrida eletroforética. Não tínhamos, era  muito caro. Então, Maria Luiza e Sérgio fizeram testes com vários amidos,  amido hidrolisado, fizeram um teste com vários tipos de amido aqui nossos, e  chegamos a conclusão que a maizena era muito boa para nós, era suficiente.  Então você veja o tempo que a gente gastou para poder usar, para fazer as  eletroforeses. Eu sei que outros departamentos mais ricos tinham o [inaudível]  como não tínhamos, nunca tivemos. Depois ficou na base mesmo da maizena e tudo  bem. E depois a gente também trabalhou com outros tipos de eletroforese, né,  com Polietilenaminas. Daí a nossa maizena foi esquecida. Então você viu, eu  contei duas coisas aí, da maizena, contei usando o espectrofotômetro do  instituto de bioquímica, e quando comecei aquela pesquisa com Bento Arce-Gomez,  sobre aquele problema de pele lá de Santa Catarina, foi a primeira vez que eu  fiz coleta de sangue. E eu não tinha experiência mesmo, e quis me cuidar  tanto, que o cuidado excessivo, que até as hemácias foram arrebentadas, mas  deu para usar, por exemplo, plasma até um pouco daquilo, mas onde que eu ia por  aquelas, aqueles tubos todos. Não tinha, não tinha congelador aqui no nosso  laboratório. Então, me cederam freezer do Hospital de Clínicas, do banco de  sangue do Hospital de Clínicas. Houve essa boa vontade. Ficou muito tempo lá,  até que eu tivesse dinheiro para comprar freezer. Três coisas aí. Então a  pessoa tem que ter muita força de vontade. E eu agradeço ter tido, sabe? Foi  bom. E também a ajuda das outras pessoas. E ajuda dos meus orientandos foram excepcionais.    PINA: Eu tenho uma última pergunta, é, só que antes de fazê-la, a gente já  vai para 2 horas e meia de entrevista, uma entrevista muito rica. Eu gostaria de  saber se a senhora tem disponibilidade para uma próxima conversa, se for o  caso, para mais uma conversa outro dia.    FREIRE-MAIA: Pode ser sim.    PINA: Ah, tá bom! Vou fazer a última pergunta, então, é, eu queria saber  como é que é para a senhora conciliar, é, teu caminho de cientista e a tua fé.    FREIRE-MAIA: Ah, interessante isso! Pois é. Eu acho que é um pouco misterioso.  Mas, a fé é algo que é fácil de conciliar com a minha parte científica,  porque a fé é algo interior. Não depende de religião. Religião é uma  coisa, fé é outra. Você até pode participar de uma, ser um cientista e  participar de uma religião. Mas, se você for acreditar em muitos dogmas, você  vai contra a ciência. E eu, nesses aspectos, fato, quem responde o fato é a  ciência Então eu sei de cientista que é de religião fundamentalista, que é  da linha biológica, e não acredita em evolução. Então aí é uma coisa  muito estranha. Então, isso daí não é possível no meu caso. Mas, eu acho  que, claro que isso é uma maneira de pensar. Eu acho que eu já nasci com uma  certa tendência para esse lado, mais da espiritualidade. E mesmo que eu tenha  passado um tempo grande, agnóstica eu, hoje eu vejo que isso foi uma  característica minha de criança, e eu também nasci com uma tendência  científica, uma tendência que podia não ter desenvolvido. Isso de criança,  eu me lembro de mim, com insetos, fazendo o perfume com flores, isso pequena.  Então no grupo, eu, não tinha nada a ver com a professora, isso é no que ele  chamava grupo escolar, ensino ali antes da quarta, do quarto ano, né? Então,  antes dos 10 anos, com 9-8 anos, então, isso, essa minha ligação com a  natureza, ela foi muito grande. Agora, como que eu posso te explicar melhor?  Eu... Aí, quando, há uns 20 e tantos anos, não, mais, 30 anos, mais ou menos,  eu voltei para a religião católica. Porque foi ali que eu fui numa, no momento  de uma neta, minha neta, está sendo crismada que isso aconteceu dentro de mim,  e eu tive uma luta muito grande dentro de mim naquele momento. E eu percebi que  eu podia voltar para a igreja católica. Claro que eu, quando eu voltei eu tive  vários caminhos, assim, várias pessoas, vários grupos diferentes em que eu  participei, que me ajudou muito. Talvez se alguém fosse me fazer um  questionamento, assim, é, sobre a religião católica, a pessoa no final  poderia dizer, você não é católica. Isso também não tem a menor  importância para mim, sabe? Então eu, eu não tenho, eu não tenho que me  prender com dogmas. Eu não preciso deixar de achar que a teoria da evolução  é o que explica essa diversidade, evolução biológica, não tenho. Não tem  importância, apesar que mesmo dentro dos, dos religiosos, hoje, são raros os  que não acreditam na teoria da evolução. Agora, o problema do criacionismo é  que o criacionismo, da forma como ele é posto, ele coloca como se o mundo fosse  criado da forma como está escrito na bíblia. Aquilo é uma, se você que é  historiadora, aquilo é uma história, uma narrativa, é algo que vai tocar o  coração, que vai desenvolver a espiritualidade, né? Então, eu, eu consigo,  porque realmente, mesmo que eu vá, gosto às vezes de assistir uma missa, estar  ali, mesmo que eu comungue, eu tenho muita liberdade. E de forma nenhuma isso  poderá negar alguma coisa da ciência, de forma nenhuma. Agora, o  desenvolvimento de uma espiritualidade, algo interior, de você acreditar que  há algo mais, e não querer explicar, também, aceitar o desconhecido, isso é  algo, que no meu caso, me fortalece. Não, não tem grandes coisas assim, não  quero explicar nada. Não quero explicar como vai ser depois da morte, se existe  ou não existe, não, não tem que explicar nada, porque realmente não há o  que explicar na minha opinião. Não há o que explicar. Eu acredito que haja,  que haja algo além do que nós vemos, tocamos, podemos entender pela ciência.  Faz parte da minha forma de ser. Mas eu tive que ter uma luta pra entender essa  minha parte. Eu estava confundindo as duas coisas, quer dizer, tentando  misturá-las, não, não tem que misturar nada. Não sei se ficou claro.    PINA: Sim, sim, muito. É, eu estou aqui para ouvi-la, ouvir as tuas  convicções, assim, é muito, muito interessante isso. Bom, professora, eu vou  levar a nossa entrevista ao nosso grupo de pesquisa. É, a senhora tem, antes de  eu falar as considerações finais, a senhora tem alguma coisa que gostaria de  acrescentar sobre qualquer assunto?    FREIRE-MAIA: Não, acho que está bom. Depois você talvez faça alguma outra  pergunta, alguma coisa que não ficou clara, né?    PINA: Sim, sim, é porque também a sua trajetória é muito grande, né, muito  rica, tem muita coisa que a gente pode conversar e explorar.    FREIRE-MAIA: Uma coisa que eu não falei e que no momento eu ia falar, mas  depois eu mesma mudei o curso ali. É, mas eu não, hoje, agora eu já estou um  pouco cansada, talvez eu quisesse falar um pouco que depois do falecimento do  Newton, eu tentei, é, trabalhar para que não morresse a linha de displasias  ectodérmicas no departamento de genética. Então, isso eu posso falar um pouquinho.    PINA: Sim, com certeza, vai ser um prazer e vai ser muito rico para a pesquisa  te ouvir falar disso sim. Então eu entro em contato com a senhora para a gente  marcar uma próxima entrevista. É, uma segunda parte, né, na verdade, outro  dia. Te agradeço enormemente em nome de toda equipe do projeto, da professora  Rosanna Dent, do Instituto de Nova Jersey, da professora Ana Carolina Vimieiro  Gomes, que é minha orientadora na UFMG, e também agradeço toda a sua  contribuição à ciência nacional. Muito obrigado.    FREIRE-MAIA: É, eu que agradeço. Fico muito honrada assim de você ter me  convidado. Foi uma surpresa, mas eu fico feliz de ver que vocês querem saber  dados da história da ciência, por que isso é importante, é importante para  os mais novos saber como que as coisas eram. E o desenvolvimento foi grande. O  desenvolvimento, por exemplo, dos cursos de pós-graduação, a formação de  pós-graduandos em termos de recursos humanos foi extraordinária. Foi um grande  trabalho feito pelos professores das universidades, principalmente públicas.  Então isso é algo que tem que ser, é, mostrado, para ver o valor que isso  tem, que não pode se deteriorar.PINA: Sim, no nosso próximo encontro, eu  gostaria de conversar mais também sobre a SBPC, os encontros da Sociedade de  Genética... A senhora comentou comigo que conheceu a Olga, né? E o meu, a  minha dissertação de mestrado, ela foi muito baseada em cima da SBPC, da  revista Ciência e Cultura. Não lembro se eu comentei com a senhora, então eu  tenho proximidade com esse assunto e seria bem interessante para mim ouvir sobre  isso também. Mas aí na próxima a gente conversa.FREIRE-MAIA: É, deixa eu  até te dizer uma coisa que eu possa esquecer da outra vez, não sei se você  sabe que toda a correspondência que o meu marido recebeu tá, está na Unicamp.    PINA: Sim    FREIRE-MAIA: E ali deve ter cartas que a Olga e o Baeta escreveram para o  Newton. E eu sei que o Newton os visitou quando estava na OMS, e ele como  diretor lá, ele foi ver projetos. E ele esteve, eu não sei se ali no momento  era Moscou. Eu acho que ele foi, então, eles tiveram sempre-- Eu vou procurar  para você uma foto em que eu apareço com a Olga.PINA: Ai, que legal  [risos].FREIRE-MAIA: Eu acho que é a Olga. Eu não sei se Eline está junto,  mas eu tenho certeza que o Beraldo está. O Beraldo também foi alguém tão especial.    PINA: Sim    FREIRE-MAIA: Né, da parte da bradicinina. E está o Baeta que eu lembro. E foi  uma reunião da SBPC, que eu acho que foi uma daquelas complicadas do ponto de  vista político, por causa da faixa que está atrás, ela é uma--    PINA: Aquela icónica, né?    FREIRE-MAIA: É icônica, é isso mesmo, tá bom, querida?    PINA: Outras fotos também que a senhora tiver de departamento de laboratório,  qualquer foto, assim, qualquer documentação que a senhora tiver nesse sentido,  seria muito bom também.    FREIRE-MAIA: [risos] Eu acho que eu tenho uma aqui. Deixa eu ver [Eleidi se  levanta e procura as fotos] é, mas eu vou procurar para você. Olha, olha a  diferença minha aqui, não sei... Aqui eu acho que eu era, não sei se eu já  era professora do departamento. Olha ai. [Risos]    PINA: [risos] Que foto legal! Que foto bacana!    FREIRE-MAIA: Agora que eu vi que aqui atrás tá do meu também, do meu alunos.    PINA: Ah, que legal.    FREIRE-MAIA: Está o Ricardo, que eu falei, enfim, eu vou mandar algumas coisas.    PINA: Mande sim.    FREIRE-MAIA: Eu, eu tiro, eu tiro-- Não sei como é que eu faço, talvez eu  tire foto e mande para você, né?    PINA: Tem um, depois eu te mando no WhatsApp. Tem um programa que é para  digitalizar documentos pelo celular, e aí ele fica bem bom. Mas eu lhe mando no  WhatsApp. Tá bom?    FREIRE-MAIA: Tá. Outra coisa que eu quero te dizer, é, às vezes-- É um. É,  eu sei que às vezes eu posso não estar lembrando muito ou não um nome, uma  coisa, se você realmente fizer, às vezes eu dei só o primeiro nome, não dei  todo, coisas desse tipo. Você pode às vezes me fazer a pergunta pelo, também  WhatsApp, e eu respondo, que daí eu consulto. Às vezes tem pessoas ali, talvez  eu não tenha dado o nome certo, sabe? Dei o nome, por exemplo, Renwick, que eu  não lembro o primeiro nome dele, coisas assim.    PINA: Vai ser muito bom. Nós vamos transcrever essa entrevista e nós vamos  fazer um índice onomástico, né, uma lista de todos os nomes próprios que a  senhora citou durante a entrevista, e essa transcrição, ela volta para a senhora.    FREIRE-MAIA: Tá ótimo, daí eu completo.    PINA: Boa, obrigada, viu, professora? Até uma próxima.    FREIRE-MAIA: Obrigada. Tudo de bom.    PINA: Para a senhora também. Tchau.FREIRE-MAIA: Tchau.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e à entrevistadora. audio O uso e divulgação desta entrevista estão restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=freire-maia-20220121.xml freire-maia-20220121.xml      </text>
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                <text>Profa. Eleidi Alice Chautard Freire-Maia, entrevista, 21 de janeiro de 2022</text>
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                <text>Eleidi Alice Chautard-Freire-Maia foi pesquisadora na área de genética humana e médica e professora titular da Universidade Federal do Paraná entre 1989 e 2013. Atuou no Laboratório de Genética Humana da mesma Universidade nos anos 60, que deu origem ao Departamento de Genética. Esteve casada com o também pesquisador e geneticista brasileiro Newton Freire-Maia. Nesta entrevista, remonta sua trajetória acadêmica como estudante e pesquisadora, desde os trabalhos orientados pelo professor Newton Freire-Maia, passando pela sua atuação como professora auxiliar da UFPR, seu trabalho como bolsista na Universidade de Birmingham, orientada pelo professor Dr. John H. Edwards, até seu doutorado em Genética e Biologia Molecular na Universidade do Rio Grande do Sul. Entre seus temas de pesquisa, destrinchados durante a entrevista, estão os casamentos consangüíneos, as malformações congênitas, a ligação genética, a displasia ectodérmica e os polimorfismos ligados à enzima butirilcolinesterase. Eleidi relembra as reuniões e congressos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Genética, sua relação com o geneticista brasileiro Francisco Salzano e o trabalho de diversos companheiros que cruzaram por sua trajetória. Comenta sobre as técnicas de trabalho em laboratório, como a PCR, especialmente sobre as especificidades e dificuldades do fazer científico no Brasil, por exemplo a utilização de maizena para a realização das eletroforeses. Ainda, reflete sobre questões ligadas às mulheres cientistas e à relação entre ciência, fé e religião. &#13;
Esta entrevista é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da Universidade Federal do Paraná, a pesquisa em genética humana e médica no Brasil entre os anos 60 e 90, as técnicas de trabalho em laboratório, e a rede intelectual em torno das Universidade do Paraná, Rio Grande do Sul e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência.</text>
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              <text>    5.4      Profa. Mara Hutz, entrevista, 07 de julho de 2014       História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     anemia falciforme  ditadura militar  genética de populações indígenas  Xavante  Suruí Mara Hutz Rosanna Dent .mp4 hutz-20140707.mp4 2:|20(7)|42(2)|68(9)|89(9)|118(8)|131(12)|151(6)|171(5)|197(5)|220(8)|241(2)|268(5)|290(9)|322(2)|349(2)|370(14)|397(2)|417(12)|458(6)|477(4)|498(12)|522(6)|541(14)|566(5)|590(3)|613(2)|632(8)|671(1)|698(7)|719(8)|750(2)|780(13)|803(10)|824(11)|848(6)|872(11)|897(6)|919(11)|940(9)|964(7)|984(2)|1006(6)|1029(3)|1048(6)|1062(11)|1077(13)|1107(9)     0   https://youtu.be/fL-ZQljuOAU  YouTube         audio    pt-br     2 Hutz conta sobre seu interesse pela ciência e como dirigiu sua carreira para a genética           economia moral ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa ; vocação   Economia Moral ; Formação Acadêmica                       236 Hutz conta sobre o início de seu trabalho científico desde a graduação e como se aproximou do Departamento de Genética           classificação diversidade biológica ; Diversidade Biológica ; doenças genéticas ; economia moral ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; Genética Médica ; indígena ; iniciação à pesquisa ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; técnicas de pesquisa ; valores ; vocação   Diversidade Biológica ; economia moral ; Formação Acadêmica ; Genética Médica ; prática ; Raça, Etnia e Identidades                       795 Hutz conta da sua prática de pesquisa em anemia falciforme durante o doutoramento   Prática ;  Trabalho de campo ;  Genética Médica ;  doenças genéticas ;  coleta de amostras ;  coleta de dados ;  processamento de dados ;  doutorado ;  Formação Acadêmica             Formação Acadêmica ; Genética Médica ; Prática ; Trabalho de campo                           1401 Hutz fala de seu retorno à Porto Alegre como professora e do ambiente acadêmico durante a ditadura militar.           Afeto ; ambiente político ; amizade ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; fator externo à pesquisa ; relação afetiva com colaborador   Afeto ; Contexto Político-Economico                       1848 Hutz comenta sobre sua relação com Salzano e da influência dele no campo da genética           Afeto ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador   Afeto ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       2010 Hutz conta sobre a sua experiência de pesquisa nos EUA           Afeto ; desconforto ; doutorado ; entusiasmo ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; rotina de trabalho ; viagem   Afeto ; Formação Acadêmica ; prática ; Redes científicas e circulação                       2406 Hutz conta sobre a sua atuação como pesquisadora depois do doutorado envolvendo pesquisas com DNA           ancestralidade ; Avanço técnico transformador ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; indígena ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; pós-doutorado ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; viagem   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2990 Hutz conta sobre as suas pesquisas sobre populações ameríndias           coleta de amostras ; Diversidade Biológica ; Genética Médica ; indígena ; Interdisciplinaridade ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; rotina de trabalho ; saúde pública ; técnicas de pesquisa ; técnicas de variabilidade genética   Diversidade Biológica ; Genética Médica ; Interdisciplinaridade ; prática ; Raça, Etnia e Identidades                       3319 Hutz comenta sobre coleta de amostras biológicas e aspectos éticos relacionados à pesquisa com populações humanas           coleta de amostras ; Ética ; ética formal ; ética informal ; fator externo à pesquisa ; indígena ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; saúde pública ; troca de amostras   Contexto Político-Economico ; Ética ; Interdisciplinaridade ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       3659 Hutz comenta sobre os temas e achados mais importantes de suas pesquisas e das de Salzano com indígenas           Afeto ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; Diversidade Genética ; doenças infecciosas ; evolução humana ; Genética Médica ; grupo continental ; indígena ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; publicações ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; valores   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia moral ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       4096 Hutz comenta sobre seu trabalho de orientação           Afeto ; economia moral ; entusiasmo ; paixão ao trabalho ; vocação   Afeto ; economia moral ; Prática                       4293 Hutz manifesta desconforto e frustração com as limitações das regulações para as pesquisas com indígenas e comenta sobre as pesquisas com DNA antigo           Afeto ; Avanço técnico transformador ; desconforto ; doenças infecciosas ; Ética ; ética formal ; frustração ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria   Afeto ; Ética ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência                       4598 Hutz sintetiza as suas contribuições científicas na genética             concepção de ciência ; Contribuições importantes à ciência ; economia moral   economia moral ; Mudanças importantes na ciência                       4721 Hutz relata parceria com pesquisadores da Fiocruz em evento acontecido na UFRGS com a participação das populações indígenas sujeitos da pesquisa.           concepção de ciência ; Ética ; ética formal ; etnia ; explicação e entendimento ; indígena ; saúde pública ; sujeito ; Sujeito Humano   Economia moral ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Sujeito Humano                       oral history Mara Helena Hutz é professora no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na entrevista a narradora conta a origem começou sua graduação em Biologia, onde fez iniciação científica e seu mestrado e doutorado foi com o Professor Salzano, na UFRGS. No mestrado sua pesquisa foi sobre a glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e em seu doutorado, com orientação do Professor Salzano na UFRGS, estudou anemia falciforme. Hutz viveu a experiência de lecionar na UFRJ, além de ter a possibilidade de desenvolver a análise de dados de seu doutorado na Universidade de Michigan, em Ann Arbor. A narradora faz um pós-doc em Johns Hopkins, para aprender sobre a tecnologia do DNA e no retorno ao Brasil, procura possibilitar o estudo sobre DNA na UFRGS e para isso torna-se chefe de departamento, conseguindo verbas para a estrutura física e de equipamentos para o departamento. Esse processo a fez ficar seis a sete anos fora do laboratório, quando retorna em 1993/1994 para a pesquisa. Hoje, tem projetos sobre déficit de atenção/hiperatividade e doença de Parkinson, além de continuar os estudos em genética das populações com indígenas. Relata que uma alteração importante de sua carreira acadêmica foi a mudança de objeto de pesquisa de anemia falciforme para metabolismo de lipídeos, pois a possibilitou um outro olhar sobre a genética. A narradora cita sua relação com a ditadura militar ao relatar perseguições a conhecidos, além disso, apresenta seu ponto de vista sobre a relação dos procedimentos éticos na pesquisa com indígenas. Depois de terminar a entrevista, a entrevistadora e Hutz  ligaram a gravadora novamente. Hutz narra um episódio sobre a ida dos chefes Xavante e Suruí à UFRGS como momento de troca de conhecimentos.   Essa pesquisa é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da UFRGS, sobre anemia falciforme e genética de populações relacionada aos indígenas.    DENT: Então hoje é o dia 7 de julho de 2014 e eu sou Rosanna Dent, doutoranda  na História e Sociologia das Ciências, e tenho o grande prazer de falar hoje  com a professora e doutora Mara Hutz que é professora titular na Universidade  Federal do Rio Grande do Sul, no departamento da Genética. Então, muito  obrigada, professora, por seu tempo. Eu queria perguntar, assim, iniciar só  pedindo para a senhora nos fazer um apanhado das influências que levaram você  a trabalhar na área da genética. Como chegou a se interessar?     HUTZ: Foi uma trajetória longa, e que tem, de uma certa forma, uma origem  familiar. O meu pai era médico e tinha um laboratório de análises clínicas.  E eu, desde criança, ia muito frequentemente com meu pai para este  laboratório. E acompanhava os estudos: ele me mostrava as células no  microscópio, ele me mostrava os animais - camundongos ou sapos que ele usava  para fazer os ensaios clínicos - e aquilo tudo me fascinava. Quando meu pai  deixou este laboratório, e se tornou professor da faculdade de medicina aqui da  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, eu vi que era a trajetória natural,  que a pesquisa se faz dentro da universidade.    Quando eu estava neste ponto, no estudo secundário, que seria equivalente ao  high school, eu me interessei muito pela área biológica e o meu dilema era  seguir meu pai na Medicina ou fazer Biologia. E, com muitas discussões e busca  de meus interesses, eu descobri que eu não tinha interesse em doentes. Eu tinha  interesse em doenças, eu tinha interesse na biologia humana. E com isso eu fiz  a opção pelo curso de Biologia e não pelo curso de Medicina.    E a Genética surgiu como uma opção dentro da Biologia, durante a minha  graduação, porque eu achei extremamente interessante e fascinante como o  departamento de Genética, que é este que eu pertenço hoje, se organizava. Que  naquela época, início dos anos &amp;#039 ; 70, era uma exceção na nossa universidade. E  comecei a me aproximar dos professores do departamento de Genética, com o  interesse em genética humana, porque eu sempre tive esse interesse por  doenças, pela biologia humana.    E cheguei naturalmente no professor Salzano e comecei a trabalhar, inicialmente,  com uma orientanda dele, a Inês Vieira de Castro, (que não está mais aqui e  que me ensinou muita coisa que eu sei hoje de laboratório). E quando eu  terminei minha graduação foi um passo natural fazer o mestrado e depois o  doutorado, com o professor Salzano. Foi mais ou menos essa a trajetória em que  eu cheguei. E ter o doutorado feito foi, vamos dizer assim, a carreira  acadêmica aconteceu.    DENT: E, a senhora mencionou que o departamento da Genética tinha uma  organização diferente. Qual era a diferença, o que fazia este departamento  excepcional naquela época?     HUTZ: Assim, primeiro que ele imitava (no bom sentido) a organização dos  departamentos americanos, em que os professores são dedicados tanto ao ensino  quanto à pesquisa. Passavam o dia no ambiente de trabalho, os seminários, as  discussões, tudo isso mostrava que era um ambiente extremamente produtivo e que  as pessoas, com isso, se tornavam extremamente próximas. Entre alunos,  professores... Naquela época era muito menor do que hoje e era um ambiente  muito amigável. E ao mesmo tempo com um drive para pesquisa muito forte.     