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              <text>    5.4      Prof. Francisco Mauro Salzano, entrevista, 13 de julho de 2012   01:15:00   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética EEntrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     pesquisas internacionais  trabalho de campo  resistência indígena à pesquisa  ditadura militar Francisco Mauro Salzano Rosanna Dent .mp4 salzano-20120713.mp4 2:|16(4)|23(3)|33(10)|45(1)|54(9)|70(12)|95(5)|111(9)|123(12)|147(11)|161(10)|185(2)|211(3)|230(11)|239(10)|261(3)|274(1)|292(2)|306(14)|325(2)|342(2)|358(13)|374(1)|401(5)|425(8)|447(5)|457(12)|459(4)|466(11)|485(10)|501(10)|525(7)|539(6)|559(13)|586(11)|600(2)|615(7)     0   https://youtu.be/ownOUlYzhnU  YouTube         audio    pt-br     0 Salzano fala ano e pessoas presentes no Congresso de Genebra com OMS           colaboração e acordos ; eventos ; publicações ; Redes científicas e circulação ; viagem   Redes científicas e circulação                       325 Salzano explica primeiro documento do congresso OMS           colaboração e acordos ; Ética ; ética formal ; grupo continental ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Ética ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       448 Salzano explica segundo documento do congresso OMS           colaboração e acordos ; eventos ; indígena ; Prática ; práticas de campo ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       652 Salzano trata das diferença entre primeiro e segundo documento OMS           colaboração e acordos ; Ética ; ética formal ; Redes científicas e circulação   Ética ; Redes científicas e circulação                       684 Salzano fala dos subgrupos da reunião OMS           colaboração e acordos ; Redes científicas e circulação   Redes científicas e circulação                       778 Salzano fala sobre polêmica uso termo &amp;quot ; primitivo&amp;quot ;  grupo OMS           colaboração e acordos ; Ética ; ética informal ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Ética ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       917 Salzano fala o que procuravam na busca por estudo de população no Brasil           Diversidade Biológica ; evolução humana ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades   Diversidade Biológica ; Raça, Etnia e Identidades                       983 Salzano fala de sua ida para Genebra e relação com OMS             colaboração e acordos ; Redes científicas e circulação ; viagem   Redes científicas e circulação                       1066 Salzano comenta relação com outros cientistas do grupo OMS           classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; Redes científicas e circulação ; viagem   Diversidade Biológica ; Redes científicas e circulação                       1210 Salzano fala de pessoas grupo OMS e do Programa Biológico Internacional           colaboração e acordos ; publicações ; Redes científicas e circulação   Redes científicas e circulação                       1421 Salzano fala sobre relação entre primeiro campo com Xavantes e reunião OMS           campo ; colaboração e acordos ; Contribuições importantes à ciência ; eventos ; Mudanças importantes na ciência ; publicações ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Mudanças importantes na ciência ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       1601  Salzano fala sobre publicações e teorias em relação aos Xavante           classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; Diversidade Genética ; indígena ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; prática ; processamento de dados ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Diversidade Biológica ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       1956 Salzano fala compara segunda ida a campo Xavante com primeira           campo ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; Diversidade Biológica ; Interdisciplinaridade ; medicina ; prática ; práticas de campo ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética   Diversidade Biológica ; Interdisciplinaridade ; Prática ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       2158 Salzano compara duas exeriências de campo com Xavantes           branco ; classificação diversidade bio ; Diversidade Biológica ; indígena ; prática ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo   Diversidade Biológica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo                       2321 Salzano fala sobre norte americanos em trabalho de campo com indígenas           Afeto ; branco ; colaboração e acordos ; desconforto ; entusiasmo ; etnia ; grupo continental ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo ; viagem   Afeto ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       2639 Salzano fala sobre colaboração com Neel no Alpha Helinx e Yanomama           colaboração e acordos ; ética formal ; etnia ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Ética ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       2872 Salzano fala sobre outros estudos que fez enquanto colaborava com Neel e Keiter           colaboração e acordos ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2945 Salzano fala sobre motivos de não ir à Venezuela com Neel estudar Yanomamo           colaboração e acordos ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       3041 Salzano fala sobre idas a Michigan           colaboração e acordos ; prática ; processamento de dados ; publicações ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Prática ; Redes científicas e circulação                       3102 Salzano fala sobre colaborações no Alpha Helix           colaboração e acordos ; etnia ; indígena ; instituição de fomento ; Interdisciplinaridade ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       3476 Salzano fala de situação conflituosa em campo com Kaxinawá           colaboração e acordos ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; Ética ; ética formal ; ética informal ; etnia ; exames dos sujeitos ; indígena ; Interdisciplinaridade ; medicina ; prática ; práticas de campo ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo   Contexto Político-Economico ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       3740 Salzano fala sobre conflitos para realização pesquisa genética com indígena           ambiente político ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Ética ; ética formal ; ética informal ; etnia ; fator externo à pesquisa ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo   Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Ética ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo                       4032 Salzano fala sobre mudanças na política da Rockefeller           colaboração e acordos ; Contexto Político-Economico ; fator externo à pesquisa ; instituição de fomento ; Redes científicas e circulação   Contexto Político-Economico ; Redes científicas e circulação                       4148 Salzano fala sobre resistência a pesquisadores estrangeiros           ambiente político ; Contexto Político-Economico ; fator externo à pesquisa   Contexto Político-Economico                       4211 Salzano fala sobre influência da ditadura na pesquisa           ambiente político ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; Redes científicas e circulação   Contexto Político-Economico ; Redes científicas e circulação                       4435 Salzano fala sobre atuação de Cordeiro           colaboração e acordos ; Formação Acadêmica ; Instituições de formação ; instrumentos ; prática ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       oral history Esta entrevista com o professor Francisco Salzano foi realizada no Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em Porto Alegre em 13 de julho de 2012. Francisco Salzano discorre sobre seu envolvimento em projetos e programas de pesquisa internacionais, tais como os promovidos pela OMS e o International Biological Program (IBP). Fala de debates científicos da época como o termo primitivo e o modelo fissão-fusão. Fala da relevância de suas investigações com populações indígenas brasileiras e comenta sobre algumas dinâmicas e problemas nos trabalhos de campo. Destaca a relevância dessas iniciativas para o campo da genética humana. Salzano também tece comentários sobre suas colaborações científicas e fala do momento em que as parcerias com J. Neel diminuíram. Comenta sobre episódios de resistência de indígenas à realização das coletas de dados, expressando contrariedade sobre a influência de ONGs nas resistências das populações à pesquisa genética. Por fim, fala brevemente sobre a dinâmica de apoio à ciência e repressões durante a Ditadura Militar.  DENT: Hoje é 13 de julho de 2012. Estamos no Instituto de Biociêncais da  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o professor Francisco Mauro  Salzano. Se você está de acordo, eu vou pôr o microfone aqui, sim? Então, a  última vez que falamos, você comentou um pouco que foi para Genebra para a  conferencia [congresso], para duas conferencias que realizaram lá. Eu queria  saber um pouco mais, o que você lembra de essas conferencias, do processo de  produção do documento. Eu li o reporte [relatório] técnico que saiu, mas  estava interessada saber um pouco, se podia dar uma pouco de explicação de  como foi que a Organização Mundial de Saúde estava interessada neste projeto  que você com Neel e as outras pessoas que estavam lá presentes estavam armando.     SALZANO: Isso. Me espere aí, que vou... pesquiso no documento aqui.    DENT: Claro, claro.     [Salzano sai da sala, e logo volta]    SALZANO: Então o primeiro foi publicado em 1964 e o segundo em 1968.    DENT: Então aqui, são os reportes [relatórios] do grupo.    SALZANO: Pois é. Esse então é o documento final. Aqui estão os diferentes  membros do grupo que envolve professores da Inglaterra, dos Estados Unidos,  França, Austrália, Rodésia, da África. Então, eu e outros professores dos  Estados Unidos. Então, o Neel era o presidente do grupo, e eu rapporteur  [relator]. O que coordenou a produção do documento foi o Professor Kirk de  Austrália. Depois tinha o secretariado da Organização Mundial de Saúde que  envolveram também pessoas tão importantes quanto Alfred Métraux, da França,  e o Joseph Weiner, da Inglaterra. Laughlin também dos Estados Unidos.    Isso foi feito em 1962, como falei, 3 de dezembro. Então, há toda uma  introdução sobre a necessidade dos estudos em populações tribais, os  objetivos, e os dados a serem coletados que envolveriam demografia, ambiente  sociocultural, saúde, genética e antropologia física. E as populações  disponíveis para estudo, que envolvia grupos na América do Sul,  África, Ásia, Australásia, e como se deveria montar a pesquisa, equipamentos  e outras facilidades, treinamento de pesquisadores para essas atividades, e aí  a questão da bioética: [Salzano lê] &amp;quot ; Relações do grupo de pesquisa com a  população estudada&amp;quot ; . Está aqui tudo que atualmente é solicitado, está tudo  aqui em 1962. E há uma série de recomendações para a Organização Mundial  de Saúde relativas a esse projeto.     Isso foi seguido por uma outra reunião, documento publicado em &amp;#039 ; 68 que também  incluía um professor da África, da Itália, Estados Unidos, Escócia,  Japão, Holanda, França, Austrália, e como membro do secretariado uma pessoa  importante também da Índia, Dr. Sanghvi. E, então, a ideia foi reavaliar o  documento feito anteriormente. Isso foi em &amp;#039 ; 67, e o documento antes foi feito em  &amp;#039 ; 62, então cinco anos depois para ver se havia alguma alteração, alguma coisa  para fazer. Então, inicialmente havia muita polêmica com o término  &amp;quot ; primitivo&amp;quot ; , então foi retirado do título do documento esse termo que é  considerado pejorativo com os grupos. E nesse caso o Neel era o presidente do  grupo, coordenador, eu era o vice coordenador, e o Newton Morton, dos Estados  Unidos, e o Walsh que eu creio que era da Austrália serviram de rapporteurs  [relatores]. Daí, então, se verificou todos os dados, todo o documento que  tinha sido feito anteriormente. Se atualizou todo ele [páginas virando], as  populações também foram revisadas. A organização do trabalho de campo...  aqui foi aumentada, com mais detalhes de como deveria ser conduzido o trabalho  de campo. E processamento dos dados que também não tinha antes...    DENT: E durante esses... que, eram cinco anos?... Experimentaram muitas  mudanças nas técnicas disponíveis?     SALZANO: Não muitas, mas havia alguns desenvolvimentos que não existiam antes.  E já havia experiência de trabalho de campo em diferentes continentes, então  já se podia discutir com mais profundidade essas questões da bioética, por  exemplo, e outras.     DENT: E você, dentro desse grupo, quando estavam preparando o documento e  fazendo todo o processo de conversar e ver, que foi o que você aportou? Que foi  o papel que você teve dentro do grupo? Era dividido entre pessoas para algumas  responsabilidades, ou como foi produzido o documento? Como foi o processo?    SALZANO: Em geral, se fazia subgrupos que tratavam desses diferentes aspetos,  que eu falei ainda há pouco. Então, cada um discutia. Cada subgrupo discutia,  montava a redação e depois era submetido ao grupo todo, sobre que deveria  ficar, que deveria ser alterado, etc.     DENT: E qual era o subgrupo que você era parte?    SALZANO: Agora... já não me lembro mais.    DENT: Faz muito tempo...    SALZANO: É. Mas... não me lembro agora...    DENT: Você mencionou que sacaram [tiraram] do nome o término [termo] &amp;quot ; primitivo&amp;quot ; .    SALZANO: Isso.    DENT: Qual era a polêmica que existia? Teve pessoas que estavam de ambos lados  na conversação ou simplesmente foi um... Ou como foi?     SALZANO: Inicialmente a gente estava muito ingênuo com relação a esse termo.  Então, na verdade, foi até cuidadosamente definido para evitar qualquer  problema de interpretação errada. É apresentado aqui o que a gente queria  dizer com isso. Mas, o fato é que quando depois que isso foi publicado, vários  colegas questionaram esse termo mesmo com o condicionamento que a gente fez,  poderia haver interpretações errôneas. De pessoas melhores, ou menos  capacitadas. Então, por isso se mudou. Mas não havia nenhuma diferença de  opinião tanto no primeiro como no segundo quanto a inclusão ou não desse termo.     DENT: Imagino que você estava muito involucrado [envolvido] na parte de  identificar os grupos para estudo aqui em América Latina, não?    SALZANO: Exato.    DENT: Que era o que você procurava para um grupo perfeito para um estudo de população?    SALZANO: Aquele que seria... no caso aqui, dos grupos tribais, seriam aqueles  que estivessem o menos possível influenciados pela sociedade circundante.  Então para esses deveriam estar mais ou menos isolados das populações urbanas  e conservando o máximo possível a sua cultura. Cultura e aspetos biológicos também.     DENT: Lembra algo da experiência de ir para Genebra neste tempo, nos anos &amp;#039 ; 60?  Como era para você? Já viajou antes, não? Mas, lembra algo de como era viajar  para lá?     SALZANO: Foi muito agradável. Em &amp;#039 ; 62 já tinha participado de outras viagens  internacionais. No congresso de genética humana, que ocorreu na Itália, e  então não havia grandes problemas, digamos, de adaptação ao ambiente  europeu. E foi bastante agradável porque o pessoal lá da Organização Mundial  de Saúde foi muito simpático e acolhedor. E posteriormente eu fiquei em  contato com eles durante várias décadas, na verdade, como membro do comitê  consultivo sobre essa questão da genética.     DENT: E, das pessoas que estavam lá presentes, dos científicos [cientistas], a  parte do Neel, que você já trabalhou com Professor Neel muito tempo, alguma  outra pessoa lembra que iniciou lá uma relação de trabalho, uma  correspondência, ou uma colaboração?    SALZANO: De colaboração mesmo, não. Mas nós estivemos principalmente em  contato com o Professor Barnicot, que é da Inglaterra e que estava fazendo  trabalho de campo na África e na Grécia. Achava que era interessante trabalhar  na Grécia também. [Risos]    DENT: Sim? Por quê?     SALZANO: Pelo ambiente na Grécia. [Risos] E tinha um problema específico que  se relacionava com alta frequência de hemoglobinas anormais que a gente falou  noutro dia, lá na Grécia. Então ele combinava a importância biológica do  trabalho com o ambiente agradável das ilhas gregas...    DENT: [Risos] Claro.    SALZANO: ...e da cultura grega em geral, né? E outra pessoa que a gente teve  bastante contato foi o Doutor Carleton Gadjusak, que é americano, e que  inclusive ganhou o prêmio Nobel. Outra pessoa que tivemos muito contato foi o  Bob Kirk. Robert Kirk que estava realizando um trabalho similar ao nosso na Austrália.     DENT: E como foi a comunicação com eles e vocês? Fizeram intercâmbio de  publicações? Ou escreveram cartas e correspondência? Quais foram os temas que comunicaram?     SALZANO: Então como disse, especialmente dessas pessoas, a gente continuou  intercambiando informações e... Logo, mais ou menos concomitantemente nessa  época, foi lançado o que se chamou &amp;quot ; Programa Biológico Internacional&amp;quot ;  para os  quais várias dessas pessoas também estavam envolvidas, né? Especialmente o  professor Weiner, que foi o coordenador principal da parte de antropologia  biológica do Programa Biológico Internacional. Então, nós fizemos outras  reuniões independentes dessa da WHO em épocas diversas, saíram vários  documentos a respeito, pelo menos uns dois ou três livros, nos quais a gente  analisou em detalhe os dados obtidos a partir dessa filosofia.     DENT: Então o programa biológico internacional foi patrocinado pelo WHO?    SALZANO: Não.    DENT: Foi separado?    SALZANO: Foi separado. Era do IUBS. International Union of Biological Sciences.     DENT: E você estava involucrado [envolvido] no programa biológico internacional?    SALZANO: Sim! Bastante!    DENT: Sim.    SALZANO: Digamos que havia um grupou principal, que envolveu o Weiner, e outras  pessoas que depois participaram da segundo reunião. O próprio Gadjusek,  Laughlin, e não está aqui, mas uma pessoa chave era um norte-americano chamado  Paul Baker, da Pennsylvania [State Univeristy] que também tinha um programa  importante de adaptação à altura. E, então, editou ou pelo menos coeditou  com Weiner um dos livros que a gente publicou.     DENT: Você, quando foi para a Suíça para primeira vez, foi a poucos meses  depois de fazer as primeiras pesquisas com os Xavante?     SALZANO: É... O campo foi... em &amp;#039 ; 62. Por aí, mais ou menos.     DENT: Acho que foram em julho, mais ou menos, de &amp;#039 ; 62 para a primeira  experiência com James Neel aqui para as pesquisas.    SALZANO: Exatamente.    DENT: E depois, a poucos meses foram para essa conferencia [congresso]. E como  era a relação entre o trabalho que vocês fizeram lá... acho que eram dentro  dos primeiros trabalhos de campo de genética com grupos tribais... depois para  levar a experiência para a OMS para essa conferência... Lembra como era a  relação entre o que vocês fizeram com os Xavante e o que apresentaram lá  para as pessoas em Genebra?    SALZANO: Não, foi fundamental essa primeira experiência de campo. E a gente  partiu, justamente, da mesma para um projeto de redação desse documento. Quem  realmente, a pessoa chave para montar a filosofia toda foi o Professor Neel, sem  dúvida, que tinha também uma relação muito boa com a WHO, então... isso facilitou.    DENT: E como foi a recepção do trabalho que vocês fizeram com os outros  científicos [cientistas] lá?    SALZANO: O documento, ou o trabalho de campo?    DENT: O trabalho de campo, porque imagino que vocês apresentaram o que fizeram  de alguma forma. Lembra?    SALZANO: Foi publicado. A publicação principal que nós fizemos em &amp;#039 ; 62, eu acho...    DENT: Em &amp;#039 ; 64, acho, que saiu.     SALZANO: A primeira de Xavante?     DENT: A primeira, sim.     SALZANO: Ah, tá, pois é. [Risos] Então já foi posterior, em &amp;#039 ; 64. Na  verdade, se constituiu num modelo para investigações posteriores em todo o mundo.     DENT: Então, depois de fazer a primeira reunião, vocês voltaram para o campo  com os Xavante. Lembra de alguma mudança ou uma comparação entre a primeira  vez que foram e a segunda vez?     SALZANO: Aí foram pessoas diferentes com relação à primeira. Então os  estudos foram diferenciados. [Salzano fala baixo] Tira isso daqui de novo [se  retira o microfone da camisa do Professor.] Deixa eu ver uma coisa.    [Som de abertura de uma gaveta]    Então, essa aqui é uma cópia do trabalho, do primeiro de &amp;#039 ; 64 como você  falou... Então incluíram as pessoas que fizeram trabalho de campo lá. Agora,  em &amp;#039 ; 67 a gente publicou todo um conjunto de artigos que foram em número de dez.  A maior parte publicada no American Journal of Human Genetics que começa aqui.  E um ponto importante foi essa revisão desses estudos que eu fiz junto com  Professor Neel, inclusive algumas hipóteses e generalizações do estudo.  Inclusive um ponto chave que é a questão de como seria a estrutura  populacional desses grupos tribais ;  chamado o modelo fissão-fusão que foi  depois submetido a diferentes análises matemático-estatísticas que se  interpretasse exatamente... analisasse quantitativamente qual seria o efeito  genético dessa estrutura.    DENT: E você mencionou que as pessoas que foram para o campo na segunda vez  eram diferentes.     SALZANO: Isso.    DENT: Quem estava lá no campo?    SALZANO: Pois é, aqui tenho... [páginas virando]    DENT: Ainda estava colaborando com Junqueira?    SALZANO: Deixa eu mostrar a série toda... [página] 394 ...&amp;#039 ; 67...    [Salzano se levanta e busca o American Journal of Human Genetics volume 19,  número 4, 1967]    Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Sete [artigos] saíram nesse número  especial e depois dois ou três outros, que eram mais de natureza médica,  saíram em outras revistas. Então, o trabalho de campo mesmo. Acho que... não  lembro se David [Maybury-Lewis] voltou lá também.    DENT: David voltou?    SALZANO: Não sei, não me lembro. [Salzano revisa os nomes na publicação] Mas  o Niswander, sem dúvida, foi um dos que eram lá do NIH, participou do trabalho  de campo. Esses todos são da parte do laboratório do... Weinstein, David  Weinstein também, que era médico. Que eu me lembro é assim... seria o  Niswander, o Weinstein...    DENT: O Professor Neel.    SALZANO: O Neel. Eu. Isso.     DENT: E a experiência... Como vocês já tiveram essa experiência antes,  alteraram alguma coisa em o que iam fazer para a segunda vez que voltaram? Quais  foram as aprendizagens que tiveram do primeiro tempo de campo para o segundo?    SALZANO: Se procurou aprofundar mais... esse primeiro estudo poderia ser  considerado como estudo piloto. E para aprofundar, por exemplo, a parte da  morfologia e da questão da higiene oral, foi o Niswander. E para aprofundar a  questão dos estudos médicos, foi o Weinstein. E se fez uma série de outras  coletas de material biológico que não tinha sido feito antes.    DENT: E coletaram sangre [sangue], urina, todo isso... de novo?    SALZANO: Exato. Porque eram outras aldeias. Não eram as mesmas.    DENT: E todo foi certo lá? Ou tiveram algum problema, alguma dificuldade?  Porque no trabalho de campo sempre coisas acontecem, não?    SALZANO: Claro.    DENT: Lembra de alguma coisa lá que foi inesperado?    SALZANO: Pois é, os estudos... na primeira vez a gente foi na aldeia de São  Domingos. Nessa outra foi no Simões Lopes que era outro posto da FUNAI, e São  Marcos que era uma missão religiosa católica. Eram estruturas mais ou menos  diversas da que a gente tinha visto antes. Em São Marcos havia muito mais  influência dos Padres do que havia nas duas outras aldeias. Mas especialmente  isolados realmente era o pessoal de São Domingos. Os dois outros já tinham um  pouco mais de influência não-indígena.     DENT: E viram alguma influência na biologia dessa aproximação das culturas,  ou experiência com a missão, todo isso?    SALZANO: Não assim muito marcante, digamos. Poderia dizer que as principais  diferenças seriam com grupos já mais aculturados, digamos. Ou não-indígenas  do que propriamente entre essas três populações.     DENT: E como foram as... Você já viajou antes. Sabia como era fazer trabalho  de campo, mas a experiência de compartir [compartilhar] isso com os  norte-americanos, como foi a reação deles frente a chegar lá? Você acha que  foi diferente por de onde vieram, ou que você já tinha experiência  trabalhando com populações indígenas? Lembra de alguma reação deles ao  chegar lá e a ter esse contato.    SALZANO: Não. Em relação a esses dois, nessa segunda viagem não houve nenhum  problema de adaptação. Depois já quando se tratou da viagem do Alpha Helix,  um ou dois membros tiveram problemas, um não podia ir para o campo, coisas  desse tipo, diarréia... [Risos]    DENT: Isso acontece, não? [Risos]    SALZANO: A maneira como as pessoas reagem a situações às quais não estão  acostumados é muito variada, então tem que ter cuidado. Tenho uma amiga minha,  que fez trabalho de campo muito tempo lá na Amazônia, disse que num momento  determinado lá, ela foi fazer trabalho de campo com um norte-americano. Seria a  parte da questão da antropologia social-cultural... não é biológica... e o  camarada, logo depois do primeiro ou segundo dia, ficou completamente  estatelado. Ficava no canto, sem se mover, quase uma síndrome de autista... Foi  difícil até de fazer com que ele voltasse para a cidade. Então... situações  extremas, às vezes, ocorrem.    DENT: Lembra se tiveram alguma, se tiveram, diferencia [diferença] de ponto de  vista para chegar lá aos povos indígenas do Brasil, entre você, que é  Brasileiro, e que trabalhou durante um tempo antes nesse campo, e os, como  Niswander, que chegaram talvez com outras expectativas? Ou nem sequer uma  diferencia [diferença] entre vocês, mas como eram as reações pessoais dos  pesquisadores de chegar lá?    SALZANO: É... em geral não houve, pelo menos com relação a esses primeiros  estudos, não houve grandes problemas porque inclusive na questão da língua,  nós, tanto os norte-americanos como os brasileiros, eram estrangeiros com  relação aos Xavante, por exemplo. Posteriormente houve alguns problemas, mas  com grupos mais aculturados, digamos.     DENT: E eles gostaram tanto como você de fazer o trabalho de campo, acha?     SALZANO: Pois é, o Neel gostava muito desse trabalho de campo. O Niswander,  mais ou menos. E Weinstein também não era grande adepto. Nos trabalhos depois  com os Yanomama é que tivemos contato com uma pessoa controversa, que era o  Napoleon Chagnon. E ele adorava o trabalho de campo! Ia todos os anos para pisar  na mata até que foi proibido.     DENT: Sim... Então, depois dos estudos com os Xavante, seguia trabalhando com o  Professor Neel, mas foi um pouco menos a colaboração. É certo isso?     SALZANO: Em parte. Quer dizer que, na verdade, teve essa expedição da Alpha  Helix, que foi... tivemos uma colaboração bastante estreita. Mas quando chegou  a questão dos Yanomama é que, como a maior parte da população dos Yanomamas  está na Venezuela, ele, então, mudou o foco do trabalho de campo dele para  lá. Então, diminuiu a nossa inter-relação.     DENT: E você não acompanhou para o trabalho de campo com os Yanomamas? Ou foi...     SALZANO: Sim, o primeiro. No primeiro a gente fez no Brasil. E com todos os  cuidados éticos necessários. Já naquela época também havia uma questão de  resistência com relação aos norte-americanos, estrangeiros em geral. Então,  para o Alpha Helix inclusive foi designado um pesquisador Brasileiro lá do INPA  para acompanhar se nós estávamos comportando bem, e um almirante, não sei se  era vice-almirante, mas um alta patente da marinha brasileira que foi junto com  um navio para fiscalizar.     DENT: E quando você foi para o trabalho de campo com os Yanomamo...    SALZANO: Os Yanomamo foi antes do Alpha Helix.    DENT: Ok. Foi antes. E depois... Foi para a primeira vez, mas não voltou mais  porque... Por que foi? Por que Neel mudou do pais para trabalhar...    SALZANO: Exatamente.    DENT: ...para Venezuela?    SALZANO: Entre os Yanomama também a ênfase de trabalho foi mais entre missões  religiosas protestantes do que aqui, que foi entre o pessoal da FUNAI, dos  postos de FUNAI.     DENT: E, nesse tempo, você estava trabalhando em outras coisas também...  Imagino muitas.    SALZANO: Lógico.    DENT: Então que mais estava fazendo ao mesmo tempo como seus trabalhos de campo  junto com os professores Neel e Keiter?    SALZANO: Bom, teria que olhar a lista de publicações, mas em geral continuei  trabalhando na parte de estudos urbanos. Também em colaboração com outras  pessoas em populações rurais brasileiras, neo-brasileiras. Enfim...     DENT: Depois eu gostaria muito de ter uma cópia de seu currículo de lattes  completo, porque o que tem no internet de CNPq, somente vai até 1980.    SALZANO: Ah, tá.    DENT: Acho que você tem tantas publicações que não pôde pôr todo. [Risos]    SALZANO: Eu tenho todo o currículo completo no computador. É só eu te mandar.     DENT: Agradeço muito. Então, você, por que não quis ir para Venezuela para  fazer pesquisas?    SALZANO: Não é que eu não quis. [Risos]    DENT: Por que não foi, então? [Risos]    SALZANO: Não fui porque havia pessoas lá suficientes para fazer o trabalho de  campo com Neel. Especialmente, um amigo meu que era o Miguel Layrisse que então  foi quem coordenou todo os trabalhos lá junto com o Neel.     DENT: E com interesses científicos estavam igual... estavam concordando sempre?  Ou você teve outros interesses no tempo que Neel foi para lá e você ficou  fazendo pesquisas...    SALZANO: Não, nós continuamos mais ou menos sintonizados com relação às  ideias. Lógico que pequenas diferenças sempre existem, mas em geral nós  estávamos bem sintonizados. Tanto à importância dos diferentes problemas que  deveriam ser desenvolvidos.     DENT: Depois do tempo que você ficou para fazer o pós-doutorado em Michigan,  voltou para Michigan algumas vezes?     SALZANO: Várias vezes.     DENT: E foi para fazer o que, exatamente?    SALZANO: Por exemplo, esse... Eu fui para lá justamente para ajudar na  interpretação e redação de vários desses artigos aqui de &amp;#039 ; 67. [Salzano  indica as publicações na mesa] Lá eu fiquei um mês, parece. E posteriormente  também fui em outras épocas justamente para fazer a inteiração na análise  dos dados, verificação na coleta.    DENT: Foram para o viagem da Alpha Helix. Lembra em qual ano? Foi &amp;#039 ; 80?    SALZANO: Hm. [Risos] &amp;#039 ; 80, a época é em &amp;#039 ; 80. [Salzano se levanta] Tenho que  olhar ali no meu currículo. Vou abrir aqui [som das gavetas]. Olhe, o  currículo em papel é esse...    DENT: Olhe isso!! [Risos] É um documento de cem páginas... Mais!    SALZANO: Sei lá... É... Então vamos ver aqui... [som de páginas virando]  &amp;#039 ; 81, &amp;#039 ; 82... Não estou encontrado agora mas... Há um que a gente deu ênfase na  parte dos Ticuna, não?... Isso foi posterior... Talvez tenha sido &amp;#039 ; 80. Está  aqui... É... &amp;#039 ; 80 saiu a publicação, então o trabalho de campo foi ao final  da década de &amp;#039 ; 70. Na parte brasileira, além de mim havia, o professor  Mestriner, Moacyr Mestriner e Aguinaldo Simões, que são de Ribeirão Preto ;  o  Dale Lawrence, que era dos Estados Unidos, que também era o NIH ;  Peter Smouse,  que era dos Estados Unidos, da parte principalmente de antropometria, análise  matemática ;  William Oliver, que era médico, lá de Ann Arbor ;  e o Spielman,  que era também da parte da morfologia. Então, o trabalho foi publicado em &amp;#039 ; 80  no Annales of Human Genetics.    DENT: E você comentou que neste época estavam cauteloso com a presencia  [presença] dos norte-americanos ou dos estrangeiros. Pode comentar um pouco  como era o ambiente para fazer pesquisas? E estavam ainda baixo a ditadura  militar nessa época.     SALZANO: Isso.     DENT: Como foi esse tempo para fazer as pesquisas?    SALZANO: Em geral, a gente sempre tem menos problemas com populações  não-aculturadas que com as que já tem contato muito forte com os  &amp;quot ; neo-brasileiros&amp;quot ; . Então, o principal problema que a gente teve nessa excursão  da Alpha Helix foi com um grupo Kaxinawá que era relativamente aculturados e  que... eles ficaram meio zangados porque um dos médicos que estava fornecendo  atenção médica para eles, eles consideraram que não estava dando atenção  suficiente. Então, não dava... &amp;quot ; Não, você está bem, pode ir embora.&amp;quot ;  Então  eles queriam que sempre que ter algum remédio, alguma coisa. Uma contrapartida,  não? E aí começaram a ficar raivosos e nos ameaçaram com agressão física.  Aí houve um momento, então, eu tive que passar a tomar conta da parta de  exames médicos para subir mais medicamentos porque senão... a coisa ficaria  feia! Mas, aí quando voltamos lá -- era uma aldeia, numa ilha no rio lá no  estado Acre -- quando voltamos para a aldeia, para uma cidadezinha próxima,  eles foram depois reclamar no delegado de polícia que os americanos estavam  levando o sangue deles para vender. [Risos] Então, teve que haver uma  negociação bastante delicada entre, inclusive, o representante brasileiro na  expedição e o delegado da polícia, dizendo que não, não íamos vender o  sangue deles.    DENT: E como foi a perspectiva da polícia? Eles, que sabiam fazer com esse  conflito? Estavam... Que era a reação deles?     SALZANO: Não, eles queriam saber exatamente o que é que era, receberam essa  denúncia de alguns líderes indígenas. E chamaram as pessoas, especialmente  esse representante e o chefe da expedição, que era o Neel. Não sei, não  participei da reunião com o delegado de polícia [risos], mas acho que não foi  muito violenta, não    DENT: E o almirante que estava no navio?    SALZANO: O almirante deve ter participado também! [Risos]     DENT: [Risos]... Então, por que acha que a interação com as populações já  com mais contato com os &amp;quot ; neo-brasileiros&amp;quot ; , por que acha que foi tão diferente,  que foi mais conflictivo [conflituoso]?     SALZANO: Não, acho que isso tem acontecido de maneira mais acentuada ao longo  dos anos, né? De influência de grupos bem intencionados até certo ponto  talvez, mas que não tem conhecimento suficiente sobre a importância dos  estudos genéticos. E com isso influenciam negativamente essas populações.     DENT: Não sei se entendei bem. Desculpe. Que tem outras pessoas que estão...    SALZANO: Outras organizações. São as ONGs.    DENT: Ah, organizações.     SALZANO: Eles estão muito preocupados nos aspetos bioéticos e de conservação  desses grupos. E isso é correto. Mas muitas vezes eles têm ideias errôneas  sobre a importância do trabalho genético, não só para esses grupos, mas para  a história universal. E eles têm influenciado... bastante. São pessoas  relativamente ingênuas, para desenvolver uma resistência a qualquer tipo de  trabalho de genética.     DENT: E neste tempo, quais eram as organizações que trabalhavam com os grupos  indígenas? Fora da FUNAI?    SALZANO: Bom, agora não sei. São várias. Depois, posso lembrar um episódio  também desagradável que foi recente aí com os Suruí. Mas isso foi agora --  três, quatro anos atrás. Nós obtivemos todos as permissões necessárias,  tanto da FUNAI como de outras organizações de proteção ao índio, e da  própria comunidade. E depois que uma colega daqui do departamento e o pessoal  da FIOCRUZ, realizou a coleta do material, uma delegada da FUNASA, que é a  Fundação Nacional da Saúde, que atualmente é a responsável da saúde  indígena, se mostrou contrária a que esse material saísse da aldeia. E aí,  então, não só não saiu, como foi perdido todo o trabalho de quase duas  semanas de trabalho com todos os gastos envolvidos que foram inúteis, né?     DENT: Isso aconteceu faz pouco tempo, falou?    SALZANO: Ao redor de quatro ou cinco anos. Não tenho certeza. Eu não estava  lá, então não sei.     DENT: Ah, entendei. Então você comentou também a presença de esse almirante  na barca. Qual era o ambiente nacional -- já não falando da comunidade, mas o  ambiente nacional -- para a colaboração científico? Porque eu vi, nos anos  &amp;#039 ; 60, que entre Rockefeller e você e outros geneticistas tiveram uma  colaboração muito grande.    SALZANO: É.    DENT: Foi uma mudança com a instalação da ditadura militar, como era, ou como  seguia a relação entre países para a colaboração?    SALZANO: Não, o afastamento da Fundação Rockefeller se deu por vontade  própria de mudança de filosofia. Eles consideraram na época que o Brasil  estava suficientemente desenvolvido para continuar sem o apoio deles. E  preferiram voltar o foco da Fundação para a África. Mais especificamente o  problema da fome foi o novo foco de auxílio da Fundação Rockefeller. E  posteriormente eu tive também um auxílio do NIH, mas foi uma questão  episódica. E realmente as instituições brasileiras já estavam  suficientemente capacitadas para desenvolver o trabalho e forneceu o  financiamento para os estudos.     DENT: Mas, ainda tiveram um pouco de resistência para aceitar aos pesquisadores estrangeiros?    SALZANO: Não, isso não.     DENT: Não?     SALZANO: Não. Continuávamos sempre...    DENT: Ah, você não. Mas o governo brasileiro...    SALZANO: Nem o governo brasileiro, que eu saiba, não.    DENT: Ah ok.     SALZANO: Houve uma época em que haviam rumores de que alguns pastores  norte-americanos seriam membros do CIA, essas s coisas. [risada] Mas não houve  nenhuma política organizada contra o estrangeiro em geral, digamos.     DENT: Mm-hm. E foi igualmente fácil, ou difícil... foi igual o processo de  planejar e fazer uma pesquisa durante o tempo da ditadura militar? Teve alguma  influência nas práticas científicas?    SALZANO: Isso variou muito da universidade para universidade. O financiamento à  pesquisa no Brasil sofreou altos e baixos, sempre. Então houve um momento na  ditadura militar em que eles estavam apoiando fortemente a pesquisa cientifica.  Então, do ponto de vista de financiamento, pelo menos alguma parte daquela  época, não houve problemas. Lógico, o que houve foi perseguições baseadas  na ideologia. Pesquisadores que estavam ativamente contra o regime foram presos.  Alguns sofreram torturas, essas coisas. Mas aqui na universidade os principais  prejudicados foram o pessoal de ciências sociais, lógico. E havia, em todas as  universidades havia um escritório, não? Da CIA. Da CIA Brasileira.     DENT: [Risos]     SALZANO: Que era o Serviço de Segurança Nacional- SNI [Serviço Nacional de  Informações]. Então, nós estávamos sempre sujeitos a controle, mas no meu  caso específico não houve nenhuma perseguição ou restrição com relação  às viagens que eu fazia, para o exterior. Já o meu colega, que foi o criador  do programa de genética aqui, o Professor Antônio Cordeiro, ele foi para  Brasília para montar um centro de genética na Universidade de Brasília. E lá  ele sofreu uma série de problemas. O grupo que estava montando... estava  desenvolvendo um trabalho muito bom... ao final foi completamente eliminado.  Alguns voltaram para Porto Alegre. Professor Cordeiro voltou para aqui. E os  outros tiveram menos ou mais complicações, digamos.     DENT: Ele foi uma pessoa que gostava muito de fazer ou construir departamentos...    SALZANO: Cordeiro?    DENT: Sim... de construir programas e...    SALZANO: Exatamente.    DENT: E com muita visão... de como estruturar as pesquisas e todo. Parece que  foi um ponto muito forte dele.    SALZANO: É... Uma das principais contribuições dele à ciência brasileira  foi essa.     DENT: E aqui temos o departamento como mostra também. [Risos] Se parece bem,  podemos parar lá para hoje.     SALZANO: Ok.        Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação dessa entrevista são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=salzano-20120713.xml salzano-20120713.xml      </text>
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                <text>Prof. Francisco Mauro Salzano, entrevista, 13 de julho de 2012</text>
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                <text>Esta entrevista com o professor Francisco Salzano foi realizada no Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em Porto Alegre em 13 de julho de 2012. Francisco Salzano discorre sobre seu envolvimento em projetos e programas de pesquisa internacionais, tais como os promovidos pela OMS e o International Biological Program (IBP). Fala de debates científicos da época como o termo primitivo e o modelo fissão-fusão. Fala da relevância de suas investigações com populações indígenas brasileiras e comenta sobre algumas dinâmicas e problemas nos trabalhos de campo. Destaca a relevância dessas iniciativas para o campo da genética humana. Salzano também tece comentários sobre suas colaborações científicas e fala do momento em que as parcerias com J. Neel diminuíram. Comenta sobre episódios de resistência de indígenas à realização das coletas de dados, expressando contrariedade sobre a influência de ONGs nas resistências das populações à pesquisa genética. Por fim, fala brevemente sobre a dinâmica de apoio à ciência e repressões durante a Ditadura Militar.</text>