DENT: E teve as primeiras experiências de fazer pesquisa independente durante a graduação?    HUTZ: Independente, não. Sempre com um orientador.    DENT: Claro, mas assim, fora do laboratório do pai.    HUTZ: Não, o laboratório do pai não foi na graduação. Foi antes.    DENT: Exatamente. Chegou na graduação e aí...     HUTZ: Quando eu cheguei na graduação não existia mais o laboratório do pai,  o laboratório do pai é uma coisa de infância. Quando eu cheguei na  graduação, meu pai não tinha mais esse laboratório, ele já era professor da  universidade. E durante a graduação eu fiz pesquisa. Antes de entrar para o  departamento de Genética eu tive uma pequena experiência na Biofísica, que  ficava fisicamente no mesmo local que o departamento de Genética. E foi assim  que eu conheci o departamento de Genética. Eram dois professores: o professor  Tondo e o professor Evaldo, que eram biofísicos mas trabalhavam associados ao  departamento de Genética. Essa foi minha primeira experiência de pesquisa  depois que eu entrei para o curso de Biologia.     DENT: E qual era a pesquisa, e qual era a perspectiva que você teve naquela  época para pesquisa? Que era a primeira vez que fazia. Como era a experiência?     HUTZ: Eu já tinha esse interesse em biologia humana e a pesquisa que eles me  ofereceram... Eu tinha muito interesse em moléculas, eu não queria nada macro.  E o professor Evaldo - que estava dando a disciplina de Biofísica, era um  professor dos undergraduates de Biologia - começou a me falar das pesquisas que  ele fazia com o professor Tondo no laboratório, que era com a molécula de  mioglobina. E eu me interessei porque era a primeira oportunidade que surgiu.    Eu estava ávida por ter alguma oportunidade, para entrar no laboratório. E a  primeira tarefa que eu tive foi de então isolar mioglobina de coração de boi.  E acho que eu fiquei um ano e meio com essa tarefa, nesse laboratório, ao mesmo  tempo em que eu convivia com as pessoas da Genética, que era geograficamente  próximo (era no mesmo andar, era tudo junto). Eu comecei a achar as coisas da  Genética mais interessantes, a ciência da genética mais interessante do que  aqueles experimentos da Biofísica.    DENT: E como chegou a passar a Genética? Terminou a graduação fazendo alguma pesquisa?     HUTZ: Sim, já ainda na graduação eu troquei para Genética e fiquei  trabalhando com a Inês, sob a sugestão do professor Salzano. [Tosse] Desculpe.     DENT: Quer pausar para tomar um pouco de água?     HUTZ: Não, não. É que eu estou com um pouco de tosse, mas isso não... Eu  fiquei. E aí eu comecei a aprender técnicas de laboratório que são usadas na  Genética, como é a eletroforese. Principalmente, naquela época, uma  eletroforese de proteínas.     DENT: E ficou convencida que queria ser geneticista?     HUTZ: Sim, ali nessa pequena experiência com a Inês, que também foi uma coisa  de um ano, era o meu último ano na graduação. Eu defini que, assim, eu queria  trabalhar em um nível bioquímico, mas usando a ciência da genética.     DENT: E por que genética? O que era, o que mais gostou da disciplina da ciência?     HUTZ: Saber a causa das coisas, por que os fenômenos são como são, por que  que as moléculas são como são.    DENT: Poderia comentar um pouco sobre o processo de fazer o mestrado e o  doutorado? Qual foi a experiência de ser orientada do professor Salzano? Qual  era o projeto de pesquisa, como era esse período?     HUTZ: A minha primeira experiência com o professor Salzano, propriamente, foi  com o mestrado. Em que o projeto de pesquisa que ele me designou (não foi uma  escolha minha, foi dele)...    [Tosse e interrupção]     ...essa tese que ele me deu para fazer, isto foi em 1974, era fazer, digamos  assim, identificar os tipos de uma enzima chamada &amp;quot ; Glicose 6-Fosfato  Desidrogenase&amp;quot ; . E naquela época o professor Salzano era muito interessado em  seleção natural. Então o projeto consistia-se de estudar uma amostra de  crianças recém-nascidas, com sangue de cordão umbilical, e suas mães, e  comparar as frequências destes tipos de G6PD com uma outra amostra de crianças  em idade escolar (6 ou 7 anos) e suas mães, para ver se haveria mudança nas  frequências gênicas.    Ao longo desse mestrado eu adorei o projeto, essa enzima causa anemia  hemolítica quando deficiente, então entrava muito nos meus interesses por  doenças. E também tinha evolução, que é uma coisa muito interessante, que  era ver se existia, se a gente conseguia identificar algum fator seletivo. E no  meio do mestrado o professor Salzano incorporou o estudo dos tipos do G6PD em  populações indígenas, que ele acabara de coletar. Então também entrou na  tese, foi o meu primeiro contato com a genética de índios, fazer a G6PD nestas  tribos que eu tinha acabado de coletar. Então foi uma experiência muito  fantástica. Eu disse: realmente é isso que eu quero fazer da vida.    Mas naquela época, no Brasil, o doutorado não era uma coisa tão direta e tão  imediata ao mestrado. E principalmente o programa aqui da universidade, ele  exigia que a pessoa, para entrar no doutorado, o programa da genética exigia,  tinha que ter experiência profissional prévia. As universidades contratavam  professores como mestres. Então a primeira coisa que eu precisava, quando eu  terminei esse mestrado, era arranjar um emprego. E eu acabei indo para o Rio de  Janeiro, fui professora por quatro anos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.    Aí a tendência era que eu escolhesse algum tema de pesquisa para o meu  doutorado que eu pudesse fazer no Rio de Janeiro, já que eu estava vinculada  àquela universidade. E o professor Salzano, mais uma vez, me ajudou muito e se  dispôs a me orientar pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. E eu  trabalhei com anemia falciforme. A ideia, de novo, era tentar o coeficiente de  seleção da anemia falciforme no Brasil - o que eu terminei não fazendo, mas  eu caracterizei anemia falciforme, a história natural da doença no Brasil, me  dirigindo mais para os meus interesses pessoais.    Durante esse doutorado no Rio eu conheci uma pessoa da Universidade de Michigan,  que era professor visitante lá. E terminei indo passar três meses em Ann  Arbor, que foi onde eu conheci o departamento onde o professor Salzano  trabalhou. O professor Neel já não estava mais no departamento, mas outros  colegas estavam e eu consegui ter uma visão muito interessante de quem era o  professor Salzano dentro de outro contexto. Foram os três meses mais lindos da  minha vida, eu acho, naquele momento.     E eu voltei. Eu consegui trabalhar muito lá, principalmente com esta pessoa que  me convidou, o Julian Adams, e um outro professor que conhecia bastante o  professor Salzano -- e que me ajudou com muitas análises estatísticas, o  professor [inaudível]. E quando eu voltei, aconteceram uma série de fatos e  surgiu uma oportunidade de eu voltar para ser professora. Sair do Rio de Janeiro  e vim ser professora aqui.     E eu fiquei um pouco na dúvida, eu já estava há quatro anos morando no Rio,  se eu queria voltar para Porto Alegre, se eu queria continuar morando perto da  praia. E aí escrevi para o Julian Adams, que ficou muito meu amigo, o que que  ele achava, qual era a opinião dele, se eu ficava, se eu voltava.     Eu mesma tinha medo de voltar para cá e ficar muito dependente do professor  Salzano. Ele era a grande pessoa aqui, se eu não ficaria sempre na sombra. E  troquei várias correspondências, naquela época não tinha e-mail, era  correspondência de carta mesmo. Mas assim, terminei concluindo que eu devia  voltar. Quando eu volto eu ainda não tenho este doutorado pronto.     Eu termino esse doutorado um ano depois da minha volta a Porto Alegre. Mas aí  eu consegui uma transferência do programa do Rio para o programa daqui, uma vez  que o orientador era o mesmo, era o professor Salzano.     DENT: Claro, porque eu tinha visto que a senhora fez o doutorado aqui mesmo.    HUTZ: Sim, o diploma é daqui, mas toda tese... eu só escrevi aqui. Toda tese,  todos os dados, toda a tese foi feita no Rio.    DENT: Como chegou a escolher o tema de anemia falciforme?    HUTZ: Mais uma vez, influência do professor Salzano. Ele tinha esse projeto em  mente, conhecia as pessoas no Rio que teriam os dados e me mandou, me deu uma  carta de apresentação, para mim procurar estas pessoas em um instituto de  hematologia, que é um hospital especializado.    DENT: Era vinculado com o Pedro Junqueira?    HUTZ: Não, era separado. O Pedro Junqueira, eu conhecia. Era da federal do Rio,  e este instituto era do estado. Hildebrando Marinho era o nome do diretor que me  recebeu e que abriu tudo para que eu pudesse fazer a tese lá.     DENT: Poderia comentar um pouco sobre como era a experiência de fazer campo.  Como era o acesso para os dados, quais eram os dados que a senhora procurava?    HUTZ: O meu campo, no caso, o meu laboratório, eram os prontuários médicos.  Eu não via paciente, eu não fiz nada de laboratório. O que eu fiz foi  levantar a história destes pacientes através dos prontuários médicos. Eles  tinham um arquivo extremamente bem organizado, então eu passei acho que cerca  de dois anos examinando os prontuários e fazendo a seleção.     Eu acho que eu vi mais de dois mil prontuários para selecionar uns seiscentos  prontuários que compuseram o corpo da minha tese. Que tinham dados completos,  que eu podia confiar, enfim, tu sabes e imaginas como é este tipo de análise.  E a partir destes prontuários eu montava uma ficha para cada paciente com uns  dados que eu considerei que seriam relevantes, tanto demográficos, clínicos,  de laboratório. E essa análise que eu fiz em Ann Arbor depois junto, reunindo  tudo isto.     DENT: Naquela época deveria ter sido uma das primeiras pesquisas sobre anemia  falciforme no Brasil.    HUTZ: No Brasil, sim. Eu não diria a primeira, mas a primeira de maior  abrangência. Porque as pessoas ficavam muito no diagnóstico laboratorial, em  aspectos, um ou outro muito específico, mas essa abordagem mais ampla que eu  dei foi a primeira. Eu me baseei muito num livro &amp;quot ; Sickle Cell Disease&amp;quot ; , do  Graham Sergeant, que era um pesquisador jamaicano. E que então mais ou menos  ele descrevia a doença falciforme em vários aspectos e eu tentei sintetizar  este livro para o Brasil, buscando os mesmos aspectos que ele descrevia para o  mundo todo e tentar incluir. Assim, a minha maior felicidade foi quando saiu uma  edição posterior do livro que ele incluiu os dados do Brasil, pôde incluir os  dados do Brasil.     DENT: Então, não teve um contato com pacientes, não teve uma coleta, uma  imersão em campo, assim, fazer visitas.    HUTZ: Não, meu campo foi a sala de prontuários.    DENT: É muito comum com historiador, né? O arquivo é o campo. Então, isso  foi um estudo que era mais, era especificamente para uma população do Rio de  Janeiro. Eram, todas as pessoas que iam para este centro de saúde?    HUTZ: É, digamos assim, mas considerando que o Rio de Janeiro é o centro do  país, e quando eu fiz isso fazia pouco menos, fazia cerca de dez anos que a  capital não era no Rio de Janeiro, era o local de migração muito intensa do  Brasil inteiro. Então assim, a gente estratificava os pacientes para o local de  nascimento dos pais, a gente tinha gente de todas as regiões do país.    DENT: Interessante.     HUTZ: Obviamente que predominava os nascidos no Rio de Janeiro.     DENT: Mas dava para ver um pouco, o perfil do país através desse centro.  Interessante. E então, no momento de voltar, como era a experiência de voltar  do Rio para Porto Alegre, naquela época? Era em qual ano, mais ou menos?    HUTZ: Isto era em 1980.     DENT: E como era, assim, o ambiente? Porque era durante a ditadura ainda, né?  Como era o ambiente científico naquela época, de pesquisar, colaborar? Tinha  muitas oportunidades ou era difícil? Como era a experiência?    HUTZ: Por um lado era mais difícil, no sentido assim, de que as pessoas e os  locais eram mais fechados. Por outro lado, era tudo muito menor, a pesquisa, a  ciência brasileira era muito pequena, então todo mundo se conhecia. E a gente  teve, assim, algumas experiências de influência da ditadura militar. Tanto  aqui no departamento, mas isso ainda eu vi no meu mestrado. Foi antes de eu  sair. Como eu acompanhei, durante este período que eu estava no Rio toda a luta  pela anistia. Que saiu em 79, né? Mas isso, digamos assim, eu acho que eram  coisas que aconteciam em paralelo e não chegavam a interferir no  desenvolvimento científico.     DENT: Como era o ambiente aqui no departamento durante o mestrado e depois, no  momento de voltar?     HUTZ: Eu não notei diferença. Primeiro porque, nesses quatro anos que eu  fiquei no Rio, eu nunca me desvinculei completamente daqui -- uma vez que eu  tinha esse vínculo com o professor Salzano. Depois, as pessoas que compunham o  departamento naquela época eram muito amigas, então na verdade são pessoas  que são meus amigos até hoje. E era um ambiente muito fácil de conviver,  muito alegre, era muito menos pessoas, todo mundo se dava muito bem, quase não  existiam brigas. Eu não tive nenhum problema de readaptação ao departamento.  Era como se eu voltasse para casa. Era assim, as pessoas que trabalhavam com o  professor Salzano naquela época, que era a professora Tânia Weimer, professora  Maria Helena Franco, foram as pessoas com quem eu convivi durante todo o  mestrado, que eu continuei convivendo. E convivi com elas até saírem daqui.  Professora Maria Helena Franco já faleceu e a professora Tânia eu continuo me  encontrando com ela até hoje.     DENT: E ela continua?    HUTZ: Não, está aposentada.    DENT: Está aposentada. Mas continua dando aula?    HUTZ: Não, parou completamente.     DENT: Agora aposentou de verdade? A senhora mencionou que teve algum impacto  aqui na ditadura, mas durante o mestrado. Poderia comentar um pouco sobre?    HUTZ: Eu te falei dessa pessoa que me ensinou as primeiras práticas de  laboratório, a Inês. A Inês foi presa enquanto eu estava no mestrado. E  depois que ela saiu da prisão ela ainda ficou um pouco no departamento, mas foi  embora para a França. Então, para mim isso teve, pessoalmente, um impacto  muito grande porque era uma pessoa com quem eu estava muito vinculada. E que,  digamos assim, eu considerei, todos nós na época, todos os colegas dela, uma  grande injustiça. O que estava acontecendo.     DENT: E foi por causa de atividade política que ela?    HUTZ: Foi, assim, ela não era uma pessoa que estava pegando em armas, nem  matando ninguém. Ela tinha posições políticas que, digamos assim, não  agradava os militares da época.    DENT: Teve outros impactos do ambiente político, sobre a vida do departamento?    HUTZ: Que eu saiba, não.     DENT: E naquela época...    HUTZ: É que naquela época a gente não sabia muito também, ninguém falava  muito. Digamos assim, não se comentava. A gente meio que se reunia para um  coffee break, nós éramos poucos, então todo mundo tomava café junto. Mas,  assim, política era um assunto que as pessoas evitavam na época conversar.  Porque ninguém sabia, na época, quem era quem.     DENT: E tiveram muitos biólogos ou geneticistas em outros lugares que também  tinham problemas por causa de posições políticas?    HUTZ: Teve alguns. O professor Henrique Krieger saiu, foi preso na Universidade  de Brasília. Antes ainda, em &amp;#039 ; 64 o professor Cordeiro, Antônio Cordeiro,  também teve que sair da universidade. Com seu grupo, tiveram que sair da  Universidade de Brasília. Então, houveram, assim, algumas. Nunca coisas  dramáticas. Assim, no sentido de gente que soube de morte por tortura, mas umas  pequenas coisas houveram.     DENT: E tinha apoio novo para desenvolver a pós-graduação? Estava crescendo o  departamento? Como era o apoio?    HUTZ: Sim. Isso era o contrassenso, porque foram os militares que fizeram a  reforma universitária, que implementaram os departamentos no Brasil, nas  universidades brasileiras, que criaram esta estrutura que a gente tem hoje, que  digamos assim, permitiu o desenvolvimento e, parece, -- isso aí eu mais ouvi  falar do que de saber -- de que o salário dos professores também foram mais  dignamente... aumentaram.     DENT: E o prestígio também?    HUTZ: Exato. E ao mesmo tempo, eles criaram esta institucionalização da  pós-graduação brasileira, com a Capes, com os níveis de mestrado e  doutorado. Então, este é o aspecto, assim, positivo, que ficou dessa ditadura.    DENT: Agora, voltando um pouco para as experiências do trabalho de doutorado.  Poderia comentar um pouco mais sobre a influência do professor Salzano? Como a  senhora encontrou, como era a relação entre orientador e orientada?     HUTZ: Era uma relação maravilhosa. Eu sempre digo que tudo que eu sei hoje,  até a forma como hoje eu oriento, tem a influência dele. Eu brinco sempre com  ele que ele me ensinou muito mais o que ele pensa. E ele era uma pessoa  extremamente aberta a novas ideias. Ele sempre ouvia, para dizer sim ou para  dizer não. E ele me ensinou uma coisa muito importante, que o tempo que se  perde para analisar um dado ruim é o mesmo tempo que a gente perde para  analisar um dado bom. Então, a gente tem que fazer as escolhas certas. Então,  eu acho que essa postura científica, esse rigor científico, tudo isso eu  aprendi com ele.    DENT: E comentou que em Ann Arbor teve outra visão do professor Salzano.  Poderia comentar um pouco como era essa visão que percebia lá em Ann Arbor,  que era diferente da percepção aqui?    HUTZ: Aqui ele era, assim, o todo poderoso. A pessoa que a gente olhava e tinha  um pouco de medo. E lá, todo mundo sempre falava nele, era tão simpático, eu  via mais um ser humano. Menos como grande chefe e mais como um excelente  pesquisador. Parece que está no nível... todo mundo mandava que eu  cumprimentasse o Francisco por eles, me perguntavam como é que ele estava.  Então eu via, assim, que era uma pessoa. Eu era muito jovem, também. Então  todas estas coisas tinham um impacto diferente. E aqui a gente sempre falava  muito de Ann Arbor, do professor Neel. Então, de repente, estar lá foi uma  coisa muito, assim, é como ter ido a Meca.    DENT: E como era a experiência de chegar lá no final dos anos &amp;#039 ; 70? E fazer  estágio, eram três meses? E como era a experiência de chegar lá, qual era a  sua impressão dos Estados Unidos? Era a primeira vez que viajou?     HUTZ: Para os Estados Unidos, sim.     DENT: Como era a experiência de chegar? Foi um momento de muita movimentação  também na sociedade americana. Percebeu?    HUTZ: Sim, foi na época que sequestraram aquelas pessoas no Irã. Então, tudo  fervia em Ann Arbor e eu conversava muito... Foi uma experiência, nesse ponto,  muito rica também. Porque os próprios estudantes com que eu convivia queriam  muito trocar ideias comigo, ver como era, saber das coisas do Brasil, e eu  queria saber das coisas deles. Então foi um aprendizado, realmente foi um  momento muito efervescente e muito positivo, assim, em todos os aspectos.     Eu tinha a vantagem que o Julian, eu conheci ele do Rio. Quer dizer, eu não  cheguei para uma pessoa estranha. Então eu fui recebida por um professor que me  conhecia bastante, que era muito amigo, e ele, digamos assim, facilitou muito,  me levava, me apresentava para os outros. Ele que conseguiu o lugar que eu  fiquei nestes três meses, que era um quarto numa casa de estudantes. Então  tudo isso tornou muito fácil a minha integração em Ann Arbor.     DENT: Como era um dia normal de vida lá em Ann Arbor?    HUTZ: Naquela época, computador era computador de grande porte. Tinha que  trabalhar em centro de dados. E o Julian, que estava financiando a minha estada  lá, me pediu que eu trabalhasse preferencialmente à noite, porque a hora de  computação era mais barata. Então eu estabeleci um esquema em que eu  começava o trabalho pelo meio-dia, ia para o departamento, organizava as minhas  coisas e à noite para o CPD rodar os programas. Ficava no CPD até duas, três  horas da manhã, enquanto eu aguentava, e depois dormia de manhã para começar  no outro dia. Ver o que saiu no computador e programar o dia seguinte. Isso no  inverno do midwest.     DENT: Nossa, estava lá no inverno mesmo.    HUTZ: É, foi dezembro, janeiro e fevereiro.    DENT: Meu Deus. E aí faz um frio.    HUTZ: Eu não sei que cor é a grama de Ann Arbor, eu só conheço a neve.     DENT: Então foi lá que a senhora conseguiu fazer a maior parte das análises  do doutorado.    HUTZ: Foi.     DENT: Teria sido possível fazer estas análises no Rio, naquela época?    HUTZ: No Rio ou mesmo aqui em Porto Alegre, teria sido possível. Mas eu  demoraria três ou quatro vezes mais.     DENT: Por?    HUTZ: Por questões logísticas.     DENT: Entendi. Aí tinha mais facilidades?    HUTZ: Tinha. Embora na época, a universidade de Michigan tinha um sistema de  análise estatística, que eles desenvolveram, que era espetacular. Era muito  amigável, muito fácil de usar, e tinha todo um serviço de suporte. Então, o  Julian conhecia muito de análise de dados e esse Charles Sing já tinha  trabalhado com anemia falciforme e mais ou menos sabia o que que seria. Então,  entre os dois, a gente definiu várias análises mais sofisticadas que aqui acho  que eu não teria nem imaginado fazer.     DENT: E foi com uma bolsa?    HUTZ: Não, não. Eu pedi uma bolsa para o CNPq, mas naquela época era mais  difícil. E como eu era professora na federal do Rio de Janeiro eu tinha  salário. Então eu fui com o meu salário.     DENT: E na volta, como mudou, assim, a vida diária? Como era um dia normal na  pesquisa de doutorado antes de ir e depois de voltar?     HUTZ: Até praticamente a hora de eu ir, eu estava coletando dados. Acho que os  últimos dois ou três meses antes de viajar eu estava codificando estes dados.  E naquele tempo, naqueles cartões de perfurar, que era como eu levaria os dados  para os Estados Unidos. Então, enquanto eu fazia tudo isso eu tinha que dar  minhas aulas lá na universidade federal. E, na volta, eu voltei com dez quilos  de papel, no mínimo. Que eram todos os outputs do computador, que eu tinha que  detalhar aquilo e fazer aquilo virar tabelas de uma tese.     Eu cheguei no início de março e já comecei a dar aulas, e estava começando a  querer mexer nisso quando surgiu esta possibilidade de vir para cá. Então,  praticamente eu só retomei a análise dos dados já em Porto Alegre. E aí, no  esquema daqui, que tu sentas em uma mesa e tu tens todo o tempo do mundo para  analisar. Eu fui montando, separando isso aqui, como aqueles dados virariam as  tabelas da tese. Naquela época a tese não era uma coleção de papers, era uma  tese, e os papers a gente fazia depois.     DENT: E, agora, assim, vendo os trabalhos que iam vir depois da tese, como seria  a divisão de temas de pesquisa? Porque a senhora pesquisa muitas coisas  variadas, não é? Então, assim, poderia dar alguma organização? Tem dois ou  três temas centrais ou como isso ficaria?    HUTZ: É que quando eu voltei, depois do meu doutorado, começou a história do  DNA. Estavam começando os primeiros estudos, e os primeiros polimorfismos de  DNA que surgiram foram exatamente nos genes de globina. E a origem da doença  falciforme, as múltiplas origens da doença falciforme. Os primeiros trabalhos  foram exatamente quando eu estava defendendo meu doutorado em &amp;#039 ; 83, esses  trabalhos estavam sendo publicados. Aí o Salzano, mais uma vez, &amp;quot ; ah, tu devias  fazer isso aí&amp;quot ; . Aí eu fui para fazer um pós-doc, nos Estados Unidos, para  aprender a trabalhar com DNA - e passei um ano e meio na Johns Hopkins  aprendendo a tecnologia do DNA.     E quando eu voltei para o Brasil, &amp;quot ; eu conheço a tecnologia, mas agora como  fazer isso funcionar no Brasil?&amp;quot ; . Na estrutura que nós tínhamos antes de vir  aqui para o campus, lá no centro da cidade, era impossível. Aí eu vi que a  primeira coisa que eu tinha que fazer era tentar criar uma estrutura para que o  departamento pudesse entrar na era do DNA. As pessoas do departamento, na  época, ainda estavam conseguindo produzir sem DNA, estavam conseguindo publicar  e não era tão importante para os outros como passou a ser importante para mim.     E eu levei muito tempo nesta tentativa de construção desta estrutura. Eu, e  assim, me envolvi muito, a ponto, digamos assim, de me tornar chefe do  departamento, para ter algum poder, para conseguir ir atrás de dinheiro para  construir este prédio. Depois me envolvi com a construção do prédio, que eu  brincava que eu não fazia mais engenharia genética, eu fazia só engenharia.  Porque eu vinha semanalmente aqui conferir a construção, eu passava os cheques  para comprar os tijolos. Então, eu acho que durante uns três ou quatro anos,  eu me envolvi muito com isto, até nossa mudança para cá em 1990.     Aí eu tinha um laboratório, só que o laboratório estava vazio, tinha que  comprar equipamentos. Daí começou uma outra batalha para conseguir o dinheiro  para comprar esses equipamentos. Então, acho que eu realmente voltei a  trabalhar em &amp;#039 ; 93/&amp;#039 ; 94.    DENT: Poderia comentar um pouco mais sobre quais eram as coisas necessárias  para fazer esta transição de trabalhar com genética, sem usar DNA, para ter a  estrutura necessária para trabalhar com DNA?     HUTZ: Completamente diferente. Digamos assim, na genética bioquímica  tradicional, o universo era do mililitro. E quando a gente passa a trabalhar com  DNA, o universo é do microlitro. Então, toda estrutura, todos os equipamentos,  nesta época não existia o PCR ainda, era só o [inaudível], era uma outra  tecnologia. Tinha que ter estrutura para crescer bactéria, era um outro laboratório.     Quer dizer, eu podia aproveitar uma balança, podia aproveitar uma centrífuga.  Mas eu precisaria de microcentrífugas para esses tubinhos pequenos. Então era  começar do zero. E numa época em que a economia brasileira era muito fechada e  era muito difícil adquirir qualquer coisa no país.    DENT: E quais eram as estratégias que a senhora usou para conseguir essa meta?     HUTZ: Escrever projeto, escrever projeto. Com a vinda para cá nós conseguimos  dinheiro. Digamos, o próprio prédio foi construído com recursos da Finep.  Então, depois de convencer a Finep, &amp;quot ; bom, vocês nos deram um prédio, agora  têm que botar as coisas dentro do prédio&amp;quot ; . E, naquela época, a Finep  financiava fundo perdido. Então nós conseguimos, acho que dois bons auxílios  da Finep para a compra de equipamentos - beneficiou todo o departamento, não  só a mim. E com isso a gente conseguiu entrar na era do DNA. Mas isso aí foi  um hiato na minha vida de uns seis/sete anos, entre eu voltar do pós-doc e  começar efetivamente a trabalhar com DNA.     DENT: E com esta transição, outras pessoas no departamento também fizeram uma  transição para trabalhar mais com DNA?    HUTZ: Sim, e durante este hiato que eu digo que eu tenho, digamos assim, o mundo  da genética foi se transformando no mundo do DNA. Aí todas as pessoas  começaram a ver que isso era importante, que tinha que fazer esta transição.  Houve um momento, tanto que assim, alguns laboratórios foram montados como se  isso aqui não aconteceria. E o meu laboratório, tanto que assim, o nome do  laboratório é &amp;quot ; laboratório de DNA&amp;quot ;  -- porque serviria para todos. Mas, na  verdade, no fundo, com o correr dos anos, todos os laboratórios fizeram a sua  transição. As pessoas vão vendo que as tecnologias vão mudando. Nisso,  surgiu o PCR, que democratiza muito o estudo do DNA. Então, facilita muito que  estas coisas aconteçam.     DENT: E, depois de fazer, esse tempo que se dedicou tanto aos processos de  estrutura para o laboratório, quais eram as linhas de pesquisa mais importantes  que a senhora levou a...    HUTZ: Eu continuei, porque mesmo nesse período que eu estava me dedicando, eu  continuei trabalhando com anemia falciforme. Mas assim, fazendo uma coisa que eu  podia oferecendo um serviço para a população de diagnóstico. Mas, ao mesmo  tempo, tentando fazer alguma coisa de pesquisa com anemia falciforme, ainda num  nível da proteína do sangue.     Quando começa a história do DNA o meu natural ainda foi com anemia falciforme,  e o primeiro trabalho publicado com DNA foi os genes, digamos, os haplótipos de  globina em populações de índio. Foi o primeiro trabalho que eu orientei com  DNA, porque, a essa altura, as coisas que eu pensava em fazer, quando eu voltei  dos Estados Unidos já tinham sido feitas. Não tinha mais porque fazer. Então,  com as globinas beta, eu ainda podia fazer alguma coisa com índios que era um  buraco na literatura. Então, eu podia contribuir por aí.     DENT: Poderia comentar um pouco mais sobre esse estudo de haplótipos?    HUTZ: Então, assim, como os haplótipos mostram, te dão uma ideia da origem da  população. Então era um momento em que todo mundo estava tentando usar o DNA  como uma ferramenta para tentar entender a origem dos povos ameríndios. Então,  o que os haplótipos mostram, a gente estudou cinco tribos e depois ampliou  para, acho que nós estudamos, ao todo, umas dez, doze tribos, onde a gente  mostra a origem asiática. Que os haplótipos predominantes dos ameríndios são  os mesmos dos asiáticos, corroborando as ideias da origem asiática dos ameríndios.     DENT: E isto foi um projeto que fez um orientado?     HUTZ: Sim, foi um mestrado.     DENT: E esse foi o segundo projeto que a senhora fez com ameríndios? Que tinha  este primeiro...    HUTZ: É, tinha o do meu mestrado e depois esse. Durante muito tempo eu  participei dos trabalhos do professor Salzano com ameríndios, que assim, vinham  as amostras e as amostras eram mais ou menos divididas. Eu fazia as  hemoglobinas, a Tânia Weimer fazia as enzimas [inaudível] e a Maria Helena  Franco fazia as proteínas séricas. Então, tinha esta divisão e a gente...     Isso não era um projeto que eu considerava meu, era uma colaboração minha com  o professor Salzano. Então, digamos assim, trabalho que eu coordenei, o  próprio G6PD eu era uma estudante. Mas o primeiro trabalho que eu coordenei com  populações ameríndias foi esse mestrado do DNA das globinas beta.    DENT: E depois seguia trabalhando com mais projetos com ameríndios?    HUTZ: Sim, até hoje. Eu sempre tenho um aluno que faz alguma coisa com índios.  Depois desse a gente fez alguma coisa com esses polimorfismos de repetição em  tandem, primeiros VNDRs, como D1S80, que era um muito usado para paternidade.  Depois os short tandem repeats. A gente fez trabalhos com isso, o gene  apolipoproteína beta. Porque eu descobri que nós tínhamos, digamos assim, um  grupo de amostras de índios que nós tínhamos aqui para trabalhar, de DNAs.     Existia também dados de colesterol, triglicerídeos, então eu já comecei a  juntar um tanto, fazer uma associação de polimorfismos em genes das  apolipoproteínas com os níveis de colesterol em índio, obesidade em índio.  Quer dizer, eu fui levando um pouco, assim, sempre para o meu interesse em  saúde humana. Então a gente fez várias coisas com índios também. Que eu  comecei, aos poucos, eu achei que eu não tinha mais nenhuma pergunta para fazer  sobre anemia falciforme que eu pudesse responder daqui.     E troquei para estudar metabolismo de lipídios, tanto em populações urbanas  quanto nas populações ameríndias. Então a gente publicou vários trabalhos.  É como eu digo, sempre um orientando meu fazia tese com índio, até hoje.  Então durante muito tempo eu concentrei no metabolismo de lipídios.     E por interesse de alunos a gente termina, às vezes, se diversificando. E eu  sou uma curiosa. E eu acho que, se a gente entende metodologia científica, a  gente pode fazer várias coisas diferentes. Aí surgiu, assim, o estudo de  doenças psiquiátricas (isso eu nunca fiz nada em índio). Mas é uma linha  forte aqui no meu grupo e agora, mais recentemente, a gente começou uma linha  de doenças infecciosas. E sistema imune, em que, sim, nós estamos trabalhando  de novo com índios, com tuberculose em índios, que a gente tem em alguns trabalhos.     Fizemos um com os Xavante e agora estamos fazendo com os Ache, do Paraguai, que  é onde a gente tem o dado clínico e pode ter o dado genético. E estamos  procurando também traçar o perfil imunológico dos ameríndios, através dos  polimorfismos de genes do sistema imune.     DENT: Nesses trabalhos, em algum caso trabalharam com novas amostras? Amostras  que vocês ou membros do laboratório coletavam?     HUTZ: Nós só coletamos uma pequena amostra aqui do interior do Rio Grande do  Sul, de Kaingang. E essa amostra, nós temos uma amostra de Xavante que foi  coletada para o estudo de tuberculose em Xavante, que é uma amostra nova - que  foi uma aluna minha que foi com o grupo da escola de saúde pública coletar.    DENT: A Verônica?    HUTZ: A Verônica.     DENT: E isso foi uma colaboração com o Carlos Coimbra?    HUTZ: Coimbra, sim.    DENT: Eu conheço esse trabalho um pouco mais, eu também entrevistei membros do  grupo deles lá no...    HUTZ: Tanto que a Verônica terminou o doutorado aqui comigo, com esse trabalho,  e foi fazer pós-doc com o Coimbra. Ela seguiu nessa linha.     DENT: E ela fez a coleta.    HUTZ: Ela fez a coleta.    DENT: Mas, geralmente então, a maior parte dos estudos são com os bancos de  amostras que dão.    HUTZ: Não, eu não uso o mesmo banco de dados da Maria Cátira. As amostras que  eu uso, eu uso as amostras de Kaingang. Primeiro eu trabalhei com... Em &amp;#039 ; 90 o  Salzano recebeu do Coimbra amostras que eu fiz as extrações de DNA de cinco  tribos (que eram os Xavante, os Suruí, Waiwai, Zoró e Gavião). Então eu fiz  muita coisa com essas cinco tribos. E houve um momento em que era a única coisa  de DNA de índio que se tinha. Os dados de lipídios foram feitos com estas amostras.     Na medida que estas amostras foram acabando, a gente coletou essa amostra de  Kaingang no interior do Rio Grande do Sul, e eu consegui com a minha colega do  Paraná, Maria Luiza Petzl Erler, ela me deu uma amostra de Guarani. E amostra  dos Ache, do Paraguai, que também está sob minha responsabilidade. Então, na  verdade eu trabalho com estas três amostras hoje.    DENT: E desde o primeiro trabalho junto com Salzano no mestrado, até agora, eu  sei que a legislação brasileira mudou totalmente com relação à coleta de  amostras genéticas. Queria saber se poderia explicar, em cada época, cada  projeto, como era o processo?    HUTZ: Eu nunca me envolvi com isso, assim. Primeiro, não tinha nenhum processo.    DENT: Sim, no início não tinha.    HUTZ: Depois que o professor Salzano conseguiu aquela licença de &amp;#039 ; 98, que pode  usar o que tem aqui à vontade, eu entendi que eu estava incluída. Para a  coleta dos Xavante, que a Verônica foi, a Conep deu autorização. Passou pelo  comitê de ética da Fiocruz e depois pela Conep. Digamos assim, porque eles  estavam liderando essa coleta.     DENT: Então, foi ela que fez todo o processo?    HUTZ: Na verdade foi o Coimbra, a gente só entrou como participantes. E aí,  inclusive, aconteceu uma coisa horrível, porque a ideia era fazer os Xavante e  os Suruí. E nós tivemos as autorizações da Conep, da Funai e todas as  autorizações possíveis para fazer a coleta dos Suruí. Fomos lá, os índios  deram consentimento, informaram os líderes, a Verônica coletou toda amostra e  no dia de ir embora chegou uma pessoa da Funasa e recolheu todas as amostras. E  entendeu que aquilo era biopirataria e não podia, e que só liberaria com um  telegrama de Brasília.     Bom, perdemos essa coleta. E aí acho que com isso eu não me atrevo mais muito  em investir, porque foi um monte de dinheiro que se gastou para ir fazer essa  coleta. Para chegar uma enfermeira de décimo escalão, entender que aquilo é  biopirataria e impedir a saída.    DENT: Teve algum processo depois?     HUTZ: O Coimbra não quis, eu pedi. Como tudo, ele sempre era o líder de toda  essa pesquisa de saúde indígena. E eu achei que cabia a ele tentar alguma  coisa, tentar resgatar, e ele não quis. Então nós encerramos, inclusive a  parceria. Não fizemos mais nada juntos.     DENT: E ele explicou porque tomou essa decisão?    HUTZ: Eu acho que ele não quis se incomodar. Ele disse &amp;quot ; ah, que não se pode  forçar, é muito delicado&amp;quot ; . E aí nós...    DENT: E aí, mas nesse estudo então, ficaram estudando tuberculose só com os Xavante?    HUTZ: Só com os Xavante, sim. Porque os Xavante não tinham doença ativa e os  Suruí tinham doença ativa. Então teria sido muito interessante comparar os  dois. Mas nós terminamos, era o que a gente tinha, a gente terminou fazendo com  os Xavante.     DENT: A senhora estava presente para a coleta, para o trabalho de campo?     HUTZ: Não, a Verônica foi.    DENT: Ah, a Verônica. E também com os Xavante?    HUTZ: Também com os Xavante. Era a Verônica e era uma equipe do Paulo Basta,  não sei se tu conheceu, do grupo do Coimbra, que é um médico, e a Verônica.  Que iam basicamente os dois e mais uma enfermeira, que iam para fazer o trabalho  de campo.     DENT: E o trabalho que resultou, sobre os Xavante, qual era, assim, o  propósito? Quais eram os findings mais importantes deste trabalho?    HUTZ: Assim, existia uma hipótese, que era mais ou menos do ano 2000, de que  populações que vivem em regiões tropicais teriam um perfil imunológico  diferente de populações europeias. E que isso os tornaria mais suscetíveis a  infecções bacterianas e virais. Então a ideia, digamos assim, como a gente  sabe que os índios são mais suscetíveis à tuberculose, a ideia era testar  esta hipótese com os índios. E a gente mostra, com os Xavante, parcialmente  isso e corrobora isso agora, num trabalho que está saindo agora em agosto, com  os Ache.     Mas, ao mesmo tempo, nós ampliamos este trabalho. A gente não tem dados de  tuberculose, mas tem dados de perfil imunológico nos Guarani e nos Kaingang. E  a gente mostra que, na verdade, os diferentes não são os índios, os  diferentes são os europeus. Porque asiáticos, africanos e índios são muito  parecidos, têm o mesmo perfil imunológico. Quem diferiu foram os europeus, a  seleção atuou de uma forma diferente na Europa.    DENT: E esse trabalho vai sair em agosto?    HUTZ: Essa do perfil imunológico já saiu no ano passado.    DENT: Em 2013.    HUTZ: É. O da [inaudível], e agora esse da tuberculose dos Ache vai sair agora  em agosto no Journal of Tuberculosis and Lung Diseases.     DENT: Muito interessante. Então, esses são os estudos principais que a senhora  fez com populações indígenas no próprio laboratório. Mas também colaborou  muito com pesquisadores do departamento que fizeram outros estudos com povos indígenas.     HUTZ: Com o Salzano.    DENT: Com o Salzano, sim. Queria ver se a senhora poderia, assim, dar uma  explicação, um pouco, colocar num contexto. Como fica o trabalho do professor  Salzano, dentro do campo, como parte da literatura sobre genética dos povos indígenas?    HUTZ: Eu acho que genética dos povos indígenas é igual a professor Salzano.  Não existe, assim... Ele contribuiu tudo. Praticamente, eu diria que 90%, 95%  do que está publicado é dele ou com a colaboração dele. Mesmo esses  trabalhos que eu digo que eu conduzi, assim, ele é sempre coautor. Eu considero  que essa é uma linha de pesquisa dele e que eu sou a coadjuvante, eu sou a  colaboradora. E que eu tenho todas as outras coisas que eu faço, que são  independentes, com as populações urbanas. Isso vem com a minha cabeça, com  minhas ideias.     Mas eu acho que populações indígenas é uma coisa que ele construiu e que  ele... Eu fico às vezes muito preocupada, o que que vai ser dessa linha de  pesquisa sem ele? É que tem tantas impressões digitais que é, assim, uma  coisa muito associada. Eu não consigo imaginar.     DENT: E na experiência de estar em Ann Arbor e ouvir um pouco sobre ele, do  ponto de vista dos norte-americanos, quais eram os estudos que eles mais se  interessavam em saber, estavam trabalhando junto com ele?    HUTZ: Naquela época eles não estavam mais. Na medida em que o professor Neel  saiu do departamento, a genética das populações indígenas acabou. Então, as  amostras que o Neel tinha foram parar em outro laboratório e eles não falavam  mais no assunto. Eles conheciam Salzano, respeitavam o Salzano, mas não era  mais o foco lá. Na verdade, eles estavam mais interessados nos meus dados de  anemia falciforme do que na questão dos povos indígenas. Mas o que eu sentia  muito é que eu ganhava em credibilidade por ser aluna do professor Salzano.  Quer dizer, tinha pedigree.     DENT: Com certeza, né?    HUTZ: Então era uma coisa, assim, que quando todo mundo me apresentava para  outro, fazia parte da apresentação dizer que eu era aluna do professor Salzano.     DENT: Claro. E, assim, dentro do mundo de genética de populações, quais  seriam os aportes mais teóricos do professor Salzano? Os que mais têm peso no  campo dos estudos de povoamento das américas?    HUTZ: Eu diria, assim, acho que eu dividiria em duas etapas cronológicas  distintas. Porque a genética de populações, ela muda muito nesses 30 anos, 40  anos que eu estou na ciência. Num primeiro momento o professor Salzano tem uma  posição, uma postura muito clara na controvérsia &amp;quot ; selecionismo/neutralismo&amp;quot ; .  Ele tem livros publicados para discutir essa controvérsia, ele é uma pessoa  central na contribuição para essa discussão. Isso, eu diria assim, até  meados dos anos &amp;#039 ; 80. Depois, essa discussão, ela deixa de fazer sentido com o  advento da variabilidade do DNA. Aí o grande aporte passa a ser, digamos assim,  mais para a genômica e a questão da origem dos ameríndios. E aí tem as  grandes contribuições dele, principalmente com o Sandro Bonatto. Eu acho,  assim, são os dois grandes momentos do professor Salzano.     DENT: Agora, a senhora trabalha com quantos alunos? E como é a experiência de  ser orientadora?    HUTZ: Eu adoro. No momento eu tenho cinco estudantes de doutorado, mas até  março desse ano eu tinha doze.     DENT: Nossa. [risos]    HUTZ: Só que vários terminaram agora nesse semestre e eu só estou com cinco.  E resolvi que eu não quero mais ter doze de novo. Pelo menos dar um tempo. Eu  gosto muito, eu acho que, das atividades acadêmicas, é a que eu mais tenho  prazer em fazer, em estar construindo conhecimento com eles. Estar pensando no  que é que nós vamos fazer no laboratório, ver o que é que nós vamos fazer juntos.     DENT: E como é que os alunos chegam a escolher a área? A senhora mencionou que  sempre tem um aluno que está trabalhando sobre povos indígenas. Como eles  chegam a escolher? Ou a senhora sugere?    HUTZ: Eu induzo, de uma certa forma. Hoje no laboratório eu tenho três  projetos em andamento. Um que é um projeto que já tem quase 20 anos, que é do  transtorno déficit de atenção/hiperatividade (ADHD). Então, teve um momento  que eu tinha mais alunos nesse e menos no outro, isso vai variando um pouco ao  longo do tempo. Eu tenho um projeto em doença de Parkinson, que no momento eu  tenho, assim, dos meus cinco alunos, dois estão trabalhando com doença de  Parkinson e dois com ADHD.     E como eu não quero deixar completamente a coisa dos índios, acho que tem a  ver muito com a minha origem, eu sempre induzo alguém. Eu vejo alguém que  gosta mais de genética de populações, então sugiro. Eu tinha um projeto com  doenças infecciosas, com associação com o pessoal do Pará, e doenças  negligenciadas. Então, e tinha esses dados dos Ache, então tinha essa aluna  que eu via que gostava de genética de populações, e eu sugeri que ela se  envolvesse, então, com tuberculose em Ache e sistema imunológico. Então, essa  uma aluna que, nesse momento... assim como a Verônica. Sempre tem alguém que  gosta mais de genética de populações do que de doença.     Então a gente vai vendo, assim. Porque a maioria desses alunos eu conheço  desde que eram undergraduates, que começam cedo no laboratório e a gente vai  vendo aquilo que eles têm mais talento, aquilo que eles gostam mais.    DENT: E como ficam as perspectivas de seguir trabalhando na linha de estudos com  indígenas? Porque comentou que foi difícil essa experiência com os Suruí.     HUTZ: É, eu não sei, sinceramente. Eu já várias vezes disse: &amp;quot ; Este é o  último trabalho.&amp;quot ;  E quando eu vejo eu estou fazendo outro. Mas assim, eu não  vejo muita perspectiva, para mim, de continuidade dessa linha. Até porque a  gente não tem linhagens celulares, o DNA vai acabar. As perguntas que eu posso  responder com o pouco de amostra que eu tenho também estão ficando muito  restritas. Então eu não vejo, assim, a longo prazo. Mas eu já vi. Antes de  começar essa coisa com sistema imunológico eu já tinha dito isso, então eu  sempre deixo um pouco em aberto, se não vai surgir alguma coisa que eu acho que  ainda dá para fazer.    DENT: E por que está ficando, assim, restrito? É uma questão de tempo e uma  questão de acesso? Legislação?    HUTZ: A legislação atrapalha, a burocracia é imensa, eu não tenho muita  paciência para todas essas burocracias brasileiras. Então a gente não tem  fonte, assim, o meu interesse é muito mais para doença do que para estudo de  origem. Eu já sei. Quer dizer, assim, que eu estou mais interessada agora em  entender por que é que eles foram tão dizimados pelas doenças. Mas as chances  de eu conseguir dados de campo novos, que me permitam esse tipo de estudo, é  muito difícil. Então eu não sei se eu...    DENT: E isso é mais por causa de todos os passos que um pesquisador tem que  passar para ter autorização?    HUTZ: Isso. E mesmo passando por todos, como eu falei, a experiência dos  Suruí, nada impede que lá na ponta final, depois do trabalho de coleta feito,  alguém resolva que não pode levar. E que, assim, não dá para confrontar  porque eles sentiram (o Paulo Basta e a Verônica) que se não entregassem eles  iriam presos. Então, assim, virou pesquisa de alto risco. Tu passar um ano nos  meandros burocráticos e tu não sabes o que vai acontecer na ponta final.     DENT: E como são as perspectivas para trabalhar com amostras históricas no Brasil?    HUTZ: Tu dizes DNA antigo?    DENT: Aham.    HUTZ: Eu acho que é as mesmas de qualquer lugar do mundo, a credibilidade  dessas amostras é muito pequena. O professor Sérgio Pena tenta fazer isso, lá  em Minas Gerais. Ele está tentando resgatar de Botocudos, lá do Museu  Nacional, alguma coisa de DNA. Então é aquela questão de: faz no laboratório  dele, tem que replicar no outro laboratório fora, e mesmo assim as pessoas  olham para aquilo e não são muito crédulas, sempre acham que pode ter  artefatos. Então é uma linha complicada. Eu acho muito bonito, eu me  entusiasmei muito quando começaram a aparecer os primeiros trabalhos de múmias  e coisas. Mas eu hoje acho que isso não cresceu. Dos anos &amp;#039 ; 90 para cá, de  repente alguém faz uma coisinha, mas não é uma linha que tenha...    DENT: Não daria para responder essa pergunta da dizimação das populações, né?    HUTZ: Teoricamente sim, seria ótimo se a gente conseguisse porque seria o DNA  sem mistura nenhuma. Então teria exatamente como eram as pessoas e, dependendo  da qualidade dos ossos, a gente pode saber se teve tuberculose ou não. Porque  existe tuberculose óssea, por exemplo, e outras doenças também isso seria  possível. Mas não vejo muita possibilidade de seguir nessa linha. Eu, na  verdade, nunca me envolvi e nunca tentei trabalhar nessa linha.     DENT: Algum tema, alguma experiência que foi importante para a senhora na vida  profissional, até agora, que gostaria de comentar? Que eu não consegui  perguntar ou que foi uma coisa que ajudou a formar a perspectiva que agora tens  sobre a genética? Alguma reflexão que não cheguei a perguntar, a pergunta certa?    HUTZ: Não, eu acho que não. O depoimento que eu te dei, assim, eu me envolvi,  assim... Quando eu tive que largar a anemia falciforme porque eu não tinha mais  perguntas para fazer e comecei a trabalhar com metabolismo de lipídeos foi uma  mudança, assim, de uma doença monogênica para doenças multifatoriais. E isso  foi muito importante para mim, olhar para a genética com outro olhar que não  daquele &amp;quot ; mendeliano&amp;quot ; . Então eu acho que eu desenvolvi muito, aqui no país, a  linha da genética epidemiológica. E isso foi uma coisa que, digamos assim, eu  cresci muito com isso. Foi a minha linha independente, que eu consegui montar,  que eu acho que eu estou deixando a maior contribuição. E eu acho que o futuro  da genética é por aí. Porque eu acho que existe, mais do que doenças raras  que afetam e são dramáticas para poucos indivíduos, enquanto essas afetam  muitos indivíduos.     DENT: Ótimo, professora. Muito obrigada, obrigada por seu tempo.    HUTZ: Eu espero poder ter contribuído.    DENT: Com certeza.     &amp;lt ; &amp;lt ; pausa&amp;gt ; &amp;gt ;     HUTZ: Agora eu já não acho, mas foi entre 2008 e 2010, por aí, que nós  começamos esse projeto de saúde indígena com o Carlos Coimbra e o Ricardo  Ventura Santos. E a sugestão foi de que, antes de nós irmos fazer as coletas  no campo, que a gente trouxesse os índios. Vieram os Xavante, vieram duas  lideranças Xavante. Porque a própria aldeia de Pimentel Barbosa estava numa  fase de litígio, estava se dividindo dentro daqueles processos de fissão,  fusão deles. Então era um momento Xavante de ser, como o Ricardo Ventura chamou.    