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              <text>    5.4      Prof Francisco Mauro Salzano, entrevista, 11 de julho de 2012   01:29:00   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     História Natural  doutorado EUA  genética das drosófilas  James Neel  Capes  OMS  Xavante Francisco Mauro Salzano Rosanna Dent .mp4 salzano-20120711.mp4 2:|13(9)|27(2)|39(6)|51(12)|66(5)|81(7)|94(15)|110(8)|128(9)|144(6)|160(5)|176(7)|193(9)|216(1)|231(3)|252(10)|273(9)|294(2)|309(2)|332(11)|346(3)|362(5)|380(1)|396(12)|418(11)|432(10)|451(6)|467(7)|485(7)|509(6)|532(5)|546(12)|564(6)|580(1)|599(6)|616(9)|632(1)|643(9)|667(10)|682(7)|704(11)|718(3)|731(13)|757(9)     0   https://youtu.be/NE5BsBpVrPc  YouTube         audio    pt-br     54 Salzano fala da formação de graduação e pos graduação           Afeto ; Avanço técnico transformador ; colaboração e acordos ; doutorado ; etusiasmo ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa ; Moral Economies ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; paixão ao trabalho ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; vocação   Afeto ; Formação Acadêmica ; Moral Economies ; Mudanças importantes na ciência ; Redes científicas e circulação                       590 Salzano fala da viagem aos EUA para pos-doc           Afeto ; amizade ; Formação Acadêmica ; humor ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; viagem   Afeto ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       948 Salzano fala da experiencia em Johns Hopkins e Bently Glass             Avanço técnico transformador ; colaboração e acordos ; instituição de fomento ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; Redes científicas e circulação   Mudanças importantes na ciência ; Redes científicas e circulação                       1129 Salzano fala de visitar Norma Ford Walker em Toronto           Formação Acadêmica ; Gênero ; instituição de fomento ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; viagem   Formação Acadêmica ; Gênero ; Redes científicas e circulação                       1143 Salzano fala de visitar Jim Crow em Madison           Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; viagem   Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       1180 Salzano fala de conhecer Sewall Wright em Madison           Contribuições importantes à ciência ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; Mudanças importantes na ciência ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; viagem   Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; Redes científicas e circulação                       1331 Salzano fala sobre Contibuição de Neel à Genética           Contribuições importantes à ciência ; Mudanças importantes na ciência   Mudanças importantes na ciência                       1427 Salzano fala sobre o contexto EUA Segregação Racial           Afeto ; ambiente político ; Contexto Político-Economico ; Formação Acadêmica ; humor ; Instituições de formação ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; viagem   Afeto ; Contexto Político-Economico ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       1557 Salzano fala sobre levar a familia para EUA           Formação Acadêmica ; Gênero ; iniciação à pesquisa ; Instituições de formação ; pós-doutorado   Formação Acadêmica ; Gênero                       1624 Salzano fala da relação com Neel           Afeto ; amizade ; colaboração e acordos ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; humor ; Instituições de formação ; pós-doutorado ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; viagem   Afeto ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       1999 Salzano fala sobre Surgimento das técnicas de Eletroforese           Avanço técnico transformador ; Mudanças importantes na ciência   Mudanças importantes na ciência                       2408 Salzano fala sobre Institucionalização da Pós-Graduação pela CAPES           instituição de fomento ; Redes científicas e circulação   Redes científicas e circulação                       2536 Salzano fala sobre orientação de Neel para pesquisar Genética Indígena           campo ; doutorado ; eventos ; Formação Acadêmica ; indígena ; instituição de fomento ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       2891 Salzano fala de colaborações na pesquisa da genética da pop. porto alegrense           Atores invisíveis ; campo ; classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; Diversidade Biológica ; Ética ; ética formal ; ética informal ; explicação e entendimento ; Formação Acadêmica ; Genética Médica ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; Prática ; práticas de campo ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnico de laboratório   Atores invisíveis ; Diversidade Biológica ; Ética ; Formação Acadêmica ; Genética Médica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       3551 Salzano fala da parceria com Neel e Ann Arbor           colaboração e acordos ; coleta de amostras ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação   Prática ; Redes científicas e circulação                       3700 Salzano fala da primeira experiência com os Xavantes           campo ; Contexto Político-Economico ; Prática ; técnico de laboratório ; viagem   Atores invisíveis ; Contexto Político-Economico ; Prática ; Trabalho de Campo                       3788 Salzano fala de aspectos logísticos do trabalho de campo             agentes locais ; Atores invisíveis ; campo ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; coleta de dados ; Ética ; exames dos sujeitos ; Genética Médica ; indígena ; Prática ; práticas de campo ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano ; viagem   Atores invisíveis ; Ética ; Genética Médica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo                       4441 Salzano fala dos 3 tipos de cientista: do campo, do laboratório e dos dados           Afeto ; campo ; concepção de cientista ; experiência afetiva ; Moral Economies ; paixão ao trabalho ; Prática ; processamento de dados ; Trabalho de Campo   Afeto ; Moral Economies ; Prática ; Trabalho de Campo                       oral history Esta entrevista com Francisco Salzano foi realizada em Porto Alegre, Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em 11 de julho de 2012. A entrevista inicia com depoimento de Salzano sobre a sua formação em História Natural e a influência de seu professor Antônio Rodrigues Cordeiro para seu interesse na genética. Destaca a sua ida a São Paulo para especialização em genética na USP nos anos 1950, com a presença de Dobzhansky. Nessa parte ressalta a presença de Dobzhansky na defesa de seu doutorado e da sua colaboração em pesquisas sobre genética das drosófilas junto a esse pesquisador. Fala das razões e interesses para mudança de foco na genética humana, fruto da colaboração com Neel e ida para pós-doutorado em Ann Arbor, financiado pela Fundação Rockefeller. Discorre sobre a chegada aos EUA, as dificuldades de adaptação e as visitas científicas promovidas pela Fundação Rockefeller a várias instituições de pesquisa americanas. Salzano conta da sua relação pessoal com James Neel e da importância da presença de Newton Freire-Maia em Ann Arbor para a aproximação científica entre os dois. Ele também relata as dificuldades de estruturação e condições de infraestrutura das pesquisas no curso de História Natural, após o seu retorno ao Brasil. Conta da institucionalização da pós-graduação, com destaque para a relevância da Capes, como no apoio à vinda de pesquisadores estrangeiros [cita os nomes de vários deles] para atuar no RS. Salzano detalha mais as justificativas, com ajuda de Neel, para dirigir o seu trabalho com a genética humana. Neste ponto conta da sua ida à reunião da OMS em Genebra em que foram definidos uma agenda de pesquisa e documento para orientar pesquisas em genética de populações indígenas. Salzano cita também parcerias com médicos para pesquisas em genética médica. Ele faz breve referência a aspectos dos procedimentos éticos informais para esclarecer e coletar dados em humanos nesse período inicial. Mais ao final da entrevista, Salzano fala da pesquisa de campo e descreve algumas situações de trabalho com os Xavante: as experiências problemáticas e dificuldades de trânsito de infraestrutura para pesquisas de campo ;  a organização e a divisão do trabalho entre os vários pesquisadores ;  a participação de agentes locais, incluindo indígenas e o técnico da Funai ;  os cuidados médicos conduzidos por J. Neel nos Xavante. Termina com breve citação sobre seu envolvimento na viagem de James Neel pela bacia amazônica a bordo do navio americano Alpha Hélix.     Esta entrevista pode interessar àqueles que querem saber mais sobre a história do início da genética e da genética humana no Brasil ;  sobre a trajetória e atuação de Francisco Salzano e suas redes internacionais de pesquisadores.  DENT: Estamos gravando. Hoje é 11 de julho de 2012 [falha na gravação] [Sou  Rosanna Dent, doutoranda na Universidade de Pensilvânia, e eu tenho o prazer de  falar com o Professor Francisco Mauro Salzano. Estamos] na Universidade Rio  Grande do Sul, Instituto de Biociências. Professor Salzano, pode nos contar um  pouco do seu interesse na genética humana e de sua formação acadêmica? Como foi?    SALZANO: Pois é, eu iniciei o processo de investigação científica com a  drosófila. Aliás, a maioria dos pesquisadores da minha geração, de  genética, eles começaram com drosófila devido à influência do professor  Dobzhansky, né?! E... Então, eu estava no final do curso de História Natural.  Chamava História Natural, o curso, aqui na universidade naquela época. Depois  o curso foi extinto, separado a Geologia da Biologia. E eu estava no final do  ano. E eram três anos. E, então, com interesse variado, inclusive mais de  literatura, cinema, etc. Mas... não estava dando uma ênfase muito grande ao  curso em si. Mas quando chegou no terceiro ano, eu disse: &amp;quot ; bom, daqui a um ano  eu me formo, e tenho pouca informação, pouco... minha formação não está  tão boa assim&amp;quot ; . Então, nós organizamos um grupo de estudos para estudar. Eu e  mais duas ou três colegas. Para estudar Zoologia. Que era uma das matérias que  a gente tinha pouca informação.    E o professor Antônio Rodrigues Cordeiro, que foi o fundador da genética no  Brasil... no Brasil não, aqui no Rio Grande do Sul, tinha voltado, no final do  ano 50, 1950. Tinha voltado do estágio com o professor Dobzhansky em São Paulo  e montado um laboratório. Era a Faculdade de Filosofia ;  era uma instituição  que depois desapareceu também. Ele vivia olhando, especulando o que os alunos  estavam fazendo. E ele nos viu estudando. E me convidou para fazer um estágio  no laboratório dele.    Então... como eu sempre digo, o primeiro contato que eu tive com as  drosófilas, da passagem de um frasco para outro, foi impactante. E foi amor à  primeira vista. [risos]. Então, desde aquela época, eu fiquei lá como  colaborador voluntário. E no final do ano, quando eu me formei, havia a  possibilidade de uma bolsa de estudos em São Paulo. Então, eu passei o ano de  51 lá em São Paulo, especializando em genética, também em drosófila.    Aí, na volta, nós tínhamos um apoio grande do diretor da Faculdade de  Filosofia, que era o professor Bernardo Geisel. E ai, pouco tempo depois de eu  ter voltado -eu fui no início de &amp;#039 ; 50, voltei no início de &amp;#039 ; 51-, e em junho  desse ano, eu consegui uma contratação aqui na universidade. Então... e  trabalhando sempre na equipe do professor Cordeiro.     E ai, realizei o meu doutorado à distância na Universidade de São Paulo,  trabalhando aqui, né, lecionando, dando aulas e fazendo a parte de laboratório  aqui. E depois, em 1955, eu defendi a tese em São Paulo. E um dos membros da  banca era realmente o professor Dobzhansky, que estava lá na época. Então,  era muita honra. E ai, havia um projeto de trabalho de um ano do professor  Dobzhansky aqui, em &amp;#039 ; 55-&amp;#039 ; 56. Então, eu não fiz logo o meu pós-doutorado.  Fiquei mais um ano aqui, trabalhando com drosófila.     Mas, então, em 56, eu fiz os primeiros contatos com o professor James Neel para  realizar esse estágio lá no Departamento de Genética Humana em Michigan. E  era um momento em que estava em ebulição a questão da genética humana. Antes  disso, ela era considerada um assunto de pouco interesse, porque questões de  estudos genealógicos em doenças raras era o objeto de estudos da genética  humana. E, então, a partir de &amp;#039 ; 56, &amp;#039 ; 57 - exatamente o momento que eu estava  querendo me especializar - estavam surgindo novas técnicas laboratoriais que  tornaram mais atraentes a genética humana para esses estudos de população. E  então, eu passei um ano lá com o Neel. Montamos, então, um projeto de  pesquisa comum. E, aí, o resto é história. [risos]. Íamos trabalhando, como  você pode ver os detalhes, nesse artigo que eu escrevi sobre ele. Foi mais de  uma década de todo um programa de trabalhos comuns, e tal, com troca de  informação, viagens dele para cá, de eu, de mim para os Estados Unidos.  Então, foi um período muito fértil na minha formação.    DENT: Podia descrever um pouco mais o ano que você ficou nos Estados Unidos, a  experiência? Como foi a viagem? Foi com a sua família? O que foi a  experiência que você viveu lá nos Estados Unidos? Como foi, para você,  chegar lá?    SALZANO: Pois é... Então, era minha primeira viagem para os Estados Unidos.  Nós viajamos de avião [risos]. E era uma viagem longa. Eram quase 24 horas  para chegar lá, com várias escalas. Esse programa da Fundação Rockefeller,  eles faziam questão que antes da chegada lá no local de trabalho, se passasse  dois, três dias em Nova York, lá na Fundação para discutir questões de  adaptação aos Estados Unidos. E enfim, montar, ficar mais adaptado à vida nos  Estados Unidos e também proporcionar uma primeira discussão com o pessoal da fundação.     Então, nós chegamos à Nova York. Era eu, a minha esposa, e um filho de um ano  e pouco de idade. Não, um pouco mais. &amp;#039 ; 53... Dois, três anos de idade. Então,  lógico, foi uma experiência interessante. O Neel me recebeu lá no escritório  dele, me deu as informações necessárias. E, posteriormente, a gente viajou de  trem para Ann Arbor.     E a minha adaptação lá foi facilitada porque um amigo meu, o professor Newton  Freire-Maia, ele já estava lá. Já estava lá há seis meses, também,  trabalhando com James Neel. Então, ele já foi me esperar na estação de Ann  Arbor, me levou e tinha uma casa de três andares, de madeira, e ele estava  morando no primeiro andar. E no andar térreo, a pessoa que alugava estava  saindo. Então, eu fui justamente morar no mesmo prédio que ele, já com todas  as instalações. Era um apartamento mobiliado. Tudo da melhor maneira possível  para adaptação. Então, esse processo foi muito facilitado por isso.     Claro, aconteceram coisas diversas, durante um tempo. O filhinho, o meu filho  não se adaptou muito bem no início [risos]. Mas no fim deu tudo certo e houve  alguns episódios interessantes. Um deles é que Ann Arbor é frio, &amp;quot ; bota frio  nisso&amp;quot ; , como diz aqui no Brasil... E a casa, então, tinha um sistema de  calefação, mas que não atingia o banheiro. Então, um dia lá no inverno, eu  resolvi fechar a porta que ligava o nosso quarto com o banheiro e aí congelou  todos os canos de água do prédio inteiro. [risos]. E, aí, &amp;quot ; um auê grande&amp;quot ; ,  como nós dizemos aqui. O Landlord lá, que era o responsável pela manutenção  do edifício: &amp;quot ; como que você não vê isso aí?&amp;quot ;  Ele disse: &amp;quot ; Ah, South Americans&amp;quot ; .     DENT: [risos]     SALZANO: Eu sei que no dia seguinte botaram uma série de aquecedores ao longo  da parede. E, aí, foi um dia de muita expectativa. Mas no fim descongelou, não  arrebentou nenhum tubo. [risos]. Nenhum cano. Então, foi um momento dramático  na minha experiência nos Estados Unidos.     Bom, também era muito comum, era de praxe da Fundação Rockefeller, depois,  fazer uma viagem de um mês em diferentes centros de pesquisa dos Estados Unidos  e do Canadá. Então, eu fiz essa volta aí, visitando diversos outros grupos,  que proporcionava uma ideia global sobre o estado - e de primeira mão- do  estado da ciência nos principais centros de pesquisa lá dos Estados Unidos e  do Canadá. E quando eu voltei foi muito útil isso.    DENT: E o que foi que você viu, neste tour dos laboratórios, que foram as  impressões, as ideais que você levou?    SALZANO: Pois é, um dos momentos mais dramáticos também foi que, na época,  -vê como são, como progride a ciência- na época, estava em discussão se o  número cromossômico, de cromossomos do homem era 48 ou 46. [risada discreta].  E um dos poucos centros que na época ainda estava trabalhando em citogenética  humana era em Baltimore. E, então, lá no laboratório...    DENT: De Johns Hopkins?    SALZANO: Johns Hopkins, é. Eu disse: &amp;quot ; muito bem. Eu quero ver, por mim mesmo,  se o número é 46 ou 48&amp;quot ;  [risos]. Então, eu fui lá para o microscópio... me  deram um microscópio. Eu contei e era 46 mesmo. [risos]. Dr. Bently Glass, quem  trabalhava lá.    DENT: E lembra de outras coisas que viu no tour, do mês?    SALZANO: Pois esse foi a questão mais importante. Mas eu estive também em  Toronto, no Canadá,com a professora Norma Ford Walker, que trabalhava em  genética médica, mesmo ;  em Madison, Wisconsin, que era o segundo... Eram os  dois grandes grupos de investigação em genética humana nos Estados Unidos, na  época. Era Ann Arbor e Wisconsin. E em Wisconsin, eu também estive com o  professor James [Franklin] Crow, que era então o chefe do laboratório, e que  também tinha começado com drosófila e depois passado para genética humana.     E uma das, um dos momentos também muito interessante foi que estava lá, na  época, o professor Sewall Wright. Sewall Wright é um dos mais importantes  geneticistas. É um dos fundadores da genética, tanto clássica, estatística,  matemática, como também da parte da evolução ;  um dos criadores da Teoria  Sintética da Evolução. E ele, depois de aposentado em outros lugares, foi  para Wisconsin, Madison. E eu já conhecia ele da literatura, então tinha  grande respeito por ele. Aí, falei para o Crow, &amp;quot ; será que eu posso falar com o  professor Sewall Wright?&amp;quot ; . &amp;quot ; Lógico. Pode. Pode. Vai lá na sala dele e fala com  ele&amp;quot ; . &amp;quot ; Mas assim, sem mais nem menos?&amp;quot ; . &amp;quot ; É. Pode ir. Não tem problema&amp;quot ; . Aí,  eu fui lá sem marcar entrevista. Cheguei lá. [Salzano bate à mesa, como que  imitando o som da batida na porta]. &amp;quot ; Professor, eu sou do Brasil e queria lhe  conhecer pessoalmente, tal, tal&amp;quot ; . Ah, estava esperando uma resposta áspera. Mas  não: &amp;quot ; ah, muito bem. Venha para cá&amp;quot ; , e tal, &amp;quot ; Nós vamos conversar&amp;quot ; .     Bom, vamos dizer assim, para simplificar o relato, eu tinha chegado duas horas  da tarde, no início da tarde, e ele ficou contando as coisas dele até às 5  horas... até o fim do expediente. E saímos juntos. Então, foi uma  experiência bem, muito marcante, que a pessoa do calibre dele se dispôs a  conversar e tal. Foi ótimo!    DENT: Lembra do que conversaram? Que contou?    SALZANO: Ele começou a detalhar todos os cálculos que ele tinha feito sobre a  herança quantitativa em pelagem de roedores que era um dos assuntos mais  interessantes para ele, era justamente investigar a questão da genética  quantitativa. Porque genética dos caracteres qualitativos, né, já tinha sido  bem estudada a partir da descoberta do Mendel. Mas a parte de como genes de  pequeno efeito atuavam entre si era ainda pouco estudado. Então, ele estudava  com muito detalhe esses pontos, através de cruzamentos com cobaias, com guinea  pigs. E ele ficou me explicando todo aquele negócio dele, os cálculos que se  faziam para obter estimativas sobre o papel da herança e do ambiente nas características.     Tem uma história que contam dele, que eu não sei se é verdade. Que ele estava  dando uma aula e aí ele levava esses guinea pigs para mostrar a pelagem, o  padrão da pelagem. E escrevia no quadro as fórmulas que tinham para comparar  essa, peso padrão... No momento que ele tava muito entusiasmado com os  cálculos matemáticos, ele pegou o guinea pig e apagou com o guinea pig o que  ele tinha escrito no quadro negro. [risos]. Então... não sei se é possível.    DENT: Que história! E como foi sua impressão dos Estados Unidos, chegando  desde Brasil nos anos &amp;#039 ; 50?    SALZANO: Ah, não ;  foi altamente positiva. Lógico, naquela época também havia  o problema da segregação racial era bastante forte ainda. Isso causou um certo  impacto. Mas, em geral, foi de alto nível, digamos. Tanto do ponto de vista do  modo de vida em si dos norte-americanos, como do pessoal que, com o qual a gente  tinha contato, também, na universidade foi muito positivo. Porque muitos deles  se tornaram amigos. A gente manteve contato durante vários anos. Foi muito  positivo, realmente.    DENT: E a experiência familiar, que você foi com a sua esposa e com o seu  filho? Como era essa parte da...    SALZANO: Pois é, a minha esposa não, não falava muito bem inglês. Então,  ela ia lá nos supermercados, e essas coisas, e apontava o que ela queria  [risos]... ou na lavanderia, essas coisas. Ela tinha uma certa dificuldade. Em  geral, também não houve grandes problemas. Porque, inclusive, tinha outros  brasileiros, além do Newton Freire Maia, que estava no mesmo prédio. Tinha  outros brasileiros lá, que também estavam fazendo estágio. Então, foi uma  boa época da nossa vida.    DENT: E como foi a relação que você estabeleceu lá com James Neel? Como foi  a experiência de trabalhar com ele pessoalmente, porque foi o início de uma  colaboração de muitos anos...    SALZANO: É...    DENT: Como foi ao início para trabalhar com ele?    SALZANO: É, ele... no primeiro dia, eu cheguei lá e me apresentei para ele,  ele me olhou... Me olhou, assim, e disse: &amp;quot ; pensei que você fosse muito mais  velho do que é&amp;quot ; . [risos]. Eu disse: &amp;quot ; como? Bom, isso é uma coisa que o tempo  vai resolver, não tem problema nenhum&amp;quot ; . E, aí, ele me serviu de guia, né,  durante todo esse estágio. Ele era um tipo [Prof. Salzano tamborila firmemente  duas vezes na mesa] que pessoal considerava autoritário. Mas sempre muito  amável comigo, com minha família, etc.    Ele nos convidava várias vezes para ir na casa dele, para jantar. E, agora...  Ele tinha um horário certo. Chegava uma certa hora da noite, ele dizia: &amp;quot ; well,  acho que vocês... já está na hora de ir para casa&amp;quot ; . Já se levantava, já ia  pegando o casaco de inverno, e tal. [risos]. Então, era meio durão, assim,  nessa questão do uso do tempo. E ele, em geral, não tinha problema. A única  ocasião curiosa em que... Nós não tínhamos televisão. Chegamos e não  tínhamos televisão. E, aí, eu disse: &amp;quot ; bom, tem que comparar uma televisão&amp;quot ; .  Aí, eu fui em uma loja lá em Ann Arbor e disse que queria comparar, que tinha  dinheiro para comparar. Mas... parcelado. E o funcionário lá da loja começou  a fazer uma ficha minha. E, aí, qual era a minha profissão? Disse: &amp;quot ; não, eu  sou estudante&amp;quot ; . Em última análise, eu era estudante. Embora já fosse  professor, né, da universidade aqui no Brasil. E, aí, quando falei estudante -  não sei como é que está agora - mas todo mundo ficava de &amp;#039 ; cabelo em pé&amp;#039 ; .  [risos]. Porque, inicialmente, não tinha uma vida muito regrada. Então,  &amp;quot ; estudante e tal?&amp;quot ; . &amp;quot ; Não, mas estudante de pós-graduação&amp;quot ; . &amp;quot ; É... mas tem  que ter alguém que se responsabilize por essa compra à prazo. Quem que você  conhece aí?&amp;quot ; . &amp;quot ; Bom, eu conheço o professor Neel.&amp;quot ;  Ele disse: &amp;quot ; Tá, então,  vamos lá, vamos lá falar com ele&amp;quot ; . Eu disse: &amp;quot ; não, mas...&amp;quot ; .     DENT: [risos].     SALZANO: Tinha pouco tempo que eu tinha chegado. Não tinha muita intimidade com  ele. Aí, me pegou, botou no carro e me levou lá no escritório do Neel. E eu,  super encabulado, porque não tinha muita intimidade com ele. Aí ele falou:  &amp;quot ; não, você serve de... você vai servir de fiador para essa transação aí&amp;quot ; .  E ele não gostou muito da coisa. E ele disse: &amp;quot ; Mas e se ele não pagar, o que  vai acontecer?&amp;quot ; . &amp;quot ; Não, se ele não pagar, a gente pega o aparelho de volta&amp;quot ; .  &amp;quot ; Tá, então, está. Eu sirvo de fiador&amp;quot ; .     DENT: [risos].     SALZANO: Mas durante muito tempo, ele sempre dizia para mim: &amp;quot ; Além do tempo que  você está vendo televisão, o que você está fazendo&amp;quot ; ? [risos]. Explicação  da história da televisão aí. Não deixava de lembrar, de vez em quando, que  ele era o fiador.     DENT: [risos].     SALZANO: Em geral, ele era muito rigoroso com o pessoal do laboratório, e tal.  Tem histórias, muitas histórias sobre ele. Mas comigo sempre foi muito  amável. Foi uma relação muito boa. Que, em última análise, era quase de pai  para filho. Então, tinha uma certa diferença de idade. Então, como eu disse,  várias vezes a gente foi lá, jantava lá. E depois, vários anos depois,  quando eu ia a Ann Arbor, ele me convidava para ficar na casa dele, me hospedava  na casa dele. Eu tinha uma relação muito boa com a esposa dele, também.  Então, foi ótimo.    DENT: E a relação com Newton Freire-Maia, que estava também lá com você? E  como, como foi durante o tempo que vocês estavam lá, nos Estados Unidos  juntos? Trabalhavam também juntos? Ou como... como era...    SALZANO: Não, não. Eram projetos diferentes. Eu estava interessado na parte  laboratorial. Então, era especificamente, naquela época, o importante eram os  grupos sanguíneos. Então, estudos de imunologia e estavam surgindo as  técnicas de eletroforese também, que eu também comecei a me familiarizar.  Além de trabalhar em um projeto de revisão bibliográfica.    E o... Newton, não, o Newton foi para lá mais para se aprofundar nos estudos  de bibliografias sobre casamentos consangüíneos. E outras áreas da estrutura  populacional, digamos, das populações humanas. Então, eram problemas  distintos. Nós também sempre tivemos certas diferenças no que se refere ao  interesse da pesquisa. E certas questões filosóficas da aplicação dos dados  a determinadas teorias. E, apesar disso, sempre mantivemos uma amizade muito  grande, como um irmão meu, na verdade. Também foi muito gratificante o tempo  que a gente ficou lá, e posteriormente.    DENT: Se conheceram antes de ir lá? [Ou só por]    SALZANO: [Muito pouco].    DENT: [só por] correspondência?    SALZANO: É. Porque quando eu cheguei, o Newton, ele estava ligado à  universidade de São Paulo, ao mesmo departamento do professor Pavan, que eu  fui, ele estava trabalhando lá já há um ou dois anos. Mas aí surgiu a  oportunidade para ele ir para Curitiba. No momento que eu cheguei, em 51, ele  estava saindo para Curitiba, para montar o departamento lá, na Universidade  Federal do Paraná. E, então, esse primeiro contato foi muito rápido. Então,  se aprofundou realmente durante a nossa estada lá nos Estados Unidos. E,  posteriormente, ficamos sempre em contato. Eu ia lá a dar cursos e ele vinha  aqui. Enfim, temos esse livro publicado.    DENT: E... Então, quando você voltou para Brasil, como era a experiência de  voltar depois de um ano lá de pós-graduação?    SALZANO: Pois é. Quando eu sai, já estava montado o laboratório de genética  aqui na universidade. O professor Cordeiro. E, então, eu voltei justamente já  integrado à equipe. Só que, então, tinha que montar toda uma linha  diferenciada de estudos de genética humana, porque todo o resto do laboratório  estava desenvolvendo pesquisa em drosófila. Bom, e aí eu fui montando as  coisas pouco a pouco. Então, houve várias trocas de prédio. Nós começamos  lá no campus central. A Faculdade de Filosofia era recém formada, recém  fundada também, na época. E não tinha prédio próprio. Então, o nosso  primeiro laboratório tinha mais ou menos o tamanho aqui dessa sala.    DENT: Que são, talvez, quatro metros quadrados...    SALZANO: Quatro por seis, por aí.     DENT: Quatro por seis, sim.     SALZANO: Eu estava no porão da Faculdade de Direito. [risos]. Pouca coisa que  ver, mas era o espaço disponível para o curso de História Natural, em geral.  Nós tínhamos esse pequeno laboratório lá. E foi aos poucos se expandindo.  Porque o Cordeiro começou a ocupar o espaço dos sanitários. Ele pegava e  transformava em laboratórios.     DENT: [risos].     SALZANO: E em uma gestão do professor Bernardo Geisel, que eu falei antes, a  Filosofia fez um prédio próprio, que ainda existe hoje lá no campus Central.  Aí, a gente passou para um espaço bem maior, né. E foi lá que se começou  realmente a parte de pós-graduação, com a vinda de dois professores  norte-americanos que passaram um ano aqui.    DENT: E lembra quem eram?    SALZANO: Townsend. Joel Ives Townsend. E o William [Wright] Milstead. O Townsend  era um ex-aluno do Dobzhansky que, então, depois foi lá para o Sul dos Estados  Unidos. E eu não sei se ele era recém formado na época, ou não. E o Milstead  já era de outra formação. Ele trabalhava com anfíbios. Foram dos primeiros  cursos de pós-graduados que se deu inclusive no Brasil. A fundação que serviu  para institucionalizar toda essa parte da pós-graduação é a CAPES, a chamada  CAPES, que é a Coordenação do Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior.  Aí, como é grande, a gente sempre fala em CAPES. É mais fácil. Então, a  CAPES é fundamental para institucionalizar a pós-graduação no Brasil. E uma  das primeiras iniciativas que ela teve para trazer professor de fora foram esses  dois. Estava bem no início da carreira dessa instituição também.    DENT: Como foi formando os projetos de pesquisa? Voltou dos Estados Unidos com  uma agenda ou uma lista de projetos que queria fazer? Ou estava montando para  iniciar algo novo? Como, como era... como era que você encontrou os temas que  ia pesquisar, chegando de volta depois do pós-doutorado?    SALZANO: Pois é, antes de sair, lá nos Estados Unidos, eu conversei com o  Neel, para estabelecer o que eu faria na volta. E o Neel me disse assim: &amp;quot ; qual  é a população de estudo que você pode fazer muito melhor que qualquer outro,  em qualquer outro lugar no mundo? São os índios, os índios: brasileiros ;   você está mais perto geograficamente, tem mais facilidades. Qualquer outro  estrangeiro que queria fazer esse trabalho, vai ter mais problemas.&amp;quot ;  Então, se  montou esse primeiro estudo de populações ameríndias. Então, tão logo que  eu voltei, já comecei a trabalhar com populações aqui do Sul, do Brasil, que  se constituíram na minha primeira tese de livre-docência. É um sistema que  não tem nos Estados Unidos, mas tinha na Europa. Ainda tem aqui. Essa tese  saiu... Aqui tem uma foto [Salzano abre a tese] da tese de livre-docência.  Está meio amarelinha pelo tempo...    DENT: Pode descrever a foto?    SALZANO: 1961... Esses são os índios Kaingang, vivem em diferentes reservas  indígenas, florestais, no norte do estado do Rio Grande do Sul. E essa é uma  imagem do grupo lá de Nonoai [município], chamado...    DENT: Nonoai?    SALZANO: É. Foi uma das primeiras populações que eu investiguei do ponto de  vista genético. Aí, então... Eu fiz essa livre-docência que era importante  na época, em termos de carreira universitária. 1960. É a tese. Foi depois  publicada em 1961. E aí em &amp;#039 ; 62, houve os contatos com o Neel. Ele já tinha  vindo ao Brasil, rapidamente, um pouco antes disso. E a gente fez o primeiro  trabalho de campo com os Xavante.    DENT: Podia comentar um pouco mais, que eram os objetivos dos estudos com os  povos indígenas? Porque, Neel obviamente sabia que você ia estar mais perto,  não? Mas teve algum conceito científico que queriam desenvolver com esses...  com essas populações?    SALZANO: Pois é... Na época, estava também no ar a ideia de que deveria se  estender os estudos de genética de população a populações humanas. Se sabia  muito pouco sobre isso. Como fazer isso, né? O que seria importante para  investigar em genética de populações humanas? Então, o Neel tinha certas  ideias. Eu também, com minha experiência anterior em drosófila, sobre o que  seria importante do ponto de vista evolucionário. E a gente fez uma reunião  lá na Organização Mundial de Saúde, em Genebra, para estabelecer esses  objetivos de uma maneira bem específica, com pesquisadores de diversas partes  do mundo, que também estavam interessados em grupos tribais. E, aí, então,  saiu um documento sobre isso. A ideia era essa, de fazer investigações multi  ou inter-disciplinares para esclarecer melhor a variabilidade genética da nossa espécie.    DENT: E você se enfocou só nas populações indígenas? Ou também estava  fazendo também estudos nas populações sobre outras populações?    SALZANO: É, não... eu cheguei aqui em Porto Alegre e disse: &amp;quot ; não. Tenho que  fazer alguma coisa aqui. Não vou está só fazendo o que depende de viagens  fora de Porto Alegre.&amp;quot ;  Então, desde o início, eu estabeleci contatos com  médicos e comecei a fazer a parte de genética médica também. Além de  investigar a variabilidade da população de Porto Alegre mesmo. Isso também  resultou em vários trabalhos.    DENT: E esses estudos aqui em Porto Alegre, como era a população que estudava?  Eram pessoas doentes que chegavam ao hospital? Era uma pesquisa clínica assim?  Ou era... como...    SALZANO: As duas coisas.     DENT: Sim.    SALZANO: Tanto a gente estabeleceu parcerias com médicos, como procurei  investigar a população normal. E isso foi feito de diferentes marcadores, com  a ênfase principal na questão variabilidade inter-étnica e de que maneira os  genes de um grupo étnico passavam para o outro e como isso influenciava a  estrutura da população, digamos.    Um dos pontos mais altos foi a descoberta de uma hemoglobina anormal, que foi  denominada &amp;quot ; hemoglobina Porto Alegre&amp;quot ; . [riso]. E não foi apenas uma mais  variante de hemoglobina. Existia centenas... Mas foi uma que tinha duas  peculiaridades. A primeira é que havia um processo de polimerização,  aglomeração de moléculas, devido a essa mutação, que era uma mutação  silenciosa. No sentido de que na pessoa não se notava nenhuma diferença  clínica. No entanto, quando se coletava o sangue no tubo e sai a molécula de  hemoglobina, que é constituída de quatro unidades, ela polimerizava. Formava,  em vez de um tetrâmero, um octâmero. E alguns indivíduos tinham a mutação  de dupla dose formava, inclusive, dodecâmero, doze unidades juntas. Então, ela  serviu como modelo também para investigação geral, de como as proteínas se  agregam umas às outras nesse processo de polimerização. Isso foi feito  também em colaboração com o pessoal lá de Ann Arbor.    DENT: Quando vocês estavam fazendo essas pesquisas, por exemplo... com quem  estava trabalhando? Quem formava parte do grupo de pesquisas? Era você com  colaboradores e estudantes, ou... Como era a estrutura da...    SALZANO: Pois é... naquela época, já havia começado o processo de  pós-graduação no Brasil. Então, a gente começou a recrutar diferentes  jovens, que estavam fazendo mestrado ou doutorado, que desenvolveram também o  trabalho, além de uma interação grande com outros pesquisadores do Brasil e  do mundo, em geral. Desde o início, eu procurei enfatizar essa parte do  trabalho em consórcio, em redes... de aumentar o poder, digamos, de investigação.    DENT: E trabalhavam com técnicos também? Ou os estudantes foram os técnicos  que, que...    SALZANO: Não... Também tínhamos um ou dois técnicos que ajudavam na parte  laboratorial, além dos estudantes. Então foi, paulatinamente, fomos montando  as técnicas que eram utilizadas em todo o mundo. Inicialmente, com a ajuda da  Rockefeller, também, na parte inicial. E depois com as outras instituições brasileiras.    DENT: E como foi o relacionamento com os pacientes, ou os sujeitos que... que  falavam para eles? Como era a interação que vocês tiveram com as pessoas que  estavam sendo estudadas, não?    SALZANO: É, em geral, aqui em Porto Alegre, havia um contato com os médicos,  que serviam de intermediários, ou o contato direito. Nesses casos, havia a  questão da interação com outras unidades, na qual se fazia a coleta de  sangue, por exemplo, para aproveitamento dessas amostras para estudos. E no caso  das populações ameríndias, desde o início, a gente procurou dar uma  contrapartida para eles. Bom, inicialmente, todo o processo era submetido ao  crivo da FUNAI, a Fundação Nacional do Índio. Nenhum tipo de pesquisa poderia  ser feita sem a aprovação da FUNAI. Posteriormente, então, quando a gente  estava no campo, a gente sempre procurou também retribuir através de  principalmente apoio médico. Fornecia medicamentos e possibilidade de  tratamento para essas pessoas.    DENT: E os gaúchos, aqui de Porto Alegre, que foram parte das pesquisas...  você interagiu diretamente com eles? Ou foram tiradas as amostras de sangue por  outra pessoa? Você falou com as pessoas que estavam no estudo?    SALZANO: Em parte, né?! Em alguns casos, sim, em outros, não.    DENT: Estou interessada no ponto de vista deles. Que pensavam eles da pesquisa?  Como era a explicação? Ou o interesse deles em participar?    SALZANO: Pois é, em geral a gente dá uma explicação bem geral. Porque a  genética não era muito conhecida na época... nem agora. Mas se procurava  explicar que era um objeto de estudo de variação normal. E que  possivelmente... potencialmente poderia ter algum interesse médico ou  biológico. Mas em termos bem gerais. Tanto aqui, na população daqui como  fora. Em geral, não havia grande resistência. O problema das resistências ao  trabalho da genética é agora. Se desenvolveu ao longo do tempo, com uma série  de interpretações errôneas sobre o nosso trabalho. E algumas publicações  também fantasiosas. Ou até caluniosas. Como aconteceu com esse episódio aí  do Neel, que a gente examinou, aí no Lost Paradises.    DENT: Eu li o livro de Lost Paradises. A coleção que você editou, né, que  era organizado com...    SALZANO: Magdalena...    DENT: Sim, a professora Hurtado.    SALZANO: É.    DENT: Claro. Então... já... você voltou dos Estados Unidos já planejando  trabalhar com as populações indígenas, também com a população daqui de  Porto Alegre. Demorou um pouco para a chegada de Neel para a colaboração  internacional. Como era a experiência da chegada dele? Porque era já um novo  projeto, não? E eu entendo que você fez tudo para...    SALZANO: Não era bem um novo projeto. Porque já era uma continuação do  projeto que eu estava fazendo aqui no Rio Grande do Sul, que agora, então,  estava sendo estendido para as populações do norte. Então, foi mais ou menos tranquilo.    DENT: Mas é, foi uma mudança receber colaboradores internacionais, enquanto ao  trabalho que você fez? Porque eu vi muita correspondência falando de como iam  fazer. Porque foi uma pesquisa bem complicada para chegar, e todo. Pode explicar  um pouco como era o processo?    SALZANO: É, bom... Inicialmente, durante todo o tempo que comecei a trabalhar  aqui, também estava em ligação com o grupo de Ann Arbor. E a gente, com  relação ao material coletado aqui, mandava amostras para o exterior, para Ann  Arbor e fazia publicações conjuntas. Então, a diferença de 1962 foi que, a  primeira vez [que] ele vem para fazer trabalho de campo. Mas o departamento  deles já estava envolvido com os nossos projetos do ponto de vista do material  e de análise dos dados.    DENT: Pode descrever a experiência de fazer o trabalho de campo com Neel, e  estavam lá Junqueira, e Keiter e Maybury-Lewis, não?    SALZANO: Isso.    DENT: Como era a experiência de ir por primeira vez para a terra Xavante?    SALZANO: As populações aqui do Rio Grande do Sul já estavam mais ou menos em  contato com os não-indígenas já há tempo. Então o acesso era mais fácil.  Então, foi a primeira vez que a gente foi para um grupo que estava praticamente  isolado, no meio do mato... E o grupo também aumentou. O trabalho de campo aqui  no Rio Grande do Sul era só eu e um técnico. Então, foi uma experiência interessante.     O Junqueira, ele tinha bons contatos com políticos lá do Rio de Janeiro.  Então, ele conseguiu um avião da FAB, Força Aérea Brasileira, que nos  transportasse especialmente do Rio de Janeiro para um campo de pouso do lado da  aldeia Xavante, dessa aldeia. Então, foi um apoio importante.     E o Neel estava sempre interessado em ter um maior número possível de  oportunidades no campo... e apoio logístico, em última análise, no campo.  Então, ele resolveu levar um gerador mecânico, de força. Pesava, sei lá, 4  toneladas. Enorme! Naquela época... Mas atualmente também gerador é muito  pesado. E, aí, foi para isso que a gente inclusive conseguiu o avião da FAB,  para carregar isso. E depois, para carregar o gerador para a aldeia também foi  necessário um mutirão, um monte de indígenas ajudando para carregar, nas  costas. Mas aí se instalou o disjuntor, no posto da FUNAI. Era um posto de  apoio para os funcionários lá da FUNAI. E foram duas semanas, aproximadamente,  que a gente ficou lá no campo, o Neel tentou desesperadamente fazer com que o  gerador funcionasse e não conseguiu. [risos]. Então, deve estar ainda lá,  até hoje, como um símbolo dos problemas tecnológicos da sociedade industrial.     DENT: [risos].    SALZANO: [risos]. Ele sempre carregava também um monte de equipamento, livros,  para eventual consultas, livros de patologia. Porque ele fazia os exames  médicos. Então, geralmente era uma carga pesada.    DENT: E como foi um dia típico do trabalho de campo lá?    SALZANO: Inicialmente a gente fazia os levantamentos genealógicos e isso  basicamente quem fazia era eu, e... com ajuda depois, para montagem, do  Maybury-Lewis- montagens das genealogias. E após essa obtenção dessa  informação, aí o professor Keiter, da Alemanha, fazia sempre medidas  antropométricas. A gente fazia esse trabalho durante a primeira parte do  trabalho de campo. E só no final fazia a coleta de sangue, porque logo depois  de coletar tinha que ser embarcado para o laboratório para os estudos, porque  é um material perecível. Então, era a primeira etapa. Depois, a gente  relocalizava as pessoas, coletava o sangue, e, aí, embarcava no avião para a  parte laboratorial.    DENT: E como era... a que hora acordavam? Quantos horas trabalhavam por dia? O  que comeram por lá? Como era a interação com... com as pessoas do estudo, com  os Xavante? Eles... como relacionavam com a equipe? Como?    SALZANO: É, não... Nessa época, eles ainda estavam muito isolados, e com  pouca influência não-indígena. Eles são estruturados em grupos de idade.  Então, era muito comum determinados grupos de idade se reunirem e fazerem  danças, em roda, em diferentes horários durante o dia, inclusive, durante a  noite. Então, de vez em quando eles se reuniam e faziam uma serenata para nós  na noite, com cantos típicos deles.    O trabalho se iniciava, mais ou menos, na época que eles levantavam, que era ao  redor de 9 horas, por aí. E... ia até boa parte da tarde. Mas depois, o fim da  tarde já não se fazia mais nenhum trabalho de coleta, de estudo. E  alimentação, como era um posto da FUNAI, havia um funcionário lá, com a  esposa, e eles faziam a comida. Então, facilitava a coisa.    DENT: Ele... O homem que estava lá era Ismael...    SALZANO: Isso, Ismael.    DENT: Ismael Leitão? E ele, como era?    SALZANO: Ah, um tipo muito peculiar. [riso]. Interessante. Muito expansivo. Meio  baixo, meio gordo. E muito expansivo. E ele conhecia os índios muito bem.  Porque ele foi um dos primeiros a fazer contato com os Xavantes, na época em  que ainda havia muito pouco contato. E , inclusive, falava a língua Xavante.  Então, ajudou também nessa parte de tradução. Em geral, foi muito cordial  também. Ele e a esposa também foram muito cordiais. Muito colaboraram muito conosco.    