E nós chamamos as duas lideranças dos dois grupos. Veio o Almir Suruí e um  indígena da Bahia. E nós fizemos uma apresentação - Coimbra, Ricardo, eu -  sobre como é que a gente via o estudo da saúde indígena, porque é que a  gente estava estudando. Eles passaram um dia inteiro aqui conosco no campus. E  foi uma experiência, eu acho que para nós e para eles, muito interessante.    E eles faziam perguntas, perguntas pertinentes. E a gente via a interferência  que eles têm de terceiros que tentam usar politicamente o que está acontecendo  e a boa vontade da gente. Porque saiu na mídia que nós estávamos fazendo este  evento, trazendo os índios para cá. E que nós queríamos explicar pesquisas  para eles. E que veio gente da imprensa, de outros órgãos, e que deturparam o  que foi dito, como se a gente estivesse usando eles como animais de  experimentação -- o que absolutamente não era.    Mas, assim, deu para perceber muito claramente que os Xavante, eles têm uma  noção mais clara do que é pesquisa, que isso eventualmente pode trazer um  benefício. Depois disso a Verônica foi na tribo e explicou de novo para eles  toda a pesquisa. E quando ela concluiu o doutorado, ela voltou lá em Pimentel  Barbosa com Coimbra, para dar o retorno dos resultados. E o relato dela foi de  que foi uma experiência muito gratificante, que eles entenderam, fizeram perguntas.    Quer dizer, os índios também podem sair, e vir e ouvir, participar. Eles não  são, não os tratar como inferiores.    DENT: Poderias descrever esse dia? Como foi a chegada deles?    HUTZ: Quem se encarregou de vir com eles foi o Coimbra e o Ricardo, e que foram  pegá-los no aeroporto. Eles chegaram um pouco antes e eles ficaram todos no  mesmo hotel, o hotel que nós colocamos os professores, hotel Embaixador. Aí  Verônica e eu, cada uma com um carro, para poder trazer todos. Nós fomos  buscá-los no hotel e trazê-los para o campus. Então esse evento teve uma  abertura de porquê, da importância de estudar a saúde indígena, em que falou  o Carlos e falou o Salzano. Tudo muito breve.    Depois demos a palavra para as lideranças indígenas falarem. O que é que eles  esperavam de nós? E uma das lideranças Xavante passou um filme, pediu um tempo  para passar um filme sobre o contato em &amp;#039 ; 46, quando chegaram os irmãos  Villas-Boas lá. Então todo mundo viu aquele filme, foi muito bonito. Bom, e  aí nós tivemos uma interrupção para o almoço, que nós fizemos um almoço  privado no prédio da FA URGS, no andar de cima. Deves ter visto quando teve o  encontro, aquele ano, nós fizemos o almoço ali.    E à tarde eu fiz uma apresentação sobre a questão da genética, o que é que  a genética queria, o que a gente procurava e o que é que a gente queria  responder, quais eram as nossas perguntas. Depois foi uma discussão geral e encerrou.    DENT: E quais eram as perguntas que eles faziam, as coisas que eles queriam  saber um pouco mais na conversa sobre os propósitos da pesquisa (as lideranças  que estavam presentes)?    HUTZ: A grande preocupação deles era não serem usados, eles tinham muita  preocupação nesse sentido. Muita preocupação de que a gente fosse vender o  DNA e que pudesse clonar índios. Eu acho que, assim, a preocupação era muito  direcionada para a questão comercial. Acho que eles já tiveram muitas  experiências, não com DNA. Teve uma experiência ruim com DNA, que o DNA foi  parar nos Estados Unidos, do Francis Black. Mas eles sabiam dessa experiência,  sabiam disso e a maior preocupação deles era nesse sentido, que a gente se comprometesse.    Ah, uma outra coisa que nós fizemos depois do almoço foi que nós trouxemos  eles aqui no laboratório. Mostramos para eles o que é que a gente fazia, como  é que a gente extraía o DNA do sangue, o que é que a gente via. Botamos um  gel no transiluminador de ultravioleta para eles verem o DNA e eles fizeram  pergunta sobre paternidade. Quer dizer assim, eles não eram tão ignorantes.    Foi muito interessante, porque a gente viu um outro lado assim. Não são  pessoas... pelo menos as lideranças que circulam, algumas lideranças Xavante  já tinham ido inclusive para a Europa. Quer dizer, eles sabem o que está se  passando no mundo. E é uma preocupação de defesa do seu patrimônio, seja  patrimônio cultural, genético. Essa é a preocupação que eles demonstraram  mais claramente. E, inclusive assim, existia que, se os índios fossem estudar,  se eles podiam vir fazer estágio, porque eles gostariam que tivessem  pesquisadores indígenas para estudar as coisas deles. Eu acho que essa,  realmente, eu acho que faltou. Foi uma experiência bem interessante.    DENT: Claro. E qual foram as coisas que mais surpreenderam as pessoas daqui, que  estavam apresentando para eles? Deve ser uma experiência muito diferente. Eu  nunca ouvi, assim, falar de um grupo que fez uma coisa assim. Então estou  interessada. Como foi a experiência do ponto de vista, aqui, deles chegarem,  perguntarem essas coisas. Qual foi a impressão, a expectativa que vocês tinham  antes desse evento?    HUTZ: Não foi a primeira experiência. O Coimbra já tinha levado eles para o  Rio e a ideia foi do Coimbra, uma vez que tinha sido muito positiva a  experiência de levá-los para o Rio. Quer dizer, eles se tornam muito mais  colaboradores e participantes da pesquisa. Não é aquela pessoa que chega na  terra deles, faz todas as coisas e nunca mais aparece. Quer dizer, o Coimbra  conseguiu trabalhar muito bem esse vínculo.    DENT: Lembra dos nomes das lideranças que estavam?    HUTZ: Eu tenho que achar.    DENT: Naquela época era o Suptó que estava liderando o lado de Pimentel?  Deveria ter sido, né? Porque ele está de cacique faz alguns anos.    HUTZ: É, eu não me lembro, eu sou péssima para nomes. [silêncio] Eu não  acho, mas eu vou procurar e eu te mando uma cópia.    DENT: Ah, seria muito legal. Tiraram fotos do evento?    HUTZ: Não, não. A ideia era ser o mais discreto possível para eles não se  sentirem, assim, para não achar que estão sendo...    DENT: Porque, afinal, é uma coisa muito simples, né? É só dar a  possibilidade de explicar qual vai ser o propósito da pesquisa, se eles  aceitarem. E as pessoas da imprensa que chegaram a escrever sobre essa questão,  como era? Eles estavam presentes?    HUTZ: Foi uma jornalista de Brasília, eu não sei de que órgão que foi a  pessoa que tentou criar uma coisa mais confrontável.    DENT: Estava presente?    HUTZ: Ela estava presente. Ela tentou criar um debate aqui e a gente cortou, e  aí ela publicou uma coisa, assim, menos abonadora. Mas não teve maiores...  aqui, achei. Foi em março de 2007. Vou copiar isso aqui para ti: Suptó Xavante  e Paulo Xavier.    DENT: Ah, foram Suptó e Paulo. Muito legal. O Suptó e a comunidade de Pimentel  Barbosa está fazendo um projeto histórico para solicitar cópias de materiais  antropológicos que foram coletadas nas décadas de &amp;#039 ; 50, &amp;#039 ; 60, fotografias, para  fazer um centro documental na aldeia.    HUTZ: Ah, que legal.    DENT: Então, eu vou estar ajudando com a parte dos Estados Unidos. Porque tem  alguns pesquisadores que, como David Maybury-Lewis, que era um antropólogo que,  quando faleceu, todos os documentos dele estão com a esposa dele ainda. Então,  vou estar tentando ajudar eles a chegar a ter cópia destes materiais para poder  usar. Eles querem fazer projetos de resgate de história, de cultura, através  dessas informações que foram coletadas. E também das fotografias do professor Salzano.    HUTZ: A Verônica tem muita fotografia que ela tirou quando foi lá na aldeia.  Tu não conseguiste esse contato com a Verônica?    DENT: Ah, consegui. Só a gente não conseguiu encontrar um tempo para uma  entrevista porque ela estava fazendo um concurso na Fiocruz, acho. Então eu vou  tentar voltar ao Rio para ver se posso conseguir falar com ela e aí trocar  ideias, né? Mas ela falou que estava interessada. Então isso é questão de  encontrar quando eu posso estar de novo.    HUTZ: Ela é muito querida, a Verônica. E ela tem fotos lindas dos quinze dias  que ela passou na aldeia.    DENT: Não, ela deve ter. Ela trabalhou, estava lá junto com uma outra  pesquisadora da Fiocruz que contou bastante sobre a experiência de estar lá na  aldeia. E comentou que Verônica estava lá junto com ela. Por isso que...    HUTZ: A Verônica foi uma vez para coletar para o doutorado dela. E eu acho que,  durante o pós-doc, ela foi mais umas duas vezes com o Coimbra.    DENT: Sim. E para apresentar também os resultados.    HUTZ: É, uma das vezes eu sei que foi para apresentar os resultados.    DENT: Não, eu estou esperando poder conversar com ela, porque acho que vai ser  muito bom. Se ela concordasse seria muito legal poder ler as reflexões dela,  que mandou depois da experiência. Não sei se ela vai concordar, mas seria  muito interessante ver como ela contou depois a experiência de fazer trabalho  de campo.    HUTZ: Ah, eu acho que para ela foi um aprendizado fantástico. Ela amadureceu  muito com isto, como pesquisadora, como pessoa.    DENT: Claro. Essa questão de trabalho de campo é uma coisa que está surgindo  muito na minha pesquisa. As pessoas que fizeram trabalho de campo, de algum  jeito, sempre... ou que fizeram intercâmbio internacional, sempre comentam  muito sobre isso. Como experiências formativas, né?    HUTZ: É. É um outro olhar.    DENT: Sim. Bom, muito obrigada, professora.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras. audio O seu uso e divulgação estão restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=hutz-20140707.xml hutz-20140707.xml      </text>
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                <text>Profa. Mara Hutz, entrevista, 07 de julho de 2014</text>
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                <text>Mara Helena Hutz é professora no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na entrevista a narradora conta a origem começou sua graduação em Biologia, onde fez iniciação científica e seu mestrado e doutorado foi com o Professor Salzano, na UFRGS. No mestrado sua pesquisa foi sobre a glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e em seu doutorado, com orientação do Professor Salzano na UFRGS, estudou anemia falciforme. Hutz viveu a experiência de lecionar na UFRJ, além de ter a possibilidade de desenvolver a análise de dados de seu doutorado na Universidade de Michigan, em Ann Arbor. A narradora faz um pós-doc em Johns Hopkins, para aprender sobre a tecnologia do DNA e no retorno ao Brasil, procura possibilitar o estudo sobre DNA na UFRGS e para isso torna-se chefe de departamento, conseguindo verbas para a estrutura física e de equipamentos para o departamento. Esse processo a fez ficar seis a sete anos fora do laboratório, quando retorna em 1993/1994 para a pesquisa. Hoje, tem projetos sobre déficit de atenção/hiperatividade e doença de Parkinson, além de continuar os estudos em genética das populações com indígenas. Relata que uma alteração importante de sua carreira acadêmica foi a mudança de objeto de pesquisa de anemia falciforme para metabolismo de lipídeos, pois a possibilitou um outro olhar sobre a genética. A narradora cita sua relação com a ditadura militar ao relatar perseguições a conhecidos, além disso, apresenta seu ponto de vista sobre a relação dos procedimentos éticos na pesquisa com indígenas. Depois de terminar a entrevista, a entrevistadora e Hutz  ligaram a gravadora novamente. Hutz narra um episódio sobre a ida dos chefes Xavante e Suruí à UFRGS como momento de troca de conhecimentos. &#13;
Essa pesquisa é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da UFRGS, sobre anemia falciforme e genética de populações relacionada aos indígenas.</text>
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              <text>    5.4      Profa. Maria Cátira Bortolini, entrevista, 28 de janeiro de 2014   01:58:20   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     trajetória acadêmica  evolução humana  mudanças científicas  DNA  regulamentação da pesquisa  genética antropológica e histórica  divulgação científica  pós-doutorado Maria Cátira Bortolini Rosanna Dent .mp4 bortolini-20140128.mp4 2:|22(3)|45(7)|73(11)|102(4)|132(5)|162(6)|192(2)|225(7)|255(10)|290(7)|319(8)|345(3)|372(11)|397(2)|427(10)|446(2)|470(9)|500(3)|530(7)|561(4)|594(13)     0   https://youtu.be/OUZl-C-L8vs  YouTube         audio    pt-br     0 Bortolini fala sobre o interesse em estudar desde sua infância e a falta de estímulo para a ciência durante a ditadura           Afeto ; ambiente político ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; Economia Moral ; entusiasmo ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa ; valores ; vocação   Afeto ; Contexto Político-Economico ; Economia Moral ; Formação Acadêmica                       314 Bortolini fala sobre sua experiência e trajetória acadêmica           Afeto ; 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valores ; vocação   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3227 Bortolini descreve o início de seu trabalho com povos indígenas           branco ; colaboração e acordos ; concepção de ciência ; Diversidade Biológica ; doenças genéticas ; Economia Moral ; Ética ; ética formal ; evolução humana ; Genética Médica ; grupo continental ; indígena ; mestiço ; Mudanças importantes na ciência ; negro ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; resistência do pesquisador   Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       3808 Bortolini fala de interdisciplinaridade, genética histórica e genética antropológica           Afeto ; ancestralidade ; antropologia ; colaboração e acordos ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; ética formal ; grupo continental ; história ; humor ; indígena ; Interdisciplinaridade ; negro ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; resistência do pesquisador ; valores ; vocação   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       4671 Bortolini fala sobre colaborações prazerosas e orientação disciplinar dos colaboradores           Afeto ; antropologia ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; grupo continental ; humor ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; valores ; vocação   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       5208 Bortolini fala da criminalização da diversidade biológica por c.s.           antropologia ; branco ; classificação diversidade bio ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; doenças genéticas ; Economia Moral ; fator externo à pesquisa ; Gênero ; Genética Médica ; Interdisciplinaridade ; negro ; Raça, Etnia e Identidades ; raciocínio   Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Gênero ; Genética Médica ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades                       5817 Bortolini fala de experiência pós-doc em UK           Afeto ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; pós-doutorado ; Prática ; processamento de dados ; publicações ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; rotina de trabalho ; técnicas variabilidade genética ; viagem   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       6268 Bortolini fala sobre a genética dos gaúchos           ancestralidade ; classificação diversidade bio ; Diversidade Biológica ; evolução humana ; indígena ; miscigenação ; Raça, Etnia e Identidades   Diversidade Biológica ; Raça, Etnia e Identidades                       6413 Bortolini comenta sobre parcerias com Rolando e Salzano e de suas contribuições           Afeto ; antropologia ; classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; evolução humana ; grupo continental ; indígena ; Interdisciplinaridade ; Prática ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; técnicas variabilidade genética   Afeto ; Diversidade Biológica ; Interdisciplinaridade ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       6921 Bortolini reflete sobre a carreira prazerosa           Afeto ; entusiasmo ; experiência afetiva ; relação afetiva com colaborador   Afeto                       oral history A entrevista com Maria Cátira Bortolini foi conduzida no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no dia 28 de janeiro de 2014. Bortolini é professora associada do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na entrevista, a narradora comenta sua trajetória na academia desde a graduação, referindo-se às principais influências que a levaram a escolher a Biologia e, posteriormente, a Genética e a Evolução Humana. Ela descreve as principais mudanças que ocorreram nas práticas acadêmicas ao longo do tempo. Dentre essas mudanças, está a entrada do DNA nas pesquisas em Genética, as novas exigências éticas para coleta e uso de amostras de diferentes populações, a instauração de um Comitê de Ética com suas regras específicas, o aumento da busca por publicações em sua geração de cientistas. Especificamente sobre o campo de pesquisa com populações indígenas, a narradora se dedica a explicar quais são as principais questões de pesquisa do campo e a comentar as novas exigências que tornam cada vez mais difícil a coleta de amostras. Além disso, trata das diferenças que sentiu na transição de aluna à professora/orientadora, profissão que considera também um retorno social pela formação pública e gratuita que teve acesso desde a graduação até o doutorado. Nesse mesmo sentido ainda, conta como foi ter passado em um concurso logo após o término do doutorado, ter conseguido um laboratório próprio logo no início da carreira e por ter sido convidada por Salzano a publicar um livro por meio de uma universidade importante. Dedica-se, ainda, a explicar o que entende por Genética antropológica e histórica - maneira que classifica sua atuação - e a descrever suas práticas interdisciplinares e experiências de colaboração com pessoas de diferentes campos e países. Comenta ainda as principais dificuldades e barreiras encontradas no diálogo com cientistas sociais, que se dariam em torno da “diversidade biológica”. Finalmente, comenta ainda sobre sua experiência na tradução da ciência para a mídia leiga e em seu pós-doutorado em Londres, além de listar os trabalhos, tanto os próprios quanto os do professor Salzano, que considera os mais importantes.  DENT: Hoje é o dia 28 de janeiro de 2014. Eu sou Rosanna Dent, doutoranda em  História das Ciências da Universidade de Pensilvânia , e eu tenho o prazer de  conversar hoje com Maria Catira Bortolini, professora associada da Genética na  Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Estamos aqui na UFRGS, no Instituto  de Biociências em Porto Alegre.     Professora, eu gostaria de começar pedindo para você nos fazer um apanhado das  influências , assim, da família, da escola, quais são os fatores que levaram  você a estudar Biologia, a se interessar no tema? Desde o início, pensando na  versão de você de menina, de criança.    BORTOLINI: Na escola eu não tive uma Biologia muito instigante, o professor  não era, que eu me lembro, desses professores de Biologia, não teve nenhum que  se destacou. Eu tive um professor muito bom na Física, que ele era muito bom  mesmo. Então ele dava um estímulo grande, mas era um momento também mais...  Acho que a gente vivia uma época de uma ditadura no Brasil. Era um momento de  pouca criatividade, eu diria assim.     A ciência brasileira, assim, a gente não ouvia, não era uma rotina na minha  família se falar de ciência. Era uma coisa, assim... Enfim, não era um  ambiente de livre pensar, eu diria. Não sei se era pelo fato de ser uma  ditadura, ou por ser uma família de pessoas que não tinham nível de  escolaridade superior.     A minha mãe era professora, tinha uma escolaridade maior. Meu pai não, meu pai  só tinha até a quarta série do ensino básico. Então não sei se era só o  ambiente, ou o era também o ambiente social que não favorecia muito a... Só  depois, quando eu fiquei maior. E também o tipo de personalidade que eu  sempre... Eu não sou uma pessoa que me contenta com as explicações fáceis.     Eu não tenho/apesar de vir de uma família católica, nunca achei que aquelas  explicações eram muito boas para coisa nenhuma. Então já vi que eu não  tinha um cérebro preparado para coisas que explicavam os fenômenos de maneira  mitológica e tal. Então é claro que eu tenho cérebro preparado para a  ciência. Não acredito, não consigo ver um cientista explicando as coisas de  uma maneira fácil.    Então eu acho que eu tinha uma personalidade nata já, bem típica de quem vai  ir para uma área mais racional , em termos de buscar explicações para as  coisas. E depois, eu, na hora de fazer vestibular, foi meio assim: &amp;quot ; vou fazer  Biologia, que eu acho legal&amp;quot ; . Também não se falava em Genética, só durante o  curso que eu vim conhecer a Genética e a Evolução, também não se falava  muito. Foi meio inesperado, meio ao acaso assim, eu diria.     A minha mãe diz que eu falava disso quando eu era criança. Eu ganhei um  microscópio de uma tia minha e brincava, isso eu lembro. E que eu falava (eu  não lembro), desse interesse pelas coisas naturais. Lembro de brincar com  formiga e ficar observando tempo como elas agiam, outras coisas da natureza e  botar no microscópio, isso sim eu me lembro. A mãe lembra mais coisas que eu  fazia quando era criança.    Mas a Genética foi durante a graduação mesmo, mas eram ambientes muitos  diferentes do que a gente tem hoje e que a gente vê. Eu tive a possibilidade de  ver o florescer da ciência no Brasil, digamos assim. Antes eram poucos  pioneiros e, eu acho, muito encastelados dentro do ambiente acadêmico.     Hoje a gente vê a ciência de uma maneira mais presente no cotidiano, as  pessoas falando mais. Isso não causa surpresa mais, ter um cientista no seio de  uma família. Quer dizer? No tempo que eu era criança isso era coisa de outro  mundo. Cientistas eram os astronautas que a NASA tinha, sabe? Era uma coisa,  assim, não era uma coisa próxima. Isso mudou muito e foi rápido.     DENT: Ingressou na faculdade em que ano?    BORTOLINI: Em 1980, era um momento importante na história do Brasil, porque a  gente estava saindo da ditadura. Já tinha tido a lei da anistia em 79,  participei de alguns movimentos em 80, na faculdade, por democracia. Sim, ainda  tinha bastante repressão policial e tal, ainda era uma ditadura. Então foi um  momento muito efervescente.    Ao mesmo tempo, era um momento que a ditadura não tinha mais poder para uma  repressão violenta. Então a gente se manifestava, fazia paralisações, fazia  protesto, policia vinha, o exército vinha, mas naquele momento já não tinha  mais mortos, presos ou desaparecidos. Então foi um momento interessante que eu  vivenciei na universidade.     Participando da reconstrução da UNE, da União Nacional dos Estudantes. Então  eu fui nas primeiras assembleias da UNE depois que ela sai da clandestinidade.  Então foi bem legal, eu lembro que era muito efervescente aquele momento,  assim, da vida acadêmica.    DENT: Pode descrever um pouco o processo de se formar nessa época? Como eram as  matérias que davam? Como eram...    BORTOLINI: A gente tinha forte a parte de Zoologia e Botânica, muito  sistemática. Fisiologia. Aí quando eu tive, a gente já naquela época, a  Biologia tinha três disciplinas voltadas para a Genética. Acho que hoje  também têm essas três obrigatórias, que foram muito importantes: que é a  Genética 1, Genética 2 e Evolução.     E esses professores que me deram essas disciplinas foram muito importantes. Eu  lembro da professora Suzana Cavalli, do professor Aldo Mellender Araújo, que  foi assim, que me deu aula de Evolução. Professora Vera Geiskey e professores  muito bons, que estimularam muito a imaginação de quem tem uma mente preparada  para curtir ciência e gostar de ciência.    Eu comecei a fazer/antes de ir para a Genética eu já fiz uns estágios como  voluntária na Bioquímica, e depois aí eu conheci a Genética. Comecei a  estagiar com o professor Aldo, que trabalha com Genética Ecológica, a gente  fazia saídas de campo.    Eu, como Bióloga, nunca gostei muito das saídas de campo, não gostava. Aquela  coisa de mato, bicho, mosquito, acampamento, não gostava daquilo, do  desconforto. Assim, aquele Biólogo de ir para o mato eu achava legal. Assim,  como eu vou te dizer? Por um lado eu achava legal, mas por outro, o desconforto  gerado, o frio que a gente passava naquelas barracas, mosquito, não era algo  assim. Então eu já sabia que não seria Bióloga de mato.    E com o professor Aldo, ele trabalha, o organismo modelo dele, são borboletas.  Então a gente fazia saídas de campo para fazer estudos com as borboletas, e eu  não gostava daquilo. Por trás das perguntas colocadas, eram questões  biológicas interessantes, evolução do mimetismo, coisas que eu lia e gostava,  discutia bastante com ele.     