DENT: E se interessavam nas pesquisas também? Ou...    SALZANO: É... Não de uma maneira... Ele, o Ismael não tinha grande formação  intelectual. Estava mais lá como funcionário mesmo do posto, para  supervisionar se fosse feito o que deveria ser feito, mas não do ponto de vista científico.    DENT: E a provisão de ajuda médica que fizeram lá... bom... o professor Neel  foi médico, não?! E... E o Junqueira também...    SALZANO: O Junqueira praticamente só fez o trabalho/ só foi ao campo na hora  da coleta de sangue. O Neel fez o exame médico de todos os membros da aldeia.  Detalhadamente registrou tudo. E publicamos também a maior parte desses dados  nessa primeira publicação. E também fornecia remédios e tal.     Não foi nessa aldeia, mas em uma outra, um episódio que foi chocante, é que  havia um órfão na aldeia, uma pessoa que havia perdido os pais, e não havia  nenhum parente próximo para cuidar da criança. Então, ela ficou mais ou menos  abandonada. Quando nós chegamos lá, ela estava praticamente tomada de um, de  verme chamado &amp;#039 ; bicho-de-pé&amp;#039 ;  aqui, que é um verme subcutâneo, se instala de  maneira subcutânea, vai botando ovos e... A criança estava praticamente tomada  com esses vermes. E muito debilitada, lógico, por isso. Então, para fazer o  tratamento, esses anti-vermicidas são muito agressivos. Então, durante todo o  tempo que a gente esteve lá, o Neel pegava a criança, começava a tirar com a  pinça um por um todos... a diversa quantidade de vermes que ela tinha. Um  trabalho imenso, fantástico, que ele fazia com a maior naturalidade. São  coisas que não aparecem nos trabalhos científicos, mas que foi muito  importante para a sobrevivência daquela criança.     E, em outra ocasião, nós estávamos no campo e, aí, chegou um morador  não-indígena da região... que estava desesperado porque a mulher tinha tido  uma criança e a placenta não tinha saído. Então, ele estava desesperado para  ver quem podia ajudar do ponto de vista médico. E, aí, então, o Neel, eu,  mais uma ou duas pessoas fomos de barco à noite - embarcação precária -  várias horas ao longo do rio para chegar até essa cabana, onde estava, então,  a mulher. E, aí, havia também uns médicos que estavam fazendo também  pescaria lá no Xingu... Havia dois médicos, era o Neel e esse. E eu servindo  de intérprete para o Neel e a mulher e também com relação a esse outro  médico. Bom, para encurtar a história, somente a partir das massagens  abdominais que o Neel fez durante um bom tempo é que foi expelida a placenta e  mulher sobreviveu. Então, outro episódio que ninguém conta. E ficam falando  que ele era contra os índios. Bom, nesse caso não era índio. Mas o apoio  médico que ele deu em um momento determinado, crucial para aquela família.    DENT: Você gostou de viajar para fazer os estudos de campo?    SALZANO: Ah, eu adoro o trabalho de campo.     DENT: Sim?    SALZANO: Agora eu já não posso mais, por problemas de saúde. Mas sempre foi  uma das minhas... porque, em geral, o cientista... Tem vários tipos de  cientista. Tem o cientista que gosta do trabalho de campo, &amp;#039 ; mateiro&amp;#039 ; , como se  diz. Tem o cientista que gosta de trabalhar no laboratório, e tem o cientista  que gosta de trabalhar nos dados, que não quer laboratório nem gente. Então,  são três tipos. E, realmente, para mim, eu gosto dos três. [risos]. Eu gosto  tanto de fazer trabalho de campo, como ir no laboratório, trabalhar com as  amostras, e depois analisar as amostras. E isso é um pouco raro. Porque às  vezes, a pessoa faz uma coisa, e não faz outra. Então, é, por isso, que é  difícil de fazer pesquisa, também.    DENT: E que, que... o que gostou do trabalho de campo? Que, que foi o que foi  grato para você?    SALZANO: Em geral, a experiência em si sempre foi gratificante no sentido de  contato com a natureza. Antes, inclusive, antes dos estudos com populações  humanas, o contato com a natureza ;  a interação com pessoas de outros níveis  culturais ;  o contato com novas culturas, isso também foi muito importante. E a  experiência em si, acho que novos ambientes, novas pessoas, né?! E a natureza  em si, também. Isso tudo faz com que, para mim, o trabalho de campo sempre  fosse interessante.    DENT: Pode descrever um pouco o Mato Grosso, que eu não conheço? Como é a  natureza lá? Como...    SALZANO: É uma região que tem contrastes. Tem uma região semi-árida, boa  parte do território. Mas também com florestas bem fortes. Mas elas estão no  limite, digamos, entre a região do Planalto Central do Brasil com a Amazonia,  em si. Então, isso faz com que essa região também tenha uma série de  peculiaridades. E é uma região de difícil acesso devido a isso também. Uma  região de difícil acesso, se não for por avião...     Uma vez, a gente resolveu ir por terra a uma outra aldeia Xavante e foi um drama.    DENT: [risos]sim.    SALZANO: Mesmo a station wagon, de tração de quatro rodas. Foi uma odisséia.  Saímos daqui e fomos até lá. Goiânia, depois de Goiânia para região do  Mato Grosso. Ficamos atolados várias vezes na areia. Quase não sobrevivemos. [risos].    DENT: Isso foi com Neel?    SALZANO: Não, essa a gente foi só eu e o meu técnico.    DENT: Ah [risos]. E chegaram, finalmente?    SALZANO: Não, foi um drama. Porque a ideia era que a gente fosse terra e depois  tivesse o apoio aéreo do Junqueira, que deveria então chegar lá na época que  a gente fez, coletando sangue, depois transportar o sangue por via aérea, para  o Rio de Janeiro. E quando chegou a hora de coletar o sangue, ele devia chegar  no dia seguinte de avião. Então, a gente coletou e ele veio? Não, não veio.  Então, então... a gente esperou um dia, esperou dois dias... Não aparecia.  Nada. Não tinha nenhum contato. Aí, resolvemos voltar por terra, com o sangue.     Quando a gente saiu de lá, disse que um assistente do Junqueira chegou na  aldeia de avião leve, desses monomotor. Deu uma olhada e ele voltou. Enquanto  isso, nós estávamos sofrendo na estrada. Em momento determinado, o motor da  camionete começou a falhar e também não dava... não dava o início. Então,  se a gente parasse e desligasse o motor, tinha que empurrar para que o motor  pegasse novamente. Então, em um momento determinado, no meio de um areal  tremendo, se tinha que passar por um leito dum rio, e afundamos. Não saia. O  sol, muito forte. E as amostras lá, com perigo de se deteriorarem. Aí, eu fui  lá, saí caminhando por uns quatro, cinco quilômetros, para uma aldeia, até  conseguir um caminhão, que estava lá, distribuindo tijolo. Até ajudei a pegar  tijolo do caminhão, para levar o mais rápido possível o caminhão lá para  nós. Aí, no final, o caminhão nos tirou. E a gente continuou.     Depois, numa outra hora, lá, nós estávamos no escuro... Nós saímos cedo, de  manhã de cedo, e do local, da aldeia indígena, da localidade mais próxima  são 40km. Saímos cedo, já de tardezinha, não tínhamos chegado ainda no  destino. E, aí, atolou de novo o carro. Aí, saí também de novo à procura de  ajuda. Tinha uma casa de um habitante da região. Ele disse: &amp;quot ; só tem essa pá  aqui&amp;quot ; . Uma pá de cavar. E eu peguei a pá. Voltamos. Eram 2km. Eu e o Girley,  que era o meu colaborador, começamos a cavar para tentar &amp;#039 ; desentolar&amp;#039 ;  a  camionete. E ele, sentado de cócoras, só olhava e dizia: &amp;quot ; não vai dar&amp;quot ; . Em  vez de nos animar, ele dizia: &amp;quot ; não vai dar, não vai sair daí&amp;quot ; . Aí, por uma,  não sei, por um acaso enorme, uma camionete vinha passando. Começou a  escurecer, por ali, e aí no fim nos tirou do atoleiro. E a gente chegou.  [risos]. Levamos doze horas... é, doze a quinze horas para vencer 40km. Quando  eu cheguei lá no Rio, ele: &amp;quot ; ah, não, a minha mulher&amp;quot ; , o Junqueira, &amp;quot ; a minha  mulher teve um problema de gestação tubária... Então, não podia ir, não  consegui um auxiliar.&amp;quot ;  Mas esse foi o fim do trabalho de colaboração com o  Junqueira. [risos].    DENT: [risos]. Imagino.    SALZANO: Que é uma pessoa ótima, agradabilíssima. Bom amigo meu. Continuou  sempre até a morte dele. Mas paramos de trabalhar em colaboração.    DENT: [risos]. Sim, imagino. Então, lhe parece bem que paramos lá para hoje?  E... então... não sei se você gosta de agendar outro dia?     SALZANO: Sim, como quiser.    DENT: Se seria possível. Interessante essa história de Junqueira. [risos]. Mas  e quando chegou o sangue estava/    SALZANO: Ah, no fim deu. O sangue deu para testar.    DENT: [risos] Deu? E você fala que gosta da experiência de fazer pesquisa de campo?    SALZANO: Pois é, mas isso tudo são os sofrimentos que dão prazer... [risos].  Nem sempre o trabalho de campo é assim, extenuante. Uma vez também, com Neel,  a gente fez uma viagem ao longo do Amazonas com um navio oceanográfico  norte-americano, chamado Alpha Helix. E, aí, nós tínhamos ar-condicionado,  cozinheiro. Tudo no maior estilo, primeiro mundo.    DENT: Quando foi? Quando fez essa viagem?    SALZANO: Isso foi... quando... na época do estudo dos Ticuna. Na década de 1980.    DENT: Então, para outro dia pode me contar como era essa experiência...    SALZANO: Pode ser.     DENT: Ah, perfeito. É, então.. Muito obrigada.    [Francisco Salzano e Rosanna Dent seguem conversando para agendar a próxima entrevista.]    DENT: Então chegamos até 1900 e..SALZANO: 80    RS: 62. Acho que podemos partir desde o reporte da Organização Mundial de  Saúde que voce participou dessa reunião que fizeram em Genebra para/    SALZANO: Esse foi anterior. Teve uma antes e depois teve em 1968.    DENT: Talvez podemos partir, iniciar desde essa reunião da/    SALZANO: Sim, sim. Lógico, pode ser.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras audio O uso e divulgação estão restritos a fins acadêmico-científicos.      0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=salzano-20120711.xml salzano-20120711.xml      </text>
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                <text>Prof. Francisco Mauro Salzano, entrevista, 11 de julho de 2012</text>
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                <text>Esta entrevista com Francisco Salzano foi realizada em Porto Alegre, Departamento de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biociências, na Universidade Federal Rio Grande do Sul, em 11 de julho de 2012. A entrevista inicia com depoimento de Salzano sobre a sua formação em História Natural e a influência de seu professor Antônio Rodrigues Cordeiro para seu interesse na genética. Destaca a sua ida a São Paulo para especialização em genética na USP nos anos 1950, com a presença de Dobzhansky. Nessa parte ressalta a presença de Dobzhansky na defesa de seu doutorado e da sua colaboração em pesquisas sobre genética das drosófilas junto a esse pesquisador. Fala das razões e interesses para mudança de foco na genética humana, fruto da colaboração com Neel e ida para pós-doutorado em Ann Arbor, financiado pela Fundação Rockefeller. Discorre sobre a chegada aos EUA, as dificuldades de adaptação e as visitas científicas promovidas pela Fundação Rockefeller a várias instituições de pesquisa americanas. Salzano conta da sua relação pessoal com James Neel e da importância da presença de Newton Freire-Maia em Ann Arbor para a aproximação científica entre os dois. Ele também relata as dificuldades de estruturação e condições de infraestrutura das pesquisas no curso de História Natural, após o seu retorno ao Brasil. Conta da institucionalização da pós-graduação, com destaque para a relevância da Capes, como no apoio à vinda de pesquisadores estrangeiros [cita os nomes de vários deles] para atuar no RS. Salzano detalha mais as justificativas, com ajuda de Neel, para dirigir o seu trabalho com a genética humana. Neste ponto conta da sua ida à reunião da OMS em Genebra em que foram definidos uma agenda de pesquisa e documento para orientar pesquisas em genética de populações indígenas. Salzano cita também parcerias com médicos para pesquisas em genética médica. Ele faz breve referência a aspectos dos procedimentos éticos informais para esclarecer e coletar dados em humanos nesse período inicial. Mais ao final da entrevista, Salzano fala da pesquisa de campo e descreve algumas situações de trabalho com os Xavante: as experiências problemáticas e dificuldades de trânsito de infraestrutura para pesquisas de campo; a organização e a divisão do trabalho entre os vários pesquisadores; a participação de agentes locais, incluindo indígenas e o técnico da Funai; os cuidados médicos conduzidos por J. Neel nos Xavante. Termina com breve citação sobre seu envolvimento na viagem de James Neel pela bacia amazônica a bordo do navio americano Alpha Hélix. &#13;
&#13;
Esta entrevista pode interessar àqueles que querem saber mais sobre a história do início da genética e da genética humana no Brasil; sobre a trajetória e atuação de Francisco Salzano e suas redes internacionais de pesquisadores.</text>
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              <text>    5.4      Prof. Fernando da Rocha, entrevista, 23 de julho de 2014   1:15:48   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     morfologia  trabalho de campo  Kayapó  medicina indígena  aconselhamento genético Fernando José da Rocha Rosanna Dent mp4 rocha-20140723.mp4 2:|24(14)|42(12)|61(7)|92(5)|117(7)|140(13)|166(9)|187(6)|207(1)|247(2)|272(10)|292(6)|312(10)|336(10)|361(13)|390(9)|406(8)|423(10)|438(10)|480(2)|517(4)|537(1)|561(1)|584(13)|601(11)|620(8)|643(9)|665(12)|691(6)|729(13)|754(7)|777(11)|798(4)|818(6)|842(10)|858(6)|875(11)     0   https://youtu.be/a5vrprElC1Y  YouTube         audio    pt-br     1 Rocha fala sobre seu trabalho de doutorado           Exame de sujeitos ; Formação Acadêmica ; orientação ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano   Doutorado ; Formação Acadêmica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano                       389 Rocha fala sobre medições e práticas em trabalho de  campo           coleta de dados ; exame de sujeitos ; indígenas ; Prática ; práticas de campo ; Raça, Etnia e Identidades ; rotina de trablaho ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo   Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo                       1089 Rocha comenta sobre análise dos dados   Mas viu foto dele? É um sujeito bonito,  grandão, né? Raoni. Um dia... Contei  história de todos os lados. Mas enfim, então  a coisa era assim. Aí...       concepção de ciência ; instrumentos ; prática ; rotinas de trabalho   economia moral ; Prática ; Trabalho de campo                       1240 Rocha fala sobre prática de medições com diferentes  grupos           exame de sujeitos ; prática ; rotina de trabalho ; Trabalho de campo   Prática ; trabalho de campo                       1672 Rocha fala sobre exames médicos que faziam com  indígenas           Exames de sujeitos ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; rotina de trabalho ; sujeito humano ; trabalho de campo   Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; sujeito humano                       1781 Rocha comenta sobre experiências com Kayapó           economia moral ; etnia ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; valores   Economia Moral ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2404 Rocha comenta colaboração com outros cientistas           colaboração e acordos ; Redes científicas e circulação : ; viagem   Redes científicas e circulação : ; Trabalho de campo                       2606 Rocha comenta sobre brigas entre Kayapós           etnicas ; Raça, Etnia e Identidades   Raça, Etnia e Identidades                       2861 Rocha comenta aprendizados das experiências de campo   Afeto ;  Prática       Afeto ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de campo   Afeto ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades                       3338 Rocha fala sobre Salzano           Afeto ; amizade ; Formação Acadêmica   Afeto ; Formação Acadêmica                       3481 Rocha fala sobre relação com trabalhadores da FUNAI e  missionários           Atores invisíveis ; ética formal   Atores invisíveis ; Ética                       3486 Rocha fala sobre ida a campo no Rio Grande do Sul com  Girley           Afeto ; amizade ; Raça, Etnia e Identidades   Afeto ; Raça, Etnia e Identidades                       3739 Rocha comenta experiências de campo significativas e  aprendizados           Afeto ; Economia Moral ; Raça, Etnia e Identidades   Afeto ; Economia Moral ; Raça, Etnia e Identidades                       oral history Esta é a segunda de duas entrevistas com o professor Fernando José da Rocha, professor aposentado do Departamento de Genética da UFRGS. O pesquisador relata as suas primeiras idas a campo e como era a agenda de pesquisa de Salzano e com as populações indígenas. Descreve com alguns detalhes como era o trabalho de campo da sua pesquisa em morfologia, incluindo como os dados foram analisados, utilizando o cálculo de Mahalanobis.  Comenta o processo para se chegar às terras indígenas e a capacidade do Professor Salzano de articular e mediar junto a instituições como a Funai e missionários para as autorizações de viagens às aldeias e trabalho local. Rocha diz de sua percepção pessoal sobre a interação entre os pesquisadores e os povos indígenas e a reação desses aos procedimentos de trabalho de campo e cita as contribuições do cacique Raoni, durante a viagem aos Kayapó. Ele menciona o trabalho de intervenção clínica do médico que compunha a equipe e os caso de doenças encontradas nas populações indígenas. Rocha comenta brevemente sobre a sua atuação no aconselhamento genético durante vários anos. Termina tecendo comentários sobre as suas experiências pessoais ao ter contato com as realidades de vida das populações indígenas.  Essa pesquisa é de interesse dos que querem estudar as relações sociais e de trabalho nas viagens de campo em terras indígenas e o estudo sobre genética populacional.     DENT: Hoje é dia 23 de julho de 2014. E estou aqui de novo com o professor  Fernando da Rocha. Então vamos começar aqui... Tá.    ROCHA:  Então, Rosanna, a coisa é mais ou menos assim. Vamos começar a  história do começo, né?    DENT: Ótimo. Pode começar. Só vou pegar uma cadeira aqui.    ROCHA: Como toda história, vamos começar do começo.     [pausa]    Eu entrei, eu te falei já, não lembro. Eu entrei nesse grupo, porque o Salzano  tinha um projeto muito grande. Ele, na verdade, ele já tinha saído uma vez  para os Xavante e eu não tinha ido, não estava lá. Ele foi com o outro cara,  e o Girley foi. Então a ideia dele era fazer um levantamento... Isso tem  escrito nos trabalhos... Fazer um levantamento, uma caracterização de cada  grupo populacional, dentro de cada tribo. As tribos e os grupos. Já sabia que  as tribos se subdividiam, né? Na verdade, a coisa é mais ou menos assim. Tu  vai na beira do rio sempre, para ter comida, água e tal. Aí uma família se é  suficientemente capacitada para descer ou subir o rio, e acabar com o jugo do  chefe lá, né? E ela vai fazer... Eu imagino que eles pensavam assim, vai  viver, ia ter bastante filho, pesca, caça e o negócio todo. Ele sabe que ele  vai ter que pescar e caçar e a mulher, lenha. Então, ele migra pra cima ou pra  baixo dos rios em geral. Então quando tu anda dentro do Xingu, tu encontra  vários grupos, subgrupos, Kayapó, né? Enfim, e forma tua nação pequena, teu  grupo, população, que é uma família aumentada de alguma coisa. E essa  família aumentada de alguma coisa se torna lá na frente, vinte anos depois, um  grupo homogêneo, lá na frente.    Então, o Salzano... Eu acho que a ideia dele era levantar, dos principais  grupos já conhecidos pela própria FUNAI, a descrição da FUNAI, e por coisas,  autores antes que vieram fazendo expedições esporádicas, mas não com fins  científicos. Aquele lá tem grupo assim e assim... Acho que foi assim que  Salzano se guiou também.  E então quando entrei lá na Genética, 1961, eu  sabia, que ele, Salzano, estava publicando os primeiros trabalhos sobre  indígenas. Que era grupo sanguíneo ABO do grupo não sei o quê lá, Xavante.  Haptoglobina do grupo não sei o quê... Alguns marcadores genéticos que ele  estava já tipando em alguns grupos. Numa ou duas que ele teria feito.  E a  ideia dele era, para completar o tipo de trabalho dele, fazer um levantamento  morfológico do grupo. Antropométrico do grupo. Então quando eu entrei lá na  Genética, ele me falou isso e eu disse: &amp;quot ; Tá&amp;quot ; . E seria minha tese de doutorado,  objeto da tese. E foi assim que a coisa começou.     Mas eu trabalhava em outra coisa aqui em Porto Alegre, eu trabalhava em  genética de sangue, eu te falei isso. Passou um tempo, aí eu fiz um  treinamento primeiro em antropometria, medições. 16 medidas ou 18 medidas  antropométricas. Tamanho de crânio, tamanho de tórax, cintura escapular,  cintura pélvica... Espessura da panturrilha ou a [inaudível] da face,  bigonial, enfim, de estruturas físicas. Então, a ideia era tu marcar um grupo  com esses marcadores genéticos simples que o Salzano fazia, e com uma outra, um  outro enfoque era da morfologia. E aí era o Fernando que entrava.      Como é que a coisa acontecia? A gente chegava numa aldeia já previamente  estabelecido o que tinha naquela aldeia. Anunciado. E a chegada era a  apresentação do grupo que ia trabalhar pros índios. Pegava um chefe ou dois  chefes importantes. E explicava para eles mais ou menos o que que se ia fazer. E  se distribuía presentes. Nessa época, nesse dia. Um calção pro marido, um  vestido para a mulher, um shortzinho pro filho. Enfim, presentes, coisa simples.  E o grupo ficava num compromisso de voltar em famílias.  Isso era organizado  por alguém lá do grupo deles. No caso do Kayapó, por exemplo, era o Raoni,  que era um chefe índio. Um metro e noventa e quatro, eu nunca vi, um índio  enorme. E depois, ele apareceu no noticiário nacional. Ele fez alguma coisa,  não me lembro o que que foi no Brasil. Esse cara, o Raoni.    DENT: Ele ainda vai lá na FUNAI.    ROCHA: Vai?    DENT: É. Ainda é liderança.    ROCHA: É mesmo? E tu conheceu ele?    DENT: Pessoalmente, não. Mas eu vi ele lá na FUNAI.    ROCHA:  Mas viu foto dele? É um sujeito bonito, grandão, né? Raoni. Um  dia... Contei história de todos os lados. Mas enfim, então a coisa era assim. Aí...    DENT: Ele ajudava... O Raoni ajudava a trazer as famílias?    ROCHA: A selecionar... é... isso. E dava força para nós, né? Eu imagino que  algum outro não quisesse, ele: &amp;quot ; Não, tem que ir lá, tem que ir, tem que ir.&amp;quot ;   Eu imagino. Porque ele tinha força, era um dos chefes, parece, o Raoni. Bom. E  então aí começaram. Eu fui com o Girley. Eu tinha uma máquina fotográfica,  uma rollerflex, que eu usava a tiracolo. Eu tinha que achar um lugarzinho pra  mim poder botar uma mesa, umas coisas. E os aparelhos, os antropômetros, os  calibres e tal.  E começava a medir, pesava, media. E aí, ainda comecei a  fazer também demartoglyphics. Nesses grupos de palmares, plantar e impressão  digital e palmar, de todos. Era uma dificuldade tu pedir para um índio de 30  anos fazer assim com a mão, botar em cima da garrafa, que eu ia rolar a  garrafa. Quando eu rolava a garrafa, a mão dele ia junto, então saía a  impressão. Ficava contente da vida. Às vezes, não dava. Mas enfim, esse era  uma parte do trabalho. Media e o Girley ficava anotando os números. Repetia.  14,3 e repetia. [inaudível] fichas, né? Todo tempo. 3, 4, quanto tempo fosse  necessário, media, né?    E o Salzano sentava perto assim. E o Salzano fazia autuação do número de  filhos de todos, né, demografia. E assim que nós trabalhávamos o dia inteiro.  Aí ia no rio, tomava banho, o Girley fazia a janta. Às vezes fazia um ovo  frito. E um café, né? Essas coisas. E nós íamos dormir. Dormir não. O  Salzano insistia em ir lá na pista de aviação. Então tinha que caminhar  depois da janta. E caminhava na pista. Escuro, escuro. E ele: &amp;quot ; Se existe Deus,  que apareça&amp;quot ; , essas coisas. Ele falava. Eu digo: &amp;quot ; Pô, tu tá chamando o Deus e  tu...&amp;quot ;  Quase sempre ele fazia isso. Aí nós voltávamos por aquele caminhozinho  e tal. No outro dia, levantava cedo, a mesma coisa. Cedo as índias passavam  pro rio. E os índios também. E na volta, as índias com aquelas cargas de  lenha nas costas, né? E os índios com os peixinhos deles lá. E assim foi,  né? Tudo certo. Lá em Yanomami, foi um pouco diferente. Não tinha rio.  Aldeia, não tinha essa coisa, mas a lenha vinha sim. Eu deixei tudo com o  Salzano. Ele te mostrou? Os slides.    DENT: Não, não vi os slides ainda. Depois eu vou perguntar para ele.    ROCHA: Não? Tem. Deve ter lá naquele... Ah, agora é noutro gabinete, lá no  campus. Mas ele deve ter slides. Eu deixei tudo.    DENT: Pode comentar um pouco mais sobre o processo de tomar tantas medidas de  tantas pessoas? Tinha um sistema? Como era, lembra como era fazer isso por...     ROCHA:  A rotina?    DENT: Sim.    ROCHA: Assim, ó. Vinha a família e a família ficava direitinha, assim, como  se fosse um consultório médico. Aí passava o marido, aí eu media. Começava  a medir peso, balança, depois media a estatura, ossatura. Aí eu media tronco.  Inspirar e expirar. Ombro. Abertura de ombro. Abertura de quadril. Depois  crânio, bigonial, bizigomático... Depois, circunferência da perna,  panturrilha, era uma sequência, né? Dezesseis medidas. Todos faziam. E daí  fazia, quando é adulto, criança não dava, fazia dermatoglyphics. Da palma da  mão e dedo, ponta do dedo. Era pesado.    DENT: E como eram as respostas dos índios?    ROCHA:  Eles achavam gozado. Uns riam, uns se olhavam e riam. Deviam comentar  entre eles, né? Mas, assim, ali não dava. Tinha aquele, ficavam na porta  observando, paravam assim encostados. Até uma coisa estranha, como seria para  nós também, não é? Três caras bêbados. Bêbados, não. Estranhos. Na  comunidade. Está na hora de impressão palmar, também era... Achava muito  gozado. E a fotografia. De frente e perfil.  Aí quando terminava a família,  ou terminava o número de familiares, o Salzano anotava os dados demográficos.  E a família ia embora.    DENT: E como era o processo, assim, falar o que eles tinham que fazer? Tinham tradutores?    ROCHA:  Não, não. Tinha a língua internacional.    DENT: [Risos] Assim indicando com as mãos o que que eles tinham que fazer...    ROCHA: Isso. Isso. Não aperta muito, ou aperta. Isso.    DENT: Aí como fazer leve, para fazer as...    ROCHA:  É, é... [inaudível] Às vezes, não dava, né? Porque eles não  entendiam. Mas 90% das vezes, eles se faziam entender assim.    DENT: E no caso do professor Salzano que estava anotando a genealogia, como ele  fazia para entender...    ROCHA: [Risos] Eu gostaria de saber também. Porque ele tinha intérprete em  algumas ocasiões. Acho que uma vez, tinha um missionário lá que falava alguma  coisa. E o Raoni. Raoni, dos Kayapó, o Raoni era Kayapó, grupo txucarramãe.  Txucarramãe o Raoni. E ele conhecia tudo assim, ele conhecia o Villas Boas.  E  eu tinha um pacote que eu levei, acho que não sei se foi sapato ou panela. O  Girley tinha assim. E o papel era um jornal. E do jornal, tinha fotografia de  Brasília. E quando o Raoni viu, disse: &amp;quot ; Basília&amp;quot ; . Era muito esperto o cara.  &amp;quot ; Basília&amp;quot ; . Eu disse: &amp;quot ; Brasília. Tá certo.&amp;quot ;   Ele é vivo ainda, acho, né?    DENT: E aí... Tinha, assim, algumas das pessoas que estavam nas aldeias que  ajudavam de algum jeito, se eram caciques ou se eram, assim,  intérpretes... Tinha algumas que eram pessoas que você como que mais conhecia  ou passou... Tem mais lembranças sobre algumas pessoas?    ROCHA:  Não. Não. Em geral, aí nesse grupo, era o Raoni que ficava ali mais,  né? Mas era assim, ó... Eles se ajudavam também. A impressão que eu tenho é  que eles diziam, se comunicavam entre eles, porque quando um vinha pra cá, o  outro ficava lá da família. Falava qualquer coisa, aí vinha, fazia  direitinho, né?  Não teve nenhum problema nunca. Eu não tive nenhum problema  com ninguém. A não ser postar a mãozinha deles, né? Que, não com muita  força. Das mulheres, das velhas e dos velhos. Os moços, não, os moços já  faziam certo. Chegar num grupo de indígena e sendo o terceiro grupo branco da  época. Os txucarramãe. Parece que o Villas Boas vai... Nós éramos os  terceiros, o terceiro grupo que ia nessa aldeia visitar. Tinha ido um cara antes  que até tinha dado confusão com o cara. Então... Achava estranho, mas não  deu, nunca deu nenhum problema. E eu imagino que o Salzano não tivesse  também, porque eles traziam as crianças, tinha que trazer as crianças. Aí  ele perguntava em linguagem internacional: &amp;quot ; filhos?&amp;quot ; . Eu não sei, não veio  esses dados do Salzano, eu não sei onde é que ele publicou, se está junto comigo.    Mas... O que que é importante, eu acho, é que no meu caso, da morfologia,  antropometria, existe uma estatística para ANAC, que se faz na área, que chama  d2 Mahalanobis, é um cálculo de d2 Mahalanobis. Exatamente, ele pega  as  medidas antropométricas e análise de variância, inversão de matriz... É um  cálculo estatístico, matemático, que eu tive que ir lá em Campinas, lá em  Ribeirão Preto aprender. Em Rio Claro. Tinha um programa, tudo. Então, isso  te dá um número no fim. Aí em relação a isso, tu tem esse número, essa medida.    E esse número que deu aqui, nos Kayapó, eu posso medir com o grupo Xavante. É  um número que eu posso medir a significância da diferença. Isso que são os  meus dados. E o do Salzano... Quantos filhos tem? Quatro filhos. Então...  Quatro filhos por casal, então essa é a média. Na outra tem três, quatro  mais três, sete. Então é três e meio. É aritmético, né? E o Salzano  fazia ainda, além disso, ele fazia a parte de demografia, tinha  fotografia. Que eu dizia: &amp;quot ; Pra que foto, Salzano?&amp;quot ;  &amp;quot ; Tá, porque um dia a gente  pode fazer...&amp;quot ;  É porque depois apareceu um cálculo, não sei se isso aí é  real, se aconteceu, mas ia acontecer, que se ele pudesse fazer cálculos pela  fotografia, de se medir a distância, sabendo a distância, tal, tal. Eu nunca  soube disso. Eu nunca soube disso. No que que terminou, se se fez ou se não fez.     DENT: Sim, acho que tem análises, assim, que fazem com fotografias  estandardizadas. E não sei se podem usar as mesmas técnicas para fotografias  mais velhas, mas... Tem uma pós-doutoranda que agora passou num concurso na  USP, lá da UFRGS, que ela trabalha um pouco com essas questões.    ROCHA:  Como é o nome dela?    DENT: Tábita. Tábita Hünemeier.    ROCHA:  Qual é a nacionalidade dela? Egípcia?    DENT: Ela é daqui de... Ela é alemã.    ROCHA:  Tábita?    DENT: Tábita. Aham.    ROCHA: Tábita. Não conheço. Bom...    DENT: Ela não é nova na... Acho que ela fez doutorado e pós-doc, agora ela  entrou na USP como professora, ela vai lá. Mas ela faz essas análises de fotografias.    ROCHA: Ah, então tá. É, por isso que o Salzano... &amp;quot ; Não vou perder a  oportunidade.&amp;quot ;  [inaudível]    DENT: E com a questão das impressões digitais, como era a análise, como se  analisava esses dados?    ROCHA: A gente não analisava lá, eu trazia todo o material para Porto Alegre,  que o Salzano tinha um bolsista, que eu não sei que fim levou. Que fazia finger  print, fazia análises das cristas dérmicas e tal. E os pontos não sei o que,  verticilos, isso aí eu não sei. Foi uma pessoa, seria bolsista dele. Não sei  se ele chegou a ter esse bolsista. Mas ele tem essas coisas. Ele não bota nada  fora, né? Ele tem guardado para análise. Depois eu soube que teve gente lá no  departamento que andou pegando, usando as coisas, dos dados e tal. Que é o que  tem que ser, né? Não sei se isso foi analisado.    DENT: Mas naquela época, tinha um método, tinha interesse nessas questões da  variedade dermato?    ROCHA:  Não, não. Como isso não é a minha área, eu só funcionei como  técnico ali, né? A fotografia também, né? Levantei esses dados para quem  quisesse analisar. Alguma coisa eu sei que já foi analisada. Não sei se pela  Lavínia. Tem outra guria que eu conheci de nome também, que parece que andou  analisando alguns dados. Os dados não são meus, são da ciência, né?    DENT: [Risos] E compartilhados, né? Aí no momento de fazer medições  antropométricas com as crianças, como... Como vocês conseguiram isso?    ROCHA:  É difícil. É difícil, é difícil. Quando a criança é muito  jovem, quer dizer, a dificuldade é tanto maior quanto mais jovem a criança,  lógico. Uma criança de dois anos, três anos, é difícil, muito  difícil. Então aí eu procurava fazer altura e peso e pronto. E não tinha  como fazer medidas. Medida craniana... Dizer para a criança: &amp;quot ; respira,  inspira!&amp;quot ;  Sem condições, né? Então eu deixava de lado deixando para um  próximo Fernando que fosse lá dali a 10 anos fazer já no adulto.    DENT: [Risos] Sim. Você tinha experiência também fazendo essas medições  antropométricas em outras populações no Brasil?    ROCHA:  Tinha, tinha...    DENT: Como comparava trabalhar, assim, em Porto Alegre com trabalhar com os  grupos indígenas?    ROCHA: É uma boa pergunta, né? Nunca me ocorreu isso. Mas assim, de antemão,  assim, eu posso dizer que eu fiz isso, em Porto Alegre, em soldados. Do  exército nacional. Fomos num quartel, Salzano falou? Fui no quartel, ele fez  uma análise desse tipo, antropometria. Mas aí os dados são relativos à  população caucasoide branca, brasileira. São dados já conhecidos, já  existentes. Ao contrário do que em uma população como a nossa, aqui do Rio  Grande do Sul, que é poli-híbrida. Pega um cara. &amp;quot ; Que que tu é?&amp;quot ;  &amp;quot ; Eu tenho  um avô alemão, tenho uma avó dinamarquesa, eu tenho uma daqui, pelo duro aqui  do [inaudível], né? E outro da linha de [inaudível]. Sou italiano. Eu sou...  &amp;quot ;  Então essa pluralidade, essa mistura racial muito grande, provavelmente  deveria ser observada com esses dados aí. Mas eu medi jovem de 18 anos das  mais diversas nacionalidades.    DENT:  Mas como era, assim, na interação, no momento de tomar as medidas, era  diferente medir? Imagino que era diferente, soldados entendiam que você podia  comunicar... E como comparava, assim? Tinha outras comparações, coisas  diferentes, coisas semelhantes entre fazer esse processo de fazer dezesseis  medidas por pessoa com um grupo aqui na cidade comparado com lá na aldeia?    ROCHA: Ah, não. É, eles também achavam gozado. E eu fazia ainda um teste,  junto da medição, eu fazia um teste de suor. Eles ficavam com pé dentro de  água quente e suavam. Eu media o teor do suor. Mas eu não analisava. Fazia o  trabalho de técnico, nem sei que fim levou esse dado, se é que o Salzano ainda  tem. Mas não, a dificuldade, eu diria até que entre os índios, entre os  índios, era mais fácil. Por quê? Porque nesse outro grupo populacional, o  questionamento é maior. &amp;quot ; Por que que tu tá fazendo isso comigo?&amp;quot ;  Algo desse  tipo, uma pergunta desse tipo. Não sei, não me lembro se perguntavam assim,  mas eu imaginava que isso fosse... Ou teriam perguntado. &amp;quot ; Por que que tu quer  isso?&amp;quot ;  Dermatoglyphics e coisa. E lá, não. Lá, coitadinhos, estavam lá  para... O cara mandava, ele fazia, o índio mandava lá, ele ia. [inaudível]  Ele ia e fazia. Às vezes, não fazia, mas em geral, era até mais dóceis do  que essa outra população. [Risos] Eles achavam gozadíssimo, assim...    Fotografia então era um negócio seríssimo, porque tinha uma máquina, uma  rollei, que é uma máquina boa, né? Rollei... [tosse] desculpe. E tu...  [espirro] Desculpe. Que tu podia olhar no visor, tu levanta aqui e olha, e como  é que saía lá, né? Era tipo, é uma máquina antiga, mas às vezes já via  alguma coisa.  E índio é muito curioso, índio, muito desperto. Ingênuo,  esperto. Cooperativo. Nós não tivemos nenhum problema de nenhuma natureza.  Tenha certeza. Nem o Girley, nem eu, nem o Salzano. Nem os que vieram junto, o  Napoleon... Um pediatra, não me lembro o nome dele. Um grupo veio junto, né?  Um pediatra... Nos Kayapó foi. Depois foi um médico paraense muito amigo  nosso, Manuel Ayres, conheceu ele?    DENT: Pessoalmente, não, mas...    ROCHA:  Pessoa super querida. Já morreu também. Ele é pediatra. É de Belém  do Pará. [Risos] E era também a primeira viagem dele pros índios. E ele  ficava meio do meu lado, assim, e do Girley. Eu e ele éramos os primeiros,  né? Girley já tinha ido com Salzano. Depois voltamos para Belém do Pará,  paramos na casa dele. E ele dizia: &amp;quot ; Tá tudo com sarna, escabiose, né?&amp;quot ;  Sarna,  conhece? Sarna. Doença de pele. Não para de se coçar, fica se coçando.  Marca, fica marcado. Até apareceu uma foto aí, uma marca de sarna. Fica...  Moleque, velho, tudo. Cachorro. Escabiose o nome da doença. Mas enfim... O  Manuel Ayres foi meu companheiro também. Girley não falou nele?    DENT: Não sei. O professor Salzano também. Sim, sim.    ROCHA:  Ele ficou muito amigo do Girley também. Ele ajudou ele aqui, levava  ele pra lá e pra cá. O Girley, né?    DENT: E enquanto vocês estavam nas aldeias, fizeram algum, deram alguma  atenção médica também enquanto estavam lá?    ROCHA:  Eles? Sim. Acho que a ideia do Manuel Ayres era essa, Salzano quando  levou o Manuel lá, e quando esse cara, acho que é o Egan não sei o quê. Acho  que é... Exatamente essa, né? Fazer um exame clínico e coisa. Tinha, sim.  Tinha exame médico, sim.    DENT: Lembra um pouco de como era a parte do trabalho deles nas coisas médicas,  o que que eles faziam ou como funcionava?    ROCHA:  A mesma coisa. Tudo junto assim, era numa sala grande. E eu via o  Salzano trabalhar ali. Via o Manuel Ayres trabalhar aqui. O Girley tava do meu  lado, trabalhava tudo junto. O grupo era o mesmo, né? Chegava uma família, era  atendido. É como estar num supermercado, vai prum balcão aqui, um balcão... [Risos]    DENT: [Risos] E aí eles... Quando chegaram no ponto do médico, quais eram os  procedimentos que o médico fazia?    ROCHA:  No caso das... Tem muitas coisas. As crianças, era diferente dos  adultos, eu me lembro que o Manuel Ayres medicava. O outro não medicava. Mas  dor de cabeça ou febre, essas coisas, geral... Eu não me lembro de ter chegado  uma pessoa muito doente lá ou casos de dor forte, tal. Normal. Gripe. Diarreia.  Eles tinham muito diarreia. Esse é o lado cômico da história, porque a gente  dormia em rede, eu dormia, assim, com a rede assim, por exemplo, e o Girley  dormia aqui numa rede, ali o Salzano. E aonde a gente examinava, ficava... A  gente botava a rede do lado, ficava tipo um salão aqui no meio. Então aqui a  gente fazia os exames e tal. E eles ficavam ali. Ele é muito &amp;quot ; cestuoso&amp;quot ; , muito  desconfiado, pra ficar, ficava meio encostado assim. De repente um se soltava do  grupo, ia lá, sentava numa rede, deitava numa rede das nossas. E é ruim,  porque... a higiene dele é péssima. Então ele ficava enrolando na rede,  deitado... Aí, quando eu via que tinha um cara na rede [inaudível] dividia,  tirava a rede, dividia, ele estava com o Salzano, o Girley, na minha não!  [Risos] Uma vez o Girley cozinhou um ovo, acho que te contei isso, né.    DENT: É, que o, o...    ROCHA:  O cara tava... Espirrou, que nem eu fiz agora, botou a mão aqui e  espirrou, um índio, Cremoro, o nome do índio, Cremoro, e... Mais velho,  também, assim, mais velho que o Raoni. Eu comi o ovo frito da mão do Cremoro,  aí o Girley foi lá no [inaudível] e botou o ovo na mão dele, assim, &amp;quot ; Ah,  isso é ovo frito, é?&amp;quot ;  Ele pegou o ovo, rasgou pela metade e deu metade pra mim  comer. Tinha recém-espirrado.     DENT: [Risos]    ROCHA: Tive que comer, né.     DENT: [Risos] Ele era cacique ou liderança?    ROCHA:  Não. Não, era um chefe de família, o Cremoro. Acho que ele era um  cara importante assim como o Raoni. Não era um cacique. Geralmente eles têm  quatro, cinco ministros, vamos chamar de ministros. Se os ministros fossem que  nem eles nós tínhamos um Brasil muito melhor. E que comandam um grupo de  família, comando um grupo de pessoas.  São líderes, na verdade, naturalmente  surgem em coletividades. E lá tinha o Cremoro, tinha o Raoni... Nós tínhamos  que subir um morro para ir num grupo que estava lá em cima do morro tal, e eu  jogava futebol naquela época. E eu tinha uma lesão crônica no tornozelo. O  tornozelo era sempre inchado, sempre, sempre, sempre, sempre. E dessa ida lá  pro morro, eu torci o tornozelo. Quer dizer, machuquei, subi no morro. E não  tinha [inaudível], passar coletando dados lá em cima, no grupo que estava lá  em cima, é... Kayapó. E aí no outro dia não saí da rede, fiquei na rede,  deitado na minha rede. E aí dois índios pequenininhos ficavam me olhando da  porta, assim. Um bicho estranho para eles, né?    DENT: [Risos] Você deitado, é claro. Claro. Não, sempre [inaudível]... Uhum.    ROCHA:  É. De roupa, né. De roupa, claro [risos]. E eles ficaram me olhando,  eu me lembro no marco da porta um pequenininho assim e um grande. Mas é, a  gente não tinha instrução de não falar, de fora do serviço não puxar  conversa, que podia ser mal interpretado e coisa. Foi no Kayapó? Não... Foi  uma aldeia Yanomami, que tinha um avião da FAB... Tinha dado uma pane no avião  da FAB e ele fez uma aterrissagem forçada ali no Kayapó, grupo Kayapó,  Txucarramãe... Agora estou na dúvida se era Kayapó ou Yanomami. E  [inaudível] tinha soldado. E eles iam para as aldeias das índias, dos índios,  né. Sei lá o que é que faziam, mas iam. Então isso é uma coisa que também  tinha que cuidar, não podia usar arma para não atrair coisa. Porque já  conheciam algumas coisas.    DENT: Isso foi uma sugestão do professor Salzano ou era dos chefes dos postos,  da FUNAI? De não interagir muito com...    ROCHA: Isso aí o Salzano, quando nós chegamos [inaudível] que é cuidar, é  um grupo alienígena, eles são guerreiros, a gente é estranho para eles, e  diferente. Nós é que somos diferentes, eles não. Eles são eles. Nós somos  diferentes deles e nós chamamos atenção deles. Tem que cuidar para não  ofender, não... É uma coisa que tem que ser cuidada.  E ali já tem o Vilas  Boas ali, parece, também. Mas enfim, a gente via os caras saírem do avião e  passar ali por cima, soldado mesmo. Não sei se se vendia ou não. Não sei, mas  o fato é que era uma coisa... Eu acho que era Kayapó, sim.     DENT:  Aí durante esse tempo assim nas aldeias, alguma vez teve alguma  cerimônia, algum ritual que vocês participaram, observaram?    ROCHA:  Teve. Teve um velório. Também não sei se é pro Kayapó. Eu acho que  é Kayapó.  