Mas aquela coisa de passar a tarde no mato, o dia inteiro no mato, catando  borboleta, marcando borboleta, e tal tal tal. Eu não gostava daquilo. Então,  na hora de fazer mestrado, eu preferi os humanos. [Risos.]    DENT: E nessa época fez pesquisa com as questões das [borboletas?]    BORTOLINI: [Das borboletas?] Sim, a gente tinha um projeto que era para estudar  um tipo de borboleta, justamente a questão do mimetismo. E aí foi muito  frustrante, porque acabou dando em nada. Porque envolvia a captura e recaptura  das borboletas, marcar elas e recapturar depois.     Só que deu uma seca naquele verão, naquela primavera, agora eu não me lembro,  e as borboletas desapareceram. Então foi muito frustrante para mim, não tive  resultado nenhum com as tais das borboletas, com o projeto, naquela ocasião, do  professor Aldo. Foi bem frustrante para mim.    E aí eu resolvi fazer mestrado, conversei com o professor Aldo que eu queria ir  para área de humanas. E na faculdade também eu gostava de organismos maiores.  Sempre gostei mais de mamíferos. Uma coisa que eu detestava na aula de Biologia  também, nas aulas de Fisiologia, eu não fui em nenhuma aula de Fisiologia que  tinha experimentos com animais, não fui em nenhuma.    Nós tínhamos um professor, professor Olegário, que era muito legal. Muito  maluco, ele tinha problema com álcool até. Mas ele era muito legal, os alunos  gostavam. Quando ele estava bem ele era um ótimo, um excelente professor. Só  não teve uma carreira mais brilhante por causa do alcoolismo.    E ele não fazia chamada. Então eu ia nas aulas teóricas e nunca fui nas aulas  práticas, com cachorros e tal. Era algo que me causava profundo desconforto.  Mesma coisa nas aulas de Zoologia, e a gente tinha muitas que abriam os animais.  Então todo filo que a gente estudava e ia estudar, tinha um animal que era  dissecado. Eu nunca participava, ficava longe e não via. Também me causava  muito desconforto, qualquer experimento envolvendo animal, assim.    Hoje é completamente proibido. Naquela época, para você ter uma ideia, se  catava, os professores tiravam os animais da natureza, tartaruga de Itapuã, e  iam para aula para fazer dissecação. Hoje é completamente proibido, né? Vê  os outros tipos de mentalidade que se tinham na época, mas eu não gostava,  nunca gostei disso. Ficava longe.     E vou te dizer, para se conseguir, era uma coisa inédita no curso de Biologia.  Passei todo o curso de Biologia sem nunca ter visto um bicho ser sacrificado.  Porque se tinha, e eu estava na aula, eu ficava longe, não via. E quando não  precisava, o professor não fazia chamada, eu não ia.     Então era algo que já sabia também, que fazer ciência envolvendo  experimentação animal não iria ser comigo. Me sinto absolutamente  desconfortável com o sofrimento de animais.    DENT: E aí se interessou mais na parte humana?    BORTOLINI: Me interessei na parte de humana. Eu gostava muito de comportamento,  a gente não tinha, a parte de grandes mamíferos a gente não teve na  faculdade. Era uma coisa que me interessava muito. Hoje tem, mas na época não  tinha. A gente fez uma excursão que eu nunca me esqueci, que foi no Parque  Nacional do Turvo, no norte do Rio Grande do Sul, que é o único parque  nacional que ainda tem onça pintada.    Então a gente andava e a gente via as marcas das onças, assim. Hoje elas são  bem estudadas naquela região ali. Mas era uma coisa que eu pensava, assim,  &amp;quot ; Bah! Que legal estudar esse tipo de bicho&amp;quot ; . Mas a gente foi com um professor de  Botânica, era para fazer coleta vegetal. Os grandes mamíferos passavam ao lado.    Gostava de comportamento, e depois com a Genética fui me encantando com a  Evolução, e com a evolução humana achei o ponto forte. Genética de  populações eu também gostei muito, então aí comecei a me interessar por isso.     E aí fiz a prova de mestrado, aí eu passei e conversei com o professor Salzano  e com a professora Tania Weimer, na ocasião. E na época os dois me  entrevistaram, o professor Salzano estava com muitos orientados e acabei indo,  fui orientada da professora Tania, e que trabalhavam juntos na época, assim,  faziam parte do mesmo grupo. Mas sempre com um contato muito próximo do  professor Salzano.     E a professora Tania foi muito importante, porque ela foi uma pessoa que, além  de ter uma grande capacidade de orientação é uma pessoa muito gentil, muito  amável. Sempre, se eu tenho exemplo de orientadora eficiente, competente,  cordial, eu lembro da professora Tania. Gostaria de ter a paciência, que ela  teve comigo, com os meus orientados, porque ela sempre teve muita paciência.     E aí eu fui para a Genética e comecei cada vez a gostar mais. Mas no início  as pessoas da família não entendiam muito direito. Eu lembro que quando eu  terminei o mestrado e comecei o doutorado, meu irmão, que é advogado: &amp;quot ; Mas tu  não vai parar de estudar? Tu não vai trabalhar nunca?&amp;quot ;  Sabe?    Aquela questão assim, que está sempre estudando. Como assim não vai deixar de  estudar? O que que é isso? Vai fazer doutorado agora? Tu vê, na época, já  era nos anos &amp;#039 ; 90, ainda tinha essa coisa assim. &amp;quot ; Essa aí não vai parar de  estudar, para que que serve isso?&amp;quot ;  Tinha essa coisa: &amp;quot ; é hora de trabalhar, não  está na hora de ficar fazendo...&amp;quot ;     DENT: E o que achavam do tema, assim, da Genética, do fato de que você estava  estudando Genética?    BORTOLINI: A mãe sempre foi uma pessoa curiosa com ciências, e ela sempre  gostou. Então a mãe sempre me perguntou. Acho que a pessoa da família que  mais gosta das coisas que eu faço é a mãe. Ela me pergunta. E quando sai uma  matéria na imprensa leiga, que ela pode passar... Porque ela fica no Facebook,  eu não tenho Facebook, mas a mãe tem. Ela passa para os parentes, para as  amigas dela e tal. A mãe gosta, pede para mim explicar as cosias para ela  assim. Da minha família, a pessoa mais interessada realmente é minha mãe.     DENT: E como iam reaccionando [reagindo] as outras pessoas? Os amigos, primos,  as pessoas que...    BORTOLINI: Não entendiam, não entendiam.    DENT: Como era visto entrar para fazer um doutorado [na ciência?]    BORTOLINI: Ó, uma] coisa assim, ó. O fato de tu entrares na UFRGS sempre foi e  continua sendo uma coisa de prestígio. Então o fato de tu estares na UFRGS é  prestigioso, mesmo que eles não saibam o que tu está fazendo. &amp;quot ; Ah, ela tá na  UFRGS.&amp;quot ;  Sabe? &amp;quot ; O que que ela tá?&amp;quot ;  &amp;quot ; Não sei, só sei que está na UFRGS&amp;quot ; .  Sempre foi uma coisa prestigiosa.     Eles sabiam que eu fazia uma cosia importante, poderia ser importante, mas não  sabiam que era. Então era mais ou menos assim. [risos] Não sabiam, sabiam que  era na UFRGS, então é importante. &amp;quot ; Mas exatamente o que que é, não sei.&amp;quot ;     DENT: E quando é que explicava que ia estudar, por exemplo, a dissertação do mestrado?    BORTOLINI: Do mestrado? Pois é, daí como eu fazia a conexão com a história  ficava mais fácil. Através dos dados genéticos nós vamos tentar recortar a  origem dos africanos que chegaram no Brasil. Pesquisar melhor. As pessoas  entendiam mais ou menos. Então aí: &amp;quot ; ah que interessante&amp;quot ;  e tal. E foi indo assim.     Depois, quando entra a palavra DNA no mundo das pessoas, aí as pessoas começam  a ter mais interesse em saber. &amp;quot ; Ah, tu estuda o DNA? O que que é que o DNA?  Como é que é a história?&amp;quot ;  As pessoas perguntam. Aí passou a ser... Porque  antes era tudo muito nebuloso.    E também, as ferramentas que a gente tinha eram muito pobres para a gente  resolver os problemas que a gente perguntava. Questões de evolução  biológica, dinâmica, tudo que eu faço hoje, dinâmica de mestiçagem,  evolução das populações humanas depois que saíram da África. Tudo a gente  tentava responder por polimorfismo de proteína, que era uma cosia muito singela  para tentar responder as perguntas que a gente fazia.    Então a gente fazia/a gente tirava leite de pedra, como a gente diz. Conseguir  tentar fazer alguma coisa com ferramentas que respondiam de maneira muito pobre.  Não só a parte experimental, como a parte de análise também. A gente tinha  que fazer a mão, fazer análise na mão.     Aí depois veio computador. O primeiro computador que eu usei foi no meu  mestrado, e não era nem na universidade, era na casa da professora Tania. Rodar  umas análises de distâncias genéticas entre as populações negras, que eu  estava estudando, e as populações da África.     Então as análises também eram bem menos robustas. O acesso às maquinas era.  Eu tinha feito tudo à mão, aí a professora disse: &amp;quot ; não, mas agora eu tenho  um computador na minha casa, pessoal, tu vais poder rodar as análises.&amp;quot ;  &amp;quot ;  Aí  então, hoje eu vejo a robustez de uma tese de doutorado.    Depois do doutorado já entrou com a parte de DNA. Já melhorou, já melhorou um  pouco. Mas o meu mestrado eu acho que foi algo muito singelo, hoje eu vejo como  algo muito singelo. Foi uma tentativa de responder questões da origem dos  africanos que vieram, com ferramentas que não poderiam responder o que eu  estava querendo perguntar. Embora a gente fez várias tentativas.     DENT: Poderia explicar um pouco mais o desenho da tese, da pesquisa da tese?    BORTOLINI: Do mestrado?    DENT: Do mestrado e do doutorado, já passando para...    BORTOLINI: Foi um pouco assim: eu cheguei, eu me lembro, eu disse para a  professora Tania e para o professor Salzano: &amp;quot ; eu quero trabalhar com evolução  humana, genética de populações.&amp;quot ;  &amp;quot ;  E eu nunca vou me esquecer que a  professora, acho, ou o professor Salzano, disseram assim: &amp;quot ; chegou para nós umas  amostras de isolados negros da Venezuela, de uma colaboradora. E nós temos  outros isolados negros do Pará, etc. Te interessa?&amp;quot ;  &amp;quot ; Me interesso.&amp;quot ;  &amp;quot ;     Então foi uma amostra de conveniência. Assim, era uma amostra interessante,  estava chegando, de isolados negros. Aí eu fui começar a estudar a história  da África no Brasil, história da escravidão e tudo que podia, que já tinha  sido publicado sobre a história da escravidão e sobre a África naquele  momento. A biblioteca é aqui do lado, né? Então eu li tudo para fazer essa  ponte entre genética e história, para tornar a coisa, assim, mais interessante.     Eu sempre achei que falar de evolução humana e fazer genética humana, tu tens  que estar contextualizando, tu vai contar uma história da genética de  populações. Não é só assim... Eu me negava a querer descrever  polimorfísmos. Isso me negava. Ah, na população tal tu encontra tal alelo. Me negava.     Não vou fazer nada descritivo, então vou contextualizar em algo que interessa  e que pode contar uma história relevante para resgatar a história das  populações descendentes de escravos que chegaram no Brasil, que estão no  Brasil. Ou que estavam na América, no caso das populações da Venezuela.    Daí deu para o mestrado e o doutorado, eu uso as mesmas populações. Mas dai  já com DNA mitocondrial. Então eu acho que o meu estudo com DNA mitocondrial,  que foi publicado ainda na Human Biology em 1997, foi o primeiro estudo de DNA  mitocondrial com populações não norte americanas, não europeias.    E são sequências que podem, assim... por isso que eu digo, a questão da  evolução da tecnologia é uma coisa impressionante. Aquele dado do DNA  mitocondrial pode ser usado até hoje. Porque aquilo lá, se alguém quer  estudar população de descendentes de escravos, pode pegar aquelas sequências  e usar. Sabe? Então é um dado absolutamente fidedigno, pode usar ad eternum,  que serve, que se presta pra isso.     DENT: E essas amostras que o colaborador da Venezuela mandou...    BORTOLINI: Professora Zulay Layrisse, é uma pesquisadora muito importante,  casada com um pesquisador importante da Venezuela. Eram acordos com o pessoal do  Salzano, naquela época se fazia muito isso. E teve uma amostra que eu mesma  coletei, isso também é uma novela. Fiquei sabendo, através de uma reportagem  na Zero Hora, uma tia minha falou: &amp;quot ; ah, você está estudando grupos, eu vi uma  reportagem na Zero Hora de um grupo chamado Paredão. Aqui no interior.&amp;quot ;  Perto  daqui, na subida, na grande Porto Alegre.     E eu fui até lá com o meu marido. Foi difícil coletar com eles, coletar  deles. E a gente teve que conversar, na época era só consentimento oral.  Porque a gente não tinha, né? Explicar foi muito difícil. Assim, eu consegui  uma amostra, acho que umas 50 pessoas pelo meu cálculo. Hoje é um quilombo,  foi reconhecido, um lugar muito bonito, tinha aquelas famílias.     Mas eu fui lá, simplesmente fui lá e comecei a conversar com eles. E consegui  de alguns, foi assim uma coisa que hoje eu não faria, hoje não teria ne  sentido fazer, né? Trabalho com outros tipos de amostragem.     E na época eu fui, e o Clenio [Doete Machado] foi também. Fui umas duas vezes  e teve uma coisa que me incomodou muito lá na comunidade. É uma comunidade  muito pobre e eles pediam coisas, e então eu não me senti muito confortável  também. Faz uma coleta, mas são pessoas pobres, eu vou utilizar material  biológico deles para fazer meu estudo, eles não vão ganhar nada com isso.  Não gostei, não gostei.     E aí, bom, foi essa experiência que eu tive lá. A gente coletou, usamos muito  esse material para estudos, né? Mas fiquei com essa sensação desagradável,  de ausência de retorno para a comunidade, de alguma coisa. E hoje, a questão  da pesquisa científica, acho que já tem que ter um protocolo aprovado por um  Comitê de Ética, com o consentimento assinado pela pessoa. Se sabe que não se  pode dar nada em troca, são voluntários.     Então, naquela época, eu me sentia desconfortável por não dar nada em troca.  Dava umas bolachinhas para as crianças que cercavam, assim. Mas eles pediam,  eles pediam comida, que era para levar comida. E eu ficava constrangida. &amp;quot ; Será  que eu levo? Mas aí eu vou estar comprando.&amp;quot ;  &amp;quot ;  Levava, assim, umas coisinhas  para as crianças, né?     Hoje, se eu fosse fazer, eu não poderia levar nada, nem um copo de água para  eles. Então eu não gostei, assim. Essa, digamos assim, utilização de uma  comunidade pobre para estudo científico, com pessoas sem capacidade de  entendimento do que tu estás fazendo, não sei.    Por isso eu acho que está muito certo em ser avaliado por um Comitê de Ética.  E na época eu me questionei pessoalmente, não tinha Comitê de Ética.  Conversei com a minha orientadora, com o professor Salzano. &amp;quot ; Não, é assim  mesmo. Tu tens que conseguir um consentimento deles, os maiores de idade.&amp;quot ;  &amp;quot ;  A  gente não coletou de crianças. E o consentimento oral é o que vale.     A pessoa tem que ser um voluntário, tem que entender que é um estudo de uma  Universidade. Um chegou a dizer que iria vender o sangue na Santa Casa. &amp;quot ; Tu vais  lá para Porto Alegre vender o sangue na Santa Casa.&amp;quot ;  &amp;quot ;  Eu disse: &amp;quot ; Não, não  vai ser isso. É um estudo para saber a origem de vocês e tal.&amp;quot ;     DENT: E, assim, explicava o estudo? Como explicavam para uma pessoa?    BORTOLINI: Ah, eles sabem. São pessoas muito pobres, né? &amp;quot ; Eu estou estudando a  história dos negros do Brasil. Vocês formam uma comunidade remanescente,  vocês conhecem a sua história?&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, ex-escravos e tal.&amp;quot ;  &amp;quot ; Então é isso, pelo  sangue a gente consegue ver algumas coisas interessantes sobre a sua origem e  tal.&amp;quot ;  E uma coisa que eu fiz (foi o professor Salzano que disse que era para eu  fazer), era retornar com o sistema sanguíneo, né? A tipagem do sistema ABO  para eles, isso eu que fiz. Hoje é uma comunidade quilombola reconhecida. Lá  tinha uma senhora que era líder, Dona Anita, eu acho, não me lembro bem o nome  dela. Foi ela que me disseram/foi ela que foi o alvo da matéria na Zero Hora e  foi com ela que eu falei. Sem ela não tinha como acessar a comunidade.     Mas te digo que não gostei, não gostei. Justamente por causa dessa questão.  Você ver pessoas pobres, o nível de entendimento certamente era nenhum. E hoje  eu não faria, hoje eu não faria não.    DENT: Então aí a tese de doutorado foi focada nesses estudos de umas...  quantas populações? Eram três? Essas três populações?    BORTOLINI: Eu não me lembro. Eram essas populações isoladas, mais Porto  Alegre e mais Salvador. Aí entravam já de voluntários de bancos de sangue. De  estudos de caso-controle, já tinha grupos trabalhando com estudos  caso-controle. E tinha os voluntários dos controles, né?    E aí já entra essa questão, também, de estudo genético de modo geral,  questão ética já entra mais, o que exatamente. Logo quando começa, assim, a  gente tem que definir bem, para ter os pareceres de ética, o doutorado já tem  que ter. Aí a gente tem que definir exatamente o tipo de sistema que você vai  estudar, e no doutorado já entra essa questão.     Eu já lembro, porque no mestrado eu lembro que a gente, bastava, para as  revistas, a gente dizer que eram voluntários. Que tinham sido voluntários, que  tinham sido convidados a participar. E o que a gente tinha era a informação  oral de que eles aceitaram participar do estudo.    Hoje eles não só tem que... tem que ter o consentimento livre e esclarecido. O  termo esclarecido não está ali à toa, esclarecido tem que se garantir que a  pessoa entendeu exatamente o que a pessoa está querendo dizer. A gente não  sabe exatamente o quanto a pessoa vai entender, mas pelo menos, eu acho que eu  hoje me sinto muito mais confortável em coletar...    Tanto que eu vim coletar depois só agora no CANDELA, nunca mais coletei. Eu me  sinto muito mais confortável. Meu conforto sobe, assim, exponencialmente na  medida em que eu percebo que as pessoas estão entendendo o que a gente está  fazendo. Então, CANDELA que já pegou uma amostra de pessoa com nível de  escolaridade superior, as pessoas vindo buscar aquela questão de ancestralidade.    Então aí sim eu me sinto muito confortável em fazer coleta. Então voltei a  fazer coleta, desde essa época, nos anos 90, só agora. Porque é isso que eu  te digo, naquela época eu achei que aquilo não estava muito certo. Era o  procedimento e todo mundo fazia, todo mundo fazia assim.     Chegava na comunidade, falava com a liderança, pediam autorização,  perguntavam para as pessoas se elas aceitavam participar de um estudo.  Explicavam mais ou menos o estudo, fazia a coleta, agradecia a pessoa em um  paper que eles nunca iriam ler, enfim.    DENT: E sabes se esses dados foram usados no processo para assegurar [a  identidade da comunidade?]    BORTOLINI: [Não sei, acho que não]. Porque, esse tipo de discussão, acho que  aparece no Brasil no final dos anos 90, anos 2000 né? Acho que não foram  usados, acho que não. Acho que foi político.    [Pausa -- áudio 2]    BORTOLINI: Aonde é que nós paramos? Eu não lembro mais o que eu estava falando.    DENT: Estava terminando um pouco de explicar como mudou, que agora se sente mais confortável.    BORTOLINI: [Mas eu] levei quantos anos? 20 anos para voltar a fazer coleta. Esse  sentimento que eu não me sentia confortável, que as pessoas não estavam  entendendo direito o que eu estava fazendo. Era uma comunidade pobre, eu não  sabia como manejar essa coisa de pobre. Eu estou tendo a participação como  voluntário deles no meu projeto de pesquisa, eles são muito pobres.     Eles pedem coisas, para mim dar para eles, eu não sei se eu dou ou se não dou,  se eu posso dar, se eu não vou estar comprando se eu dou, sabe? Ao mesmo tempo  se sente muito mal por não dar, porque estão te pedindo coisas muito simples,  comida. Então foi algo, assim, eu me deparei com uma situação que realmente  eu não gostei. Não gostei, não gostei.    DENT: E comentou que desde essa época já mudou um pouco, bom, bastante, a  regulação por parte da universidade, tanto como o governo. Quando iniciou essa  mudança para ser uma coisa mais formalizada, ou a instituição dos Comitês de  Ética, por exemplo. Lembra mais ou menos, se foi durante o [doutorado?]    BORTOLINI: [Foi durante] o doutorado, porque daí eu já estava trabalhando com  essas amostras e eu tive que argumentar. Porque um dos primeiros pareceres de  ética, eu posso até ver qual é o primeiro que eu tenho sobre o estudo de  populações negras, mas eu acho que é de 1997. Eu argumento que eu vou usar  amostras que eu já tinha coletado e que eu tinha conhecimento oral.     Então, na verdade, o Comitê de Ética, naquela ocasião, ele me deu ok para  usar amostras que eu já tinha coletado. E eu tinha o consentimento oral. Então  eles me atestaram que eu podia usar as amostras, baseado no meu relato, que eu  tinha feito o contato e a coleta seguindo os procedimentos, os cuidados,  seringas descartáveis, com pessoal treinado. Foi o Clenio que foi fazer a  coleta, com muita...     E aí eles me deram. E aí eu continuei usando esse parecer de Ética durante o  meu doutorado inteiro, essas amostras. Depois eu não usei mais. Mas durante o  doutorado inteiro, deu cinco artigos científicos, todos com essas amostras.  Essas amostras dos isolados e também de grupos urbanos, que foi aí de  colaboradores. Esses estudos de caso controle, que passavam as amostras dos  controles para ampliar os estudos.     DENT: E comentou um pouco sobre o ambiente na universidade durante a  graduação. Como mudou? Como foram as mudanças durante o doutorado?    BORTOLINI: Ah, foi assim: o que eu percebi foi que, a dinâmica das  complicações eram diferentes. Embora, como eu sempre fiz parte do grupo do  professor Salzano, o professor Salzano sempre teve uma dinâmica diferenciada do  resto, ele estava à frente do seu tempo. Ele já tinha essa noção da  importância da comunicação, que tem...     Afinal, tu faz ciência, tem que chegar na comunidade científica. Então não  adianta ficar se enrolando. Porque mesmo o departamento, a gente tinha alguns  professor ou orientadores que já se aposentaram, que já saíram, grandes  pesquisadores, tinham um jeito de fazer ciência, um jeito mais antigo. Nunca  publicavam, meio o saber pelo saber.    Bom, muito bom o saber pelo saber. Mas qual é o sentido público? O mínimo é  que tu tens que dar o retorno, pelo menos para a comunidade científica. Então  essa coisa, o professor Salzano passou muito. Então, no caso do grupo, com a  influência do professor Salzano, embora eu não era orientada direta dele, mas  a professora Tania tinha sido e era do grupo, já passava essa ideia de que  ciência se faz com os pares.     Então tem que publicar teu achado, não tem que ficar redemunhando com ele pelo  resto da vida e botar em uma gaveta. Ainda mais naquela época, que as teses iam  para as bibliotecas e ninguém lia. Hoje não, hoje as teses estão nos bancos  de teses. Mas naquela época, faltou, né?     Então essa, eu nunca tive problema em publicar, sempre publiquei. Mas isso foi  uma revolução, essa questão das publicações, porque hoje atinge todo mundo.  Hoje quem não se adequa, até aquilo que tu estavas falando, talvez em algumas  áreas isso não esteja fazendo bem para a ciência brasileira.     Talvez para algumas áreas não seja bom, ou talvez nem sempre isso é bom,  porque as pessoas podem artificialmente picotar seu trabalho para aumentar o  número de publicações e a pessoa acaba perdendo o... Então isso se discute  no Brasil. E acho que tem que ser discutido, porque grandes descobertas  científicas podem envolver muito tempo de muita dedicação, e não coisas picotadas.    Mas, felizmente, eu acho que a gente nunca utilizou esse artifício, aumentar o  número de papers, né? Não passou pela nossa cabeça fazer isso. Mas o que eu  noto é que os jovens, que já vêm na iniciação científica hoje, já vêm  com ideia de paper na cabeça. Querem paper e os professores já estão muito  com isso também.     É o que eu tento passar para os alunos também. Fazer ciência, tu podes ficar,  assim, achando massa. É bom, tu te enriquece, mas tu tem que dar o retorno para  a comunidade científica daquilo que tu fez para ver se... botar para ser  discutido. Se não, não é ciência, né? Mas já, desde aquela época, no  grupo do professor Salzano já era assim. E isso foi bom.    DENT: E o ambiente mais geral? Assim, os protestos? Porque durante todo esse  tempo estava acabando a ditadura militar. Como estava? Não sei se já entrando  no doutorado...    BORTOLINI: Não, isso foi durante a graduação. Depois, no doutorado, eu já  estava fora disso. Embora casei com um militante político, eu estava fora  disso. Só me envolvi com isso na graduação. Depois já no mestrado e  doutorado já não. Já tinha criança também, já tinha bebê. Eu já não me  envolvi mais com política, militância política. Mas na graduação sim.    DENT: Em que ano entrou para fazer o mestrado?    BORTOLINI: O mestrado eu entrei em 87. Aí eu já estava só pensando em  carreira acadêmica, trabalhar, ganhar dinheiro e sustentar meu filho. Eu não  estava mais pensando em política, não estava mais nessa.    DENT: E aí depois de terminar o doutorado, entrou diretamente...    BORTOLINI: Não, aí foi muito interessante, assim. Porque o seguinte, eu tive  muita sorte. Eu terminei meu doutorado em &amp;#039 ; 96, em agosto de &amp;#039 ; 96 eu defendi o  doutorado. Em dezembro, ou em novembro, teve concurso. Então além... e depois  do doutorado eu tive uma bolsa de pós-doutora da Fapergs.     Então eu não fiquei sem receber nenhum mês. Eu pude, naquele tempo da bolsa  de pós-doutora, eu pude ficar estudando para a prova. Aí eu fiquei estudando,  botei uma escrivaninha no meu quarto, Pedro era pequeninho e eu fiquei  estudando. Aí ele passava e ficava: &amp;quot ; mas o que tu tanto estudas?&amp;quot ;  &amp;quot ;     Passei, mas foi sorte. Terminei o doutorado e abre um concurso. &amp;quot ; Vou fazer.&amp;quot ;  Aí  fiz e passei.     DENT: E qual era o processo de um concurso nessa época?    BORTOLINI: Tinha 20 candidatos, na ocasião. Era como é agora, era muito  disputado, só que... Era muito disputado, vinha gente de outros lugares. Tinha  vários colegas aqui da UFRGS que estavam terminando doutorado também, eram  doutores fazendo. Não, tinha mestres também. Naquela ocasião não precisava  ter o título de doutor, não. Tinha mestres e doutores fazendo. E aí me saí  melhor, né? Passei.     DENT: E, nessa época, tinha que definir, para entrar no concurso, uma linha de pesquisa?    BORTOLINI: Não, era geral. Isso tem sido uma regra aqui no departamento,  concursos gerais assim. Eu entrei, eu tirei o primeiro lugar. Eu entrei e, logo  em seguida, chamaram quem tirou o segundo lugar, foi a professora Katia. Logo em  seguida o terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo. Sei quem em dois anos  chamaram sete pessoas.    Foi uma coisa, assim, nunca mais na história da humanidade vai acontecer, era  uma vaga. E se aposentou um monte de gente, todas as vagas voltaram para o  Departamento de Genética, e o concurso estava válido. Então até a sétima  colocada pode entrar naquela ocasião, depois daquilo nunca mais.     Hoje, inclusive, as vagas nem voltam para o departamento. As vagas vão para a  universidade, a universidade que daí... Naquela época, todas as vagas do  departamento que tinham se aposentado nos últimos, sei lá, cinco, dez anos,  voltaram em peso. E aí tinha um concurso valendo, válido. Eu tinha entrado,  já estava nomeada.     E aí começou. Segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo. Até o  sétimo candidato, colocado entrar no concurso.    DENT: E a maioria das pessoas que entraram, eram orientados...    BORTOLINI: Eu já te digo quem são. Eu, a Katia, o José Artur aqui de cima, a  Fernanda Bered, a Eliane Bandinelli, a Eliane Kaltchuk, lá do vegetal, e a  Carmem Savietto. Sete pessoas que entraram naquele concurso. Desses, quem tem  atuação na pós-graduação sou eu, José Artur, a Fernanda. Atuação forte  na pós-graduação, né?     DENT: E como era o processo para você de entrar? De ser...    BORTOLINI: Mesma coisa, prova escrita...    DENT: Claro. O que eu quero dizer é a transição pessoal de ser estudante,  para ser professora, orientadora. Essa mudança de ser aluna.    BORTOLINI: Isso é interessante. Deixa eu falar com o Claiton um pouquinho, aí  eu quero falar um negócio bem interessante.    DENT: Tá, vamos pausar aqui.    BORTOLINI: Isso, fazer uma pausa.    DENT: Ok.    Fim da entrevista.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação dessa entrevista são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=bortolini-20140128.xml bortolini-20140128.xml      </text>
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                <text>Profa. Maria Cátira Bortolini, entrevista, 28 de janeiro de 2014</text>
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                <text>A entrevista com Maria Cátira Bortolini foi conduzida no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no dia 28 de janeiro de 2014. Bortolini é professora associada do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na entrevista, a narradora comenta sua trajetória na academia desde a graduação, referindo-se às principais influências que a levaram a escolher a Biologia e, posteriormente, a Genética e a Evolução Humana. Ela descreve as principais mudanças que ocorreram nas práticas acadêmicas ao longo do tempo. Dentre essas mudanças, está a entrada do DNA nas pesquisas em Genética, as novas exigências éticas para coleta e uso de amostras de diferentes populações, a instauração de um Comitê de Ética com suas regras específicas, o aumento da busca por publicações em sua geração de cientistas. Especificamente sobre o campo de pesquisa com populações indígenas, a narradora se dedica a explicar quais são as principais questões de pesquisa do campo e a comentar as novas exigências que tornam cada vez mais difícil a coleta de amostras. Além disso, trata das diferenças que sentiu na transição de aluna à professora/orientadora, profissão que considera também um retorno social pela formação pública e gratuita que teve acesso desde a graduação até o doutorado. Nesse mesmo sentido ainda, conta como foi ter passado em um concurso logo após o término do doutorado, ter conseguido um laboratório próprio logo no início da carreira e por ter sido convidada por Salzano a publicar um livro por meio de uma universidade importante. Dedica-se, ainda, a explicar o que entende por Genética antropológica e histórica - maneira que classifica sua atuação - e a descrever suas práticas interdisciplinares e experiências de colaboração com pessoas de diferentes campos e países. Comenta ainda as principais dificuldades e barreiras encontradas no diálogo com cientistas sociais, que se dariam em torno da “diversidade biológica”. Finalmente, comenta ainda sobre sua experiência na tradução da ciência para a mídia leiga e em seu pós-doutorado em Londres, além de listar os trabalhos, tanto os próprios quanto os do professor Salzano, que considera os mais importantes.</text>
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              <text>    5.4      Profa. Tania de Azevedo Weimer, entrevista, 21 de julho de 2014   01:11:31   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     mudanças científicas  DNA  miscigenação racial  interdisciplinaridade  ditadura militar Tania de Azevedo Weimer Rosanna Dent .mp4 weimer-20140721.mp4 2:|24(7)|50(10)|79(8)|106(7)|134(6)|165(8)|202(2)|240(9)|271(2)|300(14)|328(5)|357(9)|387(9)|411(7)|441(10)|473(1)|499(8)|531(11)|558(9)|588(7)|615(9)|643(2)|668(2)|702(8)|738(11)|773(4)|797(6)|824(10)|853(7)|887(3)|909(5)|938(8)|964(4)|1000(1)|1026(10)     0   https://youtu.be/510Cxb_SP6c  YouTube         audio    pt-br     0 Weimer comenta trajetória desde entrada na graduação a entrada no doutorado             concepção de ciência ; concepção de cientista ; Formação Acadêmica ; indígena ; iniciação à pesquisa ; mestrado ; Prática   Economia moral ; Formação Acadêmica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades                       900 Weimer explica pesquisa que fez no doutorado             doutorado ; Ética ; ética formal ; ética informal ; Formação Acadêmica ; Instituições de formação ; práticas de campo ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano   Ética ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo                       1763 Weimer fala sobre quando se tornou professora na universidade             Formação Acadêmica ; Instituições de formação ; Prática ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       1934 Weimer fala sobre suas atividades durante regime militar             Contexto Político-Economico ; ditadura ; eventos ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho   Contexto Político-Economico ; Prática ; Redes científicas e circulação                       2312 Weimer fala sobre pesquisas depois do doutorado e continuidades de pesquisas com população indígena               indígena ; instrumentos   Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2511 Weimer comenta os impactos das pesquisas do professor Salzano             Diversidade Biológica ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Diversidade Biológica ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2641 Weimer comenta os processos formais e informais de aprovação ética dos projetos             Ética ; ética formal ; ética informal                           3139 Weimer fala sobre experiências como pesquisadora e orientadora             Genética Médica ; prática ; processamento de dados   Genética Médica ; prática                       3375 Weimer comenta sobre atividades na UFRGS e na ULBRA             Formação Acadêmica ; Instituições de formação ; orientação ; Prática ; processamento de dados   Formação Acadêmica ; Prática                       3553 Weimer comenta sobre mudanças de técnicas de pesquisa genética             Avanço técnico transformador ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; prática   Mudanças importantes na ciência ; prática                       3719 Weimer fala da interdisciplinaridade com diferentes disciplinas             antropologia ; história ; Interdisciplinaridade ; medicina   Interdisciplinaridade                       4046 Weimer fala sobre sua profissão e relação com vida familiar             Gênero ; prática   Gênero ; prática                       oral history A entrevista com a Profa. Tânia Weimer foi realizada presencialmente na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 21 de julho de 2014. Tânia Weimer é professora aposentada do Departamento de Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A entrevista trata da sua formação científica em genética ainda na graduação em Farmácia e Bioquímica na Universidade Federal da Bahia ;  a mudança para a UFRGS para cursar o mestrado e doutorado sob orientação de Francisco Salzano ;  as condutas éticas informais nas pesquisas antes das regulamentações do Comité de Ética no Brasil ;  suas práticas de coleta de dados e envolvimento no manejo das amostras sanguíneas de populações indígenas ;  sua entrada como Profa na UFRGS em 1976 e sua experiência docente, incluindo relatos sobre universidade na ditadura militar ;  mudanças nas pesquisas e no espaço laboratorial com a transição para pesquisas com DNA. Ela relata seus interesses de pesquisa, desde os efeitos da radiação na genética, passando pela miscigenação racial na população do Rio Grande do Sul ;  e a genética animal. Ela refere-se ainda sobre a sua relação de orientação com Salzano e a influência dele na condução das suas pesquisas e na sua formação como docente universitária ;  além da relevância da interdisciplinaridade nas pesquisas em genética humana realizadas no Departamento de Genética e Biologia Molecular.    Esta entrevista pode interessar àqueles que querem saber mais sobre a história da genética humana e do Departamento de Genética e Biologia Molecular da UFRGS ;  o tema da ética em pesquisa em genética humana ;  as práticas da pesquisa em genética humana antes do advento do DNA ;  o estudo da miscigenação racial e de populações indígenas pela genética.  DENT: Então hoje é dia 21 de julho de 2014. Eu sou Rosanna Dent, doutoranda em  História e Sociologia das Ciências da Universidade da Pensilvânia, e tenho o  prazer de conversar com a professora Tânia Weimer, que é aposentada da  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do Departamento de Genética. Então,  professora, muito obrigada [risos] por me receber [risos].    WEIMER:  Está certo. Estou às ordens. Vamos ver no que eu posso te ajudar.    DENT:  Então, eu gostaria de iniciar só abrindo um espaço para a senhora nos  faça um apanhado da sua formação. Como chegou a estar interessada em  questões da Biologia, Genética?  Qual era, assim, o ambiente familiar que  você teve que a levou a escolher estudar sistemas?    WEIMER:  Na verdade, em termos familiares, eu não tive muita-- A minha  história tanto quanto estranha, porque eu me graduei em Farmácia.  Quando eu  estava no fim da graduação, eu me interessei pelos efeitos genéticos da  radiação.  E a professora na faculdade de Farmácia me sugeriu que eu  procurasse um estágio na Genética.  E quando eu comecei a estagiar na  Genética, eu descobri que eu não estava interessada na radiação, mas na  Genética.  E daí da Genética eu não saí mais.  Eu fiz minha iniciação  científica com a Doutora Eliane Azevedo, na Universidade Federal da Bahia,  porque eu sou baiana.  E através... A Eliane me encaminhou para fazer o  mestrado com o professor Salzano. E eu fiz o mestrado com o professor Salzano. E  depois fiz o doutorado também com ele.     DENT:  O que da questão da radiação que era interessante?     WEIMER: [Porque...]  Na Faculdade de Farmácia, a gente tem uma disciplina que  se chama &amp;quot ; Radioquímica&amp;quot ; .  E na Radioquímica, o que me interessou mais na  Radioquímica, fiquei encantada pela Radioquímica, mas não exatamente pela  radiação. Mas pelos efeitos da radiação.  E aí para entender melhor esse  assunto, eu fui estudar Genética.  E aí eu descobri que eu não queria a  radiação, eu queria era a Genética. [risos]  E aí eu permaneci na Genética.    DENT:  E poderia comentar um pouco sobre como era entrar na universidade para  fazer graduação? Como era a experiência da graduação? De fazer Farmácia--    WEIMER: [Tá]  Na ocasião que eu fiz, a gente... No Brasil, sempre teve o  vestibular.  Só que na ocasião-- Hoje em dia o vestibular é unificado, cada  universidade, alguns até já utilizam o mais geral, mas cada universidade faz o  seu vestibular.  Quando eu fiz, cada curso fazia o seu vestibular.  Era uma  prova específica para Farmácia, uma prova específica para Genética... Não  tinha curso de Genética, uma prova específica da Medicina.  Cada faculdade  tinha a sua prova específica. Então eu fiz o vestibular para fazer Farmácia.   E eu cursei a Farmácia até o fim.  E no terceiro, agora eu acho que no  último... Terceiro ano da faculdade, foi que a gente tinha a disciplina de  Radioquímica.  E aí eu procurei para estudar, para entender Genética...  Porque a gente tinha muito pouca Genética na Farmácia, a professora que deu a  disciplina da Radioquímica me sugeriu que eu procurasse o Departamento de  Genética para entender um pouco do assunto.  E aí foi que eu fui procurar o  laboratório de Genética da professora da Eliane Azevedo, que me recebeu, e eu  fiquei lá durante o ano inteiro estagiando, fazendo iniciação científica.   E aí, eu já não saí mais da Genética. Continuei na Genética para sempre.    DENT:  E qual era o projeto de iniciação científica que você fez?    WEIMER:  Na iniciação científica, eu não trabalhava com populações  indígenas.  Eu trabalhei com a falta de haptoglobina, que é uma proteína  sérica, nos recém-nascidos.  Os bebês, ao nascer, têm uma redução de  haptoglobina.  Então eu fiz uma pesquisa nesse sentido, comparando e vendo se  eu conseguia distinguir...  Salvador é uma população bastante híbrida, com  um componente negro bastante grande, com influência indígena, mas um  componente negro bastante grande.  Então eu procurei ver os efeitos dessa  falta de haptoglobina nos recém-nascidos.  E foi com esse trabalho que eu  continuei para fazer o meu mestrado.    DENT:  E como era, assim, um dia típico quando estava fazendo a pesquisa de  iniciação científica?    WEIMER:  Eu ia para faculdade e a todo momento quando eu não tinha aula, eu ia  pro laboratório.  Então em geral eu ficava um turno inteiro no laboratório,  porque a minha faculdade era muito próxima ao laboratório.  Então eu  centralizava as aulas pela manhã e ia pro laboratório à tarde, ou vice-versa,  agora eu não me lembro exatamente. Dependendo da disciplina e do dia, eu ficava  um turno na faculdade e outro...  Então eu participava da coleta de material,  eu ia até os hospitais, porque a coleta foi feita dentro de uma maternidade em  recém-nascidos.  Eu ia pros hospitais fazer a coleta, eu fazia a parte de  laboratório, eu participava de seminários, de discussão de grupo. Uma vez por  semana, a gente tinha discussão de grupo.  Tinha apresentação dos dados,  tinha seminário.  Então era uma atividade assim, bastante envolvida com a pesquisa.    DENT:  Quais eram os aspectos que mais gostou e que levaram você a decidir  fazer mestrado? Como era a decisão de seguir com essa área?    WEIMER:  Como é que vou te responder isso-- É a curiosidade e eu acho que eu  posso definir como curiosidade científica, porque eu tinha--  A cada passo que  eu dava, eu me interessava em saber o que ia acontecer adiante, como é que isso  desenrolava, por que era assim.  Eu acho que posso definir como curiosidade científica.    DENT:  Assim, estava muito interessada no tema?    WEIMER:  Estava interessada no tema, no entender o que estava acontecendo.   Entender o que que acontecia, por que as coisas aconteciam dessa forma ou de  outra forma.  Qual era o mecanismo genética da coisa?    DENT:  E como foi a experiência de passar da iniciação científica e de  terminar a graduação na Bahia para Rio Grande do Sul para fazer o mestrado com  professor Salzano?    WEIMER:  Cientificamente, não foi uma coisa muito complicada, porque eu já  tinha um contato, através de congressos e de coisa assim, eu já tinha  conhecido o Salzano.  E a Eliane, não sei se já ouviu falar na Doutora Eliane  Azevedo...  A Eliane Azevedo, eu já tinha um relacionamento muito bom com ela  e tenho até hoje.  E o trabalho já vinha mais ou menos estruturado porque eu  comecei lá, toda a parte experimental eu fiz em Salvador.  Eu vim pro Rio  Grande do Sul para fazer os créditos e escrever a tese, a dissertação.   Porque eu já vim com toda a parte experimental coletada lá e analisada lá.   A parte laboratorial já estava toda pronta.  Eu vim para aqui para ter o  conhecimento científico, fazer os créditos, porque o laboratório da Eliane  não tinha uma disciplina específica.  A gente estudava, preparava material,  estudava, lia muito, estudava muito, mas não tinha aulas específicas de  Genética, porque não tinha um curso formal de pós-graduação, nem de  graduação.  Não existia, como não existe hoje, nenhum curso de Genética,  existe os cursos de Medicina, de Biologia, e as pessoas fazem Genética através  desses cursos.  Então eu vim para cá com toda a parte experimental pronta  para fazer...  Então foi uma continuação em termos científicos.  O choque  principal foi o choque cultural, de sair de uma cidade completamente diferente,  de uma cultura completamente diferente, pro Rio Grande do Sul, mas-- Me dei tão  bem que continuei e estou aqui até hoje. [risos]    DENT:  Obviamente gostou, porque ficou. [risos] Quais eram as coisas que eram  mais surpreendentes, mais diferentes nessa transição?    WEIMER: [Gostei. Fiquei até hoje.]  Ah, a cultura muito diferente, os hábitos  de vida são muito diferentes, o clima é muito diferente, Salvador é verão a  vida inteira.  Primeira coisa. Aqui tem estações definidas, tem frio, tem-- &amp;quot ;   As relações pessoais na Bahia são muito mais rápidas, muito mais abertas.   Aqui a gente tem uma certa dificuldade de fazer amizades. Depois que a gente  faz, a coisa permanece. Mas no início, é mais difícil.  Mas eu acho que eu  não tive maiores problemas nisso aí.    DENT:  Quantos anos tinha quando fez essa transição? Mais ou menos--    WEIMER:  É só fazer as contas. [Pausa] [10:10] 25 anos.    DENT:  E era a primeira vez que tinha saído da casa da família?    WEIMER: [Sim]  Sim. Era a primeira viagem. [risos]    DENT:  Então chegou com todos os dados pronta para fazer as aulas e-- Analisar  e escrever...    WEIMER: [E escrever]   Análise estatística e escrever.    DENT:  Sim. Então como era um dia típico na época do mestrado aqui no Rio  Grande do Sul?    WEIMER:  No início, a gente tinha disciplinas. As disciplinas eram, acho que  praticamente todo dia.  Depois, a gente... Quando eu não estava fazendo  disciplina, estava estudando a parte teórica das haptoglobinas.  E fazendo a  parte estatística, analisando estatística, fazendo estatística dos dados.   [Pausa] Não tive envolvimento com laboratório... Na verdade, tinha um  envolvimento com laboratório, mas mais assim, colaborando de algumas...  Ajudando a estabelecer aqui as técnicas que eu já desenvolvia lá. Que ainda  não estavam estabelecidas aqui.  Porque eu trabalhei com haptoglobina,  trabalhei com G6PD, então esse tipo de coisa eu ajudei a montar essas  técnicas.  Mas no mais, o laboratório, eu não tinha muita atividade, porque  eu já vim com toda a parte laboratorial pronta.    DENT:  E como era a recepção na universidade de você e do projeto que você  estava fazendo?    WEIMER:  Foi boa. Foi boa.  O Salzano já sabia qual era o projeto e que eu  antes de vir a gente já tinha conversado sobre isso.  Mas no laboratório,  logo que eu cheguei, eu fiz um seminário. Eu fiz um seminário sobre o trabalho  que eu estava fazendo, o que que eu já tinha, quais são os dados que eu já  tinha.  Acho que foi uma receptividade boa.    DENT:  E nesse período de fazer o mestrado, quais eram as novidades das  técnicas que você levou para a Universidade da Bahia, para a UFRGS? E como  estava... Em que ano era mais ou menos?    WEIMER:  1972. 1972.    DENT:  Então quais eram os principais trabalhos de laboratório que estavam  envolvidos no projeto? As análises que...    WEIMER:  De laboratório? Eram análises de eletroforese.  Eletroforese de  proteínas. Que a haptoglobina é uma proteína do soro.  Era eletroforese de  proteínas.  Durante muito tempo na minha vida, eu trabalhei com eletroforese.   Depois é que eu mudei, com a chegada das técnicas de DNA, é que eu mudei um  pouco. Mas eu trabalhei, eu fazia eletroforese inicialmente dessas proteínas e  depois no doutorado eu fazia de uma série de enzimas sanguíneas.  Tens ideia  do que é eletroforese?    DENT:  Sim, eu me formei em Biologia. [risos]    WEIMER:  Ah, tá. [risos]    DENT:  A minha graduação é em Genética mesmo. Então, conheço.  [Pausa]  Então terminou o mestrado e ficou para fazer o doutorado?    WEIMER:  É, terminei o mestrado, retornei a Salvador, fiquei uns seis meses  lá. E voltei para fazer o doutorado.    DENT:  Então já sabia que queria fazer o doutorado?    WEIMER: [Já. Já sabia]  que queria fazer o doutorado.    DENT: [ E queria fazer]   com o professor Salzano?    WEIMER:  Com o professor Salzano, a mesma coisa, é.    DENT:  Como era o processo de seleção, de entrar no doutorado?    WEIMER:  Tinha uma, agora não me lembro. Não, não tinha prova.  Tinha prova  para quem era de fora, mas as pessoas que já tinham feito o mestrado, faziam a  seleção via currículo e entrevistas.  Ai, Rosanna, eu acho que era isso.  [risos]  Rosanna ou Rossanna?     DENT:  Rosanna.    WEIMER:  Rosanna.  Acho que era isso, mas não tenho bem certeza, mas não  tinha prova escrita.   A prova... Para o mestrado, eu fiz quando eu cheguei,  embora já tivesse praticamente aceita, eu fiz uma prova de conhecimentos, para  o mestrado.  Mas para o doutorado, não, porque a gente já tinha feito todas  as disciplinas dentro do curso.  Então era pelo currículo, pelo histórico  escolar, pelo currículo, tipo de trabalho que tinha desenvolvido-- [Pausa] Era  nesse sentido a avaliação.    DENT:  E era com projeto já proposto? Ou era para fazer um projeto?    WEIMER:  Já era com projeto proposto.    DENT:  E como-- Poderia explicar o projeto que...    WEIMER:  No projeto de doutorado?    DENT:  Sim.    WEIMER:  Foi estudo de-- aí eu comecei a estudar populações negras.  O grau  de miscigenação negra no Rio Grande do Sul.  Então nós estudamos  recém-nascidos, crianças... Ah, o projeto inicial era só recém-nascidos e  mães.  A gente fazia coleta ao nascer.  Eu assistia aos partos, milhões de  partos na minha vida eu assisti, a gente coletava sangue de cordão umbilical.   Mas o projeto inicial a gente tinha... era para estudar o grau de  miscigenação na população de Porto Alegre.  A população mestiça, quanto  de branco e quanto de negro existia.  O grau de miscigenação.  E se existia  um percentual indígena que a gente não conseguiu perceber.  Claro que existe,  mas estava diluído e a gente não conseguiu detectar.     DENT: Detectar... Uhum. E...    WEIMER:  Então era um projeto que envolvia-- Projeto grande, da qual  participamos eu e uma colega, a Maria Helena Franco.  Ela fazia as enzimas, as  proteínas do soro, e eu fazia as enzimas das hemácias, as enzimas eritrocitárias.    DENT:  E como-- Poderia explicar como era o trabalho de campo, de ir ao  hospital, de tomar amostra?    