De uma velha, parece [inaudível] E a coisa é a seguinte: o corpo  estava colocado em cima das árvores, no topo das árvores, porque eles  acreditavam muito que o corpo fosse descarnado pelas aves de rapina... Essa era  a notícia que nós tínhamos, e estava lá o corpo lá em cima, parece. E  depois, quando tivesse descarnado, esse corpo era descido e o osso era  triturado. Eles tinham umas coisas assim, tipo panela, que era madeira, madeira  de árvore, tronco. Era socado e fazia uma sopa e eles acreditavam que o  espírito daquela pessoa passasse para quem tomasse aquela sopa. Essa foi uma  história que eu ouvi lá. Se é mentira eu não sei, mas foi um índio  mentiroso lá que me contou. Isso é uma coisa que me chamou a atenção  também. E também tinha uma festividade que nós não assistimos, que era o  baile, a festa de debutante, pode ser, festa dos 15 anos das gurias. Dos guris também.    DENT: Sim. Uhum.    ROCHA:  Então tinha um lugar aberto, sem o telhado, que tinha a tal de festa  dos debutantes. Nós não assistimos a festa, nós sabíamos que existiu e  existe. Então todos jovens solteiros, 14, 15, 13 anos, se reuniam nesse lugar  para namorar. E se acasalar. Se por acaso a mulher engravidasse, casava. Se não  engravidasse, voltava no ano seguinte, na mesma festa. Algo desse tipo.    DENT: Mas vocês não participaram...     ROCHA: Não.    DENT: ...desses rituais, só sabiam que estavam acontecendo por coisas que  pessoas comentaram.    ROCHA: É. Bebiam também a banana, por exemplo, socavam a banana e o caldo,  cana de açúcar, tinham cachaça, mas não era cachaça, e eles tomavam.  Tomavam o caldo de banana.    DENT: Esses três coisas eram todos nas comunidades Kayapó? Ou não lembra?    ROCHA: Isso que eu te contei? É. Eu não sei se é Kayapó ou Yanomami, mas eu  acho que é Kayapó.    DENT: Quando vocês foram... é... [telefone toca] no caso dos Kayapó, levaram  um antropólogo social?    ROCHA:  Ah... Não.    DENT: Quem ia? Lembra quem estava lá no trabalho de campo do...    ROCHA: Napoleon?     DENT:  ...do Kayapó?    ROCHA:  Não, não tinha. Tinha o Manuel Ayres, que era médico, o Salzano e  eu. Não tinha um antropólogo social. Não tinha.    DENT: Uhum. Mas no caso dos Yanomami o Napoleon Chagnon foi.    ROCHA:  Foi.    DENT: E ele já falava Yanomami naquela época?    ROCHA:  Não.    DENT: Não. Ainda não? [Risos]    ROCHA: [Risos] E é gozado, né? Estava lembrando das tiradas dele. Depois nós  tivemos juntos em Belém do Pará uma semana. Conversando e vendo os dados, né?  Conversando... Aí conversei um pouco com ele. Ele é de Ann Arbor também, né?    DENT: Ele... Sim, ele fez o doutorado dele em Michigan.    ROCHA:  É. Mas é Kayapó, sim. Acho que Kayapó. Não, não tinha. Não  tinha. Por isso que eu estou, te conto assim... Acho. Como acho também que os  soldados faziam. Tudo de ouvir... De ouvir cara falar, né?    DENT: Uhum.    ROCHA:  Não tinha ninguém que fazia. Era uma pena, porque tem muita coisa que  se perde aí, né? Se perdeu.    DENT:  E no caso dos Yanomami, como era a colaboração com o Chagnon? A  convivência, o trabalho...    ROCHA:  Olha... Ele ficava junto, porque... O Neel, que estava junto, né? Nós  fomos em três aldeias diferentes. O Neel, o Neel centralizava muito o exame,  análise, a coleta nele. E eu ficava mais separado. E eu via o Neel e o Salzano  juntos, como se os dois tivessem uma área diferente, cada um pega uma... E o  Napoleon estava ali, Chagnon estava ali também. Então, na verdade, eu acho que  cada um pegava numa parte, um grupo e eu sei que ele é antropólogo físico,  social. Mas eu não assistia. Sim as perguntas que o Salzano fazia, e o Neel  ficava [inaudível]. Tu conheceu o Neel?    DENT: Não, ele faleceu antes de eu entrar no campo da história da ciência.    ROCHA: Uma pessoa fantástica. E a mulher dele também. Foi fantástico  comigo. Porque eu fui casado, lógico, com meus três filhos, né? Que eu tinha  na época. E a quarta nasceu lá. Ele foi pagar um hospital, um  médico... Tinha um tal de mister Mason, que era secretário geral do  departamento lá. Tinha uma moça lá embaixo. Será que morreu também? Como é  que chamava? Karen. Karen [Memiker, dúvida]. Ela trabalhava com Arthur Bloom.  Fazia citogenética médica, eu acho. E tinha sessões de aconselhamento  genético. Que eu assistia, que eu queria fazer quando eu voltasse pro Brasil.  Então eu assistia, algumas vezes. E a Karen Memiker fazia o cariótipo. Ela  foi muito querida comigo também. Tinha um monte de gente que me fez bem lá.    DENT: Enquanto vocês estavam fazendo o trabalho nas aldeias, alguma vez os  índios solicitaram coisas? Ou ajuda com alguma coisa? Ou...    ROCHA:  Não. Não. Pra mim, não. Até porque a gente ficava afastado,  né? No caso dos Kayapós, por exemplo, era longe da aldeia. Uns 500 metros da  aldeia. Então não... Calmo, calmo, tranquilo. Parece que com os Kayapós,  tinha uma briga, guerra, entre eles. Essa era uma notícia que correu uma noite  lá, que eles estavam em briga. Geralmente é por causa de mulher e de criança.  Eles roubavam muita criança também. Mas não... Nunca, nunca aconteceu isso.    DENT: Eles tinham uma briga então entre os grupos?    ROCHA:  É. Eles estão sempre em guerra, na verdade, né? Por isso, por  aquilo. E parece que tinha um grupo próximo ali. Não sei se era Kayapó, que  estava em briga com esse grupo que nós tivemos. Txucarramãe. Mas não  aconteceu nada nunca, não teve nada.    DENT: Então você sabe quantas viagens de campo você fez? De trabalho com indígenas?    ROCHA: Não.    DENT: Não? [Risos] Não dá para contar, não? [Risos]    ROCHA: Não. Não. Não. Na verdade, eu comecei por lá e depois eu fiz aqui.  Quando eu voltei, eu fiz Rio Grande do Sul, quatro, cinco aldeias. Nessa  caminhonetezinha aí. Quatro, cinco viagens. Nonoai, Guarita, Cacique... Quatro  aldeias. Kaingang e Guarani.  Depois eu fui ao Paraná também. De ver Kaingang  e Guarani. Mas tudo depois disso aí. Minha primeira viagem foi para Kayapó.  Pro Xingu com o Salzano. E Manoel Ayres. Foi a primeira. Foi um grupo só. O  grupo Txucarramãe. Aí nós pegamos o avião, viemos, voltamos a Porto Alegre,  análise e tal. Aí o Neel veio pro Brasil, e com a chegada do Neel, teve essa  viagem com esse avião da FAB que tu tem aí. Nós fomos lá para Roraima. E  lá, nós fomos em cinco aldeias. Tototobi, Surucucu... Aí com o Neel. Aí  fomos em cinco lugares diferentes. Só Yanomami. Foi só. Foi só o que eu fiz.  Aí eu voltei a Porto Alegre, analisei meus dados, fui vinculado para aprender o  teste Mahalanobis no computador. Aprendi. Botei meus dados no computador. Na  época, o computador IBM1130. Deste tamanho assim. A leitora de cartões era  assim. Depois impressora, depois não sei o quê.    DENT: Era tudo um quarto, né?    ROCHA:  Uns quadrados grandes.    DENT: Uma sala só para o computador.    ROCHA:  É. Uma sala grande. E lá nos Estados Unidos é que eu peguei uma...  Eu nunca, não fazia. Com o Spielman. Uma bola de 360. Mas... [inaudível]  Passei trabalho. Fiz força, mas eu tive a recompensa, né?    DENT: E assim, vendo para trás... Lembra como era a sua perspectiva, o que que  você pensava sobre os indígenas antes de ir? Pela primeira vez na aldeia?    ROCHA: Eu só sabia que tinha índio por causa da história do Brasil. Tupi  Guarani... Esses índios daqui não é, não, nem considerava índio. Para mim,  era algo fantástico, estar no meio do mato lá. Da selva amazônica, tal e tal.  Então... [inaudível] Era uma coisa seríssima. Mas é uma experiência que é  incontável, não dá para tu definir... Porque é uma coisa tão diferente, uma  vida tão diferente, um povo tão diferente. Não é como sair de Porto Alegre  e morar em Michigan, ou Porto Alegre e morar na Bahia. Não. É morar em outro  planeta. É outro planeta. E quando tu vê aquela gente toda lá, vivendo  bem... Porque eles não passam fome, não... Doenças tem até menos que a  gente, na verdade. Eu acho que eles têm menos doença... Tinham.      Então, então tu está num país assim. Porque é um país diferente. De  repente, tu vê uma anta na beira do rio Xingu. Tchibum. Aí eles pegam uma  canoa. E vão caçar a anta, e caçam a anta. Vão caçar isso, vão caçar  aquilo, vão pescar. As mulheres trabalham que nem umas loucas. Carregando  lenha, fazendo fogo, com dois filhos agarrados nelas. Enfim. É uma coisa...  Claro que a gente... É uma coisa que foge da nossa alçada, do nosso controle.  Mas tu ver que existe isso, que é verdade. Quando tu dorme e tu acorda no mesmo  lugar e é verdade, não foi sonho. Tu está no meio dos índios mesmo.      E preocupação também, porque eu não fiquei tranquilo lá o tempo todo. Até  porque tinha esse troço de guerra. De repente, eu vou morrer com flechaço,  né? [Risos] E guerra pra lá e pra cá. E doença, malária, e outras doenças  de selva, que tu pode contrair, claramente. Claro, eu não tomava água, aquela.  Mas sempre tu corria um risco, e outras doenças. E até um índio louco,  né? Mas é uma coisa, Rosanna...    DENT:  E depois, voltando, depois das viagens, de fazer esse trabalho, mudou  para outros temas seu trabalho. Não ficou trabalhando com a questão dos  indígenas. Mas essa experiência teve algum impacto na maneira que você  entendia, assim, notícias, o Brasil, assim, a...    ROCHA: Completamente. Muito depois é que, como se diz, caiu a ficha, né?  Porque quando eu voltei, eu era mocinho também, mocinho em termos de idade. Eu  voltei pensando em fazer coisas aqui que eu consegui fazer. Quando estive lá em  Ann Arbor já fiz estágio e coisa, aproveitei. Então, na verdade, isso aí foi  um filme que passou na minha vida. Eu encaro como uma coisa, assim, um filme.  Quando eu vejo Girley ali no... das coisas. E quando ele falou no telefone  comigo... Não tinha visto, mas enfim, é um filme que me passou na minha vida  lá atrás. E que eu fiz o que eu pude, sair como eu pude também. Pra mim, foi  ótimo. Ninguém me tira isso, né? Da minha visão.    DENT: Você tem histórias preferidas que gostou de contar para seus filhos,  para seus amigos sobre essas experiências?    ROCHA:  Não, assim... Não, não tem uma história especificamente, porque...  Como é que eu vou te dizer? Porque o meu dia a dia era ocupado todo o tempo,  né? Eu acordava 7, 8 horas da manhã e ia até o sol ir embora trabalhando.  Então, assim, não, não tinha uma história específica assim. Tinha as coisas  engraçadas que ele passava. Isso aí tem dezenas de histórias engraçadas.  Como o índio que sentou na minha frente... Tem um índio, um chefe deles. Um  Kayapó. Alguém tinha falado que tinha ataque de tigre, de leão, essas coisas,  na selva. E quando vinha a noite, o luar, a luz se escondia atrás das nuvens...  E quando chegava, a lua aparecia, aí vinha um tigre ou coisa... [Risos] E fazia  assim para me assustar como se fosse um tigre, entende? Coisa desse tipo. [Risos]    DENT: [Risos] E você achava que era algum animal?    ROCHA:  Não, não, não. Não. Era ele, ele estava conversando comigo ali, ele  &amp;quot ; ahhh&amp;quot ; . Digo, brincar comigo, né? Como aquele que também me abraçou e... Esse  foi Yanomami.  Me chamou de jerimu. Jerimu. Aí o cara me disse: &amp;quot ; muito amigo,  parente&amp;quot ; . E que ele se orgulha de ter como amigo. Ele era um indiozinho  pequeninho assim, Yanomami é pequeninho, né? Forte. Nunca mais eu vi ele, né?    DENT: E como eram as perspectivas dos familiares? Amigos? Assim, quando você  voltava dessas viagens e contava sobre o que que você fez.    ROCHA:  Ah, eles queriam ver, saber que que é. Onde é que está, como é que  é o índio, ele anda pelado, anda nu ou não anda nu. Faz isso, faz aquilo.  Não tem novidade nenhuma, tudo é igual a gente, igual. Só não de roupa. Não  tem nada. É normal. Mora com a família, tem filho. Tem baile de debutantes. As  gurias debutam, os guris, se engravida, casa. Aí o ano que vem, volta para  arrumar um parceiro de novo. Os velhos não são enterrados nem em cima, como os  ossos dos velhos aqui embaixo, dessas coisas que eu ouvia do Villas Boas  também. E claro, tinha slide, né? Passava. Eles gostavam de ver os slides dos  índios, né? É uma coisa boa. Era uma coisa boa    DENT: E como eram os outros que estavam no campo com você quanto, assim, à  atuação no campo... Se eram diferentes, assim... O professor Salzano, por  exemplo, como comparava o professor Salzano da aula e do trabalho de campo.    ROCHA: Ah, muito diferente, muito diferente. Tu só conhece ele na aula, né? Tu  viajou com ele alguma vez, não?    DENT: Não, nunca.    ROCHA:  O Salzano, eu posso te dizer sem medo de errar, foi o cara mais...  Pessoa que não é meu parente, não é meu pai, não é... Mais séria que eu  conheci. Sério. Com sério, eu estou dizendo assim, definindo da seguinte  forma: um cara correto. Incapaz de um julgamento errado. Bem incapaz. Incapaz de  cometer uma injustiça. Trata todo mundo com humanidade, com educação. Na  aula, um sujeito seríssimo, não brinca na aula. Ele foi dois anos meu  professor. Não, não brincava. Mas depois da mesa dele, a gente brincava,  entende? Na vida fora da aula... É um guri. Para viajar junto, gozadíssimo,  divertido, topa todas as brincadeiras, colega, amigo. Uma pessoa fantástica.  Fantástica, o Salzano. Eu respeito ele muito, muito, muito, muito. Ele tem dez  anos mais que eu...    DENT: Incrível como ele segue trabalhando, né? [Risos]    ROCHA:  É incrível. Incrível. E o Girley tu conheceu bem, né? Esse aí que  tu viu, que te trouxe aqui. Ele achou direto?    DENT: Achou. [Risos]    ROCHA:  E aquela noite, como é que tu foi embora?    DENT: Ah, eu fui de ônibus. Voltei...    ROCHA:  Conseguiu?    DENT: Sim, sem problemas.    ROCHA:  É mesmo?    DENT: Uhum. E quando você fez trabalho de campo aqui no Rio Grande do Sul, ia  de caminhonete com...    ROCHA: Girley.    DENT: Alguém mais ia com vocês?    ROCHA: Não. Não. Até porque esses índios daqui, muito diferente. Primeiro,  eu fui lá, depois vim aqui. São completamente diferentes dos índios de lá.  Eles são mais parecidos com nós, conosco. Do que com eles lá. Inclusive, os  hábitos alimentares e domésticos. São muito parecidos. Claro, são  &amp;quot ; domesticados&amp;quot ;  entre aspas por nós, né? Então, bebem muito. Esses daqui.  Vivem mal porque bebida é boa até um ponto, depois ela vira, né? E esse  índio bebia muito. E brigas e cachaça e facada e morte. Sabe? Miséria. Falta  de dinheiro.  Então, eu ia com o Girley, sim. Atolava o carro. Estrada não  tinha asfalto, era barro, a caminhonete atolava, tinha que empurrar a  caminhonete, barbaridade.    DENT: E...    ROCHA: Eu não sabia que tinha morrido a mulher dele. Eu perguntei por ela,  lógico, né?    DENT: Claro.    ROCHA: Disse: &amp;quot ; E a Neiva?&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, a Neiva morreu faz uns 10 anos...&amp;quot ;  &amp;quot ; Sinto muito.&amp;quot ;     DENT: Sim. Mas acho que desde esse tempo que ele não está muito em contato com  as pessoas da Genética.    ROCHA: Ele não está, né? Ele se aposentou logo que terminaram essas viagens.  Acho que depois dessas do Yanomami. Porque o Neel pagava ele em dólar por dia.  50 dólares por dia, por exemplo. Era um dinheirão. Ele comprou umas terras  aqui na volta. Eu acho que ele mora num sítio. E cria cavalo, cria vaca, não sei.    DENT: É. Ele ficava lá um tempo e depois voltou para Porto Alegre de novo. Mas  impressionante, a mãe dele vai fazer 100 anos nessa semana.    ROCHA: A mãe dele?    DENT: Sim, ainda está viva e vai fazer 100 anos. Vai ter aniversário de 100  anos. [Risos]    ROCHA: Não sabia.    DENT: [Risos] Sim. E agora eu queria perguntar um pouco sobre também... Fazendo  trabalho de campo, qual era a relação com as pessoas que trabalhavam nos  postos da FUNAI, que estavam...    ROCHA: Eu não tive nenhuma relação com... Até porque, assim, eu presumo que  o contato era o Salzano que fazia. Com o chefe e por correspondência. Combinava  tudo. E sempre tinha, nas aldeias que nós fomos. Sempre tinha missionários.  Essas religiões aí que tem missionário. E tinha até um voo... Um avião que  a gente pegou que era de um missionário de Brasília.  Então eu não tinha  contato com ninguém. Aqui no estado, é a FUNAI, né? É político, já está  na mão do governo. Pede, pega autorização. Também, vai chegar lá, não faz contato.     DENT: Então não tinham postos de...    ROCHA: Não. Não. Sabe que ali tem escritório da FUNAI? É aquele cara que  dirige o acampamento aqui. Então eles que vão contigo. Comigo não.    DENT: E com os missionários, como era... Eles ajudaram com a tradução, alguma coisa?    ROCHA:  Eles ajudavam, sim, eles ajudavam. Eu me esqueço, eu me esqueci de  muita coisa. Teve um dia que uma aldeia que o escritório dos missionários era  na pista. Do lado da pista de avião. Então eu me lembro bem... Era uma  família até. Duas senhoras e um cara missionário. Conversamos muito,  ajudaram. Eles deram auxílio. Não passou disso, um dia, uma tarde, uma coisa  assim. Um significado menor.    DENT: Sim. E aí, depois... Assim, na parte profissional, essa experiência de  campo teve alguma influência na trajetória profissional que você teve depois?    ROCHA: Olha, Rosanna, tudo que tu faz na vida. Tudo. Desde que tu tem 10 anos de  idade, tudo que tu faz, incorporam na tua vida. Na tua maneira de ser. E de  certa forma, influencia pra lá ou pra cá, de acordo com o que tu conduz. Mas  claro que é como se tu recebesse uma enxurrada ao longo da tua vida. Eu tenho  75 anos, então ao longo da minha vida, já vivi bastante, até demais. Eu  acumulo coisas que eu boto no lugar e não uso mais ou uso pouco. E outras  coisas eu uso muito, bastante. E me servem muito. Quer dizer, essa história  aí dos índios foi uma coisa que me ajudou muito. Até ver que a vida não é  isso que está aqui. Eu sou um privilegiado, eu tenho uma boa casa, uma  família. Tem gente passando trabalho, né? Tem grupo de pessoas que não  conseguiram ainda sair de um estágio de vida como os índios, né? Claro.  Vivendo como eles querem, né?  Mas os daqui do Rio Grande do Sul já vivem  muito marginal, a beira do horrível, né? Então a gente vai  aprendendo... Ninguém é melhor que ninguém. Que nem time de futebol, cada um  faz o seu. Tem o que faz o gol, outro que agarra bola, um que bota... Cada um  faz a sua parte. Se for assim, [inaudível]  Encarei essa vida como um jogo de  futebol. Sem falar no Brasil, que não presta.    DENT: [Risos] Ótimo. Alguma história mais que gostaria de contar ou outra  coisa que lembra da experiência de campo?    ROCHA:  Não... As coisas mais marcantes, era a chegada. E depois a saída.  Porque a chegada é aquela coisa de novidade. Eles cercavam o avião da gente.  Ajudavam a descer as malas, alguns, e depois... O dia a dia e tal. E na saída,  era a sensação de que tu tinha que sair da selva naquela hora. Por quê?  Porque nesses casos aí do Yanomami, Kayapó também, nós estávamos no meio de  uma selva, né? Não é que nem aqui, em Nonoai aqui a 15 quilômetros de Porto  Alegre. Que que significa estar no meio da selva? Um aviãozinho pequeninho  como tu tem, foi com três ou quatro pessoas, desceu lá no meio do mato...   Aí tu olha pros lados, é árvore de dez, quinze metros de altura... Com o  Xingu na frente. Esse aviãozinho que te deixou lá, volta para a cidade grande.  E promete voltar dentro de uma semana. Se esse aviãozinho cair quando for pra  lá, ninguém fica sabendo onde nós estamos.    Essa história me assustava. Pois, se esse avião cai agora, Girley? Eu sempre  ficava com o Girley conversando na hora do avião, porque não cabia todo mundo.  Fazia duas viagens. Pega o avião e leva o Salzano, não sei, o Neel lá para  Belém do Pará ou pra sei lá onde. Para Roraima. E vai voltar pra cá? Numa  viagem de noite? Para nos pegar aqui? E se ele cair? Piloto morreu... Salzano...  Nunca vão nos achar. Eu pensava isso. Às vezes, né? Mas isso não era um  fato bom de pensar, uma coisa boa de pensar, não. E às vezes a gente ficava  cercado deles. Os índios ficavam na nossa volta, assim, esperando o avião  voltar. Mas foi uma fase da minha vida. Eu quero lembrar a idade que eu tinha  quando eu comecei a fazer isso. Meu deus. A minha memória para trás. Pra  frente não pode ser memória. Pra trás, ela não tem compartimento. Eu não  sei definir o que que era 1972 pra trás ou pra frente, sabe como é? Eu não  consigo definir isso lá atrás.  Mas de qualquer maneira, isso aí devia ser  73. Não... Eu estive nos Estados Unidos em 72. 68, 69. Eu tinha 30 anos. Eu  tinha 30 anos, 29. Eu já tive 29. Eu tinha cabelo. Tu viu? Tem testemunho.    DENT: [Risos] Eu vi. Eu vi as fotos. [Risos]    ROCHA: Minha testemunha. É a única testemunha que eu tinha cabelo.    DENT: Ótimo, professor. Acho que essas são as perguntas que eu preparei,  então... Se depois, eu penso em outra coisa, eu vou entrar...    ROCHA: Eu fui muito feliz. Eu fui muito feliz na minha vida. Em toda a minha  vida, fui muito feliz. Casado, os filhos, trabalhar na Genética, viajar pros  índios. Depois fazer aconselhamento genético.  Eu atendi 850 famílias num  ano em Porto Alegre. 80 família por um ano não, em 10 anos. 80 famílias por  ano. Por ano. Que foi uma coisa que me enriqueceu muito também.  Mas é outra  coisa de estar ali com os índios, né?    DENT: Não, claro.    ROCHA:  É outra resposta, é outro sentido da vida. E eu tive privilégio de  fazer isso, ganhar salário para fazer isso. Sustentar minha família com esse  tipo de trabalho. Não é um privilégio? Não precisa pagar nada para  fazer. Viajei, conheci os Estados Unidos. Conheci o Neel, fabuloso. Pessoa  fabulosa. E a mulher dele também.  Enfim, e o Salzano foi muito meu amigo. Ele  é meu amigo até hoje. Eu sei que ele sente por mim, e eu sinto por ele uma  grande admiração, assim. Uma coisa que não tem jeito de medir, de aferir.  Não tem. [pausa] As conversas que a gente tinha nas pistas de aviação. De  noite. [inaudível] aberta no meio do mato, né? As conversas...    DENT: E por que foram lá na pista? Para poder caminhar tranquilamente pela noite?    ROCHA:  Sim. Pela noite. E se viesse alguma coisa maior, tu via, né? Cobra,  não. Cobra tinha em todo lugar. Mas se um tigre me aparecesse, se desse para  correr, tudo bem. Mas não era assim também, é porque nesse lugar aí, a gente  morava praticamente na beira do Xingu, aquela sacada era na beira, era 10 metros  para frente estava o Xingu. E 20 metros para trás estava a aldeia dos índios.  Então a gente saía e a pista estava lá atrás. Então a gente saía,  caminhava até ali, olhava as estrelas, contava uma historinha de estrela,  depois ia dormir. Cansado também, né? O dia era cansado.    Girley também é outra figura. Nunca mais vi o Girley. Depois que...  Porque a  minha vida profissional, eu posso dividir até na tese de doutorado, que foi em  72, 71 a viagem aos Estados Unidos foi 72. Lá fiz análise da minha tese, dos  dados. Os Spielman junto comigo e tal. E depois dessa data pra cá, 72 pra cá,  32 anos...    Eu vim pra cá. Voltei pro mundo. E fui ser diretor do instituto. Eu tive uma  função administrativa. E aí me perdi do Girley. Quer dizer, sabia que ele  estava ali e tal, [inaudível]. Assim como os outros também. Então tive uma  outra atividade dentro da minha formação. Que eu também gostei muito. Então  eu não vi mais o Girley. Não soube mais da vida dele. Tu fica sabendo quando  morre um, né? Aí esse ano morreram dois colegas nossos. [inaudível] O  Israel, que foi muito meu amigo. Companheiro de sala. Ele estava assim e eu ali.   E a Margarete foi muito querida, minha amiga também. Nós três  trabalhávamos, assim, numa sala. Eu entrei, o Israel já estava ali, Margarete  estava aqui. Eu entrei. Nós três ficamos lá até acabar. Juntos, né?   Então foi uma coisa muito triste pra mim. Isso esse ano.  E o Salzano  também, porque o Salzano era o orientador da Margaret e do Israel também. E o  Girley também era desse grupinho aí. E daí tu fica &amp;quot ; ah morreu a Margaret,  morreu não sei quem&amp;quot ; ... Mas enfim...    DENT: Bom, vamos ver se vai ser possível em setembro... Para fazer uma pequena  reunião, um encontro, né?    ROCHA: Dos sobreviventes.    DENT: Das pessoas que me ajudaram com o projeto que vou estar apresentando,  contando. Eu aviso com tempo e aí se dar para ir, seria ótimo. Acho que o  Girley vai tentar ir, o professor Salzano vai estar lá, então...    ROCHA:  Tá bom    DENT: Vamos... Vamos ver se... [Risos]    ROCHA: Tá bom... [inaudível] Setembro, tu acha, é?    DENT: Setembro, uhum.    ROCHA: Ah, dá tempo. Tu vai ficar aqui até quando?    DENT: Eu vou confirmar a data. Até o final de setembro. Uhum.    ROCHA: Ah, tá. Tá.    DENT: Pensa ir lá no final do tempo que estou aqui.    ROCHA: Tá. Tá bom.    DENT: Ótimo, professor. Nossa, muito obrigada pelas...    ROCHA: Não. Eu não sei se é isso que tu queria.    DENT: Não, é exatamente isso. Assim, as reflexões sobre as experiências no  campo... A importância que teve na sua vida. É exatamente isso.    ROCHA:  Tá muito bom.    DENT: Então, muito obrigada. Se encontro outras perguntas, eu vou entrar em  contato de novo. Podemos conversar de novo.    ROCHA: Tá bom, tá bom, tá bom. Tudo bem. Tá bom.    DENT: Sim? Tá. Muito obrigada então.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e a divulgação são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=rocha-20140723.xml rocha-20140723.xml      </text>
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                <text>Prof. Fernando da Rocha, entrevista, 23 de julho de 2014</text>
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                <text>Esta é a segunda de duas entrevistas com o professor Fernando José da Rocha, professor aposentado do Departamento de Genética da UFRGS. O pesquisador relata as suas primeiras idas a campo e como era a agenda de pesquisa de Salzano e com as populações indígenas. Descreve com alguns detalhes como era o trabalho de campo da sua pesquisa em morfologia, incluindo como os dados foram analisados, utilizando o cálculo de Mahalanobis.  Comenta o processo para se chegar às terras indígenas e a capacidade do Professor Salzano de articular e mediar junto a instituições como a Funai e missionários para as autorizações de viagens às aldeias e trabalho local. Rocha diz de sua percepção pessoal sobre a interação entre os pesquisadores e os povos indígenas e a reação desses aos procedimentos de trabalho de campo e cita as contribuições do cacique Raoni, durante a viagem aos Kayapó. Ele menciona o trabalho de intervenção clínica do médico que compunha a equipe e os caso de doenças encontradas nas populações indígenas. Rocha comenta brevemente sobre a sua atuação no aconselhamento genético durante vários anos. Termina tecendo comentários sobre as suas experiências pessoais ao ter contato com as realidades de vida das populações indígenas.&#13;
Essa pesquisa é de interesse dos que querem estudar as relações sociais e de trabalho nas viagens de campo em terras indígenas e o estudo sobre genética populacional. </text>
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          <name>Interviewer</name>
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              <text>Rosanna Dent</text>
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              <text>Fernando da Rocha</text>
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              <text>    5.4      Prof. Fernando da Rocha, entrevista, 02 de julho de 2014   00:38:17   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     Antropometria  trabalho de campo Kayapó Fernando da Rocha Rosanna Dent .mp4 rocha-20140702.mp4 2:|28(10)|49(1)|67(1)|84(11)|119(3)|138(1)|154(10)|175(4)|192(9)|223(4)|241(13)|260(8)|286(6)|311(15)|328(4)|345(1)|359(12)|377(18)|423(13)     0   https://youtu.be/IlylZDcVpjY  YouTube         audio    pt-br     0 Rocha fala do seu interesse na genética e início da carreira           colaboração e acordos ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; Redes científicas e circulação   Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       300 Rocha fala de seus trabalhos sob orientação de Salzano           exames dos sujeitos ; Genética Médica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; rotina de trablaho ; Trabalho de Campo ; viagem   Genética Médica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Trabalho de Campo                       530 Rocha comenta sobre período de estudos nos EUA           colaboração e acordos ; Formação Acadêmica ; Gênero ; Instituições de formação ; Redes científicas e circulação ; viagem   Formação Acadêmica ; Gênero ; Redes científicas e circulação                       819 Rocha comenta sobre trabalho de campo com Yanomami           coleta de dados ; etnia ; exames dos sujeitos ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo   Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo                       1089 Rocha comenta impressões sobre primeiros trabalhos de campo           indígena ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo   Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo                       1274 Rocha comenta sobre sua trajetória e fala sobre o trabalho de Salzano           Afeto ; amizade ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Economia moral ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho ; Trabalho de Campo   Afeto ; economia moral ; Trabalho de Campo                       1639 Rocha comenta sobre suas experiências de campo           etnia ; indígena ; Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo   Raça, Etnia e Identidades ; Trabalho de Campo                       2210 Rocha comenta dificuldades aprendizado           Formação Acadêmica   Formação Acadêmica                       oral history Fernando José da Rocha é professor aposentado do Departamento de Genética da UFRGS. O narrador conta como, em 1960, procurou o Professor Salzano para se somar à sua equipe, que já era composta por outros pesquisadores. Rocha conta sobre os cursos de especialização em Hematologia que fez, já que o mesmo estudava hemoglobinas anormais. O narrador relata as visitas de campo que realizou com o Professor Salzano e como as mesmas o ajudaram em suas pesquisas sobre o estudo antropométrico dos indígenas, utilizando o cálculo de Mahalanobis. Ele fala sobre sua trajetória após a defesa de doutorado, dos estudos nos EUA e ao retornar, sua atuação como Diretor de Ciências, quando se afastou da Genética, e de sua aposentadoria por problemas de saúde. Rocha relata a ida para trabalho de campo junto aos Kayapó e fatos acontecidos sobre essa visita. Considera que não era um bom professor, nem pesquisador, mas que transmitiu conhecimentos que adquiriu em suas visitas aos indígenas. O pesquisador relata como era o processo para se chegar às terras indígenas e a capacidade do Professor Salzano de deixar tudo muito bem organizado para as viagens, além de relatar sua primeira experiência nos Kayapó e todas as recomendações dadas à ele. Rocha diz que a experiência de conviver com os indígenas permitiu não só um crescimento em sua formação científica, mas também em sua vida pessoal.     Essa pesquisa é de interesse dos que querem estudar as relações nas viagens de campo para pesquisa genética nas terras indígenas.     DENT: Bom, hoje... Hoje é o dia 2 de julho...    ROCHA: 2 de julho.    DENT: de 1900...    ROCHA: 2014.    DENT: É. [Risos] Já como historiadora, estou perdida no passado. 2014. Eu sou  Rosanna Dent, eu tenho o prazer de falar hoje com o professor Fernando da Rocha.  Ele é aposentado, foi professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul  e... Tenho o prazer de conversar com ele hoje. Então, professor, muito obrigada  por seu tempo e a disponibilidade.    ROCHA: Muito obrigado. E eu tenho muito prazer de te conhecer. E além disso,  fico muito contente de poder te ajudar. Se é que eu vou te ajudar. Se isso vai  te ajudar.    DENT: [Risos] Com certeza vai. Agradeço muito. Não sei se talvez o senhor  poderia iniciar dando assim um apanhado da formação profissional que teve. Que  levou o senhor a se interessar na tema da Genética.    ROCHA: É, na verdade, isso aí tudo começou em 1960. No início de 1960. Eu  procurei o Salzano, lá no edifício, na Rua Annes Dias, e me ofereci. &amp;quot ; Olha, eu  sou fulano, assim, assim, assim. Tenho ouvido coisas a seu respeito&amp;quot ; . Na época,  eu chamava de senhor. &amp;quot ; E teria interesse em participar do seu grupo e tal.&amp;quot ;  Ele  estava formando o grupo. O Israel, tu já ouviu falar? Tinha chegado lá há  três meses. A Margareth, que também... Chegado há um mês. Além disso, ele  tinha posto um anúncio no jornal, para contratar um técnico. Aí o Girley se  apresentou e foi contratado via jornal. Contratou uma faxineira via jornal, a  Dona Gueda. Uma secretária via jornal, a Nilda. E o Fernando se apresentou lá  para se juntar a esse pessoal que eu te falei. Havia mais uma pessoa lá chamada  Arna Schwanz, que foi para São Paulo dez anos depois. Trabalhava com  haptoglobinas, o Arna. E tinha também a Inês de Castro. Então era a  Margareth, a Inês, o Arna, o Fernando e o Israel. E o Salzano com um pessoal  muito contratado por ele. Ah... Os dinheiros do laboratório vinham da Ford  Foundation, da Rockerfeller Foundation, essas organizações patrocinadoras  americanas. E com isso, ele fazia a festa, né? Comprava o material, comprava...  Não pagava pessoal. Mas pagava pessoal através de bolsa da FAPERGS, que é  fundação de amparo à pesquisa do Rio Grande do Sul, e... E também bolsa da  FAPERGS, bolsa...    DENT: Tinha CAPES naquela época? Ou CNPq?    ROCHA: CNPq. Era dificílimo conseguir bolsa do CNPq, porque a concorrência era  muito grande. Estava tudo começando junto no Brasil, não é? Na época. Bom,  aí quando o Salzano deu o &amp;quot ; sim&amp;quot ; , eu sentei na minha mesinha e comecei a  programar a minha vida. Eu tinha recém casado com a Iara, tinha um ano de  casado. E o Israel tinha também recém casado. Mas enfim. Aí comecei a  programar. Então, o negócio era o seguinte, eu tinha que fazer uma formação  profissional científica. Que era hoje pós graduação compatível com o  trabalho que eu ia realizar. Então a Genética organizou um curso de  aperfeiçoamento e eu fiz Biologia, fiz Hematologia, um monte de coisa.  Pós-graduação. Mas não existia pós-graduação. Internamente, no  departamento, se convencionou que nós deveríamos fazer um curso de  Bioquímica, Biofísica, Hematologia, Estatística... Cada um na sua área. Isso  foi feito. Então fiz esse meu curso de especialização. Chama especialista em  Biologia. [Telefone toca] Com licença um minutinho.    DENT: Claro.    ROCHA: Ao mesmo tempo... [silêncio] Ao mesmo tempo assim. E eu estava  trabalhando nessa época com hemoglobinas anormais, cortando sangue. Aprendi a  coletar sangue. Trabalhando junto... Material pro Salzano também. Uma parte,  né? E treinando, né? Participando também sempre de treinamento com a parte de  morfologia. Enfim, e a parte de hemoglobina também, fazendo diagnóstico  diferencial. Aí surgiu, mais quatro, cinco anos, a chance de eu liderar o setor  de aconselhamento genético. A médio prazo, lá na frente. Mas aí o Salzano  começou a viajar para os índios. Nós começamos a viajar. Primeiro aqui no  Rio Grande do Sul. Kaingang, Guarani e Kaingang. Rio Grande do Sul, Santa  Catarina e Paraná. Nos três estados, nós devemos ter ido nuns cinco ou seis  acampamentos indígenas. Nesses três estados. Eu coletava esse material que eu  te falei da Morfologia. Coletava dermatoglyphics, que são digitais do palmar. E  tirava fotografia dos índios. Todas fotografias que tu for levantar lá fui eu  que tirei. Deve ter umas duas mil fotos. Enfim. Aí o Salzano, através de  recursos externos, conseguiu recurso para viajar. Ir lá pro norte do país. Foi  aí que ele começou a viajar. Aí primeiro sem... Eu não fui. No Xavante, eu  não fui. Que foi o primeiro. Foi no Mato Grosso. Aí ele foi pros Kayapó. Aí  eu fui. No Xingu, né? No Xingu, nós fomos em duas localidades. Já tinha um...  Como é o nome dele, o... Um indigenista muito famoso.    DENT: Os... é... Villas Boas?    ROCHA: É. Conheci o Villas Boas. Pessoa fantástica, fantástica. Um deles,  né? Não me lembro, mas era o Villas Boas.    DENT: Orlando? Fernando e Orlando, né?    ROCHA: Orlando Villas Boas. Não era Fernando, não. Era Fernando?    DENT: Tem os dois irmãos, né?    ROCHA: É?    DENT: É. Acho que são Fernando e Orlando.    ROCHA: Orlando Villas Boas é, sim. Fernando eu não tenho certeza.    DENT: Ah, tá. Orlando então.    ROCHA: Eu acho que sim. Orlando morava por ali, o Villas Boas. Dentro dos  Kayapó. Eu não sei precisar a época, mas lá nós ficamos talvez uns... Nessa  época, foi junto pessoal de Belém do Pará. Grupo de alunos e o doutor Manuel  Ayres. Se eu não me engano. Médico. Bom, aí veio a fase dos Yanomami. Nação  muito grande, muito espalhada. Dali pro norte do país. Vários, vários  acampamentos. Nós fomos em... Aí não estava o pessoal do Pará. Aí estava o  pessoal do Neel. Chama William Mill, que era médico. E tinha um antropólogo  social, mocinho, bem mocinho, americano.    DENT: Napoleon Chagnon.     ROCHA: Como é?    DENT: Chagnon? Chagnon? Napoleon Chagnon?    ROCHA: Napoleon. Claro, tu sabe. Gozadíssimo e tal. Muito divertido. Não  divertido, tinha que lavar a louça, tu imagina, né? Meio que eu e o Neel. Faz  a limpeza, faz a limpeza. E essa aí se estendeu por... Eu me lembro que era  carnaval e eu passei lá no meio do... E minha mulher estava aqui. Foi pro  carnaval lá na praia. Ficamos, eu acho, que uns dois meses.    DENT: Dois meses na... No território dos Yanomami?    ROCHA: É, mais ou menos. De um mês a dois meses. Teve um grupo lá que nós  ficamos um período grande sem sair do mato. Aí nós saímos do mato. E fomos  para... Voltando para civilização, nós fomos para Belém do Pará. Bom.  Então essa aí foi a viagem que fechou o meu ciclo [inaudível]. Aí eu tinha  que organizar meus dados, de antropometria. Apareceu um cálculo d2 de  Mahalanobis. Conhece? É um cálculo multifatorial, trabalha com coisas  multifatoriais, como por exemplo, com a cor, estatura, medida antropométrica...  E que tu, por exemplo, tu pega o Fernando aqui, mede 16 medidas... Crânio  anteroposterior, bizigomático, bigonial, abertura de ombro, abdômen, perna.  Dezesseis medidas que tu define a pessoa do ponto de vista antropométrico. Aí  tu pega naquele grupo. Todo grupo, as 16 medidas. Aí tu faz um cálculo  estatístico e tu vai comparar esse grupo com outro grupo que mora lá, as  mesmas medidas. E tu vai ter um número. Chama distância generalizada  de Mahalanobis. Essa distância de Mahalanobis te dá a diferença sob ponto  de vista estatístico. [inaudível]    Essa técnica eu fui aprender lá em Campinas, no Rio Claro, no Brasil. Rio  Claro. Com o doutor Pisani, que era um... Acho que isso está descrito na minha  tese, eu acho. Passei 20 dias lá fazendo só... versão de matriz, cálculo  matricial. Eu tinha um número enfim. Era possível comparar os números, os  grupos. Desse ponto de vista e avaliar, inferir, a diferença entre eles. A  língua também interferia... São grupos Jê, outros não são. Os Yanomami  não são Jê, são Tupi. Então, na verdade, o estudo era uma coisa bem ampla.  Espectro. Então, depois que eu aprendi a medir...    Foi aí que eu sentei para escrever a tese. Analisar esses... Isso que eu estou  te falando... Como eu te falei antes, eu não posso precisar, mas eu acho que  era 68, 67, 68, 69, 70. Porque em 71 eu viajei pros Estados Unidos. Em 72 eu  viajei. Eu fiz a minha tese aqui em 71 ou 70. Aí eu fui pros Estados Unidos.  Então foi antes disso... Aí eu fui lá para o Pisani. Lá eu fiz a cópia dos  meus cartões aqui da IBM em [inaudível] 360 e levei esse pros Estados Unidos,  lá para o Spielman. Então quando eu cheguei no Spielman em 72, nos Estados  Unidos, eu levei as coisas e fizemos uma reanálise da... Com Spielman. Bom,  isso mais ou menos foi minha vida daquela época.    E meus filhos crescendo, a minha filha foi pros Estados Unidos, nasceu lá em  setembro de 72, em Ann Arbor, no hospital de Ann Arbor. O Neel e a mulher dele  foram fantásticos com a Iara, que é a minha mulher. E a Claudinha, que é  minha filha. E a minha filha ficou por lá, a minha filha. E aí quando eu vim  embora, a Claudinha veio junto, lógico, né? Aí aqui no Brasil, quando chegou  lá pela, a Claudia foi fazer, fez Biologia. Aí ela quis fazer Biologia, fez  lá na Genética com o Salzano. Salzano não. Vera Valente. E... Voltou e casou  nos Estados Unidos com um americano. Casou e na Califórnia, com o Brian,  [inaudível]. E hoje ela tem dois filhinhos, ambos americanos. O Eric, e a Isa,  como é, a...    DENT: E eles moram lá na Califórnia?    ROCHA: Moraram na Califórnia até agora, até um ano atrás. Aí eles tinham  uma casa muito boa lá que ele comprou e tal. Ele trabalha no mercado comum  assim. Eles foram pro Colorado. Eles tinham um amigo que mora no Colorado, falou  do clima, da vida, que os filhos, seria mais fácil, e ele queria no Colorado  que na California, mais tranquilo, né? E a Claudinha se convenceu. Falei com  ela ontem até, foi. Se convenceu e foram pro Colorado. E lá tem esses dois  filhinhos. Mas a Genética ela parou também. Ela fez Genética aqui também,  mas parou. Ela fazia Biologia Molecular. Foi aluna do Salzano. Mas enfim,  assim... Essa é minha vida.    Aí vim pro Brasil em 72. Foi aí que eu montei o negócio do aconselhamento  genético. Trabalhei uns cinco anos, quatro, cinco anos nisso. Enquanto pude.  Depois... Aqui no Brasil, nos Estados Unidos não acontece isso, mas aqui é  quase inevitável que tu estando num setor da universidade, tu seja a guindado a  um posto de diretor ou de chefe aqui ou ali. É quase inevitável. Salzano nunca  aceitou. Ele não aceita. Mas eu aceitei. Então eu fui diretor do de Ciências  durante quase quatro anos. E foi aí que na metade disso, aí eu me afastei da  Genética. Foi um prazo que quando a Genética foi pro campus. Eu era diretor.  Aí me aposentei, aí tive um problema circulatório primeiro. E tive um infarto  agudo do miocárdio. E agora eu tive, em 2006, 2013, nem sei, 2006, 2009, dois  AVCs. Eu estou bem. Estou bem. Procuro estar bem. Aí eu me afastei.    DENT: Às vezes, precisa, por causas diferentes, né? Às vezes, precisa.    ROCHA: Não tinha mais, não tinha saúde mais. É.    DENT: Poderia comentar um pouco mais sobre como surgiu a ideia de participar no  primeiro estudo que o senhor fez com os índios, assim, com os Kaingang, os Guarani.    ROCHA: Dos índios. Pois é. Bom, para mim era uma coisa assim, como deve ser  para maioria das pessoas. Uma coisa fantástica, não é? Tu sair de Porto  Alegre, uma vida boa, com carro pra lá e pra cá, de repente tu desce, vai  andar de calção vinte dias. Tomando banho no rio. Dormindo numa rede. Comendo  peixe... Um dia eles... Tinha um cara do Xingu, os Kayapó, são Kayapó.  Chegaram e caçaram um bicho grande que é de água.    DENT: Eu não conheço muito bem os nomes, mas... Conheço esses que tem, assim,  costela de peixe?    ROCHA: Não, ele é... Esse é um... Não é um peixe, ele é um mamífero...    DENT: Ah... A capivara?    