WEIMER:  O hospital que a gente-- A Genética funcionava aqui no Centro.  Não  sei se-- Em frente ao-- Sabe onde é a Santa Casa? A Genética funcionava em  frente à Santa Casa.  Então a gente saía dali, ia pra, passava a noite de  plantão em geral.  Esperando os partos acontecerem.  Quando nascia o bebê, a  gente coletava sangue de cordão.  E no dia seguinte... Ou no dia seguinte de  manhã ou de tarde, a gente voltava lá para fazer entrevista com as mães.   Então tomava dados pessoais das mães e coletar o sangue das mães também.    DENT:  E como era o processo de explicar para as mães o que vocês estavam  fazendo, por quê--    WEIMER:   [Pausa] Era na base da entrevista, a gente explicava o que era que  estava fazendo, ela tinha que dar o consentimento, naturalmente.  Não existia  naquela época o termo consentimento por escrito, mas ela dava o consentimento  verbal.  E a gente fazia, depois que ela-- &amp;quot ;  O bebê a gente coletava de  qualquer forma, com ou sem o consentimento dela, porque tinha que ser ao nascer  e ela estava numa situação que não podia dar o consentimento.  Então se  eventualmente ela não consentia participar, a gente descartava aquela amostra.   Mas em geral, a gente conseguia, explicava calmamente qual era o objetivo e  ela entendia.  A gente procurava fazer numa linguagem...  Que explicar  miscigenação racial já não dá-- &amp;quot ;  não, é bem complicado para determinadas  pessoas.  Porque a Santa Casa era e é um hospital público, não é bem  público, mas é um hospital que atende população de baixa renda com muita  frequência.  Então nem sempre era fácil explicar, mas a gente conseguiu.   Acho que eu não me lembro de nenhum caso assim que tivesse tido [pausa]  rejeição a participar.  Aí depois a gente passou para estudar também um  grupo de crianças em idade escolar.  Então aí a gente fazia-- consultava a  escola, tinha autorização da escola, mandava pareceres, explicava nas escolas,  mandava termos para as mães concordarem.  E aí as famílias que concordavam,  a gente coletava sangue das crianças.  Mas nem todas as famílias... aí sim,  nem todas as famílias concordavam.    DENT:  E era difícil explicar? Como era a maneira de explicar um projeto assim  para uma população-- acho que ainda, agora seria, sempre é complicado...     WEIMER: [É.] 19:08  Sempre é complicado. É, sempre é complicado.     DENT: [explicar os estudos genéticos].  Então como vocês faziam para tentar...    WEIMER: 19:15  Pô, agora tá me perguntando uma coisa que eu já nem me  lembro.  Mas a gente tinha, não sei, a gente tinha, procurava ter uma  linguagem mais-- &amp;quot ;  Mais no sentido de conhecer a população, saber o que que  está acontecendo.  A gente dava como retorno para eles, a gente fazia os  grupos sanguíneos que essa população em geral não tem grupo sanguíneo.   Então a gente sempre dava um retorno para as famílias dos resultados.   Porque os resultados de enzimas não têm muito sentido para eles.  Então a  gente fazia os grupos sanguíneos e dava-- Esse retorno eles tinham.  Era  alguma forma de a gente explicar melhor para eles, porque eles não sabiam o que  era.  E o grupo sanguíneo é uma coisa importante para a saúde.  Então essa  informação a gente sempre fazia e dava para as crianças e para as mães.  E  a coleta nas escolas foi mais complicada, porque na escola, tu vai lá e coleta  da criança, mas as mães, tem que visitar uma a uma nas suas residências.   Aí se teve uma perda muito grande.  Porque não se encontrava residência,  ou porque quando chegava lá, a mãe tinha concordado em dar da criança, mas  não concordava em ela participar.  Então aí se teve uma perda muito  grande.... Mas faz parte.    DENT:  E como era a experiência de trabalhar com os recém-nascidos e com as  crianças assim? Como era a interação pessoal, a experiência--?    WEIMER:  A interação pessoal, quer dizer, com as mães, na maternidade, era  muito pequena, porque a gente ia lá, conversava.  Talvez pelo fato de elas  estarem hospitalizadas, estarem dentro do hospital e-- recém receberam um  bebezinho, elas eram mais receptivas.  As crianças maiores, a receptividade  não era tão boa, não era tão boa.  Que as mães, às vezes as mães  concordavam e os pais não.  Tinham concordado de coletar da criança, mas não  concordavam delas fazerem a doação de sangue.    DENT:  Aí no momento de assim de ir lá e conversar com as mães que estavam  ainda internadas, quais eram as perguntas que vocês faziam? Era com a  professora Franco também ou...    WEIMER:   Era com ela. A gente fazia junto. Ou [pausa].  Não lembro se a  Mara teve algum envolvimento nisso depois.  Agora não me lembro. Acho que a  Mara-- &amp;quot ;  Sim, a Mara também participou.... Depois a Mara... Era a Maria Helena  Franco, eu, a Mara e a Rosilda.  Cada uma fazia uma parte dos estados  laboratoriais.  A Rosilda era uma estudante de Recife.  Então a gente se  revezava para ir para os hospitais e para fazer as entrevistas.  Então quando  uma coletava, coletava para todas, a amostra vinha para todas.  Então a gente  se revezava nas maternidades, de dia fazendo as entrevistas.  Às vezes-- Em  geral, a gente, no início, a gente ia entre duas para poder uma ajudar a outra.   Então as perguntas eram mais basicamente assim: idade, local de nascimento,  filiação, se elas tinhas alguma informação sobre suas origens-- &amp;quot ;  Mas era  muito, as perguntas eram mais, porque era muito mais a conversa para tentar  convencê-las a participar do projeto.    DENT:  Uhum. E quais eram assim os conhecimentos delas da origem da família?    WEIMER:  Muito pouco. Muito pouco.    DENT:   Então normalmente não-- elas identificaram assim &amp;quot ; ah, o meu pai, ele  é negro, a minha mãe é--&amp;quot ; ?    WEIMER:  Não, não, isso em geral a gente não perguntava, porque a gente  fazia uma classificação.  Baseada na cor da pele, no tipo de cabelo, na forma  do rosto, dos lábios e do nariz, a gente fazia uma classificação: branca,  mulata clara, mulata escura e negra.  A gente fazia a classificação.   [Pausa] Mas no final, para a análise, isso não adiantou, não pesou... A  gente não usou esse dado.  Porque a gente pegou aqueles indivíduos que eram  considerados, a gente separou mais em brancos e não brancos.  Na hora de fazer  a análise do grau de miscigenação, foi utilizado simplesmente esses dois  critérios: brancos e não brancos.    DENT:  E com as crianças na escola, como funcionava a amostra, fazendo  amostragem? Tinha assim uma enfermeira que estava na escola? Como--?    WEIMER:  Não, não. Nós mesmos fazíamos a coleta.  Nós fizemos  treinamento, principalmente eu.  Eu já fazia isso em Salvador.  Eu fiz o  treinamento em Salvador.  Eu sou farmacêutica.  Então em Salvador, a gente  fez um treinamento para fazer a coleta.  Então em Salvador, eu já fazia a  coleta.  Já fiz coleta então dos recém-nascidos, já fiz coleta de mães.   Fazia coleta quando-- Porque no laboratório em Salvador, tinha atendimento  ambulatorial para as famílias, aconselhamento genético.  Então em geral  famílias que tinham crianças com problemas iam lá, então, se precisava fazer  coleta, quem fazia coleta era eu.  Então eu tinha um bom treinamento de-- &amp;quot ;    E as outras pessoas fizeram treinamento também.  Fomos ao pronto socorro,  ficamos no banco de sangue treinando para fazer, aprender a fazer coleta, e a  gente fazia a coleta.  A gente tinha o consentimento das famílias, aquelas  famílias que consentiram, as crianças--  Em geral, as crianças eram  tranquilas.  Ficavam na fila porque quando-- Se tinham medo, mas um, como um  já fez, os outros também não se sentiam.  Para as crianças, foi tranquilo.   Paras as mães, é que era mais complicado.  É que elas não queriam  participar muitas vezes. [risos]    DENT: Sim. E as escolas, quais eram, como vocês escolheram quais escolas visitar?    WEIMER:   Pô, e agora... Nós mandamos a solicitação para um número muito  grande de escolas públicas. Nós procuramos escolas públicas.  E aquelas  escolas que concordaram, aí a gente ia lá, mandava solicitação, ia lá e  conversava com a diretora.   E aguardava que viesse o retorno.  Então  aquelas escolas, as escolas foram escolhidas em função daquelas que  concordavam em participar.    DENT:  E ficaram em toda a parte da cidade? Como era o processo de chegar lá,  como era a realidade das escolas públicas naquela época?    WEIMER:  Muitas escolas eram bem pobres.  Algumas bem estruturadas, outras  menos.  Mas isso era variável, porque em geral a gente... [pausa] foi em  diferentes regiões da cidade que a gente foi.  Então-- agora não vou saber  te dizer, Rosanna, quais foram as escolas que a gente foi ver, que a gente  mandou para várias, e nem todas concordaram.  Então, tinha que ter primeiro o  aval da escola.  Em função do aval da escola, a gente mandava as  solicitações para as crianças.  Eram crianças [pausa] entre 8 e 10 anos,  por aí. É-- Entre 8 e 10 anos mais ou menos.    DENT:  E as crianças perguntavam sobre o estudo? O que que estavam fazendo?    WEIMER:  Não, não. As crianças não.    DENT:  Poderia comentar um pouco sobre quais eram os pontos mais importantes do  estudo? Enquanto os resultados-- Do doutorado, do trabalho de doutorado. E como,  talvez, um pouquinho sobre como combinava com os outros projetos. Assim, o  projeto da professora Franco, a parte que fazia a professora Mara.    WEIMER:  As análises-- Como é que eu vou te explicar-- &amp;quot ;  Como amostra, a  gente pegava a amostra, então cada pessoa-- &amp;quot ;   AMaria Helena Franco fazia as  proteínas do soro.  Ela fazia haptoglobina, célula plasmina, albumina,  transferrina.  E essa parte toda ficava com ela.  A Mara fez G6PD.  A Rosilda  fez PGN, se eu não me engano.  E eu fiz, inicialmente era adenilato quinase,  adenosina desaminase e hemoglobina.  E a parte de grupos sanguíneos que a  gente fazia como retorno para as famílias, isso não entrou no trabalho  inicial.  Depois na hora da análise de miscigenação racial, a gente  interagiu os dados de todos foram usados para análise de miscigenação racial.   Cada um usou os seus dados para caracterização, para ver frequências,  distribuição, qual é os alelos frequentes ou não, a ocorrência de variantes  raras--  E na parte de, eu acho que hemoglobina ficou com a Mara.  E na hora  da análise de miscigenação racial, a gente juntou os dados de todo mundo.   Foi uma análise conjunta dos dados de todo mundo.  Foi feito análises  parciais, mas a publicação final foi com os dados de todos.  Porque aí fica  mais, resultado mais consistente.    DENT:  Poderia comentar um pouco sobre a colaboração, a experiência de fazer  um trabalho de doutorado que estava muito em colaboração com as colegas?    WEIMER:  Ah, foi muito tranquilo, porque a gente tinha interação muito boa.   A gente interagia muito bem.  Uma ajudava a outra.  Não tinha.  Acho que  como a gente conviveu tanto na coleta, porque a coleta era uma coisa complicada.   Imagina passar a noite no hospital assistindo parto, fazendo coleta, coletando  sangue de bebê.  Então a interação tinha que ser muito boa para poder  funcionar bem.    DENT:  Então, depois de terminar o doutorado, você ficou na universidade?    WEIMER:  Fiquei na universidade.      DENT:  Como professora?    WEIMER:  Como professora.   Pouco antes de terminar o doutorado, ainda  durante o doutorado, eu fui contratada pela universidade.  Então eu já  terminei o meu doutorado já dando aula.  Os últimos anos do doutorado, eu já  tinha envolvimento em disciplinas, em aulas. Envolvimento geral como professora.    DENT:  E entrou como professora em qual ano?    WEIMER:  1976.    DENT:  E como era o processo de contratação, de concurso nessa época?    WEIMER:  Nessa época existia concurso, mas eu não sei te explicar bem o que  é que aconteceu.  Houve o que a gente chama de... Que aqui no Brasil de vez em  quando acontece, o trenzinho da alegria.  Houve uma contratação assim...  Todas as pessoas que estavam na universidade, trabalhando em tempo integral, que  era o caso.  No doutorado, a gente tinha tempo integral lá.  Ia de manhã,  ficava o dia inteiro, era tempo integral, dedicação exclusiva. Então as  pessoas que tinham esse tipo-- Houve uma contratação em todos os  departamentos.  Então entrei eu e mais seis colegas.  Que eram o que estavam  nessa situação.    [pausa] A Maria Helena Franco entrou.  A Mara, nessa  ocasião, estava trabalhando no Rio de Janeiro, então a Mara não entrou. A  Mara veio depois.     DENT:  E foi contratada para dar aula, especificamente da Genética?    WEIMER:  Sim. Fui contratada para o Departamento de Genética.    DENT:  Como era a mudança na vida diária de passar de ser doutoranda para ser professora?    WEIMER:  Mais responsabilidade, mais compromisso, mais atividades.  Então a  gente tinha que conseguir, conciliar o tempo para continuar com o doutorado e  dar aula.  Mas valia a pena. Era um sacrifício maior, mas valia a pena.   Porque antes tu tinha o compromisso com o curso, com a universidade, mas a tua  dedicação era exclusivamente a tua pesquisa e-- Então de repente tem que dar  aula, preparar aula-- &amp;quot ;  E tinha bastante aula para dar, mas eu acho que valeu a  pena.  Não tenho nenhum arrependimento disso.    DENT:  Essa contratação-- O doutorado, a contratação para ser professora,  tudo isso estava acontecendo durante o governo militar.    WEIMER:  Tava.    DENT:  Como era o ambiente na universidade naqueles anos?    WEIMER:  [pausa] Como é que eu vou te explicar isso-- Dentro do departamento,  a gente não sentia grandes coisas.  Embora mais em termos de brincadeira, era  uma brincadeira, digamos de mau gosto, mas era uma brincadeira.  Se dizia que  tinha microfones espalhados, que a gente tinha que cuidar o que dizer.  E  efetivamente teve colegas nossos que foram presas pelo regime militar e coisas  assim.  Mas dentro da universidade, não tinha esse tipo de coisa.  Eu senti  muitas vezes em sala de aula. Às vezes a gente ia dar aula e tinha uma  manifestação naquele dia nas imediações, e a gente ficava presa.  Eu me  lembro bem de uma vez que era-- A gente tinha aula, uma turma que era muito  grande que se dividia em várias turmas menores para dar aula prática.  E eu  tinha que dar aula duas turmas de tarde e um colega ia chegar para dar as turmas  de noite. E ele não conseguiu chegar.  E eu dei as duas aulas da tarde e as  duas da noite, porque ele não conseguiu entrar.  Alguns alunos que estavam  dentro da faculdade.  Uma turma ficou menor porque só os que estavam lá  dentro, porque cercaram o coisa, digo, para não circular pessoas, a  rua foi  fechada, então o colega não conseguiu entrar.   [pausa] O ambiente, nesse  sentido, era muito tenso.  A gente sentia a tensão dos alunos, tensão--   Agora, em Salvador, eu já dava aula.  Antes de começar a trabalhar na  universidade, em 65, 66, eu, na faculdade, eu dava aula.  E aí também eu tive  de, enfrentei a ditadura militar nesse período que foi muito complicado.  Aqui  em 74 já estava mais calmo, já estava mais--  A partir de 76 já estava mais  calmo, existiam algumas manifestações estudantis, então no dia que tinha  manifestação, era um caos a cidade.    DENT:  Mas em Salvador, como era a experiência de dar aula durante a ditadura?    WEIMER:  Era complicado. Eu dava aula pro segundo grau.  Sabe o que é segundo  grau? Escola que a gente chama hoje--  [pausa] Hoje chamam escola fundamental e  escola secundária.  Era escola secundária, eu dava aula pro segundo grau.   Já pessoas de dezessete, dezoito anos, dezenove.  Já com manifestação  política, então às vezes era complicado.  Era complicado. Eu me lembro de  dar aula e da porta da sala tinha dois militares, dois soldados esperando  terminar a aula para prender alunos que estavam dentro da sala de aula.    DENT:  E isso acontecia também na universidade?    WEIMER:  Na universidade também. Nessa época, acontecia na universidade  também.  De a gente estar em sala de aula, e colegas-- Chegar o militar estar  na porta esperando que, para prender colegas que estavam na sala de aula, era complicado.    DENT:  E no departamento da genética, tinha uma professora que foi presa, ou  tinha mais?    WEIMER:  Teve uma. Que eu saiba, teve uma.  Inclusive ela terminou saindo do Brasil...     DENT:  E foi para a França.    TW  Foi para França.    DENT:  Como, assim, esse ambiente obviamente deve ter sido muito tenso...    WEIMER:  Muito tenso.    DENT:   Como era, por exemplo, assistir a congressos, participar de eventos  científicos, viajar? Foi mais complicado por causa da ditadura?    WEIMER:  Na época que eu comecei a participar disso, já não era tão  fechado, já se conseguia então nos congressos principalmente... os primeiros  congressos eram coletivos da Genética com a Sociedade Brasileira pelo Progresso  da Ciência.  E na Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência existia mais  manifestação política.  Mas isso aí eu não sei te dizer se foi--  Não,  olhando agora, o que que aconteceu depois, não tem muita diferença.  Essa  dificuldade de ir, de-- Porque no regime militar, teve uma coisa diferente.  É  que o aporte financeiro para pesquisa foi muito grande.  Foi uma maneira de,  digamos, eles-- Então tinha toda a coisa ruim da repressão da ditadura, do  temor, não podia falar, não podia dizer, não podia expressar tua maneira de  falar, porque qualquer coisa que tu dissesse podia ser interpretado errado.   Mas por outro lado, teve um financiamento à pesquisa bastante grande.    DENT:  E foi isso que fez possível contratar seis professores no mesmo momento?    WEIMER: [Provavelmente.]   Provavelmente.  Porque foram seis professores para  a Genética.  Para o resto da universidade toda, teve.  Isso eu não sei te  dizer, mas eu acho que sim.  E deve ter sido uma coisa assim, porque no Brasil  tem muito isso.  Seguram dinheiro, seguram dinheiro, seguram dinheiro. De  repente, tem que investir isso e tem que ser até o fim do ano.  Então, deve  ter sido uma coisa desse tipo.  Eu nunca.... Nós nunca ficamos sabendo  exatamente o que aconteceu, mas foi um número muito grande de professores,  porque para Genética, foram seis. Foram sete. Seis além de mim.    DENT:  Nossa!    WEIMER:  Foram sete.  E o critério era esse: quem estava fazendo cursos com  bolsa, mas mesmo que tinha uma dedicação efetiva.  E quem definiu isso foram  os chefes de departamento.  Os chefes de departamento que indicaram,  provavelmente em colaboração com os coordenadores dos cursos.  O chefe de  departamento é que indicaram as pessoas que estavam nessa situação e que  poderiam ser contratadas.    DENT:  Aí então você entrou como professora em 76, e aí ficou com os mesmos  interesses ou mudou um pouco o enfoque da pesquisa?    WEIMER:  Depois do doutorado, eu continuei trabalhando em colaboração com o  Salzano com algumas coisas, mas comecei a trabalhar, me interessar por Genética  Animal.  Daí eu comecei a trabalhar com Genética Animal simultaneamente.  Eu  orientava na parte de Genética Humana, mas orientava também na parte de  Genética Animal.  Essa parte de Genética Animal custou um pouco a... Demorei  um pouco a me dedicar exclusivamente a isso, porque ainda tinha os compromissos,  toda parte-- &amp;quot ;  Sempre que chegava amostra de populações indígenas, eu fazia  todos aqueles marcadores que-- &amp;quot ;  Inclusive, depois que-- Depois que a Rosilda  foi para Recife, eu passei a fazer a parte, os marcadores que ela fazia, eu  continuei para não morrer a coisa, eu continuei fazendo.  Então toda essa  parte de marcadores de enzimas eritrocitárias, eu continuei fazendo das  populações indígenas.    DENT:  Poderia comentar um pouco sobre esse trabalho com populações  indígenas, se era diferente, se era igual com o trabalho de doutorado?    WEIMER:  Era igual, porque na verdade, quer dizer, o meu envolvimento era gerar  resultados.  Eu não tinha parte de análise estatística e de organização  dos dados e redação das publicações.  Isso ficava por parte do professor  Salzano.  Então eu fazia, eu tinha-- Chegava as amostras, eu analisava, fazia  toda parte de laboratório era por minha conta, e eu repassava pro Salzano os  dados já semianalisados no sentido de frequências, esses resultados mais  básicos, eu passava para ele.  A interação com os outros laboratórios de  outros departamentos e a análise conjunta ficava por conta dele.  Em geral,  quem fazia a parte estatística disso tudo era a professora Sidia.  Já  conversou com ela?    DENT:  Ainda não. [risos]  Então, você nunca participou de trabalho de  campo na área indígena?    WEIMER: [Não, não.]   Não, não, de indígenas, não.  Porque na-- O  acesso, parece que agora está até mais difícil, mas o acesso às populações  indígenas era um troço muito complicado.   Tinha que ter o aval da FUNAI,  tinha que ser uma série de avais, e em geral, o Salzano viajava com o Girley,  que era quem fazia a coleta.  E teve uma vez que a Lavinia foi.  A Lavínia  Schüler porque era médica.  Então ela foi, mas no sentido de dar apoio  logístico de atendimento médico às populações.  Então nesse ponto o  Salzano era muito... Muito restrito, então teria que ter uma função  específica na coleta.  Então, eu nunca participei, embora eu tivesse muita  vontade de ter ido, nunca fui.    DENT:   Nesses trabalhos sobre as populações indígenas, como geneticista  com um, assim, entendimento do trabalho do professor Salzano, poderia comentar  um pouco sobre o impacto e importância desses estudos sobre povos indígenas,  assim, no campo mais geral?  Como tem sido o impacto do professor Salzano, do  trabalho dele, quais têm sido, assim, os aportes mais importantes ou-- Não  sei, eu sei que não é exatamente o campo que você conhece mais, mas--    WEIMER: [Não]   Em termos científicos, eu acho extremamente importante a  gente conhecer as populações que a gente tem.  Conhecer o que que a gente  tem.  Agora não sei te dizer em termos práticos, se isso teve algum retorno  para as populações indígenas.  Acho que não.    DENT:  Eu penso mais assim, estava perguntando mais no nível acadêmico.    WEIMER:  Ah, no nível acadêmico. Não, no nível acadêmico, acho que teve  impacto bastante grande. Salzano é muito conhecido por isso aí.  E eu acho  que é um trabalho bastante importante no sentido de que a gente tem que  conhecer o que é que a gente tem.  E ainda tem muitas populações indígenas  que mereceriam estudos.  Só que a dificuldade de acesso, a FUNAI cada vez  complica mais.  Então se tornou praticamente muitas vezes impossível se  conseguir ter acesso às populações para fazer as coletas.  [pausa] Mas tem,  foi, tinham dados muito interessantes.  A gente, quando a gente começava a  estudar, a gente via de repente uma população que era completamente diferente  de todas as outras que a gente estava acostumado.  As frequências alélicas  diferentes, alelos novos, variantes novas, então tinham coisas muito, muito  interessantes.  Então cada população que a gente estudava... Teoricamente  &amp;quot ; se é indígena, vai ser tudo igual&amp;quot ; . Não era. Eram diferentes.  Os  resultados eram diferentes.  Era um trabalho muito bonito.  Muito estimulante,  muito interessante.     DENT:  E na questão, assim, ter autorização para fazer pesquisa-- Quando  você fez doutorado, tinha algum processo de aprovar o projeto para--    WEIMER:  Tinha-- O projeto tinha que ser aprovado no departamento.  Mas em  termos como tem hoje um comitê de ética, não existia.  Naquela ocasião,  não existia um comitê de ética.  O que a gente teve... A gente aprovou o  projeto nos hospitais onde a gente, na Santa Casa a gente teve que ter  aprovação no hospital para fazer.  Mas não existia um termo de consentimento  livre e informado como existe hoje, não existia.  Mas a gente teve aprovação  do hospital onde a gente fez a coleta e das escolas onde fez as coletas.  E das  famílias.  Como eu te disse, os recém-nascidos a gente coletava.  Nasceu,  coletou.  Não tinha... Porque a gente coletava não só de brancos, de negros,  coletava de brancos e negros. Nasceu, coletou.   Não podia perder isso.  E  no dia seguinte, a gente consultava as famílias e as mães.  Em geral, elas  não criavam problemas.  Eu imagino, vendo de fora hoje, porque eu não sei se  a gente tinha um discurso tão convincente.  Eu acho que como elas estavam  dentro do hospital, sensibilizadas, elas interpretavam que aquilo fazia parte do  trabalho.  Fazia parte da hospitalização dela.  É assim que eu interpreto  hoje.  Na ocasião, não sei se eu me dei conta disso.  Talvez quando eu fui  coletar nas famílias nas escolas, que aí já foi a coleta já foi mais  difícil, nos hospitais a gente nunca teve, não me lembro de ter tido alguma  paciente ter se negado a participar.  Elas achavam tudo tranquilo, tudo normal.   Acho que por isso, elas estavam dentro do hospital, aquilo ali fazia parte do  hospital.  