ROCHA: Capivara. Estavam atrás de uma capivara, do Xingu ali. Estava todo  mundo, mulher, criança. Eles não se vestiam naquela época, tudo pelado. E aí  pescaram a capivara, trouxeram para beira do rio e a carnearam ali mesmo. Aí  comecei, fígado... Deu o fígado para mim. Tenho horror de fígado de qualquer  coisa. [Risos] Aí tive que pegar o fígado, né? Na mão e tal, levei, depois  lá dentro, dei para não sei quem.    Pegamos uma época também... São as coisas gozadas, que a gripe... Estavam  numa gripe. Era terrível. Todos eles fungando e ranhentos, sabe? Isso foi  Kayapó. Kayapó usavam botó aqui assim. Botavam madeira e... E espirravam.  [inaudível] E eles andavam pelados. E a higiene deles não existe, né? É no  rio e pronto. Aí minha rede estava ali em cima, aí um deles deitou na minha  rede, sujo. Deitou na minha rede, espirrou. Minha rede. Aí o Girley fez um ovo  frito e eu... Aí eu peguei o ovo e o índio queria, né? Aí eu dei ovo para  ele, ele pegou o ovo, cortou o ovo pela metade com a mão suja e me deu a metade  pra mim comer. E tive que comer logo. E ele comeu a outra metade, o ovo frito.  Isso o Girley se lembra, eu acho. Então tem coisas assim, né, Rosanna, que são...    Vocês vão ficando, ficando, ficando e esquecemos. Mas então, a pergunta que  tu me fez foi... Que que eu sentia quando fui... Eu senti a sensação da  novidade primeiro. Uma coisa nova, uma coisa perigosa. Que era importante pra  mim como professor, membro de uma unidade científica. Fazer esse tipo de  conhecimento. Trazer pra cá. E foi o que eu fiz. Publicar, transmitir. Eu não  fui um bom professor. Não sou bom cientista também. [risos] Eu fui uma pessoa  normal. Eu sempre me digo isso quando os caras começam: &amp;quot ; Não, o Salzano é  ótimo, o outro é ótimo, o Israel era ótimo, Margarete...&amp;quot ;  Eu não sou igual.  Eu não sou assim. Eu tenho minha família, eu tenho minha vida pessoal. Jamais  eu... trabalhar como os outros trabalhavam. Em relação à família e tudo...  Na verdade, a família sentia falta dele. Uma pessoa que trabalha, só  trabalha... Só não trabalha domingo de tarde como ele fazia. E ele deixava o  carro... Ele, Salzano, estacionamento, na João Pessoa embaixo. E atravessa a  Redenção a pé. De calção e sandália. Eu não podia quando era frio. Aí  chegava lá, tirava o sapato e botava... Lá na [inaudível], lá em cima, na  antiga. Ele é uma figura incrível. Ele é meu ídolo. Só é gremista. O  defeito dele. Mas fora esse, [inaudível]. O cara tem um coração incrível,  uma bondade incrível. Jamais eu vi o Salzano cometer uma injustiça. Por menor  que fosse. Fazer algo assim... Tu está vendo que ele tá sacaneando alguém.  Jamais, jamais. Nem falando, nem como ato. E um cientista honesto. Um cumpridor  de deveres. Isso ele transmitiu para nós. Nós que trabalhamos com ele.    A Margarete, o Israel, a Inês, o Arno, eu. Nós sempre trilhamos o mesmo  caminho. Então as coisas que ele guardava, ele, Salzano, que ele era muito  organizado. Ele tinha uma mesa enorme lá, na parte velha. Que acho que é a  mesma que está lá no campus. Que ele puxava assim, tinha os projetos de  pesquisa. Quando eu fui trabalhar com os negros aqui, ele puxou e disse: &amp;quot ; Eu  tenho um projeto aqui sobre fertilidade de portadores... De mulheres com anemia  falciforme.&amp;quot ;  Que na África, um tal de Alison determinou que essas mulheres têm  uma resistência a mais contra a Malária. E quem é portador de hemoglobinas  anormais não pega malária. E esse era a base do trabalho que ele me deu.  Então, eu quero ver... E tu vai ver, ele disse, tu que vai [inaudível] se numa  zona onde não tem malária, se as mulheres negras heterozigotos para  hemoglobina falciforme também têm resistência a outras doenças. Eu fiz esse  trabalho aqui. Ele puxou da gaveta uma pasta assim com...    DENT: Organizado... Ele é.    ROCHA: Projeto. E tinha outros... Aí chegava [inaudível] Lia tudo, tudo, tudo.    DENT: Como era o processo? Como ele, uma pessoa tão organizada, como era o  processo de se preparar para um trabalho de campo na terra indígena? Como era o  processo? O que que vocês tinham que fazer para se preparar para um trabalho de campo?    ROCHA: Eu acho que... Naquela época, né? No Brasil daquela época, o trabalho  de campo com índios, né?    DENT: Sim. Especificamente.    ROCHA: O Brasil tem um serviço de proteção ao índio. SPI. E tem a FUNAI, que  é a entidade que congrega os indígenas. E tem esses caras tipo o Villas Boas.  Tinha. E tem muito missionário. Então o Salzano, o que que ele fazia? Ele já  tinha prestígio, ele já tinha feito aqui no Rio Grande do Sul. Ele fazia  contato com pessoal indigenista e marcava, né? Disse: &amp;quot ; Olha, eu estou com  vontade de fazer isso, isso, isso, isso, isso...&amp;quot ;  E mandava lá pros caras. E os  caras recebiam muito bem. Já chegava lá, os índios ficavam tudo, assim, na  volta. E ele levava um monte de presente. Calção, dava os presentes e tal. Mas  na verdade, tem que se organizar muito, né? Que tem que voo, voo, quem é que  paga... Estadia, quem é que paga. Lá no mato não se paga nada, mas e os voos?  Nós voamos uma vez com o avião da FAB. A FAB liberou um vôo para nós ir lá  para... E aí foram dois americanos junto. Esse, Napoleon, foi lá junto. Esse  da FAB. Esse que é lá em Surucucu, chama o lugar. Tu passa pelo meio das  rochas, e cai dentro de um ginásio. Como se fosse um morro, ovo. E para  levantar voo um horror [?]... Mas enfim, mas nós passamos por tudo isso. Ele é  organizadíssimo, o Salzano. Tudo escrito, tudo encaminhado. E... Foi uma  experiência muito boa, muito rica na minha vida, que jamais eu vou esquecer,  lógico. E graças ao Salzano.    DENT: O senhor lembra a primeira vez que chegou numa comunidade indígena? Qual  foi a impressão?    ROCHA: Não foi comigo, porque ele foi...    DENT: Não, mas e... Assim, a sua primeira experiência...    ROCHA: A minha primeira experiência foi com ele aqui em Guarani, Kaingang,  são... São índios, mas são brancos, entende? Já vivem em comunidade branca  e tal. Mas foi... Foi nos Kayapós. E a atitude dele foi... Ele nos recomendou  muita coisa. Ele, Salzano. Para mim e para o Girley. &amp;quot ; Não pode levar arma. Arma  de jeito nenhum.&amp;quot ;  &amp;quot ; Não pode se meter na... Na... No grupo de onde eles dormem,  de onde eles moram, nas barracas deles. Não, não pode se meter. Não pode  falar nada que eles não falem. Só eles falando, tu responde.&amp;quot ;  Sempre deixando  uma reserva, porque esse grupo que nós fomos primeiro, era um grupo muito  guerreiro. E eles... Eles fazem muita guerra entre eles, né? Por causa de  mulher. Eles brigam por causa de mulher. E criança.    Assim, eu tenho uma... Eu tenho uma experiência, uma foto. Não sei se está  lá no Salzano. Com um grupo de indígenas. Mulher, criança. E aí na outra  vez, que a gente foi duas vezes, foi... Uma das crianças que estavam lá como  filha já era uma mulher do índio. Quer dizer, entre os índios, isso é comum,  né? Então... Tem que ter muito cuidado com essa história de... De... Não  ofender. Enfim, não fazer bobagem com... Agredir ou... Por exemplo, assim, ó.  Lá em Yanomami. Yanomami... [risos] Eu gostava muito de brincar com... Com...  Tinha os chefes ali, as danças. Eu sabia a música deles. [Canta] E dançando.  A mulherada e tal. E eu cantava isso aí, eles ficavam contentes. Aí um dia,  cheguei para eles e... Salzano vai lembrar disso também. Cheguei para eles e...  Peguei uma... Um papelzinho. E botei na mão e fazia que desaparecia o  papelzinho... Bobagem de, faz para criança, né? E aí eu fazia isso aí. Aí  eu fazia assim, o Girley estava junto. Aí eu deixava cair o papelzinho. Aí  juntava com essa mão, botava aqui de novo, tal. Aí deixava cair. Aí juntava  com essa mão. E botava na minha gola aqui atrás. Continuava. Botava... Aí  o... Fazia assim. Aí um dia eu perguntei que que eles pensam. Como é que  desaparece isso? Aí, então, isso aqui entra por aqui, passa na minha perna,  entra por dentro da terra e entra lá no outro. Eles achavam que era assim que a  mágica acontecia. Bom, resultado dessa mágica.    Vou acender a luz que está muito escuro. Resultado dessa mágica aí. Essa  mágica se espalhou pela tribo. [pausa] A mágica se espalhou. Tinha um  missionário lá nesse grupo. [Inaudível] Disse: &amp;quot ; Olha, aquela mágica que tu  fez lá com os índios lá fora tá correndo a tribo aí. Vem o chefe aí, um  chefe indígena. Ele vai vir visitar aqui por tua causa. Vai ter que fazer a  mágica para ele.&amp;quot ;  Disse: &amp;quot ; Bá, vou me ferrar, né?&amp;quot ;  Aí o Salzano também  estava. Aí apareceu o tal de cara lá, um tal de Marcio. E eu... E eu estava  sem camisa. Sem camisa, eu não posso fazer a mágica. Bá... Aí voltei de novo  com a camisa. Tinha um grupo, assim, de tudo peladão, né? Uns 15 ou 20. Eles  sentam, né? E as crianças ficam por ali, as mulheres também. Olhando.    E eu comecei. Tinha posto a camisa. Aí eu cheguei pro cara: &amp;quot ; Abre a boca. Aí  eu peguei minha mão, botei lá dentro da boca dele, com o papelzinho. Apertei  aqui por dentro. E tirei o papelzinho.&amp;quot ;  &amp;quot ; Jerimu.&amp;quot ;  Ele me chamou de Jerimu. Eu  não sei o que que é. Jerimu. Aí o... Me abraçou. Eu tenho uma foto com ele  abraçado. Era um índio tamanho médio, forte, forte. Aí perguntei pro cara,  que estava lá. O que que é Jerimu? Jerimu é um cara muito amigo. Muito  valente, muito amigo, muito forte. E meio milagroso, mas não falou milagroso.  Um cara forte, que é respeitado. Jerimu. O Salzano lembra desse troço, acho  que lembro. Então, assim que eu encarava os índios. Tem, tem mais coisas,  assim. Mas o Girley também foi... Foi testemunho de várias coisas. Nós  sentados no... Escureceu, né? Então nós estamos saindo do mato. Eu, o Salzano  e o Girley. Então nós estamos com as nossas bagagens, a mala, sentados na  pista do avião. Aí escureceu assim. E se o cara caiu agora ali, né? Nunca  mais nos acham, vão nos achar aqui? Aí os índios [inaudível]. Não caiu. Mas  é... É uma experiência positiva. Vale a pena, valeu a pena. Vale... Claro  que, para minha vida pessoal, valeu muito também.    DENT: Em que sentido? Qual era o valor mais importante que... Que... Acrescentou  à vida pessoal?    ROCHA: Minha? É... Bom, primeiro que... Que a vida não é só aqui. Que a vida  tem outras coisas. E que a gente tem que entender que tem povo, tipo índio,  povo tipo pobre, enfim, que a vida não é só vista boa pro Guaíba, carro,  coisa. Tem outras coisas. E que tu tem que ser sério aonde tu for. Lá, tem que  ser sério, não pode brigar, não pode ir de arma, não mexer com as pessoas.  Mexer com... As pessoas andam nuas, né? Andavam naquela época. Então acho que  a seriedade da coisa e a importância que tu tem em fazer isso. Tu te sente. Eu  fiz isso. Eu fui capaz de fazer isso. Eu fui capaz de ir lá no meio do Xingu,  rio Xingu, fui capaz de conviver com 200 Kayapós, ou 300 Kayapós durante 15  dias. Conviver, né? Fiz isso todos os dias. Harmonicamente. Isso é uma  [inaudível]... Foi isso, foi muito bonito para minha formação científica  também. Porque foi uma coisa boa que eu fiz, foi um trabalho de composição  com Salzano no global da pesquisa dele. Isso veio certamente a preencher um  lado. Que ele tem os dados lá, eu sei que às vezes tem feito mestrado com uso  dos meus dados e coisa.     DENT: Sim. Ainda estão usando esses mesmos dados para... Pesquisas que estão  fazendo agora.    ROCHA: Claro. Imagino.    DENT: Então...    ROCHA: São coisas... que custou muito. Eu custei muito a aprender as medidas.  Morfológicas... Bizigomático, bigonial. Media... [inaudível] Enfim, foi uma  coisa, foi esse... [Para outra pessoa] Oi, minha filha.    Kátia: Oi. Oi, boa noite. Tudo bem?    RD: Oi, boa noite.    ROCHA: Conhece a Rosanna?    DENT: Não, ainda não.     Kátia: Não sei.    ROCHA: A Kátia que é amiga da... Como é...    Kátia: A Naida. É, a Rosanna não conhece. Tudo bom? Só a Naida.    RD: Eu sou doutoranda, estou fazendo a pesquisa de doutorado sobre a história  da genética humana aqui no Brasil. Sou dos Estados Unidos.    Kátia: Ah, bem que a Naida tinha falado, né?    ROCHA: É, ela me entrevistou, ia vim hoje, mas...    Kátia: Tá gravando?    DENT: Sim, está gravando, mas acho que estamos... Terminando para hoje, né?  Já são seis... [risos]    ROCHA: Ok. Então tá, Rosanna. É isso. E que a vida é boa. A vida é boa.    RD: Ah, é... Com certeza. Temos sorte, né? As pessoas que temos essa  possibilidade de fazer pesquisa acrescenta uma coisa importante.    ROCHA: Tu fez... Não precisa gravar isso... Isso aqui não precisa. Assim, ó, eu--       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras. audio O uso e divulgação da entrevista são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=rocha-20140702.xml rocha-20140702.xml      </text>
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                <text>Prof. Fernando da Rocha, entrevista, 02 de julho de 2014</text>
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                <text>Fernando José da Rocha é professor aposentado do Departamento de Genética da UFRGS. O narrador conta como, em 1960, procurou o Professor Salzano para se somar à sua equipe, que já era composta por outros pesquisadores. Rocha conta sobre os cursos de especialização em Hematologia que fez, já que o mesmo estudava hemoglobinas anormais. O narrador relata as visitas de campo que realizou com o Professor Salzano e como as mesmas o ajudaram em suas pesquisas sobre o estudo antropométrico dos indígenas, utilizando o cálculo de Mahalanobis. Ele fala sobre sua trajetória após a defesa de doutorado, dos estudos nos EUA e ao retornar, sua atuação como Diretor de Ciências, quando se afastou da Genética, e de sua aposentadoria por problemas de saúde. Rocha relata a ida para trabalho de campo junto aos Kayapó e fatos acontecidos sobre essa visita. Considera que não era um bom professor, nem pesquisador, mas que transmitiu conhecimentos que adquiriu em suas visitas aos indígenas. O pesquisador relata como era o processo para se chegar às terras indígenas e a capacidade do Professor Salzano de deixar tudo muito bem organizado para as viagens, além de relatar sua primeira experiência nos Kayapó e todas as recomendações dadas à ele. Rocha diz que a experiência de conviver com os indígenas permitiu não só um crescimento em sua formação científica, mas também em sua vida pessoal. &#13;
&#13;
Essa pesquisa é de interesse dos que querem estudar as relações nas viagens de campo para pesquisa genética nas terras indígenas. </text>
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              <text>    5.4      Profa. Mara Hutz, entrevista, 07 de julho de 2014       História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     anemia falciforme  ditadura militar  genética de populações indígenas  Xavante  Suruí Mara Hutz Rosanna Dent .mp4 hutz-20140707.mp4 2:|20(7)|42(2)|68(9)|89(9)|118(8)|131(12)|151(6)|171(5)|197(5)|220(8)|241(2)|268(5)|290(9)|322(2)|349(2)|370(14)|397(2)|417(12)|458(6)|477(4)|498(12)|522(6)|541(14)|566(5)|590(3)|613(2)|632(8)|671(1)|698(7)|719(8)|750(2)|780(13)|803(10)|824(11)|848(6)|872(11)|897(6)|919(11)|940(9)|964(7)|984(2)|1006(6)|1029(3)|1048(6)|1062(11)|1077(13)|1107(9)     0   https://youtu.be/fL-ZQljuOAU  YouTube         audio    pt-br     2 Hutz conta sobre seu interesse pela ciência e como dirigiu sua carreira para a genética           economia moral ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa ; vocação   Economia Moral ; Formação Acadêmica                       236 Hutz conta sobre o início de seu trabalho científico desde a graduação e como se aproximou do Departamento de Genética           classificação diversidade biológica ; Diversidade Biológica ; doenças genéticas ; economia moral ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; Genética Médica ; indígena ; iniciação à pesquisa ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; técnicas de pesquisa ; valores ; vocação   Diversidade Biológica ; economia moral ; Formação Acadêmica ; Genética Médica ; prática ; Raça, Etnia e Identidades                       795 Hutz conta da sua prática de pesquisa em anemia falciforme durante o doutoramento   Prática ;  Trabalho de campo ;  Genética Médica ;  doenças genéticas ;  coleta de amostras ;  coleta de dados ;  processamento de dados ;  doutorado ;  Formação Acadêmica             Formação Acadêmica ; Genética Médica ; Prática ; Trabalho de campo                           1401 Hutz fala de seu retorno à Porto Alegre como professora e do ambiente acadêmico durante a ditadura militar.           Afeto ; ambiente político ; amizade ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; fator externo à pesquisa ; relação afetiva com colaborador   Afeto ; Contexto Político-Economico                       1848 Hutz comenta sobre sua relação com Salzano e da influência dele no campo da genética           Afeto ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador   Afeto ; Formação Acadêmica ; Redes científicas e circulação                       2010 Hutz conta sobre a sua experiência de pesquisa nos EUA           Afeto ; desconforto ; doutorado ; entusiasmo ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; rotina de trabalho ; viagem   Afeto ; Formação Acadêmica ; prática ; Redes científicas e circulação                       2406 Hutz conta sobre a sua atuação como pesquisadora depois do doutorado envolvendo pesquisas com DNA           ancestralidade ; Avanço técnico transformador ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; indígena ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; pós-doutorado ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; viagem   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2990 Hutz conta sobre as suas pesquisas sobre populações ameríndias           coleta de amostras ; Diversidade Biológica ; Genética Médica ; indígena ; Interdisciplinaridade ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; rotina de trabalho ; saúde pública ; técnicas de pesquisa ; técnicas de variabilidade genética   Diversidade Biológica ; Genética Médica ; Interdisciplinaridade ; prática ; Raça, Etnia e Identidades                       3319 Hutz comenta sobre coleta de amostras biológicas e aspectos éticos relacionados à pesquisa com populações humanas           coleta de amostras ; Ética ; ética formal ; ética informal ; fator externo à pesquisa ; indígena ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; saúde pública ; troca de amostras   Contexto Político-Economico ; Ética ; Interdisciplinaridade ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       3659 Hutz comenta sobre os temas e achados mais importantes de suas pesquisas e das de Salzano com indígenas           Afeto ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; Diversidade Genética ; doenças infecciosas ; evolução humana ; Genética Médica ; grupo continental ; indígena ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria ; publicações ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; valores   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia moral ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       4096 Hutz comenta sobre seu trabalho de orientação           Afeto ; economia moral ; entusiasmo ; paixão ao trabalho ; vocação   Afeto ; economia moral ; Prática                       4293 Hutz manifesta desconforto e frustração com as limitações das regulações para as pesquisas com indígenas e comenta sobre as pesquisas com DNA antigo           Afeto ; Avanço técnico transformador ; desconforto ; doenças infecciosas ; Ética ; ética formal ; frustração ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência ; Mudanças na teoria   Afeto ; Ética ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência                       4598 Hutz sintetiza as suas contribuições científicas na genética             concepção de ciência ; Contribuições importantes à ciência ; economia moral   economia moral ; Mudanças importantes na ciência                       4721 Hutz relata parceria com pesquisadores da Fiocruz em evento acontecido na UFRGS com a participação das populações indígenas sujeitos da pesquisa.           concepção de ciência ; Ética ; ética formal ; etnia ; explicação e entendimento ; indígena ; saúde pública ; sujeito ; Sujeito Humano   Economia moral ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Sujeito Humano                       oral history Mara Helena Hutz é professora no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na entrevista a narradora conta a origem começou sua graduação em Biologia, onde fez iniciação científica e seu mestrado e doutorado foi com o Professor Salzano, na UFRGS. No mestrado sua pesquisa foi sobre a glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e em seu doutorado, com orientação do Professor Salzano na UFRGS, estudou anemia falciforme. Hutz viveu a experiência de lecionar na UFRJ, além de ter a possibilidade de desenvolver a análise de dados de seu doutorado na Universidade de Michigan, em Ann Arbor. A narradora faz um pós-doc em Johns Hopkins, para aprender sobre a tecnologia do DNA e no retorno ao Brasil, procura possibilitar o estudo sobre DNA na UFRGS e para isso torna-se chefe de departamento, conseguindo verbas para a estrutura física e de equipamentos para o departamento. Esse processo a fez ficar seis a sete anos fora do laboratório, quando retorna em 1993/1994 para a pesquisa. Hoje, tem projetos sobre déficit de atenção/hiperatividade e doença de Parkinson, além de continuar os estudos em genética das populações com indígenas. Relata que uma alteração importante de sua carreira acadêmica foi a mudança de objeto de pesquisa de anemia falciforme para metabolismo de lipídeos, pois a possibilitou um outro olhar sobre a genética. A narradora cita sua relação com a ditadura militar ao relatar perseguições a conhecidos, além disso, apresenta seu ponto de vista sobre a relação dos procedimentos éticos na pesquisa com indígenas. Depois de terminar a entrevista, a entrevistadora e Hutz  ligaram a gravadora novamente. Hutz narra um episódio sobre a ida dos chefes Xavante e Suruí à UFRGS como momento de troca de conhecimentos.   Essa pesquisa é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da UFRGS, sobre anemia falciforme e genética de populações relacionada aos indígenas.    DENT: Então hoje é o dia 7 de julho de 2014 e eu sou Rosanna Dent, doutoranda  na História e Sociologia das Ciências, e tenho o grande prazer de falar hoje  com a professora e doutora Mara Hutz que é professora titular na Universidade  Federal do Rio Grande do Sul, no departamento da Genética. Então, muito  obrigada, professora, por seu tempo. Eu queria perguntar, assim, iniciar só  pedindo para a senhora nos fazer um apanhado das influências que levaram você  a trabalhar na área da genética. Como chegou a se interessar?     HUTZ: Foi uma trajetória longa, e que tem, de uma certa forma, uma origem  familiar. O meu pai era médico e tinha um laboratório de análises clínicas.  E eu, desde criança, ia muito frequentemente com meu pai para este  laboratório. E acompanhava os estudos: ele me mostrava as células no  microscópio, ele me mostrava os animais - camundongos ou sapos que ele usava  para fazer os ensaios clínicos - e aquilo tudo me fascinava. Quando meu pai  deixou este laboratório, e se tornou professor da faculdade de medicina aqui da  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, eu vi que era a trajetória natural,  que a pesquisa se faz dentro da universidade.    Quando eu estava neste ponto, no estudo secundário, que seria equivalente ao  high school, eu me interessei muito pela área biológica e o meu dilema era  seguir meu pai na Medicina ou fazer Biologia. E, com muitas discussões e busca  de meus interesses, eu descobri que eu não tinha interesse em doentes. Eu tinha  interesse em doenças, eu tinha interesse na biologia humana. E com isso eu fiz  a opção pelo curso de Biologia e não pelo curso de Medicina.    E a Genética surgiu como uma opção dentro da Biologia, durante a minha  graduação, porque eu achei extremamente interessante e fascinante como o  departamento de Genética, que é este que eu pertenço hoje, se organizava. Que  naquela época, início dos anos &amp;#039 ; 70, era uma exceção na nossa universidade. E  comecei a me aproximar dos professores do departamento de Genética, com o  interesse em genética humana, porque eu sempre tive esse interesse por  doenças, pela biologia humana.    E cheguei naturalmente no professor Salzano e comecei a trabalhar, inicialmente,  com uma orientanda dele, a Inês Vieira de Castro, (que não está mais aqui e  que me ensinou muita coisa que eu sei hoje de laboratório). E quando eu  terminei minha graduação foi um passo natural fazer o mestrado e depois o  doutorado, com o professor Salzano. Foi mais ou menos essa a trajetória em que  eu cheguei. E ter o doutorado feito foi, vamos dizer assim, a carreira  acadêmica aconteceu.    DENT: E, a senhora mencionou que o departamento da Genética tinha uma  organização diferente. Qual era a diferença, o que fazia este departamento  excepcional naquela época?     HUTZ: Assim, primeiro que ele imitava (no bom sentido) a organização dos  departamentos americanos, em que os professores são dedicados tanto ao ensino  quanto à pesquisa. Passavam o dia no ambiente de trabalho, os seminários, as  discussões, tudo isso mostrava que era um ambiente extremamente produtivo e que  as pessoas, com isso, se tornavam extremamente próximas. Entre alunos,  professores... Naquela época era muito menor do que hoje e era um ambiente  muito amigável. E ao mesmo tempo com um drive para pesquisa muito forte.     DENT: E teve as primeiras experiências de fazer pesquisa independente durante a graduação?    HUTZ: Independente, não. Sempre com um orientador.    DENT: Claro, mas assim, fora do laboratório do pai.    HUTZ: Não, o laboratório do pai não foi na graduação. Foi antes.    DENT: Exatamente. Chegou na graduação e aí...     HUTZ: Quando eu cheguei na graduação não existia mais o laboratório do pai,  o laboratório do pai é uma coisa de infância. Quando eu cheguei na  graduação, meu pai não tinha mais esse laboratório, ele já era professor da  universidade. E durante a graduação eu fiz pesquisa. Antes de entrar para o  departamento de Genética eu tive uma pequena experiência na Biofísica, que  ficava fisicamente no mesmo local que o departamento de Genética. E foi assim  que eu conheci o departamento de Genética. Eram dois professores: o professor  Tondo e o professor Evaldo, que eram biofísicos mas trabalhavam associados ao  departamento de Genética. Essa foi minha primeira experiência de pesquisa  depois que eu entrei para o curso de Biologia.     DENT: E qual era a pesquisa, e qual era a perspectiva que você teve naquela  época para pesquisa? Que era a primeira vez que fazia. Como era a experiência?     HUTZ: Eu já tinha esse interesse em biologia humana e a pesquisa que eles me  ofereceram... Eu tinha muito interesse em moléculas, eu não queria nada macro.  E o professor Evaldo - que estava dando a disciplina de Biofísica, era um  professor dos undergraduates de Biologia - começou a me falar das pesquisas que  ele fazia com o professor Tondo no laboratório, que era com a molécula de  mioglobina. E eu me interessei porque era a primeira oportunidade que surgiu.    Eu estava ávida por ter alguma oportunidade, para entrar no laboratório. E a  primeira tarefa que eu tive foi de então isolar mioglobina de coração de boi.  E acho que eu fiquei um ano e meio com essa tarefa, nesse laboratório, ao mesmo  tempo em que eu convivia com as pessoas da Genética, que era geograficamente  próximo (era no mesmo andar, era tudo junto). Eu comecei a achar as coisas da  Genética mais interessantes, a ciência da genética mais interessante do que  aqueles experimentos da Biofísica.    DENT: E como chegou a passar a Genética? Terminou a graduação fazendo alguma pesquisa?     HUTZ: Sim, já ainda na graduação eu troquei para Genética e fiquei  trabalhando com a Inês, sob a sugestão do professor Salzano. [Tosse] Desculpe.     DENT: Quer pausar para tomar um pouco de água?     HUTZ: Não, não. É que eu estou com um pouco de tosse, mas isso não... Eu  fiquei. E aí eu comecei a aprender técnicas de laboratório que são usadas na  Genética, como é a eletroforese. Principalmente, naquela época, uma  eletroforese de proteínas.     DENT: E ficou convencida que queria ser geneticista?     HUTZ: Sim, ali nessa pequena experiência com a Inês, que também foi uma coisa  de um ano, era o meu último ano na graduação. Eu defini que, assim, eu queria  trabalhar em um nível bioquímico, mas usando a ciência da genética.     DENT: E por que genética? O que era, o que mais gostou da disciplina da ciência?     HUTZ: Saber a causa das coisas, por que os fenômenos são como são, por que  que as moléculas são como são.    DENT: Poderia comentar um pouco sobre o processo de fazer o mestrado e o  doutorado? Qual foi a experiência de ser orientada do professor Salzano? Qual  era o projeto de pesquisa, como era esse período?     HUTZ: A minha primeira experiência com o professor Salzano, propriamente, foi  com o mestrado. Em que o projeto de pesquisa que ele me designou (não foi uma  escolha minha, foi dele)...    [Tosse e interrupção]     ...essa tese que ele me deu para fazer, isto foi em 1974, era fazer, digamos  assim, identificar os tipos de uma enzima chamada &amp;quot ; Glicose 6-Fosfato  Desidrogenase&amp;quot ; . E naquela época o professor Salzano era muito interessado em  seleção natural. Então o projeto consistia-se de estudar uma amostra de  crianças recém-nascidas, com sangue de cordão umbilical, e suas mães, e  comparar as frequências destes tipos de G6PD com uma outra amostra de crianças  em idade escolar (6 ou 7 anos) e suas mães, para ver se haveria mudança nas  frequências gênicas.    Ao longo desse mestrado eu adorei o projeto, essa enzima causa anemia  hemolítica quando deficiente, então entrava muito nos meus interesses por  doenças. E também tinha evolução, que é uma coisa muito interessante, que  era ver se existia, se a gente conseguia identificar algum fator seletivo. E no  meio do mestrado o professor Salzano incorporou o estudo dos tipos do G6PD em  populações indígenas, que ele acabara de coletar. Então também entrou na  tese, foi o meu primeiro contato com a genética de índios, fazer a G6PD nestas  tribos que eu tinha acabado de coletar. Então foi uma experiência muito  fantástica. Eu disse: realmente é isso que eu quero fazer da vida.    Mas naquela época, no Brasil, o doutorado não era uma coisa tão direta e tão  imediata ao mestrado. E principalmente o programa aqui da universidade, ele  exigia que a pessoa, para entrar no doutorado, o programa da genética exigia,  tinha que ter experiência profissional prévia. As universidades contratavam  professores como mestres. Então a primeira coisa que eu precisava, quando eu  terminei esse mestrado, era arranjar um emprego. E eu acabei indo para o Rio de  Janeiro, fui professora por quatro anos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.    Aí a tendência era que eu escolhesse algum tema de pesquisa para o meu  doutorado que eu pudesse fazer no Rio de Janeiro, já que eu estava vinculada  àquela universidade. E o professor Salzano, mais uma vez, me ajudou muito e se  dispôs a me orientar pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. E eu  trabalhei com anemia falciforme. A ideia, de novo, era tentar o coeficiente de  seleção da anemia falciforme no Brasil - o que eu terminei não fazendo, mas  eu caracterizei anemia falciforme, a história natural da doença no Brasil, me  dirigindo mais para os meus interesses pessoais.    Durante esse doutorado no Rio eu conheci uma pessoa da Universidade de Michigan,  que era professor visitante lá. E terminei indo passar três meses em Ann  Arbor, que foi onde eu conheci o departamento onde o professor Salzano  trabalhou. O professor Neel já não estava mais no departamento, mas outros  colegas estavam e eu consegui ter uma visão muito interessante de quem era o  professor Salzano dentro de outro contexto. Foram os três meses mais lindos da  minha vida, eu acho, naquele momento.     E eu voltei. Eu consegui trabalhar muito lá, principalmente com esta pessoa que  me convidou, o Julian Adams, e um outro professor que conhecia bastante o  professor Salzano -- e que me ajudou com muitas análises estatísticas, o  professor [inaudível]. E quando eu voltei, aconteceram uma série de fatos e  surgiu uma oportunidade de eu voltar para ser professora. Sair do Rio de Janeiro  e vim ser professora aqui.     E eu fiquei um pouco na dúvida, eu já estava há quatro anos morando no Rio,  se eu queria voltar para Porto Alegre, se eu queria continuar morando perto da  praia. E aí escrevi para o Julian Adams, que ficou muito meu amigo, o que que  ele achava, qual era a opinião dele, se eu ficava, se eu voltava.     Eu mesma tinha medo de voltar para cá e ficar muito dependente do professor  Salzano. Ele era a grande pessoa aqui, se eu não ficaria sempre na sombra. E  troquei várias correspondências, naquela época não tinha e-mail, era  correspondência de carta mesmo. Mas assim, terminei concluindo que eu devia  voltar. Quando eu volto eu ainda não tenho este doutorado pronto.     Eu termino esse doutorado um ano depois da minha volta a Porto Alegre. Mas aí  eu consegui uma transferência do programa do Rio para o programa daqui, uma vez  que o orientador era o mesmo, era o professor Salzano.     DENT: Claro, porque eu tinha visto que a senhora fez o doutorado aqui mesmo.    HUTZ: Sim, o diploma é daqui, mas toda tese... eu só escrevi aqui. Toda tese,  todos os dados, toda a tese foi feita no Rio.    DENT: Como chegou a escolher o tema de anemia falciforme?    HUTZ: Mais uma vez, influência do professor Salzano. Ele tinha esse projeto em  mente, conhecia as pessoas no Rio que teriam os dados e me mandou, me deu uma  carta de apresentação, para mim procurar estas pessoas em um instituto de  hematologia, que é um hospital especializado.    DENT: Era vinculado com o Pedro Junqueira?    HUTZ: Não, era separado. O Pedro Junqueira, eu conhecia. Era da federal do Rio,  e este instituto era do estado. Hildebrando Marinho era o nome do diretor que me  recebeu e que abriu tudo para que eu pudesse fazer a tese lá.     DENT: Poderia comentar um pouco sobre como era a experiência de fazer campo.  Como era o acesso para os dados, quais eram os dados que a senhora procurava?    HUTZ: O meu campo, no caso, o meu laboratório, eram os prontuários médicos.  Eu não via paciente, eu não fiz nada de laboratório. O que eu fiz foi  levantar a história destes pacientes através dos prontuários médicos. Eles  tinham um arquivo extremamente bem organizado, então eu passei acho que cerca  de dois anos examinando os prontuários e fazendo a seleção.     Eu acho que eu vi mais de dois mil prontuários para selecionar uns seiscentos  prontuários que compuseram o corpo da minha tese. Que tinham dados completos,  que eu podia confiar, enfim, tu sabes e imaginas como é este tipo de análise.  E a partir destes prontuários eu montava uma ficha para cada paciente com uns  dados que eu considerei que seriam relevantes, tanto demográficos, clínicos,  de laboratório. E essa análise que eu fiz em Ann Arbor depois junto, reunindo  tudo isto.     DENT: Naquela época deveria ter sido uma das primeiras pesquisas sobre anemia  falciforme no Brasil.    HUTZ: No Brasil, sim. Eu não diria a primeira, mas a primeira de maior  abrangência. Porque as pessoas ficavam muito no diagnóstico laboratorial, em  aspectos, um ou outro muito específico, mas essa abordagem mais ampla que eu  dei foi a primeira. Eu me baseei muito num livro &amp;quot ; Sickle Cell Disease&amp;quot ; , do  Graham Sergeant, que era um pesquisador jamaicano. E que então mais ou menos  ele descrevia a doença falciforme em vários aspectos e eu tentei sintetizar  este livro para o Brasil, buscando os mesmos aspectos que ele descrevia para o  mundo todo e tentar incluir. Assim, a minha maior felicidade foi quando saiu uma  edição posterior do livro que ele incluiu os dados do Brasil, pôde incluir os  dados do Brasil.     DENT: Então, não teve um contato com pacientes, não teve uma coleta, uma  imersão em campo, assim, fazer visitas.    HUTZ: Não, meu campo foi a sala de prontuários.    DENT: É muito comum com historiador, né? O arquivo é o campo. Então, isso  foi um estudo que era mais, era especificamente para uma população do Rio de  Janeiro. Eram, todas as pessoas que iam para este centro de saúde?    HUTZ: É, digamos assim, mas considerando que o Rio de Janeiro é o centro do  país, e quando eu fiz isso fazia pouco menos, fazia cerca de dez anos que a  capital não era no Rio de Janeiro, era o local de migração muito intensa do  Brasil inteiro. Então assim, a gente estratificava os pacientes para o local de  nascimento dos pais, a gente tinha gente de todas as regiões do país.    DENT: Interessante.     HUTZ: Obviamente que predominava os nascidos no Rio de Janeiro.     DENT: Mas dava para ver um pouco, o perfil do país através desse centro.  Interessante. E então, no momento de voltar, como era a experiência de voltar  do Rio para Porto Alegre, naquela época? Era em qual ano, mais ou menos?    HUTZ: Isto era em 1980.     DENT: E como era, assim, o ambiente? Porque era durante a ditadura ainda, né?  Como era o ambiente científico naquela época, de pesquisar, colaborar? Tinha  muitas oportunidades ou era difícil? Como era a experiência?    HUTZ: Por um lado era mais difícil, no sentido assim, de que as pessoas e os  locais eram mais fechados. Por outro lado, era tudo muito menor, a pesquisa, a  ciência brasileira era muito pequena, então todo mundo se conhecia. E a gente  teve, assim, algumas experiências de influência da ditadura militar. Tanto  aqui no departamento, mas isso ainda eu vi no meu mestrado. Foi antes de eu  sair. Como eu acompanhei, durante este período que eu estava no Rio toda a luta  pela anistia. Que saiu em 79, né? Mas isso, digamos assim, eu acho que eram  coisas que aconteciam em paralelo e não chegavam a interferir no  desenvolvimento científico.     DENT: Como era o ambiente aqui no departamento durante o mestrado e depois, no  momento de voltar?     HUTZ: Eu não notei diferença. Primeiro porque, nesses quatro anos que eu  fiquei no Rio, eu nunca me desvinculei completamente daqui -- uma vez que eu  tinha esse vínculo com o professor Salzano. Depois, as pessoas que compunham o  departamento naquela época eram muito amigas, então na verdade são pessoas  que são meus amigos até hoje. E era um ambiente muito fácil de conviver,  muito alegre, era muito menos pessoas, todo mundo se dava muito bem, quase não  existiam brigas. Eu não tive nenhum problema de readaptação ao departamento.  Era como se eu voltasse para casa. Era assim, as pessoas que trabalhavam com o  professor Salzano naquela época, que era a professora Tânia Weimer, professora  Maria Helena Franco, foram as pessoas com quem eu convivi durante todo o  mestrado, que eu continuei convivendo. E convivi com elas até saírem daqui.  Professora Maria Helena Franco já faleceu e a professora Tânia eu continuo me  encontrando com ela até hoje.     DENT: E ela continua?    HUTZ: Não, está aposentada.    DENT: Está aposentada. Mas continua dando aula?    HUTZ: Não, parou completamente.     DENT: Agora aposentou de verdade? A senhora mencionou que teve algum impacto  aqui na ditadura, mas durante o mestrado. Poderia comentar um pouco sobre?    HUTZ: Eu te falei dessa pessoa que me ensinou as primeiras práticas de  laboratório, a Inês. A Inês foi presa enquanto eu estava no mestrado. E  depois que ela saiu da prisão ela ainda ficou um pouco no departamento, mas foi  embora para a França. Então, para mim isso teve, pessoalmente, um impacto  muito grande porque era uma pessoa com quem eu estava muito vinculada. E que,  digamos assim, eu considerei, todos nós na época, todos os colegas dela, uma  grande injustiça. O que estava acontecendo.     DENT: E foi por causa de atividade política que ela?    HUTZ: Foi, assim, ela não era uma pessoa que estava pegando em armas, nem  matando ninguém. Ela tinha posições políticas que, digamos assim, não  agradava os militares da época.    DENT: Teve outros impactos do ambiente político, sobre a vida do departamento?    HUTZ: Que eu saiba, não.     DENT: E naquela época...    HUTZ: É que naquela época a gente não sabia muito também, ninguém falava  muito. Digamos assim, não se comentava. A gente meio que se reunia para um  coffee break, nós éramos poucos, então todo mundo tomava café junto. Mas,  assim, política era um assunto que as pessoas evitavam na época conversar.  Porque ninguém sabia, na época, quem era quem.     DENT: E tiveram muitos biólogos ou geneticistas em outros lugares que também  tinham problemas por causa de posições políticas?    HUTZ: Teve alguns. O professor Henrique Krieger saiu, foi preso na Universidade  de Brasília. Antes ainda, em &amp;#039 ; 64 o professor Cordeiro, Antônio Cordeiro,  também teve que sair da universidade. Com seu grupo, tiveram que sair da  Universidade de Brasília. Então, houveram, assim, algumas. Nunca coisas  dramáticas. Assim, no sentido de gente que soube de morte por tortura, mas umas  pequenas coisas houveram.     DENT: E tinha apoio novo para desenvolver a pós-graduação? Estava crescendo o  departamento? Como era o apoio?    HUTZ: Sim. Isso era o contrassenso, porque foram os militares que fizeram a  reforma universitária, que implementaram os departamentos no Brasil, nas  universidades brasileiras, que criaram esta estrutura que a gente tem hoje, que  digamos assim, permitiu o desenvolvimento e, parece, -- isso aí eu mais ouvi  falar do que de saber -- de que o salário dos professores também foram mais  dignamente... aumentaram.     DENT: E o prestígio também?    HUTZ: Exato. E ao mesmo tempo, eles criaram esta institucionalização da  pós-graduação brasileira, com a Capes, com os níveis de mestrado e  doutorado. Então, este é o aspecto, assim, positivo, que ficou dessa ditadura.    DENT: Agora, voltando um pouco para as experiências do trabalho de doutorado.  Poderia comentar um pouco mais sobre a influência do professor Salzano? Como a  senhora encontrou, como era a relação entre orientador e orientada?     HUTZ: Era uma relação maravilhosa. Eu sempre digo que tudo que eu sei hoje,  até a forma como hoje eu oriento, tem a influência dele. Eu brinco sempre com  ele que ele me ensinou muito mais o que ele pensa. E ele era uma pessoa  extremamente aberta a novas ideias. Ele sempre ouvia, para dizer sim ou para  dizer não. E ele me ensinou uma coisa muito importante, que o tempo que se  perde para analisar um dado ruim é o mesmo tempo que a gente perde para  analisar um dado bom. Então, a gente tem que fazer as escolhas certas. Então,  eu acho que essa postura científica, esse rigor científico, tudo isso eu  aprendi com ele.    