Nas escolas, já era diferente. [risos]  Mas não tinha um comitê  de ética, não tinha.  Isso foi uma coisa mais recente.  Não sei de quantos  anos tem isso.    DENT:  Formalmente, foi instituído no ano 96.    WEIMER:  É, foi uma coisa muito mais recente.    DENT:  Mas o processo de avaliação do departamento, sabe como funcionava para  ver o projeto?    WEIMER:  Sei como funcionava quando eu comecei a participar como professora.   Então deve ter sido-- O projeto era-- O curso de pós-graduação e o  departamento têm um-- Na verdade, não era o departamento que julgava.  Era o  curso de pós-graduação, porque era um projeto de doutorado.  Então o curso  de pós-graduação tinha um conjunto de professores que se-- Um colegiado que  se reunia.  Então dentro desses colegiados sempre um professor era relator do  projeto.  Então o professor lia, verificava a viabilidade, a-- Sei lá, se  estava tudo correto, se tinha viabilidade de ser feito, se tinha validade  científica. E dava seu parecer.  E os outros apoiavam ou não, concordavam ou  não e o projeto era aprovado pelo comitê, o órgão colegiado, que era a  comissão de pós-graduação.    DENT:  E naquela reunião de avaliação tinha uma discussão, uma conversa  sobre questões éticas ou qual ia ser--?     WEIMER:  Tinha, tinha, tinha.    DENT:  E poderia descrever um pouco quais eram os assuntos mais comuns, se  tinham projetos que tinham que ser mudados ou se--?    WEIMER:  Tinha, muitas vezes tinha projeto que tinham que ser mudados.  Quer  dizer, como não tinha o comitê de ética, a gente... O projeto foi aprovado...  Ou se não foi aprovado ainda ficava pendente. &amp;quot ; Projeto está aprovado desde que  tenha aprovação das instituições onde vai ser realizado&amp;quot ; .  Que o Hospital  de Clínicas, que o Hospital Santa Casa aprove, que as escolas aprovem, que as  famílias aprovem, esse tipo de coisa.  E se tinha algum projeto, agora estou  falando não como sendo avaliada, mas quando eu fui avaliar.  Se tinha algum  projeto que a gente achava, &amp;quot ; não, isso aqui está mal, tem que reestruturar  nesse sentido&amp;quot ; .  Então muitas vezes o projeto não era rejeitado, mas ele  voltava para ser reestruturado.  Ou às vezes, a gente dizia &amp;quot ; simplesmente não  dá, esse projeto tem que mudar, não dá para ser assim&amp;quot ; .  Isso acontecia às vezes.    DENT:  E tinham problemas que acharam como mais frequentes para questões  éticas lá na--?    WEIMER:  Ah, isso eu não sei te dizer. Não me lembro disso.  Porque isso  era-- Cada projeto era um projeto.  Não me lembro, isso realmente eu não me lembro.    DENT:  Ah, também faz muito tempo. [risos]     WEIMER:   Faz muito tempo, é.    DENT:  E entre mil outras coisas que um professor tem que fazer.    WEIMER: [É, é.]  E aí também já tem, já... Os últimos projetos já  tinham comitê de ética, então a gente já tinha que ter avaliação, então  eu posso te responder já com uma visão deformada da coisa, porque eu  participei também de projeto em que tinha que ter o parecer da comissão de ética.    DENT:  E poderia comentar um pouco sobre esse processo? Como funcionava?    WEIMER:  Quando tinha... Isso eu me lembro muito bem quando eu estava na ULBRA  que eu inclusive fazia parte do comitê de ética.  A gente tinha, muitas  vezes, devolvia o projeto porque estava faltando, sei lá, o aval das famílias,  o termo de consentimento não estava bem estruturado.  O termo de consentimento  passava pra gente ver se estava claro.  Se não estava, se estava bem  estruturado.  Muitas vezes o projeto tinha que ir pra, conforme o projeto,  tinha que ir para avaliação do comitê de ética nacional.    DENT:  Como era aprender ser parte de um comitê de ética? Já sabia ou tinha  que fazer um curso?    WEIMER: [Não, não, a gente...]  Não tinha que fazer um curso, mas a gente,  no momento em que eu fui participar do comitê de ética, eu peguei toda  documentação nacional, da instituição, porque existem comitês  centralizadores, digamos assim.  Então, a instituição já tinha a  documentação, e tinha, agora não me lembro mais como é o nome da  instituição nacional que tinha, CONEP, CONAB, qualquer coisa assim.    DENT:  CONEP.    WEIMER:  CONEP.  Então toda documentação do CONEP eu sentei para estudar  para ler para ver o que que dizia, o que que tinha que ser feito.  Então não  foi bem um curso, mas foi um estudo, um aprendizado.     DENT: [Um estudo]   independente. [risos]    WEIMER:  Um estudo independente. [risos]    DENT:  E era uma mudança grande iniciar, ter um processo de um CEP para  revisar as pesquisas? Mudou muito a experiência de ser pesquisadora ou de  participar de--?    WEIMER:  Não, porque é aquela história. Embora não existisse-- &amp;quot ;   Porque  quando eu passei a participar do CEP, eu já elaborava projetos que tinham que  seguir as normas éticas.  Então as normas éticas, uma parte já está  contigo, tu já sabe como é que é.  Então outras, quer dizer no caso  específico, eu já trabalhava só com populações, com animais.  Então  tinha, mas eu participava também das discussões das populações humanas.   Então muita coisa que a gente já tinha feito de consultar as famílias,  consultar as escolas, consultar os--  Isso já basicamente já existia.  Tinha  só que a maneira como informar as famílias tinha que ser diferente.  Então  acho que não teve grande diferença.  Teve um aprendizado, realmente um  aprendizado bastante grande, porque coisas que a gente fazia tinha que seguir as  normas da instituição, a gente seguia.  Mas a partir de agora, a gente tem  que seguir, ver se as normas da instituição estão sendo seguidas.  É uma  visão diferente, não mais de ator, mas de julgador.  Mas foi uma experiência  válida e bastante boa, eu fiquei lá até sair da instituição.    DENT:  Bom, acho que aí eu saltei um pouco [risos] da cronologia. Então  talvez podemos voltar para ver um pouco mais já formada, doutorada, professora.  Ia desenvolvendo os temas de interesse na carreira profissional. E comentou que  ficou trabalhando com questões de fazer as análises para os estudos--    WEIMER:  De populações indígenas.  Continuei trabalhando com populações  humanas.  Desenvolvi alguns projetos, isso mais em função do interesse de um  aluno, eu desenvolvi projetos com câncer.  Marcadores genéticos de câncer.   Aí tinha que ter.... Aí já tinha que seguir as normas do comitê já.  Eu  acho que nessa época, já tinha TCLA e tudo mais.  [pausa] Deixa eu ver mais o  que foi que eu fiz.  E paralelamente trabalhando com populações, com  Genética Animal.  Então durante muito período, eu fiz a parte de Genética  Humana, com estudos de câncer, com populações indígenas, com populações  negras, foi quando a Cátira fez o mestrado e o doutorado dela com populações  negras.  Usando os mesmos marcadores.  E já derivando para populações, para  estudos animais.  Então foi mais no fim que eu parei completamente de fazer  toda parte humana.  Mas foi mais no fim da minha vida acadêmica.    DENT:  Poderia comentar um pouco sobre a experiência de ser orientadora e como  comparava ser orientadora com ser orientada pelo professor Salzano? [risos]    WEIMER:  Na verdade, é o momento que tu é orientada pelo Salzano tu aprende  muito como orientar.  Porque o Salzano era uma pessoa assim que, muito  exigente.  Muito... [pausa]  Não sei se continua assim, mas ele era muito  exigente, mas muito correto.  Então, a gente aprendia a forma que funcionou  com a gente, funcionou muito bem.  Então isso a gente usa como modelo, como  exemplo.  A orientação é uma coisa mais complicada porque, quer dizer, no  momento que tu está orientando, está sendo orientado, tu tem o teu  relacionamento com o teu orientador, então tu tem que ter um respeito.  É uma  relação, digamos, bilateral.  Tu tem, no momento em que tu está orientando,  tu tem várias orientados.  E de cada orientado, tu tem que agir de uma forma  diferente, porque as pessoas são diferentes.  Então é uma experiência,  bastante, muitas vezes, bastante complicada, dependendo da pessoa que tu está  orientando.  Mas é uma experiência muito válida, muito boa.  Ensinar é uma  coisa muito boa.  Tanto na aula, quanto na orientação, ensinar é uma coisa  muito boa.    DENT:  E a experiência de orientar afetou, mudou as pesquisas que você ia  fazendo? Influenciou a trajetória dos seus interesses?    WEIMER: [Não.]  Não, na maioria das vezes, com exceção desse aluno que  estava-- Foi um aluno muito complicado, porque ele começou com outro  orientador.  E ele queria fazer uma coisa muito-- Foi um dos projetos que eu me  lembro que foi rejeitado no curso, porque ele queria fazer uma coisa relação  de ciência com religião e não tinha--  O projeto estava completamente  desarticulado.  E aí ele ficou completamente perdido.  Não, mas não, eu já  trabalhava com câncer, eu já estava trabalhando com câncer.  Não, não  mudou não. Não mudou, não.  Ele se encaixou, me procurou, porque outra área  de interesse dele era estudar genética do câncer.  Mas eu já estava  trabalhando, porque eu já tinha feito outros projetos.  O dele não foi o primeiro.    DENT:  Aí tinha uma experiência na Bahia, e depois chegou na UFRGS e depois  passou para a ULBRA. Então poderia comentar sobre as dinâmicas de cada  departamento? Como era? Quais eram as mudanças? Porque permaneceu muito tempo  na UFRGS...    WEIMER:  Muito tempo na UFRGS.    DENT:  Então o departamento desenvolveu muito durante esse tempo. Poderia  comentar um pouco sobre a dinâmica do departamento, dos estudos que estavam  fazendo, as colegas, como era ser professora lá? [risos]    WEIMER:  Realmente não sei como te dizer, porque claro, cada vez que tu muda  de lugar tu tem que te adaptar, tem que ter um jogo de cintura para te adaptar  nas coisas, mas eu nunca tive grandes problemas de adaptação em nenhum lugar.   Na UFRGS, na Genética, claro, como todo lugar, tem atritos em tudo que é  canto. Mas eu nunca tive maiores problemas com colegas nem com orientadores, nem  com professores.  E na ULBRA, também-- &amp;quot ;  Eu fui para lá convidada por um  professor já participar do-- &amp;quot ;  Olha, eu acho que eu não tive-- Não sei te  dizer realmente.  Claro que as dinâmicas são diferentes, a universidade da  ULBRA é uma universidade particular.  As dinâmicas são diferentes.  Então  tu tem outro modo de agir, tu tem...  A preocupação deles é aula e aula e  aula.  Embora eu tivesse montado um laboratório lá e feito a parte de  pesquisa bastante grande, eles tinham interesse em pesquisa também, mas o  negócio deles é ter aluno pagante.  Isso é uma universidade particular.   Eles têm que ter alguém que pague pra-- &amp;quot ;  E a pós-graduação também era  paga, então muitas vezes era complicado, porque--  Mas eu não tive problemas.   Como eu vou te dizer &amp;quot ; os alunos são melhores ou piores em uma ou outra&amp;quot ; . Não  são.  O nível é o mesmo.  Claro que tem alunos fracos e tem alunos fortes.   A pós-graduação funcionava perfeitamente bem, eu tive vários orientados  lá na ULBRA.  Tanto de mestrado como de doutorado.  Então não-- Não sei te  dizer se eu tive alguma-- &amp;quot ;  Claro, o lugar onde eu mais, minha vida acadêmica  maior... Realmente minha vida acadêmica foi na UFRGS.  Que eu vivi toda minha  vida lá.  Então primeiro como estudante, depois como professor.    DENT:  Aí na UFRGS, você estava aí no departamento enquanto fizeram a  mudança de--    WEIMER:  Fizeram... Do centro pro....    DENT: [De prédio, né?]   [Risos] Para o campus do Vale.     WEIMER:  Do centro pro campus.    DENT:  E também foi naquela época mais ou menos que fizeram, implementaram  mais o trabalho com DNA. Não é?    WEIMER:  Foi, foi.    DENT:  Poderia comentar um pouco sobre essa transição científica de  trabalhar mais com enzimas, com marcadores sanguíneos, coisas assim, para  trabalhar mais com técnicas de DNA?    WEIMER:  Não, foi uma coisa que aconteceu mais ou menos porque a medida que  surgiram as técnicas de DNA, a informação que se obtém, o resultado que tu  tens é tão mais rico e tão mais informativo, que a tendência é mudar mesmo.   Porque a proteína, a eletroforese de proteína te dá uma informação, é  uma informação importante.  Mas é uma informação mais limitada do que te  dá o DNA.  Então o negócio é mudar para isso.  Então tem que ter muito  estudo.  Alguns-- A Mara saiu, fez um estudo fora.  Mas a maior parte das  pessoas que migraram, migraram estudando a base da literatura da técnica,  apanhando bastante para mudar a técnica, para aprender a técnica.  Mas não  é uma técnica mais complicada, mais elaborada que a outra.  É até uma  técnica, depois que tu aprende, até mais simples do que a outra. [risos]   [pausa] A mudança pro campus foi uma mudança bastante importante, porque o  espaço que a gente tinha aqui era um espaço muito limitado.  Então muita  coisa a gente não podia fazer pela limitação de espaço.  E com o campus,  passou a se ter mais laboratórios, as instalações elétricas e de água eram  mais novas, então podia colocar mais equipamentos, mais...  Nesse sentido,  teve um crescimento bastante grande.  Eu interpreto assim. Pelo menos para mim,  foi um crescimento bastante grande da pesquisa no sentido de ter mais espaço.    Mais [inaudível] a criar e a usar coisas que tu gostaria de ter feito e  tinha, pensava antes e não conseguia por limitação física.  E isso, com a  mudança pro campus, isso foi uma mudança bastante grande.  Eu acho que o DNA,  a mudança pro DNA foi coincidente.  Em termos de-- Porque foi nessa época  mais ou menos que desenvolveu mais a técnica de DNA.  Mas se a gente tivesse  no centro, a gente não teria feito.  Não teria como.  O campus, a ida pro  campus propiciou que a gente pudesse desenvolver essas técnicas em questão de  espaço, de condições de laboratório.  Tinha condições, inclusive, de  pedir um equipamento, de comprar equipamento.  No centro, não dava mais, não  adiantava pedir, não tinha onde botar. [risos]  Só se trouxesse para casa.  [risos] Ou pendurasse no pescoço. [risos]    DENT:  O professor Salzano é conhecido por trabalhar muito nas questões  interdisciplinares, de cruzar fronteiras entre antropologia e genética, de  algum modo, né? O que que se entende como valor da interdisciplinaridade nesse caso?    WEIMER:  Eu acho que é extremamente importante em qualquer área que você  tenha.  Por exemplo, se está estudando populações indígenas e até fazendo  antropologia biológica, é óbvio que ele tem que verificar o que que a  antropologia cultural está fazendo.  Passando para minha área de interesse no  final.  Se eu estou fazendo Genética Animal, eu tenho que saber o que que-- &amp;quot ;   Eu não sou veterinária, eu tenho que saber o que que os veterinários pensam,  qual é importância disso, interagir com os veterinários, porque senão a  coisa não funciona.  Então eu acho que qualquer área que a gente estude, tem  que ter uma interdisciplinaridade.  No momento que eu estava estudando fazendo  a parte de genética do câncer, eu tinha muito contato com os médicos que não  só me ajudava a conseguir o material, mas que me davam todo suporte clínico  que eu não tenho.  Então a interdisciplinaridade, independente de que área  tu estuda, é extremamente importante.  Tem que ter, senão não funciona.  E  na parte de populações indígenas, é imprescindível, porque tem a parte  linguística.  Quer dizer, tem vários grupos linguísticos, e aí, qual é a  interação entre eles?  Eu não posso fazer, mas um linguista pode me ajudar  nisso aí.  O antropólogo cultural tem uma visão completamente diferente.   Então tem que ter uma interação, senão não funciona.    DENT:  E no seu trabalho, teve muita interação interdisciplinar com médicos,  com veterinários?    WEIMER:  Sim, com médicos, com veterinários.  Quando eu trabalhava com  populações indígenas, tinha contato também com os antropólogos.  Sempre teve.    DENT:  Poderia comentar um pouco sobre cada caso desses três, assim,  antropólogos, veterinários e médicos? Como era a interação? Quais eram as  coisas que fizeram mais fácil ou mais difícil essa interação entre campos de conhecimento?    WEIMER:  Olha, eu acho-- &amp;quot ;  A mais difícil é com os médicos.  A mais  difícil é com os médicos, porque o médico tem uma visão, vendo agora, uma  visão muito clínica.  Eles-- Embora eles tenham interesse no resultado, na  parte de pesquisa, é um interesse mais, eu digo assim, fantasioso.  &amp;quot ; Ai, que  bom que estão fazendo pesquisa!&amp;quot ;   Mas se dedicar à pesquisa, eles não se  dedicam.  A parte clínica eles ajudam muito, eles--  Então às vezes eles  enxergam coisas completamente diferentes.  Por exemplo, na ocasião do meu  doutorado, eu trabalhei com uma enzima chamada adenosina desaminase.  Que é  uma enzima que a deficiência dela está associada à deficiência imunológica.   Então eu procurei estudar alguns pacientes com deficiência imunológica,  não AIDS, não adquirida, deficiência imunológica nata, para ver o efeito, se  tinha problemas dessas enzimas ou não.  E foi muito complicado, porque os,  embora tenha conversado com vários médicos e explicado coisas, muitos deles me  mandavam com deficiência imunológica adquirida.  Então porque eles, é  deficiência imunológica, não interessa, quer dizer, então a gente descobria  que era adquirida por entrevista com os pacientes.  Mas aí fica complicado,  vai dizer pro paciente &amp;quot ; não te quero&amp;quot ; ?  Então muitas vezes coletava amostra,  fazia o exame, dava o resultado, mas já sabia que o resultado ia ser normal  porque não era deficiência genética, era deficiência adquirida.  Então  nesse sentido, eu acho que com médico, é mais difícil.  É claro, na  ocasião que eu trabalhei, eu não posso dizer agora se são os médicos,  continuam assim ou não.  Na parte da antropologia cultural, dos antropólogos,  era uma coisa muito tranquila, porque eles tinham interesse também em ver como  é que, o resultado da biologia, se correspondia com o resultado deles.  E com  os veterinários, também foi muito tranquilo, porque também tinha, não sei se  com os médicos eu não consegui dar o recado direito, e com os veterinários,  eu já estava mais calejada, consegui.  Mas eu tive interações muito grandes  com veterinários.  Inclusive, no final, na ULBRA, eu trabalhava dentro do  hospital veterinário.    DENT:  No caso dos antropólogos, quais eram os projetos específicos que tinha  essa colaboração ou interação com os antropólogos?    WEIMER:  Eram os projetos das populações indígenas, basicamente. As  populações indígenas, é.  As populações negras, porque eles não tinham  muito estudo com populações negras e...    DENT:  E aí--    WEIMER:  Agora se eu tivesse trabalhando, talvez tivesse fazendo interação  com historiadores, por causa [inaudível] [risos]    DENT:  [risos] Sim, podia, assim, colocar na lista, né? [risos]    WEIMER:  Não, mas não. Já-- Eu realmente me aposentei, me aposentei.   Não-- Não me arrependo, acho que aposentei na hora certa.    DENT:  E merecida-- As pessoas não tem que trabalhar para sempre. [risos]    WEIMER: [Não, porque eu penso assim.]   É, cada um, cada pessoa é uma  pessoa. Eu acho que na minha profissão como professor, no momento em que eu  não tenho mais paciência, não tenho mais, começa a ter, a me irritar com que  aluno faz, está na hora de parar!  É uma questão de respeito a eles e a mim  também.  Então-- Não dá.  Não é que eles mudaram, é que eu também  envelheci.  Eu também fiquei menos tolerante.  Então está na hora de parar.  Eu realmente, depois que eu me aposentei na UFRGS, eu continuei um bom período  orientando na pós-graduação, até terminar todos os orientados que estavam.   E na ULBRA foi a mesma coisa.  Mesmo sem receber salário, eu continuei  orientando todos os estudantes. Eles vinham na minha casa até terminar os  trabalhos.  Porque eu acho que se eu assumi o compromisso com o estudante, ele  não tem nada a ver com meu problema particular de querer parar de trabalhar.   E realmente, orientei mais dois alunos até terminarem na ULBRA e na  Genética--  Na Genética, até peguei gente nova depois que eu parei de  trabalhar. [risos]  Quer dizer, Genética para mim é UFRGS, né. [risos]    DENT:  Sim. Agora, não sei assim, você tem alguma coisa mais que acha  importante comentar que eu não perguntei sobre a carreira profissional, algum  estudo importante que--    WEIMER:  Não, não. Acho que a gente discutiu tudo, falou tudo.     DENT:  E sobre o impacto, assim, da carreira profissional na vida familiar e,  assim, ser cidadã de Porto Alegre agora? [risos] Como era, tinha tempo para se  dedicar também às coisas fora da universidade? Ou era uma carreira  profissional que era muito--?    WEIMER:  Era uma carreira profissional bastante absorvente.  Enquanto eu  estava aqui no centro, que é quando meus filhos estavam pequenos, eu vinha em  casa todos os dias, almoçava com eles todos os dias.  Quando eu fui pro  campus, não dava mais.  Felizmente, eles já estavam na idade que já dava  para ficar sem isso.  O que a gente conseguia fazer fim de semana, no domingo,  alguma coisa pessoal, ou quando a gente tirava férias, um mês de férias.  A  gente tirava e conseguia fazer alguma coisa pessoal.  Mas era uma vida-- A  gente-- O envolvimento era muito grande.  Porque teoricamente eram oito horas.   Mas a gente sempre fazia muito mais que isso.  Desde o tempo de doutorado.   Desde o tempo do mestrado, porque sempre tinha mais-- &amp;quot ; ? Um dia tem 24 horas,  mas a gente tinha que fazer esse dia de 24 horas render, senão não dava conta.   Então a parte que eu estava fazendo doutorado e dando aula era-- &amp;quot ;  Trazia  trabalho para casa todos fins de semana e--  As aulas todas eram preparadas em  casa, porque durante o dia não dava tempo.  Porque além das atividades  didáticas, tu tem participação de comissões, tu começa a se envolver com a  vida do departamento.  Então tu tem que-- É uma profissão, uma carreira  muito envolvente.  Mas muito boa. [risos]  Não é queixa em nenhum sentido,  mas era-- Era-- Não era que eu fazia aquilo como sacrifício, era um prazer  estar ali.    DENT:  Bom, acho que essas são todas as minhas perguntas então--    WEIMER:  Então tá, Rosanna, se precisar de mais alguma coisa-- Estou às  ordens. Qualquer coisa que tu queiras.    DENT:  Tá, perfeito. Muito obrigado, professora.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras. audio O seu uso e divulgação estão restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=weimer-20140721.xml weimer-20140721.xml      </text>
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                <text>Profa. Tania de Azevedo Weimer, entrevista, 21 de julho de 2014</text>
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                <text>&lt;p style="font-size: medium;"&gt;A entrevista com a Profa. Tânia Weimer foi realizada presencialmente na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 21 de julho de 2014. Tânia Weimer é professora aposentada do Departamento de Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A entrevista trata da sua formação científica em genética ainda na graduação em Farmácia e Bioquímica na Universidade Federal da Bahia; a mudança para a UFRGS para cursar o mestrado e doutorado sob orientação de Francisco Salzano; as condutas éticas informais nas pesquisas antes das regulamentações do Comité de Ética no Brasil; suas práticas de coleta de dados e envolvimento no manejo das amostras sanguíneas de populações indígenas; sua entrada como Profa na UFRGS em 1976 e sua experiência docente, incluindo relatos sobre universidade na ditadura militar; mudanças nas pesquisas e no espaço laboratorial com a transição para pesquisas com DNA. Ela relata seus interesses de pesquisa, desde os efeitos da radiação na genética, passando pela miscigenação racial na população do Rio Grande do Sul; e a genética animal. Ela refere-se ainda sobre a sua relação de orientação com Salzano e a influência dele na condução das suas pesquisas e na sua formação como docente universitária; além da relevância da interdisciplinaridade nas pesquisas em genética humana realizadas no Departamento de Genética e Biologia Molecular. Esta entrevista pode interessar àqueles que querem saber mais sobre a história da genética humana e do Departamento de Genética e Biologia Molecular da UFRGS; o tema da ética em pesquisa em genética humana; as práticas da pesquisa em genética humana antes do advento do DNA; o estudo da miscigenação racial e de populações indígenas pela genética.&lt;/p&gt;</text>
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                <text>Esta é uma fotografia do professor Salzano, ao lado de seus colegas, da esquerda para a direita: Antonio Rodrigues Cordeiro, Franscisco Mauro Salzano, Danko Brncic, L. Glock e Theodosius Dobzhansky. 1956. </text>
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