DENT: E comentou que em Ann Arbor teve outra visão do professor Salzano.  Poderia comentar um pouco como era essa visão que percebia lá em Ann Arbor,  que era diferente da percepção aqui?    HUTZ: Aqui ele era, assim, o todo poderoso. A pessoa que a gente olhava e tinha  um pouco de medo. E lá, todo mundo sempre falava nele, era tão simpático, eu  via mais um ser humano. Menos como grande chefe e mais como um excelente  pesquisador. Parece que está no nível... todo mundo mandava que eu  cumprimentasse o Francisco por eles, me perguntavam como é que ele estava.  Então eu via, assim, que era uma pessoa. Eu era muito jovem, também. Então  todas estas coisas tinham um impacto diferente. E aqui a gente sempre falava  muito de Ann Arbor, do professor Neel. Então, de repente, estar lá foi uma  coisa muito, assim, é como ter ido a Meca.    DENT: E como era a experiência de chegar lá no final dos anos &amp;#039 ; 70? E fazer  estágio, eram três meses? E como era a experiência de chegar lá, qual era a  sua impressão dos Estados Unidos? Era a primeira vez que viajou?     HUTZ: Para os Estados Unidos, sim.     DENT: Como era a experiência de chegar? Foi um momento de muita movimentação  também na sociedade americana. Percebeu?    HUTZ: Sim, foi na época que sequestraram aquelas pessoas no Irã. Então, tudo  fervia em Ann Arbor e eu conversava muito... Foi uma experiência, nesse ponto,  muito rica também. Porque os próprios estudantes com que eu convivia queriam  muito trocar ideias comigo, ver como era, saber das coisas do Brasil, e eu  queria saber das coisas deles. Então foi um aprendizado, realmente foi um  momento muito efervescente e muito positivo, assim, em todos os aspectos.     Eu tinha a vantagem que o Julian, eu conheci ele do Rio. Quer dizer, eu não  cheguei para uma pessoa estranha. Então eu fui recebida por um professor que me  conhecia bastante, que era muito amigo, e ele, digamos assim, facilitou muito,  me levava, me apresentava para os outros. Ele que conseguiu o lugar que eu  fiquei nestes três meses, que era um quarto numa casa de estudantes. Então  tudo isso tornou muito fácil a minha integração em Ann Arbor.     DENT: Como era um dia normal de vida lá em Ann Arbor?    HUTZ: Naquela época, computador era computador de grande porte. Tinha que  trabalhar em centro de dados. E o Julian, que estava financiando a minha estada  lá, me pediu que eu trabalhasse preferencialmente à noite, porque a hora de  computação era mais barata. Então eu estabeleci um esquema em que eu  começava o trabalho pelo meio-dia, ia para o departamento, organizava as minhas  coisas e à noite para o CPD rodar os programas. Ficava no CPD até duas, três  horas da manhã, enquanto eu aguentava, e depois dormia de manhã para começar  no outro dia. Ver o que saiu no computador e programar o dia seguinte. Isso no  inverno do midwest.     DENT: Nossa, estava lá no inverno mesmo.    HUTZ: É, foi dezembro, janeiro e fevereiro.    DENT: Meu Deus. E aí faz um frio.    HUTZ: Eu não sei que cor é a grama de Ann Arbor, eu só conheço a neve.     DENT: Então foi lá que a senhora conseguiu fazer a maior parte das análises  do doutorado.    HUTZ: Foi.     DENT: Teria sido possível fazer estas análises no Rio, naquela época?    HUTZ: No Rio ou mesmo aqui em Porto Alegre, teria sido possível. Mas eu  demoraria três ou quatro vezes mais.     DENT: Por?    HUTZ: Por questões logísticas.     DENT: Entendi. Aí tinha mais facilidades?    HUTZ: Tinha. Embora na época, a universidade de Michigan tinha um sistema de  análise estatística, que eles desenvolveram, que era espetacular. Era muito  amigável, muito fácil de usar, e tinha todo um serviço de suporte. Então, o  Julian conhecia muito de análise de dados e esse Charles Sing já tinha  trabalhado com anemia falciforme e mais ou menos sabia o que que seria. Então,  entre os dois, a gente definiu várias análises mais sofisticadas que aqui acho  que eu não teria nem imaginado fazer.     DENT: E foi com uma bolsa?    HUTZ: Não, não. Eu pedi uma bolsa para o CNPq, mas naquela época era mais  difícil. E como eu era professora na federal do Rio de Janeiro eu tinha  salário. Então eu fui com o meu salário.     DENT: E na volta, como mudou, assim, a vida diária? Como era um dia normal na  pesquisa de doutorado antes de ir e depois de voltar?     HUTZ: Até praticamente a hora de eu ir, eu estava coletando dados. Acho que os  últimos dois ou três meses antes de viajar eu estava codificando estes dados.  E naquele tempo, naqueles cartões de perfurar, que era como eu levaria os dados  para os Estados Unidos. Então, enquanto eu fazia tudo isso eu tinha que dar  minhas aulas lá na universidade federal. E, na volta, eu voltei com dez quilos  de papel, no mínimo. Que eram todos os outputs do computador, que eu tinha que  detalhar aquilo e fazer aquilo virar tabelas de uma tese.     Eu cheguei no início de março e já comecei a dar aulas, e estava começando a  querer mexer nisso quando surgiu esta possibilidade de vir para cá. Então,  praticamente eu só retomei a análise dos dados já em Porto Alegre. E aí, no  esquema daqui, que tu sentas em uma mesa e tu tens todo o tempo do mundo para  analisar. Eu fui montando, separando isso aqui, como aqueles dados virariam as  tabelas da tese. Naquela época a tese não era uma coleção de papers, era uma  tese, e os papers a gente fazia depois.     DENT: E, agora, assim, vendo os trabalhos que iam vir depois da tese, como seria  a divisão de temas de pesquisa? Porque a senhora pesquisa muitas coisas  variadas, não é? Então, assim, poderia dar alguma organização? Tem dois ou  três temas centrais ou como isso ficaria?    HUTZ: É que quando eu voltei, depois do meu doutorado, começou a história do  DNA. Estavam começando os primeiros estudos, e os primeiros polimorfismos de  DNA que surgiram foram exatamente nos genes de globina. E a origem da doença  falciforme, as múltiplas origens da doença falciforme. Os primeiros trabalhos  foram exatamente quando eu estava defendendo meu doutorado em &amp;#039 ; 83, esses  trabalhos estavam sendo publicados. Aí o Salzano, mais uma vez, &amp;quot ; ah, tu devias  fazer isso aí&amp;quot ; . Aí eu fui para fazer um pós-doc, nos Estados Unidos, para  aprender a trabalhar com DNA - e passei um ano e meio na Johns Hopkins  aprendendo a tecnologia do DNA.     E quando eu voltei para o Brasil, &amp;quot ; eu conheço a tecnologia, mas agora como  fazer isso funcionar no Brasil?&amp;quot ; . Na estrutura que nós tínhamos antes de vir  aqui para o campus, lá no centro da cidade, era impossível. Aí eu vi que a  primeira coisa que eu tinha que fazer era tentar criar uma estrutura para que o  departamento pudesse entrar na era do DNA. As pessoas do departamento, na  época, ainda estavam conseguindo produzir sem DNA, estavam conseguindo publicar  e não era tão importante para os outros como passou a ser importante para mim.     E eu levei muito tempo nesta tentativa de construção desta estrutura. Eu, e  assim, me envolvi muito, a ponto, digamos assim, de me tornar chefe do  departamento, para ter algum poder, para conseguir ir atrás de dinheiro para  construir este prédio. Depois me envolvi com a construção do prédio, que eu  brincava que eu não fazia mais engenharia genética, eu fazia só engenharia.  Porque eu vinha semanalmente aqui conferir a construção, eu passava os cheques  para comprar os tijolos. Então, eu acho que durante uns três ou quatro anos,  eu me envolvi muito com isto, até nossa mudança para cá em 1990.     Aí eu tinha um laboratório, só que o laboratório estava vazio, tinha que  comprar equipamentos. Daí começou uma outra batalha para conseguir o dinheiro  para comprar esses equipamentos. Então, acho que eu realmente voltei a  trabalhar em &amp;#039 ; 93/&amp;#039 ; 94.    DENT: Poderia comentar um pouco mais sobre quais eram as coisas necessárias  para fazer esta transição de trabalhar com genética, sem usar DNA, para ter a  estrutura necessária para trabalhar com DNA?     HUTZ: Completamente diferente. Digamos assim, na genética bioquímica  tradicional, o universo era do mililitro. E quando a gente passa a trabalhar com  DNA, o universo é do microlitro. Então, toda estrutura, todos os equipamentos,  nesta época não existia o PCR ainda, era só o [inaudível], era uma outra  tecnologia. Tinha que ter estrutura para crescer bactéria, era um outro laboratório.     Quer dizer, eu podia aproveitar uma balança, podia aproveitar uma centrífuga.  Mas eu precisaria de microcentrífugas para esses tubinhos pequenos. Então era  começar do zero. E numa época em que a economia brasileira era muito fechada e  era muito difícil adquirir qualquer coisa no país.    DENT: E quais eram as estratégias que a senhora usou para conseguir essa meta?     HUTZ: Escrever projeto, escrever projeto. Com a vinda para cá nós conseguimos  dinheiro. Digamos, o próprio prédio foi construído com recursos da Finep.  Então, depois de convencer a Finep, &amp;quot ; bom, vocês nos deram um prédio, agora  têm que botar as coisas dentro do prédio&amp;quot ; . E, naquela época, a Finep  financiava fundo perdido. Então nós conseguimos, acho que dois bons auxílios  da Finep para a compra de equipamentos - beneficiou todo o departamento, não  só a mim. E com isso a gente conseguiu entrar na era do DNA. Mas isso aí foi  um hiato na minha vida de uns seis/sete anos, entre eu voltar do pós-doc e  começar efetivamente a trabalhar com DNA.     DENT: E com esta transição, outras pessoas no departamento também fizeram uma  transição para trabalhar mais com DNA?    HUTZ: Sim, e durante este hiato que eu digo que eu tenho, digamos assim, o mundo  da genética foi se transformando no mundo do DNA. Aí todas as pessoas  começaram a ver que isso era importante, que tinha que fazer esta transição.  Houve um momento, tanto que assim, alguns laboratórios foram montados como se  isso aqui não aconteceria. E o meu laboratório, tanto que assim, o nome do  laboratório é &amp;quot ; laboratório de DNA&amp;quot ;  -- porque serviria para todos. Mas, na  verdade, no fundo, com o correr dos anos, todos os laboratórios fizeram a sua  transição. As pessoas vão vendo que as tecnologias vão mudando. Nisso,  surgiu o PCR, que democratiza muito o estudo do DNA. Então, facilita muito que  estas coisas aconteçam.     DENT: E, depois de fazer, esse tempo que se dedicou tanto aos processos de  estrutura para o laboratório, quais eram as linhas de pesquisa mais importantes  que a senhora levou a...    HUTZ: Eu continuei, porque mesmo nesse período que eu estava me dedicando, eu  continuei trabalhando com anemia falciforme. Mas assim, fazendo uma coisa que eu  podia oferecendo um serviço para a população de diagnóstico. Mas, ao mesmo  tempo, tentando fazer alguma coisa de pesquisa com anemia falciforme, ainda num  nível da proteína do sangue.     Quando começa a história do DNA o meu natural ainda foi com anemia falciforme,  e o primeiro trabalho publicado com DNA foi os genes, digamos, os haplótipos de  globina em populações de índio. Foi o primeiro trabalho que eu orientei com  DNA, porque, a essa altura, as coisas que eu pensava em fazer, quando eu voltei  dos Estados Unidos já tinham sido feitas. Não tinha mais porque fazer. Então,  com as globinas beta, eu ainda podia fazer alguma coisa com índios que era um  buraco na literatura. Então, eu podia contribuir por aí.     DENT: Poderia comentar um pouco mais sobre esse estudo de haplótipos?    HUTZ: Então, assim, como os haplótipos mostram, te dão uma ideia da origem da  população. Então era um momento em que todo mundo estava tentando usar o DNA  como uma ferramenta para tentar entender a origem dos povos ameríndios. Então,  o que os haplótipos mostram, a gente estudou cinco tribos e depois ampliou  para, acho que nós estudamos, ao todo, umas dez, doze tribos, onde a gente  mostra a origem asiática. Que os haplótipos predominantes dos ameríndios são  os mesmos dos asiáticos, corroborando as ideias da origem asiática dos ameríndios.     DENT: E isto foi um projeto que fez um orientado?     HUTZ: Sim, foi um mestrado.     DENT: E esse foi o segundo projeto que a senhora fez com ameríndios? Que tinha  este primeiro...    HUTZ: É, tinha o do meu mestrado e depois esse. Durante muito tempo eu  participei dos trabalhos do professor Salzano com ameríndios, que assim, vinham  as amostras e as amostras eram mais ou menos divididas. Eu fazia as  hemoglobinas, a Tânia Weimer fazia as enzimas [inaudível] e a Maria Helena  Franco fazia as proteínas séricas. Então, tinha esta divisão e a gente...     Isso não era um projeto que eu considerava meu, era uma colaboração minha com  o professor Salzano. Então, digamos assim, trabalho que eu coordenei, o  próprio G6PD eu era uma estudante. Mas o primeiro trabalho que eu coordenei com  populações ameríndias foi esse mestrado do DNA das globinas beta.    DENT: E depois seguia trabalhando com mais projetos com ameríndios?    HUTZ: Sim, até hoje. Eu sempre tenho um aluno que faz alguma coisa com índios.  Depois desse a gente fez alguma coisa com esses polimorfismos de repetição em  tandem, primeiros VNDRs, como D1S80, que era um muito usado para paternidade.  Depois os short tandem repeats. A gente fez trabalhos com isso, o gene  apolipoproteína beta. Porque eu descobri que nós tínhamos, digamos assim, um  grupo de amostras de índios que nós tínhamos aqui para trabalhar, de DNAs.     Existia também dados de colesterol, triglicerídeos, então eu já comecei a  juntar um tanto, fazer uma associação de polimorfismos em genes das  apolipoproteínas com os níveis de colesterol em índio, obesidade em índio.  Quer dizer, eu fui levando um pouco, assim, sempre para o meu interesse em  saúde humana. Então a gente fez várias coisas com índios também. Que eu  comecei, aos poucos, eu achei que eu não tinha mais nenhuma pergunta para fazer  sobre anemia falciforme que eu pudesse responder daqui.     E troquei para estudar metabolismo de lipídios, tanto em populações urbanas  quanto nas populações ameríndias. Então a gente publicou vários trabalhos.  É como eu digo, sempre um orientando meu fazia tese com índio, até hoje.  Então durante muito tempo eu concentrei no metabolismo de lipídios.     E por interesse de alunos a gente termina, às vezes, se diversificando. E eu  sou uma curiosa. E eu acho que, se a gente entende metodologia científica, a  gente pode fazer várias coisas diferentes. Aí surgiu, assim, o estudo de  doenças psiquiátricas (isso eu nunca fiz nada em índio). Mas é uma linha  forte aqui no meu grupo e agora, mais recentemente, a gente começou uma linha  de doenças infecciosas. E sistema imune, em que, sim, nós estamos trabalhando  de novo com índios, com tuberculose em índios, que a gente tem em alguns trabalhos.     Fizemos um com os Xavante e agora estamos fazendo com os Ache, do Paraguai, que  é onde a gente tem o dado clínico e pode ter o dado genético. E estamos  procurando também traçar o perfil imunológico dos ameríndios, através dos  polimorfismos de genes do sistema imune.     DENT: Nesses trabalhos, em algum caso trabalharam com novas amostras? Amostras  que vocês ou membros do laboratório coletavam?     HUTZ: Nós só coletamos uma pequena amostra aqui do interior do Rio Grande do  Sul, de Kaingang. E essa amostra, nós temos uma amostra de Xavante que foi  coletada para o estudo de tuberculose em Xavante, que é uma amostra nova - que  foi uma aluna minha que foi com o grupo da escola de saúde pública coletar.    DENT: A Verônica?    HUTZ: A Verônica.     DENT: E isso foi uma colaboração com o Carlos Coimbra?    HUTZ: Coimbra, sim.    DENT: Eu conheço esse trabalho um pouco mais, eu também entrevistei membros do  grupo deles lá no...    HUTZ: Tanto que a Verônica terminou o doutorado aqui comigo, com esse trabalho,  e foi fazer pós-doc com o Coimbra. Ela seguiu nessa linha.     DENT: E ela fez a coleta.    HUTZ: Ela fez a coleta.    DENT: Mas, geralmente então, a maior parte dos estudos são com os bancos de  amostras que dão.    HUTZ: Não, eu não uso o mesmo banco de dados da Maria Cátira. As amostras que  eu uso, eu uso as amostras de Kaingang. Primeiro eu trabalhei com... Em &amp;#039 ; 90 o  Salzano recebeu do Coimbra amostras que eu fiz as extrações de DNA de cinco  tribos (que eram os Xavante, os Suruí, Waiwai, Zoró e Gavião). Então eu fiz  muita coisa com essas cinco tribos. E houve um momento em que era a única coisa  de DNA de índio que se tinha. Os dados de lipídios foram feitos com estas amostras.     Na medida que estas amostras foram acabando, a gente coletou essa amostra de  Kaingang no interior do Rio Grande do Sul, e eu consegui com a minha colega do  Paraná, Maria Luiza Petzl Erler, ela me deu uma amostra de Guarani. E amostra  dos Ache, do Paraguai, que também está sob minha responsabilidade. Então, na  verdade eu trabalho com estas três amostras hoje.    DENT: E desde o primeiro trabalho junto com Salzano no mestrado, até agora, eu  sei que a legislação brasileira mudou totalmente com relação à coleta de  amostras genéticas. Queria saber se poderia explicar, em cada época, cada  projeto, como era o processo?    HUTZ: Eu nunca me envolvi com isso, assim. Primeiro, não tinha nenhum processo.    DENT: Sim, no início não tinha.    HUTZ: Depois que o professor Salzano conseguiu aquela licença de &amp;#039 ; 98, que pode  usar o que tem aqui à vontade, eu entendi que eu estava incluída. Para a  coleta dos Xavante, que a Verônica foi, a Conep deu autorização. Passou pelo  comitê de ética da Fiocruz e depois pela Conep. Digamos assim, porque eles  estavam liderando essa coleta.     DENT: Então, foi ela que fez todo o processo?    HUTZ: Na verdade foi o Coimbra, a gente só entrou como participantes. E aí,  inclusive, aconteceu uma coisa horrível, porque a ideia era fazer os Xavante e  os Suruí. E nós tivemos as autorizações da Conep, da Funai e todas as  autorizações possíveis para fazer a coleta dos Suruí. Fomos lá, os índios  deram consentimento, informaram os líderes, a Verônica coletou toda amostra e  no dia de ir embora chegou uma pessoa da Funasa e recolheu todas as amostras. E  entendeu que aquilo era biopirataria e não podia, e que só liberaria com um  telegrama de Brasília.     Bom, perdemos essa coleta. E aí acho que com isso eu não me atrevo mais muito  em investir, porque foi um monte de dinheiro que se gastou para ir fazer essa  coleta. Para chegar uma enfermeira de décimo escalão, entender que aquilo é  biopirataria e impedir a saída.    DENT: Teve algum processo depois?     HUTZ: O Coimbra não quis, eu pedi. Como tudo, ele sempre era o líder de toda  essa pesquisa de saúde indígena. E eu achei que cabia a ele tentar alguma  coisa, tentar resgatar, e ele não quis. Então nós encerramos, inclusive a  parceria. Não fizemos mais nada juntos.     DENT: E ele explicou porque tomou essa decisão?    HUTZ: Eu acho que ele não quis se incomodar. Ele disse &amp;quot ; ah, que não se pode  forçar, é muito delicado&amp;quot ; . E aí nós...    DENT: E aí, mas nesse estudo então, ficaram estudando tuberculose só com os Xavante?    HUTZ: Só com os Xavante, sim. Porque os Xavante não tinham doença ativa e os  Suruí tinham doença ativa. Então teria sido muito interessante comparar os  dois. Mas nós terminamos, era o que a gente tinha, a gente terminou fazendo com  os Xavante.     DENT: A senhora estava presente para a coleta, para o trabalho de campo?     HUTZ: Não, a Verônica foi.    DENT: Ah, a Verônica. E também com os Xavante?    HUTZ: Também com os Xavante. Era a Verônica e era uma equipe do Paulo Basta,  não sei se tu conheceu, do grupo do Coimbra, que é um médico, e a Verônica.  Que iam basicamente os dois e mais uma enfermeira, que iam para fazer o trabalho  de campo.     DENT: E o trabalho que resultou, sobre os Xavante, qual era, assim, o  propósito? Quais eram os findings mais importantes deste trabalho?    HUTZ: Assim, existia uma hipótese, que era mais ou menos do ano 2000, de que  populações que vivem em regiões tropicais teriam um perfil imunológico  diferente de populações europeias. E que isso os tornaria mais suscetíveis a  infecções bacterianas e virais. Então a ideia, digamos assim, como a gente  sabe que os índios são mais suscetíveis à tuberculose, a ideia era testar  esta hipótese com os índios. E a gente mostra, com os Xavante, parcialmente  isso e corrobora isso agora, num trabalho que está saindo agora em agosto, com  os Ache.     Mas, ao mesmo tempo, nós ampliamos este trabalho. A gente não tem dados de  tuberculose, mas tem dados de perfil imunológico nos Guarani e nos Kaingang. E  a gente mostra que, na verdade, os diferentes não são os índios, os  diferentes são os europeus. Porque asiáticos, africanos e índios são muito  parecidos, têm o mesmo perfil imunológico. Quem diferiu foram os europeus, a  seleção atuou de uma forma diferente na Europa.    DENT: E esse trabalho vai sair em agosto?    HUTZ: Essa do perfil imunológico já saiu no ano passado.    DENT: Em 2013.    HUTZ: É. O da [inaudível], e agora esse da tuberculose dos Ache vai sair agora  em agosto no Journal of Tuberculosis and Lung Diseases.     DENT: Muito interessante. Então, esses são os estudos principais que a senhora  fez com populações indígenas no próprio laboratório. Mas também colaborou  muito com pesquisadores do departamento que fizeram outros estudos com povos indígenas.     HUTZ: Com o Salzano.    DENT: Com o Salzano, sim. Queria ver se a senhora poderia, assim, dar uma  explicação, um pouco, colocar num contexto. Como fica o trabalho do professor  Salzano, dentro do campo, como parte da literatura sobre genética dos povos indígenas?    HUTZ: Eu acho que genética dos povos indígenas é igual a professor Salzano.  Não existe, assim... Ele contribuiu tudo. Praticamente, eu diria que 90%, 95%  do que está publicado é dele ou com a colaboração dele. Mesmo esses  trabalhos que eu digo que eu conduzi, assim, ele é sempre coautor. Eu considero  que essa é uma linha de pesquisa dele e que eu sou a coadjuvante, eu sou a  colaboradora. E que eu tenho todas as outras coisas que eu faço, que são  independentes, com as populações urbanas. Isso vem com a minha cabeça, com  minhas ideias.     Mas eu acho que populações indígenas é uma coisa que ele construiu e que  ele... Eu fico às vezes muito preocupada, o que que vai ser dessa linha de  pesquisa sem ele? É que tem tantas impressões digitais que é, assim, uma  coisa muito associada. Eu não consigo imaginar.     DENT: E na experiência de estar em Ann Arbor e ouvir um pouco sobre ele, do  ponto de vista dos norte-americanos, quais eram os estudos que eles mais se  interessavam em saber, estavam trabalhando junto com ele?    HUTZ: Naquela época eles não estavam mais. Na medida em que o professor Neel  saiu do departamento, a genética das populações indígenas acabou. Então, as  amostras que o Neel tinha foram parar em outro laboratório e eles não falavam  mais no assunto. Eles conheciam Salzano, respeitavam o Salzano, mas não era  mais o foco lá. Na verdade, eles estavam mais interessados nos meus dados de  anemia falciforme do que na questão dos povos indígenas. Mas o que eu sentia  muito é que eu ganhava em credibilidade por ser aluna do professor Salzano.  Quer dizer, tinha pedigree.     DENT: Com certeza, né?    HUTZ: Então era uma coisa, assim, que quando todo mundo me apresentava para  outro, fazia parte da apresentação dizer que eu era aluna do professor Salzano.     DENT: Claro. E, assim, dentro do mundo de genética de populações, quais  seriam os aportes mais teóricos do professor Salzano? Os que mais têm peso no  campo dos estudos de povoamento das américas?    HUTZ: Eu diria, assim, acho que eu dividiria em duas etapas cronológicas  distintas. Porque a genética de populações, ela muda muito nesses 30 anos, 40  anos que eu estou na ciência. Num primeiro momento o professor Salzano tem uma  posição, uma postura muito clara na controvérsia &amp;quot ; selecionismo/neutralismo&amp;quot ; .  Ele tem livros publicados para discutir essa controvérsia, ele é uma pessoa  central na contribuição para essa discussão. Isso, eu diria assim, até  meados dos anos &amp;#039 ; 80. Depois, essa discussão, ela deixa de fazer sentido com o  advento da variabilidade do DNA. Aí o grande aporte passa a ser, digamos assim,  mais para a genômica e a questão da origem dos ameríndios. E aí tem as  grandes contribuições dele, principalmente com o Sandro Bonatto. Eu acho,  assim, são os dois grandes momentos do professor Salzano.     DENT: Agora, a senhora trabalha com quantos alunos? E como é a experiência de  ser orientadora?    HUTZ: Eu adoro. No momento eu tenho cinco estudantes de doutorado, mas até  março desse ano eu tinha doze.     DENT: Nossa. [risos]    HUTZ: Só que vários terminaram agora nesse semestre e eu só estou com cinco.  E resolvi que eu não quero mais ter doze de novo. Pelo menos dar um tempo. Eu  gosto muito, eu acho que, das atividades acadêmicas, é a que eu mais tenho  prazer em fazer, em estar construindo conhecimento com eles. Estar pensando no  que é que nós vamos fazer no laboratório, ver o que é que nós vamos fazer juntos.     DENT: E como é que os alunos chegam a escolher a área? A senhora mencionou que  sempre tem um aluno que está trabalhando sobre povos indígenas. Como eles  chegam a escolher? Ou a senhora sugere?    HUTZ: Eu induzo, de uma certa forma. Hoje no laboratório eu tenho três  projetos em andamento. Um que é um projeto que já tem quase 20 anos, que é do  transtorno déficit de atenção/hiperatividade (ADHD). Então, teve um momento  que eu tinha mais alunos nesse e menos no outro, isso vai variando um pouco ao  longo do tempo. Eu tenho um projeto em doença de Parkinson, que no momento eu  tenho, assim, dos meus cinco alunos, dois estão trabalhando com doença de  Parkinson e dois com ADHD.     E como eu não quero deixar completamente a coisa dos índios, acho que tem a  ver muito com a minha origem, eu sempre induzo alguém. Eu vejo alguém que  gosta mais de genética de populações, então sugiro. Eu tinha um projeto com  doenças infecciosas, com associação com o pessoal do Pará, e doenças  negligenciadas. Então, e tinha esses dados dos Ache, então tinha essa aluna  que eu via que gostava de genética de populações, e eu sugeri que ela se  envolvesse, então, com tuberculose em Ache e sistema imunológico. Então, essa  uma aluna que, nesse momento... assim como a Verônica. Sempre tem alguém que  gosta mais de genética de populações do que de doença.     Então a gente vai vendo, assim. Porque a maioria desses alunos eu conheço  desde que eram undergraduates, que começam cedo no laboratório e a gente vai  vendo aquilo que eles têm mais talento, aquilo que eles gostam mais.    DENT: E como ficam as perspectivas de seguir trabalhando na linha de estudos com  indígenas? Porque comentou que foi difícil essa experiência com os Suruí.     HUTZ: É, eu não sei, sinceramente. Eu já várias vezes disse: &amp;quot ; Este é o  último trabalho.&amp;quot ;  E quando eu vejo eu estou fazendo outro. Mas assim, eu não  vejo muita perspectiva, para mim, de continuidade dessa linha. Até porque a  gente não tem linhagens celulares, o DNA vai acabar. As perguntas que eu posso  responder com o pouco de amostra que eu tenho também estão ficando muito  restritas. Então eu não vejo, assim, a longo prazo. Mas eu já vi. Antes de  começar essa coisa com sistema imunológico eu já tinha dito isso, então eu  sempre deixo um pouco em aberto, se não vai surgir alguma coisa que eu acho que  ainda dá para fazer.    DENT: E por que está ficando, assim, restrito? É uma questão de tempo e uma  questão de acesso? Legislação?    HUTZ: A legislação atrapalha, a burocracia é imensa, eu não tenho muita  paciência para todas essas burocracias brasileiras. Então a gente não tem  fonte, assim, o meu interesse é muito mais para doença do que para estudo de  origem. Eu já sei. Quer dizer, assim, que eu estou mais interessada agora em  entender por que é que eles foram tão dizimados pelas doenças. Mas as chances  de eu conseguir dados de campo novos, que me permitam esse tipo de estudo, é  muito difícil. Então eu não sei se eu...    DENT: E isso é mais por causa de todos os passos que um pesquisador tem que  passar para ter autorização?    HUTZ: Isso. E mesmo passando por todos, como eu falei, a experiência dos  Suruí, nada impede que lá na ponta final, depois do trabalho de coleta feito,  alguém resolva que não pode levar. E que, assim, não dá para confrontar  porque eles sentiram (o Paulo Basta e a Verônica) que se não entregassem eles  iriam presos. Então, assim, virou pesquisa de alto risco. Tu passar um ano nos  meandros burocráticos e tu não sabes o que vai acontecer na ponta final.     DENT: E como são as perspectivas para trabalhar com amostras históricas no Brasil?    HUTZ: Tu dizes DNA antigo?    DENT: Aham.    HUTZ: Eu acho que é as mesmas de qualquer lugar do mundo, a credibilidade  dessas amostras é muito pequena. O professor Sérgio Pena tenta fazer isso, lá  em Minas Gerais. Ele está tentando resgatar de Botocudos, lá do Museu  Nacional, alguma coisa de DNA. Então é aquela questão de: faz no laboratório  dele, tem que replicar no outro laboratório fora, e mesmo assim as pessoas  olham para aquilo e não são muito crédulas, sempre acham que pode ter  artefatos. Então é uma linha complicada. Eu acho muito bonito, eu me  entusiasmei muito quando começaram a aparecer os primeiros trabalhos de múmias  e coisas. Mas eu hoje acho que isso não cresceu. Dos anos &amp;#039 ; 90 para cá, de  repente alguém faz uma coisinha, mas não é uma linha que tenha...    DENT: Não daria para responder essa pergunta da dizimação das populações, né?    HUTZ: Teoricamente sim, seria ótimo se a gente conseguisse porque seria o DNA  sem mistura nenhuma. Então teria exatamente como eram as pessoas e, dependendo  da qualidade dos ossos, a gente pode saber se teve tuberculose ou não. Porque  existe tuberculose óssea, por exemplo, e outras doenças também isso seria  possível. Mas não vejo muita possibilidade de seguir nessa linha. Eu, na  verdade, nunca me envolvi e nunca tentei trabalhar nessa linha.     DENT: Algum tema, alguma experiência que foi importante para a senhora na vida  profissional, até agora, que gostaria de comentar? Que eu não consegui  perguntar ou que foi uma coisa que ajudou a formar a perspectiva que agora tens  sobre a genética? Alguma reflexão que não cheguei a perguntar, a pergunta certa?    HUTZ: Não, eu acho que não. O depoimento que eu te dei, assim, eu me envolvi,  assim... Quando eu tive que largar a anemia falciforme porque eu não tinha mais  perguntas para fazer e comecei a trabalhar com metabolismo de lipídeos foi uma  mudança, assim, de uma doença monogênica para doenças multifatoriais. E isso  foi muito importante para mim, olhar para a genética com outro olhar que não  daquele &amp;quot ; mendeliano&amp;quot ; . Então eu acho que eu desenvolvi muito, aqui no país, a  linha da genética epidemiológica. E isso foi uma coisa que, digamos assim, eu  cresci muito com isso. Foi a minha linha independente, que eu consegui montar,  que eu acho que eu estou deixando a maior contribuição. E eu acho que o futuro  da genética é por aí. Porque eu acho que existe, mais do que doenças raras  que afetam e são dramáticas para poucos indivíduos, enquanto essas afetam  muitos indivíduos.     DENT: Ótimo, professora. Muito obrigada, obrigada por seu tempo.    HUTZ: Eu espero poder ter contribuído.    DENT: Com certeza.     &amp;lt ; &amp;lt ; pausa&amp;gt ; &amp;gt ;     HUTZ: Agora eu já não acho, mas foi entre 2008 e 2010, por aí, que nós  começamos esse projeto de saúde indígena com o Carlos Coimbra e o Ricardo  Ventura Santos. E a sugestão foi de que, antes de nós irmos fazer as coletas  no campo, que a gente trouxesse os índios. Vieram os Xavante, vieram duas  lideranças Xavante. Porque a própria aldeia de Pimentel Barbosa estava numa  fase de litígio, estava se dividindo dentro daqueles processos de fissão,  fusão deles. Então era um momento Xavante de ser, como o Ricardo Ventura chamou.    E nós chamamos as duas lideranças dos dois grupos. Veio o Almir Suruí e um  indígena da Bahia. E nós fizemos uma apresentação - Coimbra, Ricardo, eu -  sobre como é que a gente via o estudo da saúde indígena, porque é que a  gente estava estudando. Eles passaram um dia inteiro aqui conosco no campus. E  foi uma experiência, eu acho que para nós e para eles, muito interessante.    E eles faziam perguntas, perguntas pertinentes. E a gente via a interferência  que eles têm de terceiros que tentam usar politicamente o que está acontecendo  e a boa vontade da gente. Porque saiu na mídia que nós estávamos fazendo este  evento, trazendo os índios para cá. E que nós queríamos explicar pesquisas  para eles. E que veio gente da imprensa, de outros órgãos, e que deturparam o  que foi dito, como se a gente estivesse usando eles como animais de  experimentação -- o que absolutamente não era.    Mas, assim, deu para perceber muito claramente que os Xavante, eles têm uma  noção mais clara do que é pesquisa, que isso eventualmente pode trazer um  benefício. Depois disso a Verônica foi na tribo e explicou de novo para eles  toda a pesquisa. E quando ela concluiu o doutorado, ela voltou lá em Pimentel  Barbosa com Coimbra, para dar o retorno dos resultados. E o relato dela foi de  que foi uma experiência muito gratificante, que eles entenderam, fizeram perguntas.    Quer dizer, os índios também podem sair, e vir e ouvir, participar. Eles não  são, não os tratar como inferiores.    DENT: Poderias descrever esse dia? Como foi a chegada deles?    HUTZ: Quem se encarregou de vir com eles foi o Coimbra e o Ricardo, e que foram  pegá-los no aeroporto. Eles chegaram um pouco antes e eles ficaram todos no  mesmo hotel, o hotel que nós colocamos os professores, hotel Embaixador. Aí  Verônica e eu, cada uma com um carro, para poder trazer todos. Nós fomos  buscá-los no hotel e trazê-los para o campus. Então esse evento teve uma  abertura de porquê, da importância de estudar a saúde indígena, em que falou  o Carlos e falou o Salzano. Tudo muito breve.    Depois demos a palavra para as lideranças indígenas falarem. O que é que eles  esperavam de nós? E uma das lideranças Xavante passou um filme, pediu um tempo  para passar um filme sobre o contato em &amp;#039 ; 46, quando chegaram os irmãos  Villas-Boas lá. Então todo mundo viu aquele filme, foi muito bonito. Bom, e  aí nós tivemos uma interrupção para o almoço, que nós fizemos um almoço  privado no prédio da FA URGS, no andar de cima. Deves ter visto quando teve o  encontro, aquele ano, nós fizemos o almoço ali.    E à tarde eu fiz uma apresentação sobre a questão da genética, o que é que  a genética queria, o que a gente procurava e o que é que a gente queria  responder, quais eram as nossas perguntas. Depois foi uma discussão geral e encerrou.    DENT: E quais eram as perguntas que eles faziam, as coisas que eles queriam  saber um pouco mais na conversa sobre os propósitos da pesquisa (as lideranças  que estavam presentes)?    HUTZ: A grande preocupação deles era não serem usados, eles tinham muita  preocupação nesse sentido. Muita preocupação de que a gente fosse vender o  DNA e que pudesse clonar índios. Eu acho que, assim, a preocupação era muito  direcionada para a questão comercial. Acho que eles já tiveram muitas  experiências, não com DNA. Teve uma experiência ruim com DNA, que o DNA foi  parar nos Estados Unidos, do Francis Black. Mas eles sabiam dessa experiência,  sabiam disso e a maior preocupação deles era nesse sentido, que a gente se comprometesse.    Ah, uma outra coisa que nós fizemos depois do almoço foi que nós trouxemos  eles aqui no laboratório. Mostramos para eles o que é que a gente fazia, como  é que a gente extraía o DNA do sangue, o que é que a gente via. Botamos um  gel no transiluminador de ultravioleta para eles verem o DNA e eles fizeram  pergunta sobre paternidade. Quer dizer assim, eles não eram tão ignorantes.    Foi muito interessante, porque a gente viu um outro lado assim. Não são  pessoas... pelo menos as lideranças que circulam, algumas lideranças Xavante  já tinham ido inclusive para a Europa. Quer dizer, eles sabem o que está se  passando no mundo. E é uma preocupação de defesa do seu patrimônio, seja  patrimônio cultural, genético. Essa é a preocupação que eles demonstraram  mais claramente. E, inclusive assim, existia que, se os índios fossem estudar,  se eles podiam vir fazer estágio, porque eles gostariam que tivessem  pesquisadores indígenas para estudar as coisas deles. Eu acho que essa,  realmente, eu acho que faltou. Foi uma experiência bem interessante.    DENT: Claro. E qual foram as coisas que mais surpreenderam as pessoas daqui, que  estavam apresentando para eles? Deve ser uma experiência muito diferente. Eu  nunca ouvi, assim, falar de um grupo que fez uma coisa assim. Então estou  interessada. Como foi a experiência do ponto de vista, aqui, deles chegarem,  perguntarem essas coisas. Qual foi a impressão, a expectativa que vocês tinham  antes desse evento?    HUTZ: Não foi a primeira experiência. O Coimbra já tinha levado eles para o  Rio e a ideia foi do Coimbra, uma vez que tinha sido muito positiva a  experiência de levá-los para o Rio. Quer dizer, eles se tornam muito mais  colaboradores e participantes da pesquisa. Não é aquela pessoa que chega na  terra deles, faz todas as coisas e nunca mais aparece. Quer dizer, o Coimbra  conseguiu trabalhar muito bem esse vínculo.    DENT: Lembra dos nomes das lideranças que estavam?    HUTZ: Eu tenho que achar.    DENT: Naquela época era o Suptó que estava liderando o lado de Pimentel?  Deveria ter sido, né? Porque ele está de cacique faz alguns anos.    HUTZ: É, eu não me lembro, eu sou péssima para nomes. [silêncio] Eu não  acho, mas eu vou procurar e eu te mando uma cópia.    DENT: Ah, seria muito legal. Tiraram fotos do evento?    HUTZ: Não, não. A ideia era ser o mais discreto possível para eles não se  sentirem, assim, para não achar que estão sendo...    DENT: Porque, afinal, é uma coisa muito simples, né? É só dar a  possibilidade de explicar qual vai ser o propósito da pesquisa, se eles  aceitarem. E as pessoas da imprensa que chegaram a escrever sobre essa questão,  como era? Eles estavam presentes?    HUTZ: Foi uma jornalista de Brasília, eu não sei de que órgão que foi a  pessoa que tentou criar uma coisa mais confrontável.    DENT: Estava presente?    HUTZ: Ela estava presente. Ela tentou criar um debate aqui e a gente cortou, e  aí ela publicou uma coisa, assim, menos abonadora. Mas não teve maiores...  aqui, achei. Foi em março de 2007. Vou copiar isso aqui para ti: Suptó Xavante  e Paulo Xavier.    DENT: Ah, foram Suptó e Paulo. Muito legal. O Suptó e a comunidade de Pimentel  Barbosa está fazendo um projeto histórico para solicitar cópias de materiais  antropológicos que foram coletadas nas décadas de &amp;#039 ; 50, &amp;#039 ; 60, fotografias, para  fazer um centro documental na aldeia.    HUTZ: Ah, que legal.    DENT: Então, eu vou estar ajudando com a parte dos Estados Unidos. Porque tem  alguns pesquisadores que, como David Maybury-Lewis, que era um antropólogo que,  quando faleceu, todos os documentos dele estão com a esposa dele ainda. Então,  vou estar tentando ajudar eles a chegar a ter cópia destes materiais para poder  usar. Eles querem fazer projetos de resgate de história, de cultura, através  dessas informações que foram coletadas. E também das fotografias do professor Salzano.    HUTZ: A Verônica tem muita fotografia que ela tirou quando foi lá na aldeia.  Tu não conseguiste esse contato com a Verônica?    DENT: Ah, consegui. Só a gente não conseguiu encontrar um tempo para uma  entrevista porque ela estava fazendo um concurso na Fiocruz, acho. Então eu vou  tentar voltar ao Rio para ver se posso conseguir falar com ela e aí trocar  ideias, né? Mas ela falou que estava interessada. Então isso é questão de  encontrar quando eu posso estar de novo.    HUTZ: Ela é muito querida, a Verônica. E ela tem fotos lindas dos quinze dias  que ela passou na aldeia.    DENT: Não, ela deve ter. Ela trabalhou, estava lá junto com uma outra  pesquisadora da Fiocruz que contou bastante sobre a experiência de estar lá na  aldeia. E comentou que Verônica estava lá junto com ela. Por isso que...    HUTZ: A Verônica foi uma vez para coletar para o doutorado dela. E eu acho que,  durante o pós-doc, ela foi mais umas duas vezes com o Coimbra.    DENT: Sim. E para apresentar também os resultados.    HUTZ: É, uma das vezes eu sei que foi para apresentar os resultados.    DENT: Não, eu estou esperando poder conversar com ela, porque acho que vai ser  muito bom. Se ela concordasse seria muito legal poder ler as reflexões dela,  que mandou depois da experiência. Não sei se ela vai concordar, mas seria  muito interessante ver como ela contou depois a experiência de fazer trabalho  de campo.    HUTZ: Ah, eu acho que para ela foi um aprendizado fantástico. Ela amadureceu  muito com isto, como pesquisadora, como pessoa.    DENT: Claro. Essa questão de trabalho de campo é uma coisa que está surgindo  muito na minha pesquisa. As pessoas que fizeram trabalho de campo, de algum  jeito, sempre... ou que fizeram intercâmbio internacional, sempre comentam  muito sobre isso. Como experiências formativas, né?    HUTZ: É. É um outro olhar.    DENT: Sim. Bom, muito obrigada, professora.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras. audio O seu uso e divulgação estão restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=hutz-20140707.xml hutz-20140707.xml      </text>
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                <text>Profa. Mara Hutz, entrevista, 07 de julho de 2014</text>
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                <text>Mara Helena Hutz é professora no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na entrevista a narradora conta a origem começou sua graduação em Biologia, onde fez iniciação científica e seu mestrado e doutorado foi com o Professor Salzano, na UFRGS. No mestrado sua pesquisa foi sobre a glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e em seu doutorado, com orientação do Professor Salzano na UFRGS, estudou anemia falciforme. Hutz viveu a experiência de lecionar na UFRJ, além de ter a possibilidade de desenvolver a análise de dados de seu doutorado na Universidade de Michigan, em Ann Arbor. A narradora faz um pós-doc em Johns Hopkins, para aprender sobre a tecnologia do DNA e no retorno ao Brasil, procura possibilitar o estudo sobre DNA na UFRGS e para isso torna-se chefe de departamento, conseguindo verbas para a estrutura física e de equipamentos para o departamento. Esse processo a fez ficar seis a sete anos fora do laboratório, quando retorna em 1993/1994 para a pesquisa. Hoje, tem projetos sobre déficit de atenção/hiperatividade e doença de Parkinson, além de continuar os estudos em genética das populações com indígenas. Relata que uma alteração importante de sua carreira acadêmica foi a mudança de objeto de pesquisa de anemia falciforme para metabolismo de lipídeos, pois a possibilitou um outro olhar sobre a genética. A narradora cita sua relação com a ditadura militar ao relatar perseguições a conhecidos, além disso, apresenta seu ponto de vista sobre a relação dos procedimentos éticos na pesquisa com indígenas. Depois de terminar a entrevista, a entrevistadora e Hutz  ligaram a gravadora novamente. Hutz narra um episódio sobre a ida dos chefes Xavante e Suruí à UFRGS como momento de troca de conhecimentos. &#13;
Essa pesquisa é de interesse de quem deseja conhecer a história do departamento de genética da UFRGS, sobre anemia falciforme e genética de populações relacionada aos indígenas.</text>
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              <text>    5.4      Profa. Maria Cátira Bortolini, entrevista, 28 de janeiro de 2014   01:58:20   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     trajetória acadêmica  evolução humana  mudanças científicas  DNA  regulamentação da pesquisa  genética antropológica e histórica  divulgação científica  pós-doutorado Maria Cátira Bortolini Rosanna Dent .mp4 bortolini-20140128.mp4 2:|22(3)|45(7)|73(11)|102(4)|132(5)|162(6)|192(2)|225(7)|255(10)|290(7)|319(8)|345(3)|372(11)|397(2)|427(10)|446(2)|470(9)|500(3)|530(7)|561(4)|594(13)     0   https://youtu.be/OUZl-C-L8vs  YouTube         audio    pt-br     0 Bortolini fala sobre o interesse em estudar desde sua infância e a falta de estímulo para a ciência durante a ditadura           Afeto ; ambiente político ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; Economia Moral ; entusiasmo ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa ; valores ; vocação   Afeto ; Contexto Político-Economico ; Economia Moral ; Formação Acadêmica                       314 Bortolini fala sobre sua experiência e trajetória acadêmica           Afeto ; ambiente político ; asco ; campo ; concepção de cientista ; Contexto Político-Economico ; desconforto ; ditadura ; Diversidade Biológica ; doutorado ; Economia Moral ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; frustração ; história ; iniciação à pesquisa ; Interdisciplinaridade ; mestrado ; Prática ; valores   Afeto ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; Interdisciplinaridade ; Prática ; Trabalho de Campo                       1036 Bortolini fala do mestrado, análise da origem de grupos afro-brasileiros e limitação das técnicas           Afeto ; ancestralidade ; Avanço técnico transformador ; branco ; classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; Diversidade Biológica ; Diversidade Genética ; doutorado ; Economia Moral ; entusiasmo ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; grupo continental ; história ; Interdisciplinaridade ; mestrado ; Mudanças importantes na ciência ; negro ; Prática ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       1248 Bortolini fala da pesquisa de doutorado, coleta de dados, ética e da colaboração com Venezuela           Afeto ; ambiente político ; Avanço técnico transformador ; campo ; classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; concepção de ciência ; Contexto Político-Economico ; Contribuições importantes à ciência ; desconforto ; Diversidade Biológica ; doutorado ; Economia Moral ; Ética ; ética formal ; ética informal ; experiência afetiva ; Experiência mulher cientista ; explicação e entendimento ; Formação Acadêmica ; Gênero ; grupo continental ; Instituições de formação ; mestrado ; Mudanças importantes na ciência ; negro ; pós-doutorado ; prática ; práticas de campo ; processamento de dados ; publicações ; Redes científicas e circulação ; sujeito ; Sujeito Humano ; técnicas de pesquisa ; técnicas variabilidade genética ; troca de amostras ; valores   Afeto ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; Formação Acadêmica ; Gênero ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; Sujeito Humano ; Trabalho de Campo                       2595 Bortolini fala de parceria com Salzano e desafios de seu inicio de carreira docente           Afeto ; Avanço técnico transformador ; classificação diversidade bio ; concepção de cientista ; desconforto ; Diversidade Biológica ; doutorado ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; história ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; instrumentos ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; orientação ; prática ; publicações ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; técnicas variabilidade genética ; valores ; vocação   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3227 Bortolini descreve o início de seu trabalho com povos indígenas           branco ; colaboração e acordos ; concepção de ciência ; Diversidade Biológica ; doenças genéticas ; Economia Moral ; Ética ; ética formal ; evolução humana ; Genética Médica ; grupo continental ; indígena ; mestiço ; Mudanças importantes na ciência ; negro ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; resistência do pesquisador   Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; Genética Médica ; Mudanças importantes na ciência ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       3808 Bortolini fala de interdisciplinaridade, genética histórica e genética antropológica           Afeto ; ancestralidade ; antropologia ; colaboração e acordos ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; ética formal ; grupo continental ; história ; humor ; indígena ; Interdisciplinaridade ; negro ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; resistência do pesquisador ; valores ; vocação   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       4671 Bortolini fala sobre colaborações prazerosas e orientação disciplinar dos colaboradores           Afeto ; antropologia ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; grupo continental ; humor ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; valores ; vocação   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       5208 Bortolini fala da criminalização da diversidade biológica por c.s.           antropologia ; branco ; classificação diversidade bio ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; doenças genéticas ; Economia Moral ; fator externo à pesquisa ; Gênero ; Genética Médica ; Interdisciplinaridade ; negro ; Raça, Etnia e Identidades ; raciocínio   Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Gênero ; Genética Médica ; Interdisciplinaridade ; Raça, Etnia e Identidades                       5817 Bortolini fala de experiência pós-doc em UK           Afeto ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; pós-doutorado ; Prática ; processamento de dados ; publicações ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; rotina de trabalho ; técnicas variabilidade genética ; viagem   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia Moral ; Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       6268 Bortolini fala sobre a genética dos gaúchos           ancestralidade ; classificação diversidade bio ; Diversidade Biológica ; evolução humana ; indígena ; miscigenação ; Raça, Etnia e Identidades   Diversidade Biológica ; Raça, Etnia e Identidades                       6413 Bortolini comenta sobre parcerias com Rolando e Salzano e de suas contribuições           Afeto ; antropologia ; classificação diversidade bio ; colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; evolução humana ; grupo continental ; indígena ; Interdisciplinaridade ; Prática ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; técnicas variabilidade genética   Afeto ; Diversidade Biológica ; Interdisciplinaridade ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       6921 Bortolini reflete sobre a carreira prazerosa           Afeto ; entusiasmo ; experiência afetiva ; relação afetiva com colaborador   Afeto                       oral history A entrevista com Maria Cátira Bortolini foi conduzida no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no dia 28 de janeiro de 2014. Bortolini é professora associada do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na entrevista, a narradora comenta sua trajetória na academia desde a graduação, referindo-se às principais influências que a levaram a escolher a Biologia e, posteriormente, a Genética e a Evolução Humana. Ela descreve as principais mudanças que ocorreram nas práticas acadêmicas ao longo do tempo. Dentre essas mudanças, está a entrada do DNA nas pesquisas em Genética, as novas exigências éticas para coleta e uso de amostras de diferentes populações, a instauração de um Comitê de Ética com suas regras específicas, o aumento da busca por publicações em sua geração de cientistas. Especificamente sobre o campo de pesquisa com populações indígenas, a narradora se dedica a explicar quais são as principais questões de pesquisa do campo e a comentar as novas exigências que tornam cada vez mais difícil a coleta de amostras. Além disso, trata das diferenças que sentiu na transição de aluna à professora/orientadora, profissão que considera também um retorno social pela formação pública e gratuita que teve acesso desde a graduação até o doutorado. Nesse mesmo sentido ainda, conta como foi ter passado em um concurso logo após o término do doutorado, ter conseguido um laboratório próprio logo no início da carreira e por ter sido convidada por Salzano a publicar um livro por meio de uma universidade importante. Dedica-se, ainda, a explicar o que entende por Genética antropológica e histórica - maneira que classifica sua atuação - e a descrever suas práticas interdisciplinares e experiências de colaboração com pessoas de diferentes campos e países. Comenta ainda as principais dificuldades e barreiras encontradas no diálogo com cientistas sociais, que se dariam em torno da “diversidade biológica”. Finalmente, comenta ainda sobre sua experiência na tradução da ciência para a mídia leiga e em seu pós-doutorado em Londres, além de listar os trabalhos, tanto os próprios quanto os do professor Salzano, que considera os mais importantes.  DENT: Hoje é o dia 28 de janeiro de 2014. Eu sou Rosanna Dent, doutoranda em  História das Ciências da Universidade de Pensilvânia , e eu tenho o prazer de  conversar hoje com Maria Catira Bortolini, professora associada da Genética na  Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Estamos aqui na UFRGS, no Instituto  de Biociências em Porto Alegre.     Professora, eu gostaria de começar pedindo para você nos fazer um apanhado das  influências , assim, da família, da escola, quais são os fatores que levaram  você a estudar Biologia, a se interessar no tema? Desde o início, pensando na  versão de você de menina, de criança.    BORTOLINI: Na escola eu não tive uma Biologia muito instigante, o professor  não era, que eu me lembro, desses professores de Biologia, não teve nenhum que  se destacou. Eu tive um professor muito bom na Física, que ele era muito bom  mesmo. Então ele dava um estímulo grande, mas era um momento também mais...  Acho que a gente vivia uma época de uma ditadura no Brasil. Era um momento de  pouca criatividade, eu diria assim.     A ciência brasileira, assim, a gente não ouvia, não era uma rotina na minha  família se falar de ciência. Era uma coisa, assim... Enfim, não era um  ambiente de livre pensar, eu diria. Não sei se era pelo fato de ser uma  ditadura, ou por ser uma família de pessoas que não tinham nível de  escolaridade superior.     A minha mãe era professora, tinha uma escolaridade maior. Meu pai não, meu pai  só tinha até a quarta série do ensino básico. Então não sei se era só o  ambiente, ou o era também o ambiente social que não favorecia muito a... Só  depois, quando eu fiquei maior. E também o tipo de personalidade que eu  sempre... Eu não sou uma pessoa que me contenta com as explicações fáceis.     Eu não tenho/apesar de vir de uma família católica, nunca achei que aquelas  explicações eram muito boas para coisa nenhuma. Então já vi que eu não  tinha um cérebro preparado para coisas que explicavam os fenômenos de maneira  mitológica e tal. Então é claro que eu tenho cérebro preparado para a  ciência. Não acredito, não consigo ver um cientista explicando as coisas de  uma maneira fácil.    Então eu acho que eu tinha uma personalidade nata já, bem típica de quem vai  ir para uma área mais racional , em termos de buscar explicações para as  coisas. E depois, eu, na hora de fazer vestibular, foi meio assim: &amp;quot ; vou fazer  Biologia, que eu acho legal&amp;quot ; . Também não se falava em Genética, só durante o  curso que eu vim conhecer a Genética e a Evolução, também não se falava  muito. Foi meio inesperado, meio ao acaso assim, eu diria.     A minha mãe diz que eu falava disso quando eu era criança. Eu ganhei um  microscópio de uma tia minha e brincava, isso eu lembro. E que eu falava (eu  não lembro), desse interesse pelas coisas naturais. Lembro de brincar com  formiga e ficar observando tempo como elas agiam, outras coisas da natureza e  botar no microscópio, isso sim eu me lembro. A mãe lembra mais coisas que eu  fazia quando era criança.    Mas a Genética foi durante a graduação mesmo, mas eram ambientes muitos  diferentes do que a gente tem hoje e que a gente vê. Eu tive a possibilidade de  ver o florescer da ciência no Brasil, digamos assim. Antes eram poucos  pioneiros e, eu acho, muito encastelados dentro do ambiente acadêmico.     Hoje a gente vê a ciência de uma maneira mais presente no cotidiano, as  pessoas falando mais. Isso não causa surpresa mais, ter um cientista no seio de  uma família. Quer dizer? No tempo que eu era criança isso era coisa de outro  mundo. Cientistas eram os astronautas que a NASA tinha, sabe? Era uma coisa,  assim, não era uma coisa próxima. Isso mudou muito e foi rápido.     DENT: Ingressou na faculdade em que ano?    BORTOLINI: Em 1980, era um momento importante na história do Brasil, porque a  gente estava saindo da ditadura. Já tinha tido a lei da anistia em 79,  participei de alguns movimentos em 80, na faculdade, por democracia. Sim, ainda  tinha bastante repressão policial e tal, ainda era uma ditadura. Então foi um  momento muito efervescente.    Ao mesmo tempo, era um momento que a ditadura não tinha mais poder para uma  repressão violenta. Então a gente se manifestava, fazia paralisações, fazia  protesto, policia vinha, o exército vinha, mas naquele momento já não tinha  mais mortos, presos ou desaparecidos. Então foi um momento interessante que eu  vivenciei na universidade.     Participando da reconstrução da UNE, da União Nacional dos Estudantes. Então  eu fui nas primeiras assembleias da UNE depois que ela sai da clandestinidade.  Então foi bem legal, eu lembro que era muito efervescente aquele momento,  assim, da vida acadêmica.    DENT: Pode descrever um pouco o processo de se formar nessa época? Como eram as  matérias que davam? Como eram...    BORTOLINI: A gente tinha forte a parte de Zoologia e Botânica, muito  sistemática. Fisiologia. Aí quando eu tive, a gente já naquela época, a  Biologia tinha três disciplinas voltadas para a Genética. Acho que hoje  também têm essas três obrigatórias, que foram muito importantes: que é a  Genética 1, Genética 2 e Evolução.     E esses professores que me deram essas disciplinas foram muito importantes. Eu  lembro da professora Suzana Cavalli, do professor Aldo Mellender Araújo, que  foi assim, que me deu aula de Evolução. Professora Vera Geiskey e professores  muito bons, que estimularam muito a imaginação de quem tem uma mente preparada  para curtir ciência e gostar de ciência.    Eu comecei a fazer/antes de ir para a Genética eu já fiz uns estágios como  voluntária na Bioquímica, e depois aí eu conheci a Genética. Comecei a  estagiar com o professor Aldo, que trabalha com Genética Ecológica, a gente  fazia saídas de campo.    Eu, como Bióloga, nunca gostei muito das saídas de campo, não gostava. Aquela  coisa de mato, bicho, mosquito, acampamento, não gostava daquilo, do  desconforto. Assim, aquele Biólogo de ir para o mato eu achava legal. Assim,  como eu vou te dizer? Por um lado eu achava legal, mas por outro, o desconforto  gerado, o frio que a gente passava naquelas barracas, mosquito, não era algo  assim. Então eu já sabia que não seria Bióloga de mato.    E com o professor Aldo, ele trabalha, o organismo modelo dele, são borboletas.  Então a gente fazia saídas de campo para fazer estudos com as borboletas, e eu  não gostava daquilo. Por trás das perguntas colocadas, eram questões  biológicas interessantes, evolução do mimetismo, coisas que eu lia e gostava,  discutia bastante com ele.     Mas aquela coisa de passar a tarde no mato, o dia inteiro no mato, catando  borboleta, marcando borboleta, e tal tal tal. Eu não gostava daquilo. Então,  na hora de fazer mestrado, eu preferi os humanos. [Risos.]    DENT: E nessa época fez pesquisa com as questões das [borboletas?]    BORTOLINI: [Das borboletas?] Sim, a gente tinha um projeto que era para estudar  um tipo de borboleta, justamente a questão do mimetismo. E aí foi muito  frustrante, porque acabou dando em nada. Porque envolvia a captura e recaptura  das borboletas, marcar elas e recapturar depois.     Só que deu uma seca naquele verão, naquela primavera, agora eu não me lembro,  e as borboletas desapareceram. Então foi muito frustrante para mim, não tive  resultado nenhum com as tais das borboletas, com o projeto, naquela ocasião, do  professor Aldo. Foi bem frustrante para mim.    E aí eu resolvi fazer mestrado, conversei com o professor Aldo que eu queria ir  para área de humanas. E na faculdade também eu gostava de organismos maiores.  Sempre gostei mais de mamíferos. Uma coisa que eu detestava na aula de Biologia  também, nas aulas de Fisiologia, eu não fui em nenhuma aula de Fisiologia que  tinha experimentos com animais, não fui em nenhuma.    Nós tínhamos um professor, professor Olegário, que era muito legal. Muito  maluco, ele tinha problema com álcool até. Mas ele era muito legal, os alunos  gostavam. Quando ele estava bem ele era um ótimo, um excelente professor. Só  não teve uma carreira mais brilhante por causa do alcoolismo.    E ele não fazia chamada. Então eu ia nas aulas teóricas e nunca fui nas aulas  práticas, com cachorros e tal. Era algo que me causava profundo desconforto.  Mesma coisa nas aulas de Zoologia, e a gente tinha muitas que abriam os animais.  Então todo filo que a gente estudava e ia estudar, tinha um animal que era  dissecado. Eu nunca participava, ficava longe e não via. Também me causava  muito desconforto, qualquer experimento envolvendo animal, assim.    Hoje é completamente proibido. Naquela época, para você ter uma ideia, se  catava, os professores tiravam os animais da natureza, tartaruga de Itapuã, e  iam para aula para fazer dissecação. Hoje é completamente proibido, né? Vê  os outros tipos de mentalidade que se tinham na época, mas eu não gostava,  nunca gostei disso. Ficava longe.     E vou te dizer, para se conseguir, era uma coisa inédita no curso de Biologia.  Passei todo o curso de Biologia sem nunca ter visto um bicho ser sacrificado.  Porque se tinha, e eu estava na aula, eu ficava longe, não via. E quando não  precisava, o professor não fazia chamada, eu não ia.     Então era algo que já sabia também, que fazer ciência envolvendo  experimentação animal não iria ser comigo. Me sinto absolutamente  desconfortável com o sofrimento de animais.    DENT: E aí se interessou mais na parte humana?    BORTOLINI: Me interessei na parte de humana. Eu gostava muito de comportamento,  a gente não tinha, a parte de grandes mamíferos a gente não teve na  faculdade. Era uma coisa que me interessava muito. Hoje tem, mas na época não  tinha. A gente fez uma excursão que eu nunca me esqueci, que foi no Parque  Nacional do Turvo, no norte do Rio Grande do Sul, que é o único parque  nacional que ainda tem onça pintada.    Então a gente andava e a gente via as marcas das onças, assim. Hoje elas são  bem estudadas naquela região ali. Mas era uma coisa que eu pensava, assim,  &amp;quot ; Bah! Que legal estudar esse tipo de bicho&amp;quot ; . Mas a gente foi com um professor de  Botânica, era para fazer coleta vegetal. Os grandes mamíferos passavam ao lado.    Gostava de comportamento, e depois com a Genética fui me encantando com a  Evolução, e com a evolução humana achei o ponto forte. Genética de  populações eu também gostei muito, então aí comecei a me interessar por isso.     E aí fiz a prova de mestrado, aí eu passei e conversei com o professor Salzano  e com a professora Tania Weimer, na ocasião. E na época os dois me  entrevistaram, o professor Salzano estava com muitos orientados e acabei indo,  fui orientada da professora Tania, e que trabalhavam juntos na época, assim,  faziam parte do mesmo grupo. Mas sempre com um contato muito próximo do  professor Salzano.     E a professora Tania foi muito importante, porque ela foi uma pessoa que, além  de ter uma grande capacidade de orientação é uma pessoa muito gentil, muito  amável. Sempre, se eu tenho exemplo de orientadora eficiente, competente,  cordial, eu lembro da professora Tania. Gostaria de ter a paciência, que ela  teve comigo, com os meus orientados, porque ela sempre teve muita paciência.     E aí eu fui para a Genética e comecei cada vez a gostar mais. Mas no início  as pessoas da família não entendiam muito direito. Eu lembro que quando eu  terminei o mestrado e comecei o doutorado, meu irmão, que é advogado: &amp;quot ; Mas tu  não vai parar de estudar? Tu não vai trabalhar nunca?&amp;quot ;  Sabe?    Aquela questão assim, que está sempre estudando. Como assim não vai deixar de  estudar? O que que é isso? Vai fazer doutorado agora? Tu vê, na época, já  era nos anos &amp;#039 ; 90, ainda tinha essa coisa assim. &amp;quot ; Essa aí não vai parar de  estudar, para que que serve isso?&amp;quot ;  Tinha essa coisa: &amp;quot ; é hora de trabalhar, não  está na hora de ficar fazendo...&amp;quot ;     DENT: E o que achavam do tema, assim, da Genética, do fato de que você estava  estudando Genética?    BORTOLINI: A mãe sempre foi uma pessoa curiosa com ciências, e ela sempre  gostou. Então a mãe sempre me perguntou. Acho que a pessoa da família que  mais gosta das coisas que eu faço é a mãe. Ela me pergunta. E quando sai uma  matéria na imprensa leiga, que ela pode passar... Porque ela fica no Facebook,  eu não tenho Facebook, mas a mãe tem. Ela passa para os parentes, para as  amigas dela e tal. A mãe gosta, pede para mim explicar as cosias para ela  assim. Da minha família, a pessoa mais interessada realmente é minha mãe.     DENT: E como iam reaccionando [reagindo] as outras pessoas? Os amigos, primos,  as pessoas que...    BORTOLINI: Não entendiam, não entendiam.    DENT: Como era visto entrar para fazer um doutorado [na ciência?]    BORTOLINI: Ó, uma] coisa assim, ó. O fato de tu entrares na UFRGS sempre foi e  continua sendo uma coisa de prestígio. Então o fato de tu estares na UFRGS é  prestigioso, mesmo que eles não saibam o que tu está fazendo. &amp;quot ; Ah, ela tá na  UFRGS.&amp;quot ;  Sabe? &amp;quot ; O que que ela tá?&amp;quot ;  &amp;quot ; Não sei, só sei que está na UFRGS&amp;quot ; .  Sempre foi uma coisa prestigiosa.     Eles sabiam que eu fazia uma cosia importante, poderia ser importante, mas não  sabiam que era. Então era mais ou menos assim. [risos] Não sabiam, sabiam que  era na UFRGS, então é importante. &amp;quot ; Mas exatamente o que que é, não sei.&amp;quot ;     DENT: E quando é que explicava que ia estudar, por exemplo, a dissertação do mestrado?    BORTOLINI: Do mestrado? Pois é, daí como eu fazia a conexão com a história  ficava mais fácil. Através dos dados genéticos nós vamos tentar recortar a  origem dos africanos que chegaram no Brasil. Pesquisar melhor. As pessoas  entendiam mais ou menos. Então aí: &amp;quot ; ah que interessante&amp;quot ;  e tal. E foi indo assim.     Depois, quando entra a palavra DNA no mundo das pessoas, aí as pessoas começam  a ter mais interesse em saber. &amp;quot ; Ah, tu estuda o DNA? O que que é que o DNA?  Como é que é a história?&amp;quot ;  As pessoas perguntam. Aí passou a ser... Porque  antes era tudo muito nebuloso.    E também, as ferramentas que a gente tinha eram muito pobres para a gente  resolver os problemas que a gente perguntava. Questões de evolução  biológica, dinâmica, tudo que eu faço hoje, dinâmica de mestiçagem,  evolução das populações humanas depois que saíram da África. Tudo a gente  tentava responder por polimorfismo de proteína, que era uma cosia muito singela  para tentar responder as perguntas que a gente fazia.    Então a gente fazia/a gente tirava leite de pedra, como a gente diz. Conseguir  tentar fazer alguma coisa com ferramentas que respondiam de maneira muito pobre.  Não só a parte experimental, como a parte de análise também. A gente tinha  que fazer a mão, fazer análise na mão.     Aí depois veio computador. O primeiro computador que eu usei foi no meu  mestrado, e não era nem na universidade, era na casa da professora Tania. Rodar  umas análises de distâncias genéticas entre as populações negras, que eu  estava estudando, e as populações da África.     Então as análises também eram bem menos robustas. O acesso às maquinas era.  Eu tinha feito tudo à mão, aí a professora disse: &amp;quot ; não, mas agora eu tenho  um computador na minha casa, pessoal, tu vais poder rodar as análises.&amp;quot ;  &amp;quot ;  Aí  então, hoje eu vejo a robustez de uma tese de doutorado.    Depois do doutorado já entrou com a parte de DNA. Já melhorou, já melhorou um  pouco. Mas o meu mestrado eu acho que foi algo muito singelo, hoje eu vejo como  algo muito singelo. Foi uma tentativa de responder questões da origem dos  africanos que vieram, com ferramentas que não poderiam responder o que eu  estava querendo perguntar. Embora a gente fez várias tentativas.     DENT: Poderia explicar um pouco mais o desenho da tese, da pesquisa da tese?    BORTOLINI: Do mestrado?    DENT: Do mestrado e do doutorado, já passando para...    BORTOLINI: Foi um pouco assim: eu cheguei, eu me lembro, eu disse para a  professora Tania e para o professor Salzano: &amp;quot ; eu quero trabalhar com evolução  humana, genética de populações.&amp;quot ;  &amp;quot ;  E eu nunca vou me esquecer que a  professora, acho, ou o professor Salzano, disseram assim: &amp;quot ; chegou para nós umas  amostras de isolados negros da Venezuela, de uma colaboradora. E nós temos  outros isolados negros do Pará, etc. Te interessa?&amp;quot ;  &amp;quot ; Me interesso.&amp;quot ;  &amp;quot ;     Então foi uma amostra de conveniência. Assim, era uma amostra interessante,  estava chegando, de isolados negros. Aí eu fui começar a estudar a história  da África no Brasil, história da escravidão e tudo que podia, que já tinha  sido publicado sobre a história da escravidão e sobre a África naquele  momento. A biblioteca é aqui do lado, né? Então eu li tudo para fazer essa  ponte entre genética e história, para tornar a coisa, assim, mais interessante.     Eu sempre achei que falar de evolução humana e fazer genética humana, tu tens  que estar contextualizando, tu vai contar uma história da genética de  populações. Não é só assim... Eu me negava a querer descrever  polimorfísmos. Isso me negava. Ah, na população tal tu encontra tal alelo. Me negava.     Não vou fazer nada descritivo, então vou contextualizar em algo que interessa  e que pode contar uma história relevante para resgatar a história das  populações descendentes de escravos que chegaram no Brasil, que estão no  Brasil. Ou que estavam na América, no caso das populações da Venezuela.    Daí deu para o mestrado e o doutorado, eu uso as mesmas populações. Mas dai  já com DNA mitocondrial. Então eu acho que o meu estudo com DNA mitocondrial,  que foi publicado ainda na Human Biology em 1997, foi o primeiro estudo de DNA  mitocondrial com populações não norte americanas, não europeias.    E são sequências que podem, assim... por isso que eu digo, a questão da  evolução da tecnologia é uma coisa impressionante. Aquele dado do DNA  mitocondrial pode ser usado até hoje. Porque aquilo lá, se alguém quer  estudar população de descendentes de escravos, pode pegar aquelas sequências  e usar. Sabe? Então é um dado absolutamente fidedigno, pode usar ad eternum,  que serve, que se presta pra isso.     DENT: E essas amostras que o colaborador da Venezuela mandou...    BORTOLINI: Professora Zulay Layrisse, é uma pesquisadora muito importante,  casada com um pesquisador importante da Venezuela. Eram acordos com o pessoal do  Salzano, naquela época se fazia muito isso. E teve uma amostra que eu mesma  coletei, isso também é uma novela. Fiquei sabendo, através de uma reportagem  na Zero Hora, uma tia minha falou: &amp;quot ; ah, você está estudando grupos, eu vi uma  reportagem na Zero Hora de um grupo chamado Paredão. Aqui no interior.&amp;quot ;  Perto  daqui, na subida, na grande Porto Alegre.     E eu fui até lá com o meu marido. Foi difícil coletar com eles, coletar  deles. E a gente teve que conversar, na época era só consentimento oral.  Porque a gente não tinha, né? Explicar foi muito difícil. Assim, eu consegui  uma amostra, acho que umas 50 pessoas pelo meu cálculo. Hoje é um quilombo,  foi reconhecido, um lugar muito bonito, tinha aquelas famílias.     Mas eu fui lá, simplesmente fui lá e comecei a conversar com eles. E consegui  de alguns, foi assim uma coisa que hoje eu não faria, hoje não teria ne  sentido fazer, né? Trabalho com outros tipos de amostragem.     E na época eu fui, e o Clenio [Doete Machado] foi também. Fui umas duas vezes  e teve uma coisa que me incomodou muito lá na comunidade. É uma comunidade  muito pobre e eles pediam coisas, e então eu não me senti muito confortável  também. Faz uma coleta, mas são pessoas pobres, eu vou utilizar material  biológico deles para fazer meu estudo, eles não vão ganhar nada com isso.  Não gostei, não gostei.     E aí, bom, foi essa experiência que eu tive lá. A gente coletou, usamos muito  esse material para estudos, né? Mas fiquei com essa sensação desagradável,  de ausência de retorno para a comunidade, de alguma coisa. E hoje, a questão  da pesquisa científica, acho que já tem que ter um protocolo aprovado por um  Comitê de Ética, com o consentimento assinado pela pessoa. Se sabe que não se  pode dar nada em troca, são voluntários.     Então, naquela época, eu me sentia desconfortável por não dar nada em troca.  Dava umas bolachinhas para as crianças que cercavam, assim. Mas eles pediam,  eles pediam comida, que era para levar comida. E eu ficava constrangida. &amp;quot ; Será  que eu levo? Mas aí eu vou estar comprando.&amp;quot ;  &amp;quot ;  Levava, assim, umas coisinhas  para as crianças, né?     Hoje, se eu fosse fazer, eu não poderia levar nada, nem um copo de água para  eles. Então eu não gostei, assim. Essa, digamos assim, utilização de uma  comunidade pobre para estudo científico, com pessoas sem capacidade de  entendimento do que tu estás fazendo, não sei.    Por isso eu acho que está muito certo em ser avaliado por um Comitê de Ética.  E na época eu me questionei pessoalmente, não tinha Comitê de Ética.  Conversei com a minha orientadora, com o professor Salzano. &amp;quot ; Não, é assim  mesmo. Tu tens que conseguir um consentimento deles, os maiores de idade.&amp;quot ;  &amp;quot ;  A  gente não coletou de crianças. E o consentimento oral é o que vale.     A pessoa tem que ser um voluntário, tem que entender que é um estudo de uma  Universidade. Um chegou a dizer que iria vender o sangue na Santa Casa. &amp;quot ; Tu vais  lá para Porto Alegre vender o sangue na Santa Casa.&amp;quot ;  &amp;quot ;  Eu disse: &amp;quot ; Não, não  vai ser isso. É um estudo para saber a origem de vocês e tal.&amp;quot ;     DENT: E, assim, explicava o estudo? Como explicavam para uma pessoa?    BORTOLINI: Ah, eles sabem. São pessoas muito pobres, né? &amp;quot ; Eu estou estudando a  história dos negros do Brasil. Vocês formam uma comunidade remanescente,  vocês conhecem a sua história?&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, ex-escravos e tal.&amp;quot ;  &amp;quot ; Então é isso, pelo  sangue a gente consegue ver algumas coisas interessantes sobre a sua origem e  tal.&amp;quot ;  E uma coisa que eu fiz (foi o professor Salzano que disse que era para eu  fazer), era retornar com o sistema sanguíneo, né? A tipagem do sistema ABO  para eles, isso eu que fiz. Hoje é uma comunidade quilombola reconhecida. Lá  tinha uma senhora que era líder, Dona Anita, eu acho, não me lembro bem o nome  dela. Foi ela que me disseram/foi ela que foi o alvo da matéria na Zero Hora e  foi com ela que eu falei. Sem ela não tinha como acessar a comunidade.     Mas te digo que não gostei, não gostei. Justamente por causa dessa questão.  Você ver pessoas pobres, o nível de entendimento certamente era nenhum. E hoje  eu não faria, hoje eu não faria não.    DENT: Então aí a tese de doutorado foi focada nesses estudos de umas...  quantas populações? Eram três? Essas três populações?    BORTOLINI: Eu não me lembro. Eram essas populações isoladas, mais Porto  Alegre e mais Salvador. Aí entravam já de voluntários de bancos de sangue. De  estudos de caso-controle, já tinha grupos trabalhando com estudos  caso-controle. E tinha os voluntários dos controles, né?    E aí já entra essa questão, também, de estudo genético de modo geral,  questão ética já entra mais, o que exatamente. Logo quando começa, assim, a  gente tem que definir bem, para ter os pareceres de ética, o doutorado já tem  que ter. Aí a gente tem que definir exatamente o tipo de sistema que você vai  estudar, e no doutorado já entra essa questão.     Eu já lembro, porque no mestrado eu lembro que a gente, bastava, para as  revistas, a gente dizer que eram voluntários. Que tinham sido voluntários, que  tinham sido convidados a participar. E o que a gente tinha era a informação  oral de que eles aceitaram participar do estudo.    Hoje eles não só tem que... tem que ter o consentimento livre e esclarecido. O  termo esclarecido não está ali à toa, esclarecido tem que se garantir que a  pessoa entendeu exatamente o que a pessoa está querendo dizer. A gente não  sabe exatamente o quanto a pessoa vai entender, mas pelo menos, eu acho que eu  hoje me sinto muito mais confortável em coletar...    Tanto que eu vim coletar depois só agora no CANDELA, nunca mais coletei. Eu me  sinto muito mais confortável. Meu conforto sobe, assim, exponencialmente na  medida em que eu percebo que as pessoas estão entendendo o que a gente está  fazendo. Então, CANDELA que já pegou uma amostra de pessoa com nível de  escolaridade superior, as pessoas vindo buscar aquela questão de ancestralidade.    Então aí sim eu me sinto muito confortável em fazer coleta. Então voltei a  fazer coleta, desde essa época, nos anos 90, só agora. Porque é isso que eu  te digo, naquela época eu achei que aquilo não estava muito certo. Era o  procedimento e todo mundo fazia, todo mundo fazia assim.     Chegava na comunidade, falava com a liderança, pediam autorização,  perguntavam para as pessoas se elas aceitavam participar de um estudo.  Explicavam mais ou menos o estudo, fazia a coleta, agradecia a pessoa em um  paper que eles nunca iriam ler, enfim.    DENT: E sabes se esses dados foram usados no processo para assegurar [a  identidade da comunidade?]    BORTOLINI: [Não sei, acho que não]. Porque, esse tipo de discussão, acho que  aparece no Brasil no final dos anos 90, anos 2000 né? Acho que não foram  usados, acho que não. Acho que foi político.    [Pausa -- áudio 2]    BORTOLINI: Aonde é que nós paramos? Eu não lembro mais o que eu estava falando.    DENT: Estava terminando um pouco de explicar como mudou, que agora se sente mais confortável.    BORTOLINI: [Mas eu] levei quantos anos? 20 anos para voltar a fazer coleta. Esse  sentimento que eu não me sentia confortável, que as pessoas não estavam  entendendo direito o que eu estava fazendo. Era uma comunidade pobre, eu não  sabia como manejar essa coisa de pobre. Eu estou tendo a participação como  voluntário deles no meu projeto de pesquisa, eles são muito pobres.     Eles pedem coisas, para mim dar para eles, eu não sei se eu dou ou se não dou,  se eu posso dar, se eu não vou estar comprando se eu dou, sabe? Ao mesmo tempo  se sente muito mal por não dar, porque estão te pedindo coisas muito simples,  comida. Então foi algo, assim, eu me deparei com uma situação que realmente  eu não gostei. Não gostei, não gostei.    DENT: E comentou que desde essa época já mudou um pouco, bom, bastante, a  regulação por parte da universidade, tanto como o governo. Quando iniciou essa  mudança para ser uma coisa mais formalizada, ou a instituição dos Comitês de  Ética, por exemplo. Lembra mais ou menos, se foi durante o [doutorado?]    BORTOLINI: [Foi durante] o doutorado, porque daí eu já estava trabalhando com  essas amostras e eu tive que argumentar. Porque um dos primeiros pareceres de  ética, eu posso até ver qual é o primeiro que eu tenho sobre o estudo de  populações negras, mas eu acho que é de 1997. Eu argumento que eu vou usar  amostras que eu já tinha coletado e que eu tinha conhecimento oral.     Então, na verdade, o Comitê de Ética, naquela ocasião, ele me deu ok para  usar amostras que eu já tinha coletado. E eu tinha o consentimento oral. Então  eles me atestaram que eu podia usar as amostras, baseado no meu relato, que eu  tinha feito o contato e a coleta seguindo os procedimentos, os cuidados,  seringas descartáveis, com pessoal treinado. Foi o Clenio que foi fazer a  coleta, com muita...     E aí eles me deram. E aí eu continuei usando esse parecer de Ética durante o  meu doutorado inteiro, essas amostras. Depois eu não usei mais. Mas durante o  doutorado inteiro, deu cinco artigos científicos, todos com essas amostras.  Essas amostras dos isolados e também de grupos urbanos, que foi aí de  colaboradores. Esses estudos de caso controle, que passavam as amostras dos  controles para ampliar os estudos.     DENT: E comentou um pouco sobre o ambiente na universidade durante a  graduação. Como mudou? Como foram as mudanças durante o doutorado?    BORTOLINI: Ah, foi assim: o que eu percebi foi que, a dinâmica das  complicações eram diferentes. Embora, como eu sempre fiz parte do grupo do  professor Salzano, o professor Salzano sempre teve uma dinâmica diferenciada do  resto, ele estava à frente do seu tempo. Ele já tinha essa noção da  importância da comunicação, que tem...     Afinal, tu faz ciência, tem que chegar na comunidade científica. Então não  adianta ficar se enrolando. Porque mesmo o departamento, a gente tinha alguns  professor ou orientadores que já se aposentaram, que já saíram, grandes  pesquisadores, tinham um jeito de fazer ciência, um jeito mais antigo. Nunca  publicavam, meio o saber pelo saber.    Bom, muito bom o saber pelo saber. Mas qual é o sentido público? O mínimo é  que tu tens que dar o retorno, pelo menos para a comunidade científica. Então  essa coisa, o professor Salzano passou muito. Então, no caso do grupo, com a  influência do professor Salzano, embora eu não era orientada direta dele, mas  a professora Tania tinha sido e era do grupo, já passava essa ideia de que  ciência se faz com os pares.     Então tem que publicar teu achado, não tem que ficar redemunhando com ele pelo  resto da vida e botar em uma gaveta. Ainda mais naquela época, que as teses iam  para as bibliotecas e ninguém lia. Hoje não, hoje as teses estão nos bancos  de teses. Mas naquela época, faltou, né?     Então essa, eu nunca tive problema em publicar, sempre publiquei. Mas isso foi  uma revolução, essa questão das publicações, porque hoje atinge todo mundo.  Hoje quem não se adequa, até aquilo que tu estavas falando, talvez em algumas  áreas isso não esteja fazendo bem para a ciência brasileira.     Talvez para algumas áreas não seja bom, ou talvez nem sempre isso é bom,  porque as pessoas podem artificialmente picotar seu trabalho para aumentar o  número de publicações e a pessoa acaba perdendo o... Então isso se discute  no Brasil. E acho que tem que ser discutido, porque grandes descobertas  científicas podem envolver muito tempo de muita dedicação, e não coisas picotadas.    Mas, felizmente, eu acho que a gente nunca utilizou esse artifício, aumentar o  número de papers, né? Não passou pela nossa cabeça fazer isso. Mas o que eu  noto é que os jovens, que já vêm na iniciação científica hoje, já vêm  com ideia de paper na cabeça. Querem paper e os professores já estão muito  com isso também.     É o que eu tento passar para os alunos também. Fazer ciência, tu podes ficar,  assim, achando massa. É bom, tu te enriquece, mas tu tem que dar o retorno para  a comunidade científica daquilo que tu fez para ver se... botar para ser  discutido. Se não, não é ciência, né? Mas já, desde aquela época, no  grupo do professor Salzano já era assim. E isso foi bom.    DENT: E o ambiente mais geral? Assim, os protestos? Porque durante todo esse  tempo estava acabando a ditadura militar. Como estava? Não sei se já entrando  no doutorado...    BORTOLINI: Não, isso foi durante a graduação. Depois, no doutorado, eu já  estava fora disso. Embora casei com um militante político, eu estava fora  disso. Só me envolvi com isso na graduação. Depois já no mestrado e  doutorado já não. Já tinha criança também, já tinha bebê. Eu já não me  envolvi mais com política, militância política. Mas na graduação sim.    DENT: Em que ano entrou para fazer o mestrado?    BORTOLINI: O mestrado eu entrei em 87. Aí eu já estava só pensando em  carreira acadêmica, trabalhar, ganhar dinheiro e sustentar meu filho. Eu não  estava mais pensando em política, não estava mais nessa.    DENT: E aí depois de terminar o doutorado, entrou diretamente...    BORTOLINI: Não, aí foi muito interessante, assim. Porque o seguinte, eu tive  muita sorte. Eu terminei meu doutorado em &amp;#039 ; 96, em agosto de &amp;#039 ; 96 eu defendi o  doutorado. Em dezembro, ou em novembro, teve concurso. Então além... e depois  do doutorado eu tive uma bolsa de pós-doutora da Fapergs.     Então eu não fiquei sem receber nenhum mês. Eu pude, naquele tempo da bolsa  de pós-doutora, eu pude ficar estudando para a prova. Aí eu fiquei estudando,  botei uma escrivaninha no meu quarto, Pedro era pequeninho e eu fiquei  estudando. Aí ele passava e ficava: &amp;quot ; mas o que tu tanto estudas?&amp;quot ;  &amp;quot ;     Passei, mas foi sorte. Terminei o doutorado e abre um concurso. &amp;quot ; Vou fazer.&amp;quot ;  Aí  fiz e passei.     DENT: E qual era o processo de um concurso nessa época?    BORTOLINI: Tinha 20 candidatos, na ocasião. Era como é agora, era muito  disputado, só que... Era muito disputado, vinha gente de outros lugares. Tinha  vários colegas aqui da UFRGS que estavam terminando doutorado também, eram  doutores fazendo. Não, tinha mestres também. Naquela ocasião não precisava  ter o título de doutor, não. Tinha mestres e doutores fazendo. E aí me saí  melhor, né? Passei.     DENT: E, nessa época, tinha que definir, para entrar no concurso, uma linha de pesquisa?    BORTOLINI: Não, era geral. Isso tem sido uma regra aqui no departamento,  concursos gerais assim. Eu entrei, eu tirei o primeiro lugar. Eu entrei e, logo  em seguida, chamaram quem tirou o segundo lugar, foi a professora Katia. Logo em  seguida o terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo. Sei quem em dois anos  chamaram sete pessoas.    Foi uma coisa, assim, nunca mais na história da humanidade vai acontecer, era  uma vaga. E se aposentou um monte de gente, todas as vagas voltaram para o  Departamento de Genética, e o concurso estava válido. Então até a sétima  colocada pode entrar naquela ocasião, depois daquilo nunca mais.     Hoje, inclusive, as vagas nem voltam para o departamento. As vagas vão para a  universidade, a universidade que daí... Naquela época, todas as vagas do  departamento que tinham se aposentado nos últimos, sei lá, cinco, dez anos,  voltaram em peso. E aí tinha um concurso valendo, válido. Eu tinha entrado,  já estava nomeada.     E aí começou. Segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo. Até o  sétimo candidato, colocado entrar no concurso.    DENT: E a maioria das pessoas que entraram, eram orientados...    BORTOLINI: Eu já te digo quem são. Eu, a Katia, o José Artur aqui de cima, a  Fernanda Bered, a Eliane Bandinelli, a Eliane Kaltchuk, lá do vegetal, e a  Carmem Savietto. Sete pessoas que entraram naquele concurso. Desses, quem tem  atuação na pós-graduação sou eu, José Artur, a Fernanda. Atuação forte  na pós-graduação, né?     DENT: E como era o processo para você de entrar? De ser...    BORTOLINI: Mesma coisa, prova escrita...    DENT: Claro. O que eu quero dizer é a transição pessoal de ser estudante,  para ser professora, orientadora. Essa mudança de ser aluna.    BORTOLINI: Isso é interessante. Deixa eu falar com o Claiton um pouquinho, aí  eu quero falar um negócio bem interessante.    DENT: Tá, vamos pausar aqui.    BORTOLINI: Isso, fazer uma pausa.    DENT: Ok.    Fim da entrevista.       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação dessa entrevista são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=bortolini-20140128.xml bortolini-20140128.xml      </text>
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                <text>Profa. Maria Cátira Bortolini, entrevista, 28 de janeiro de 2014</text>
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                <text>A entrevista com Maria Cátira Bortolini foi conduzida no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no dia 28 de janeiro de 2014. Bortolini é professora associada do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na entrevista, a narradora comenta sua trajetória na academia desde a graduação, referindo-se às principais influências que a levaram a escolher a Biologia e, posteriormente, a Genética e a Evolução Humana. Ela descreve as principais mudanças que ocorreram nas práticas acadêmicas ao longo do tempo. Dentre essas mudanças, está a entrada do DNA nas pesquisas em Genética, as novas exigências éticas para coleta e uso de amostras de diferentes populações, a instauração de um Comitê de Ética com suas regras específicas, o aumento da busca por publicações em sua geração de cientistas. Especificamente sobre o campo de pesquisa com populações indígenas, a narradora se dedica a explicar quais são as principais questões de pesquisa do campo e a comentar as novas exigências que tornam cada vez mais difícil a coleta de amostras. Além disso, trata das diferenças que sentiu na transição de aluna à professora/orientadora, profissão que considera também um retorno social pela formação pública e gratuita que teve acesso desde a graduação até o doutorado. Nesse mesmo sentido ainda, conta como foi ter passado em um concurso logo após o término do doutorado, ter conseguido um laboratório próprio logo no início da carreira e por ter sido convidada por Salzano a publicar um livro por meio de uma universidade importante. Dedica-se, ainda, a explicar o que entende por Genética antropológica e histórica - maneira que classifica sua atuação - e a descrever suas práticas interdisciplinares e experiências de colaboração com pessoas de diferentes campos e países. Comenta ainda as principais dificuldades e barreiras encontradas no diálogo com cientistas sociais, que se dariam em torno da “diversidade biológica”. Finalmente, comenta ainda sobre sua experiência na tradução da ciência para a mídia leiga e em seu pós-doutorado em Londres, além de listar os trabalhos, tanto os próprios quanto os do professor Salzano, que considera os mais importantes.</text>
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              <text>    5.4      Prof. Sandro Bonatto, entrevista, 22 de julho de 2014   1:45:48   História Oral da Genética Humana     História Oral da Genética Entrevista realizada na pesquisa de doutorado de Rosanna Dent, em história e sociologia da ciência na Universidade de Pensilvânia. Ela foi aprovada pelo CEP da UFRGS, (CAAE: 19496413.0.0000.5347) e recebeu financiamento do Fulbright – IIE/CAPES, e o Social Science Research Council—International Doctoral Research Fellowship com recursos da Fundação Mellon.   O processamento dessa história oral recebeu o apoio do CNPq e do NJIT. Uso aprovado pelo COEP/UFMG (CAAE: 57344322.1.0000.5149)     laboratório  DNA  povoamento das Américas  zoologia Sandro Bonatto Rosanna Dent .mp4 bonatto-20140722.mp4 1:|13(8)|25(8)|38(1)|50(4)|62(2)|75(3)|88(6)|101(6)|114(9)|127(11)|142(7)|156(1)|167(5)|181(2)|192(8)|205(8)|217(13)|227(2)|240(4)|254(12)|268(2)|282(5)|295(11)|308(4)|320(10)|331(12)|343(9)|354(4)|365(14)|376(1)|387(1)|397(12)|410(12)|423(7)|434(7)|444(11)|455(10)|466(6)|478(2)|489(9)|501(2)|511(5)|523(3)|534(10)|544(2)|558(4)|566(3)|580(9)|595(2)|606(7)|620(4)|635(15)|645(13)|658(15)|668(7)|680(8)|695(1)|705(8)|719(6)|731(15)|742(10)|754(11)|764(4)|776(2)|789(2)|799(6)|811(13)|822(5)|833(1)|844(4)|860(7)|870(8)|881(8)|892(10)|902(8)|913(2)|923(10)|934(4)|947(8)|957(12)|967(9)|979(13)|992(3)|1000(11)|1012(9)|1024(14)|1037(3)|1052(1)|1062(6)|1077(5)|1087(9)|1100(4)|1112(4)|1121(8)|1132(12)|1143(12)|1154(1)|1166(6)|1178(9)|1187(12)|1199(6)|1211(3)|1222(9)|1238(5)|1261(8)     0   https://youtu.be/wtlt_mKZFZ4  YouTube         audio    pt-br     0 Bonatto fala de família, gosto por ciência e educação   Então… Bom, eu venho de uma família, de uma cidade muito pequena do interior do Rio Grande do Sul.  &amp;quot ; Então, depois a gente veio aqui pra Porto Alegre pra estudar na Universidade e tal.  &amp;quot ; E… Na verdade, eu, meu campo inicial, meu interesse inicial em ciência nem era tanto Genética, na verdade, né?         concepção de ciência ; economia moral ; valores   economia moral                       128 Bonatto fala sobre experiência e interesses na graduação             Afeto ; economia moral ; entusiasmo ; formação acadêmica ; iniciação a pesquisa ; Mudanças importantes na ciência ; mudanças na teoria ; vocação   Afeto, formação acadêmica ; economia moral ; Mudanças importantes na ciência                       233 Bonatto fala sobre seu interesse em evolução e trajetória zoologia             Afeto ; entusiasmo ; Formação Acadêmica   Afeto                       276 Bonatto fala sobre mestrado e início mudança para genética             Afeto ; diversidade biológica ; entusiasmo ; evolução humana ; formação acadêmica ; Instituições de formação ; mestrado   Afeto ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica                       348 Bonatto sobre descobertas que o levaram a mudar campo de pesquisa             Diversidade Biológica ; evolução humana ; Mudanças importantes na ciência ; prática ; técnicas de pesquisa   Diversidade Biológica ; Mudanças importantes na ciência ; prática                       390 Bonatto fala sobre descoberta, fascínio e mudança de foco para área de evolução e genética           Afeto ; diversidade biológica ; entusiasmo ; paixão pelo trabalho   Afeto                       459 Bonatto fala das várias etapas de sua formação científica           ambiente político ; Contexto Político-Economico ; diversidade humana ; doutorado ; evolução ; Formação Acadêmica ; indígena ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Contexto Político-Economico ; diversidade humana ; Formação Acadêmica ; Práticas ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       650 Bonatto fala da ida como conheceu e se inseriu no departamento e Salzano             afeto ; Diversidade biológica ; doutorado ; entusiasmo ; evolução humana ; formação acadêmica ; Gênero ; indígena ; instituição de formação ; instrumentos ; miscigenação ; Mudanças importantes na ciência ; orientação ; Raça, Etnia e Identidades ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; vanço técnico transformador   . Prática ; Diversidade Biológica ; formação acadêmica ; Gênero ; Raça, Etnia e Identidades                       839 Bonatto conta da montagem do laboratório para pesquisas em DNA e seu tema de doutorado           Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; fator externo à pesquisa ; Formação Acadêmica ; instrumentos ; Prática ; técnicas variablilidade genética   Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Prática ; técnicas de pesquisa                       945 Bonatto fala sobre experiência na graduação, do contexto universitário sob a ditadura militar e do início do interesse pela pesquisa em evolução             Afeto ; concepção de ciência ; concepção de cientista ; Contexto Político-Economico ; ditadura ; Diversidade Biológica ; economia moral ; entusiasmo ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; iniciação à pesquisa   afeto ; Contexto Político-Economico ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica                       1518 Bonatto explica a sua mudança da entomologia para a genética e para estudos em seres humanos           Avanço técnico transformador ; classificação da diversidade biológica ; Diversidade Biológica ; doutorado ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; prática ; processamento de dados ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; prática                       1890 Bonatto fala da experiência de pesquisa nos EUA e de como isso transformou a sua agenda de pesquisa           ancestralidade ; Avanço técnico transformador ; classificação diversidade biológica ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; coleta de dados ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; doutorado ; etnia ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; grupo continental ; indígena ; Instituições de formação ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; troca de amostras ; viagem   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       2746 Bonatto comenta sobre coleta e análises de amostras biológicas nos EUA e aspectos éticos formais e informais para seu uso           colaboração e acordos ; coleta de dados ; Ética ; ética formal ; Formação Acadêmica ; grupo continental ; orientação ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa ; troca de amostras   Ética ; Formação Acadêmica ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       3052 Bonatto discorre sobre experiências acadêmicas e pessoais durante o doutoramento na UFGRS e estágio nos EUA           Afeto ; colaboração e acordos ; doutorado ; experiência afetiva ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; orientação ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho ; técnicas de pesquisa   Afeto ; Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3421 Bonatto fala da sua experiência e desafios como professor universitário e pesquisador no Brasil           concepção de cientista ; Diversidade Biológica ; Economia moral ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; instituição de fomento ; Instituições de formação ; instrumentos ; orientação ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; rotina de trabalho   colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Prática ; Redes científicas e circulação                       3859 Bonatto diz da importância da interdisciplinaridade para os estudos sobre genética e evolução humana           antropologia ; Avanço técnico transformador ; classificação diversidade biológica ; colaboração e acordos ; Diversidade Biológica ; doutorado ; evolução humana ; Formação Acadêmica ; história ; instrumentos ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Diversidade Biológica ; Formação Acadêmica ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Redes científicas e circulação                       4665 Bonatto comenta spbre o papel de Salzano e do Departamento de Genética da UFRGS para o campo da genética das populações           Afeto ; Avanço técnico transformador ; colaboração e acordos ; concepção de cientista ; Contribuições importantes à ciência ; Diversidade Biológica ; economia moral ; evolução humana ; grupo continental ; indígena ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; ontribuições importantes à ciência ; orientação ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; relação afetiva com colaborador ; técnicas de pesquisa ; técnicas variablilidade genética ; valores   Afeto ; Diversidade Biológica ; Economia moral ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       5091 Bonatto explica algumas transformações na genética com a genômica e as dificuldades de pesquisa no contexto brasileiro           Avanço técnico transformador ; coleta de dados ; Contexto Político-Economico ; fator externo à pesquisa ; indígena ; instrumentos ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; processamento de dados ; publicações ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação ; técnicas de pesquisa   Contexto Político-Economico ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       5668 Bonatto comenta sobre o uso de amostras antigas e as condutas de pesquisa e limitações nos estudos com populações indígenas atualmente           Afeto ; classificação diversidade biológica ; colaboração e acordos ; coleta de amostras ; coleta de dados ; desconforto ; Ética ; ética formal ; ética informal ; etnia ; grupo continental ; indígena ; orientação ; paixão ao trabalho ; Prática ; processamento de dados ; Redes científicas e circulação ; resistência do pesquisador ; técnicas de pesquisa   Afeto ; Diversidade Biológica ; Ética ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação                       6098 Bonatto reflete sobre a sua prática científica            Afeto ; Avanço técnico transformador ; coleta de dados ; elação afetiva com sujeitos humanos ; ética formal ; indígena ; Interdisciplinaridade ; medicina ; Mudanças importantes na ciência ; paixão ao trabalho ; Prática ; processamento de dados ; Raça, Etnia e Identidades ; Redes científicas e circulação   Afeto ; colaboração e acordos ; Economia moral ; Ética ; Interdisciplinaridade ; Mudanças importantes na ciência ; Prática ; Raça, Etnia e Identidades                       oral history Sandro Bonatto, biólogo, explica a origem dos seus interesses científicos. Conta como ele estudou genética relacionado à filogenia, o que o levou à aprovação de um projeto de doutorado nos Estados Unidos, mas a escolha eventual de ficar no Brasil para os estudos de pós-grado. O narrador monta um laboratório para esse objetivo e por fim conseguiu estudar o povoamento da América com uso de DNA. Parte do seu estudo discute o povoamento da América e uma hipótese apresentada foi a de houve um povoamento inicial na Beríngia e que depois houve o povoamento das Américas em seguida e não há hipótese de que os primeiros habitantes vieram direto da Ásia para a América ;  esse trabalho foi realizado com o material genético colhido por Dr. Salzano, em suas pesquisas. O narrador relata sua transição da entomologia para a genética e a continuidade da ausência de trabalhos de campo e sua relação com processo de ética em estudos com indígenas. Bonatto relata sua atuação na genética humana na PUC, onde tem relação com o departamento de Zoologia e que o limite inclusive é a falta de alunos de pós-graduação para orientar. Bonatto também lembra da construção da genética na PUC, o qual se esforçou para a construção do laboratório junto ao Projeto Genoma. Reclama que ser professor reduz as possibilidades na pesquisa, inclusive o tempo para dedicação.   Essa entrevista diz respeito à genética das populações e à história do povoamento nas Américas e as dificuldades que se tem hoje de fazer análise de dados e fazer com que o estudo seja mais avançado. Além disso, mostra a relação do professor Salzano com outras áreas de conhecimento de estudo que não necessariamente era a sua área principal.   DENT: Então hoje, no dia 22 de julho de 2014. Eu sou Rosanna Dent, doutoranda  em História e Sociologia das Ciências na Universidade de Pensilvânia. E tenho  o prazer de conversar hoje com o professor Sandro Bonatto da Universidade, da  PUC. Estamos aqui no campus da PUC hoje em Porto Alegre. Então, professor,  muito obrigada por seu tempo. [risos]    BONNATO: Não por isso.    DENT: Eu queria iniciar só pedindo para você nós fazer um apanhado do seu  interesse na Genética. Quais eram os impactos, o âmbito familiar, de criança,  que primeiro se interessou na ciência? [risos]    BONNATO:[Certo] Então-- Bom, eu venho de uma família, de uma cidade muito  pequena do interior do Rio Grande do Sul. Então, depois a gente veio aqui para  Porto Alegre para estudar na Universidade e tal. E--Na verdade, eu, meu campo  inicial, meu interesse inicial em ciência nem era tanto Genética, na verdade,  né? Eu sempre gostei muito de ciências, a gente-- Meu irmão é professor de  Física e de Astrofísica ali na universidade federal também, então na nossa  família sempre teve um interesse em Física. Apesar de os meus pais, na  verdade, nem terem educação, muitos anos de educação. Eles eram do interior  e tal, mas sempre achavam importante isso. E um dos motivos por que que a gente  veio para capital foi exatamente para permitir que a gente estudasse em bons  colégios, para poder depois fazer uma boa universidade. Então a gente sempre  teve muito interesse em ciência. E ele foi para área da Física e eu gostei,  gostava muito de Biologia e tal, então resolvi fazer, trabalhar com Biologia.  Mas não sabia exatamente qual área, em quê da Biologia, né?    E no começo, eu me interessei muito, e tanto que durante a graduação, eu  comecei a trabalhar com Zoologia, com animais. Mais especificamente com insetos,  entomologia. Então durante toda a minha graduação, eu trabalhei com a parte  de insetos. E tive disciplinas de Genética, mas eu não gostei da Genética na  época. E o motivo é que eu comecei a estudar... Quando comecei a ler muitos  livros e começar a ter uma ideia do que que era a Biologia, quais as áreas  mais interessantes, eu gostei muito de evolução, então comecei a ler  pessoalmente muito sobre evolução. E na época, a Genética tinha muito pouco,  pelo menos as disciplinas da graduação, tinham muito pouco de evolução. Era  muito, e principalmente, o que tinham de evolução era mais essa  microevolução, assim, genética das populações clássicas, de equilíbrio de  Hardy-Weinberg. E eu não me interessava muito por aquilo. Eu não via muito  evolução na Genética. Conversando com meus professores, impressão que  ninguém fazia-- Não conhecia o Salzano ainda. O Salzano não dava aula para  gente. Eu não conhecia ninguém que fizesse evolução no sentido mais-- Na  época, não se trabalhava muito com evolução, microevolução então-- Não  me interessei por nenhum grupo que pudesse, de pesquisa, no departamento de  Genética, que tivesse fazendo alguma coisa que me parecesse mais evolutiva,  né? Era muito microevolução e tal, e não me interessei muito. E aí  continuei na Zoologia, né?    Mas sempre estudei muito, sozinho, a parte de filogenia, de evolução de  grandes grupos. Me interessava por essa área e achei que a Zoologia era o  melhor caminho, assim, né? Para fazer isso. Depois, eu acabei continuando nessa  área, e durante o mestrado, eu fui fazer mestrado em entomologia, em  sistemática de insetos. E é isso que eu fiz durante [risos] o meu mestrado.  Mas eu realmente sempre lia muito e me interessava muito pela parte da  filogenia, a parte da evolução da sistemática. Não tanto a descrição de  espécies, a parte mais tradicional da taxionomia, mas mais me interessava mesmo  pelo aspecto evolutivo.    Bom, e estava, assim, trabalhando com isso e etc. Mas como eu gostava dessa  parte de filogenia e estudava sozinho, quando eu estava fazendo mestrado lá na  faculdade de Curitiba, no Paraná, eu conhecia várias pessoas e tal, e aí  conheci uns professores da Genética lá de Curitiba. E aí eles disseram: &amp;quot ; Pô,  a gente não tem ninguém aqui, no departamento, que trabalhe com a parte mais  de filogenia e evolução&amp;quot ; . E aí me convidaram, disseram: &amp;quot ; Não quer dar uma  palestra sobre como usar dados genéticos para fazer evolução e filogenia já  que a gente não tem nada, ninguém aqui?&amp;quot ;  Eu, aluno de mestrado, né? Mas  gostava muito disso e disse: &amp;quot ; Tudo bem, posso fazer, mas vou ter que ler um  pouquinho. Deem alguns, uns dois meses para eu ler mais sobre isso.&amp;quot ;  Que eu  realmente na época não estava, não estava lendo muito sobre a parte dos dados  genéticos. Eu achava que não tinha muito, não tinha muita conexão. E aí  comecei a ler, né, peguei alguns artigos.    Nesse sentido, foi aí que minha vida mudou em termos de carreira científica.  Porque eu comecei a descobrir artigos recentes que estavam saindo sobre  filogenia. Filogenia molecular usando dados de DNA, que eram, estavam recém  saindo na época, né? para fazer estudos dos insetos mesmo, entre outras  coisas. E junto com isso eu descobri estudos, os mesmos estudos que estavam  também na época de evolução humana usando DNA mitocondrial. Que foi aquela,  na época lá, da década de 1980. Começo da década de 80 com Mark Stoneking  lá, né? Pessoal do Wilson etc.    E aí isso, aquilo ali me fascinou totalmente, porque aí eu vi que realmente o  que eu... Como eu me interessava muito por evolução, e também por processos  evolutivos, mas mais a longo prazo assim, história evolutiva de populações  mais a longo prazo... E quando eu comecei a ver aqueles artigos, que eles faziam  exatamente o que me interessava... Não só a filogenia de como os grupos  evoluíam dentro e entre os continentes, mas a gente poderia também trabalhar  com tamanho da população e estimar rotas migratórias e tal. Realmente eu não  imaginei que desse para fazer isso, porque na época-- Aí eu, de certo modo,  parei a minha tese de descrição de insetos e coisas assim e comecei a ler  centenas de artigos, não só para fazer a palestra, mas principalmente porque  aquilo era realmente o que me fascinou muito.    Então com isso, eu descobri que, sim, dava para fazer muitos estudos  interessantes de evolução usando dados moleculares de DNA. E essa área  principal seria a área da Genética e tal.    Bom-- Eu já estava pensando em fazer um doutorado no exterior, nos Estados  Unidos basicamente, né? E aí nessa época então eu fui, contatei vários  pesquisadores nos Estados Unidos para tentar, né, me candidatar a um programa  de doutorado. Por vários motivos, eu acabei sendo selecionado e acabei  escolhendo ir para Nova Iorque, para a Universidade de Nova Iorque, lá que  fazia... Na época, eu não achava que eu poderia trabalhar no doutorado, pelo  menos sozinho, fazendo um estudo de evolução humana. Pelo menos não de  indígenas, porque não conhecia ninguém aqui, assim, diretamente. Não tinha  amostra, não tinha nada. Aí eu resolvi trabalhar mais com a parte de filogenia  molecular mesmo no primeiro momento de doutorado e aí Nova Iorque era um ótimo  lugar. Por causa [inaudível] americanos e tal, que é centro dessa área.    Muito bem, aí fui fazendo isso, estava acabando o mestrado, e aí apliquei para  uma bolsa do CNPq, essas de doutorado integral. E obviamente demora vários  meses até esse processo se concluir, normalmente. Em situações normais.  Então nesse tempo que eu estava finalizando o mestrado, até sair as respostas  e até as coisas burocráticas se encaixarem, eu-- O pessoal daqui da Genética  de Porto Alegre, mas a maioria do pessoal trabalhava com... Não sei se tu  conheceu, deve ter ouvido falar da Helga Winge, que trabalhava com plantas e  tal, né? Ela me convidou para ficar alguns meses aqui em Porto Alegre, nesse  intervalo antes de ir para o exterior, para ensinar e ajudá-los a fazer  filogenia com dados moleculares que eles estavam obtendo, né, com as plantas. E  também não tinha muito conhecimento. Eu disse: &amp;quot ; Tá, ótimo, volto para Porto  Alegre, fico alguns meses aqui e, né, me preparo para quando sair da bolsa,  sair tudo direitinho, eu vou pros Estados Unidos.&amp;quot ;  Bom, vim, né?    E aí, que que aconteceu? Aconteceu um desses planos econômicos brasileiros...  Na época de hiperinflação, teve vários planos econômicos tentando resolver  o problema da hiperinflação. E um desses planos, justamente nessa época, fez  foi que o governo congelou, né? Assim, bloqueou o uso de verbas, diminuiu  durante, sei lá, não me lembro quanto, muitos e muitos meses. Então, eu  recebi a notícia que eu tinha ganho a bolsa integral, só que ela não seria  liberada agora. Seria liberada dali a vários meses, quando o governo voltasse  de novo a liberar verbas etc. E aí eu fiquei mais tempo em Porto Alegre do que  eu estava esperando, né? Fiquei esperando eles liberarem. Eles disseram: &amp;quot ; Tá  certo, tu ganhou a bolsa integral, não tem problema, só que em vez de sair  agora, deve sair daqui a vários meses até quando as coisas funcionarem.&amp;quot ;     DENT: Isso foi em qual ano?    BONNATO: Boa pergunta. Foi 1987, eu acho. É, acho que 1987. Exatamente. Acho  que é, é. Foi mais ou menos por aí. 87, 88. Acho que foi perto de 87.    E bom, então aqui em Porto Alegre, comecei a frequentar o departamento, né? E  conhecer as pessoas, conheci o próprio Salzano, que eu não conhecia  pessoalmente. Mas ainda estava tranquilo assim na ideia de fazer meu doutorado  nos Estados Unidos com outras coisas. Parte molecular, evolução, mas não com isso.    Só que aí eu conheci a Loreta. [risos] Que estava aí, e aí a gente começou  um relacionamento, começou a namorar e tal. Mas assim, a gente realmente  acertamos o nosso relacionamento, tipo um mês antes, um mês assim. Aí um mês  depois o CNPq me disse: &amp;quot ; Pronto, está aí a bolsa, pode ir pros Estados Unidos  a hora que quiser fazer o doutorado integral&amp;quot ; . E aí ela não tinha como, ela  estava no meio do mestrado, tinha família e tal. Fiquei naquela e disse: &amp;quot ; Não,  não vou&amp;quot ; . [risos] Vou apostar no meu relacionamento pessoal e não, não nisso  que eu queria já há muito tempo e tal. Estava tudo certinho, mas aí acabei  desistindo da bolsa.    E eu resolvi ficar então em Porto Alegre, né? E aí, bom, eu tinha que fazer  alguma coisa. Dessa convivência com o Salzano, com o pessoal, eu disse: &amp;quot ; Ah,  vou, vou tentar retomar aquele interesse que realmente me fascinou de estudar  evolução humana usando dados. Mas dados de DNA, dados de sequenciamento  mitocondrial naquele momento, coisa que o pessoal não fazia ali. E vou propor  para o Salzano então, e ver se ele me aceita no doutorado para fazer isso. Aí  ele já me conhecia, e aí ele disse: &amp;quot ; Não&amp;quot ; .    Mas ele disse: &amp;quot ; Não, não para isso. Eu tenho uma proposta para ti que--&amp;quot ;  E  assim como me lembro da... Eles fizeram, ele e a Sidia fizeram, foi doutorado da  Sidia durante-- Um levantamento de todos os estudos de genética de  populações, de indígenas, nativos americanos etc, que saiu aquele livro. Ele  disse: &amp;quot ; Eu quero fazer a mesma coisa para populações urbanas. Estudos de  populações urbanas etc. que tem muita coisa, quero que tu compile e vamos  fazer um livro sobre isso&amp;quot ; . Aí eu disse: &amp;quot ; Não&amp;quot ; . [risos] &amp;quot ; Não estou  interessado nisso, em populações urbanas, em questões de miscigenação e de  coisas, assim, de que acontece. Meu interesse é realmente entender a evolução  mais a longo prazo, questões de povoamento das Américas, como é que os  índios chegaram aqui, como é que os humanos evoluíram. Não, isso eu não  quero.&amp;quot ;  [risos] &amp;quot ; Aí e eu quero fazer isso, eu quero fazer com DNA mitocondrial,  como o pessoal lá dos Estados Unidos está fazendo, e entender etc etc.&amp;quot ;  E ele  me disse: &amp;quot ; Ah, mas a gente não tem nada aqui, não tem laboratório para  sequenciamento de DNA, não tem, não tem condições.&amp;quot ;  Bom, aí eu disse: &amp;quot ; Tá,  eu monto. Faço. A gente faz essas coisas, né? Vamos fazer.&amp;quot ;     Então, então o que eu acabei fazendo é estudando um monte de, assim, dessa  parte de montar o laboratório, de comprar, de começar a comprar coisas  simples, e aprender todas as técnicas de sequenciamento, e toda parte  molecular. E minha experiência era de secar insetos e fazer desenho para  descrever espécie. E a parte mais de fazer filogenia. Mas na prática mesmo, eu  nunca tinha trabalhado com nada de molecular e ninguém no departamento  trabalhava com a parte de DNA e sequenciamento. E aí, bom, e aí foi um longo,  demorou bastante, porque a gente, na época no Brasil era muito difícil ainda.  Conseguir equipamento do exterior, levava muitos meses para importar. Não  tinha, era muito caro. Então a gente tinha que inventar, a gente mesmo  inventava. Ia numa vidraçaria, comprava vidros para fazer sequenciamento e, ou  seja, a gente meio que inventava as coisas. Que dava para fazer. Com pouco  dinheiro e as poucas condições de importação que se tinha e demorava muito  tempo. Então, demorou bastante para conseguir montar um sistema de  sequenciamento que funcionasse razoavelmente bem, né? E aí quando a gente  conseguiu e tal, Salzano concordou, disse: &amp;quot ; Tá bom, já que tu insiste.&amp;quot ;   [risos] &amp;quot ; Não desiste, então vamos fazer, né? Vamos. Concordo&amp;quot ;  e tal.    E aí começou o meu estudo mesmo, a parte de estudar a evolução humana,  principalmente questão do povoamento das Américas usando dados de DNA, dados  genéticos moleculares.    DENT: Poderia voltar um pouco para falar um pouco mais sobre o contexto, assim,  a experiência na graduação? Como era, assim, aquele momento, estar na  universidade? Ainda estava no final da ditadura, né? Tinha algum efeito, como  era a vida diária dentro da universidade?    BONNATO: Então, era o final da ditadura. A gente sabia, obviamente, que tinha  ditadura e tal. E era assim... Eu não senti nenhum tipo de problema pessoal e  nem na Biologia. Porque a Biologia, eu imagino que nas Ciências Sociais,  nessas, né? Nessas áreas talvez pudesse ter bem mais problemas e mais  questões assim relacionadas ao que podia e não podia estudar talvez e outras  coisas. Na Biologia, não tinha, a gente não sentia nada em relação à  pesquisa em si. O ambiente da universidade... A gente não sentia, eu não  sentia nenhum problema. Mas obviamente de vez em quando aparecia.    Tinha um pessoal desconfiava que um que outro aluno pudesse ser um informante do  exército, pela maneira que ele se vestia. Mas assim, nunca foi provado nada, de  vez em quando tinha algumas manifestações relacionadas à questão do retorno  da democracia.    Eu me lembro--Um momento muito assim, que ficou mais claro para mim isso, foi  naquela época, se fazia uma reunião, tipo um mini congressinho de estudantes  de Biologia. Que depois acabou, mas era muito famoso na época. A gente ajudou a  organizar inclusive um ano e tal. Nessa época, a gente convidou principalmente  estudantes do Uruguai. Acho que vieram alguns da Argentina, mas vieram muitos do  Uruguai. Então Uruguai também, né? Também estava sob regime da ditadura, então--    Eu me lembro de uma das festas que se teve. Na época dava para fazer festas  dentro da universidade, nos bares da universidade e tal. Se vendia álcool e  coisa que hoje em dia não pode, né? E então, tinha festa e aquela coisa e o  pessoal começava a cantar assim: &amp;quot ; Vai acabar, vai acabar a ditadura militar&amp;quot ; ,  em espanhol assim, né? Então eu via assim realmente era um problema, era uma  coisa comum a todo mundo. A todos nós. Mas não afetava diretamente.    Acho que realmente a ditadura estava no final e na nossa área não tinha nenhum  problema acadêmico diretamente. Então não, assim, não sentia, não sentia  nenhum tipo de repressão a qualquer coisa que a gente fizesse. Obviamente, eu  nunca fui, não estava ligado em nenhum movimento que pudesse de repente ter  pessoalmente alguma-- Sentir alguma repressão maior. Obviamente, o pessoal mais  da área mais ligado mais à política, dos diretórios acadêmicos, falavam  mais, mas realmente acho que era-- Como eu entrei na universidade em 1980, e em  1980 já não tinha mais muita--    DENT: Já bem mais tranquilo-- [risos]    BONNATO: É, já estava bem mais tranquilo. E como eu disse, na nossa área,  não tinha muito-- Então nesse sentido, não teve, não senti nenhum problema.    DENT: Teve alguma pessoa, algum professor, algum colega, alguma experiência que  foi muito marcante na graduação para, assim, confirmar que você queria ser cientista?    BONNATO: Olha, nenhum em especial, na verdade. O que me marcou, na verdade  mesmo, que eu vi que era isso que eu queria, foi... No começo, acho que é  muito comum. No Brasil, pelo menos, é muito comum isso. Vejo pelos meus  próprios colegas e pelas conversas depois. Nos primeiros meses a gente não tem  certeza se é aquilo mesmo que a gente quer, né? Porque as disciplinas,  principalmente naquela época, as disciplinas iniciais, o primeiro semestre,  segundo semestre, primeiro ano eram muito disciplinas não da área da Biologia  mesmo. Tinhas que fazer outras, Matemática, Química, Física... E coisas  básicas e tal. Então a gente sempre ficava em dúvida. Então nos primeiros  meses, no primeiro ano a gente muitas vezes fica em dúvida. Naquela época, eu  não fazia nenhum... Normalmente, no primeiro ano, não se faz estágios de  pesquisa. Não fazia estágio nenhum e nem sabia que área. Por exemplo, se  fosse fazer pesquisa, que área eu fosse fazer.    Mas o que realmente me marcou foi quando eu conheci a biblioteca. Da  universidade. E aí eu comecei a olhar, eu ia na biblioteca, comecei a ir nas  estantes. As bibliotecas não eram muito grandes. Não são muito grandes as  nossas, mas... Bom, tinham muitos livros antigos e tal. Comecei a olhar os  livros, comecei a ver as lombadas dos livros, aí lá, livro do Darwin de  evolução e outros livros e tal. E só lendo os títulos, já olhava assim:  &amp;quot ; Isso eu quero dar uma olhadinha&amp;quot ; . Aí comecei, começava a olhar os livros. E  depois os artigos, os periódicos.    Mas eu não sabia inglês. Na verdade, né, nossa... O ensino de inglês era  muito ruim. Então não sabia inglês o suficiente para ler um livro normalmente  nos primeiros meses. Aí eu disse: &amp;quot ; Não, vou ter que ler isso&amp;quot ; . Aí eu pegava o  livro, pegava o dicionário. Ficava lendo horas a fio os livros e em, sei lá,  dois, três meses, já estava lendo normalmente. Pelo menos a leitura já nesse  primeiro momento de livros técnicos assim. E aí, assim, eu vi que cada vez eu  queria ler mais e lia outro livro com outro nome interessante de evolução não  sei o quê, ou de alguma coisa interessante. E aí eu vi que realmente eu queria  entender aquilo, queria saber como é que funcionava, queria. Tudo que estava  ali eu estava interessado em entender.    E as bibliotecas nossas, não sei se ainda... A biblioteca da Biologia na época  era separada em duas partes. A parte dos livros e uma segunda parte dos  periódicos. Num primeiro momento, eu nem sabia que existia a parte dos  periódicos, onde se fazia, onde tinham os artigos científicos. E aí um dia eu  passei aquela barreira que tinha lá e comecei a ver os periódicos. E também  comecei a folhear e ver o que que tinha, as áreas de interesse, e aí vi mais  ainda. E aí vi não só o livro, que é o produto final, mas os artigos mesmo.  Como que as pessoas faziam, que tipo de experimento, que tipo de análise, que  tipo de perguntas se poderia fazer. As várias áreas de evolução,  principalmente. E aí eu vi que realmente tinha um campo muito grande.  Evolução de comportamento, evolução de não sei o quê, toda essa parte...    Então, o que realmente me mostrou que eu... para dizer que eu realmente queria  ser cientista, eu vi que eu queria entender tudo aquilo, queria saber, queria  aprender cada vez mais e que eu tinha facilidade. Eu lia, via a metodologia,  aprendia e via como é que funcionava, já queria aplicar e já. Ir atrás e  pegava as referências, ia atrás... Então eu vi que realmente, assim, me  parecia que eu, que a minha mentalidade era bem apropriada para pra estudos  científicos, né? E aí realmente eu comecei a ler muito, ficava horas lendo na  biblioteca livros e periódicos gerais assim, tentando... Li tudo que me  interessava. Como eu não fazia nenhum estágio naquele primeiro ano, um ano e  pouquinho, eu tinha liberdade para pesquisar o que eu quisesse. E não aquilo  que, sei lá, mais apropriado da minha, do estágio que fosse fazer. Então,  então realmente, comecei a.... Li de tudo, li, lia livros de evolução de modo  geral, de sistemática, de métodos de filogenia, evolução do comportamento.  Comecei a ler coisas. De interesse. Eu acho que para mim isso foi muito bom,  porque me abriu bastante, né? Lia e via métodos, e perguntas de todas as áreas.    Então quando eu fui fazer meu primeiro estágio, que no fim, virou um estágio  até o final. Que é sistemática de insetos, taxionomia de insetos. Pessoal do  laboratório só via aquilo, pegava os insetos e via os artigos, os artigos de  1800 e tanto, 1700 que descrevia as espécies. E aí via se era uma espécie  nova ou não, desenhava e tal, descrevia. E eu ficava lendo métodos de  filogenia, evolução do comportamento e tal. Além de toda teoria da  sistemática e [inaudível] na época, [inaudível] filogenética. Porque eu já  tinha começado, já tinha um conhecimento e aí me interessava por essas  questões mais de metodologias modernas e processos e etc.  DENT: Depois de fazer  o mestrado, assim, sobre uma coisa animal, específico, filogenético, né? Como  era a transição para a área de genética humana?    BONNATO: Sim, a parte humana. Olha, como é que eu posso dizer? Eu, assim, em  termos científicos, eu não-- Muita gente me pergunta quando eu digo: &amp;quot ; Ah, eu  sou entomólogo, eu fiz mestrado em entomologia, com sistemática de insetos  e--&amp;quot ; . &amp;quot ; Como que mudou tanto?&amp;quot ;  Na verdade, para mim, em termos, pensando  intelectuais, científicos, não foi uma mudança muito grande.    Eu me interessava por evolução, filogenia de organismos. Os humanos, nesse  sentido, eram mais um organismo, ou seja-- Passar de inseto para humanos só  muda o organismo, mas as perguntas não eram necessariamente muito diferentes.  Nesse sentido, não foi uma transição tão grande assim. Agora claro, a  diferença é que o grau de conhecimento que se tem, de perguntas. A evolução  humana em relação ao que se tem qualquer outro organismo, é totalmente  diferente. Então nesse sentido, o detalhamento que se pode obter em termos  técnicos, científicos, é muito maior. Então, eu vi que enquanto que para  estudar filogenia de um grupo qualquer não existia praticamente nada, em  humanos tem que ler uma quantidade muito grande-- Conhecer muita coisa que tem,  milhares de estudos de várias áreas diferentes etc.    Agora, eu acho que talvez, assim, a transição, ou o impacto não tenha sido  tão grande, porque na verdade, eu não trabalhava com os humanos mesmo. Essa  talvez seja... Eu nunca tive contato com tribos indígenas ou com populações,  com as pessoas mesmo, certo? Então, eu trabalhava com sangues, com DNA que  tinha ali. E como meu interesse era mais de povoamento, ou seja, uma coisa de  quinze, vinte, vinte e tantos mil anos atrás, nem as populações atuais, na  verdade, me interessavam tanto. Eu não estava interessado em entender como os  Xavante, ou como os Suruí, ou como, sei lá, evoluiu especificamente. Na  verdade, representavam amostras de uma história bem mais antiga. Então, e eu  não tendo esse contato direto com as pessoas... Não, assim, nesse sentido,  realmente, era mais um organismo. Se fosse sangue, ou se fosse DNA de humano,  DNA de inseto, em termos científicos, não fazia diferença.    A única diferença é que, obviamente, aquela espécie, a espécie humana, tem  muito mais informação, então as questões são muito mais amplas, muito mais  interessantes. Mas em termos práticos mesmo, não, a minha transição não foi  tão grande. Porque não tive, não tinha que ir nas tribos e conhecer e obter  os resultados, interagir pessoalmente e tal. Então, nesse sentido, não teve--    Acho que imagino que quem tenha passado de uma área de lidar com um  invertebrado, um organismo que não tem praticamente interação nenhuma e  passar para estudar evolução humana ou genética humana, mas interagir  diretamente com as pessoas... Deve ter sido-- É muito diferente, acho, que da  minha experiência. Então, nesse sentido, não teve realmente muito impacto  assim. Não estudando também tanto as populações em si. Também faria-- Acho  que se eu tivesse, se o meu estudo fosse mais voltado a entender uma tribo. Aí  possivelmente teria estudado mais questões de comportamento, mais  antropológicas mesmo. Então, mas como não era, não é o meu interesse  científico, então, aí tinha milhares de coisas para estudar. Mais técnicas,  então no fim, eu acabei não, acho que não tendo essa transição muito  radical. Eu imagino que talvez a Maria Cátira ou outras pessoas que têm mais  contato com questões mais de comportamento ou mais éticos, de repente, isso  possa, sem dúvida, ter mais. É bem diferente da minha experiência, que foi  mais realmente como um objeto de estudo. Do que como entender aquelas pessoas mesmo...    DENT: Poderia explicar um pouco mais sobre a tese de doutorado? Assim, já fez  todo o trabalho para montar o laboratório e aí iniciou o trabalho com DNA  mitocondrial. Poderia explicar um pouco mais o estudo, que que era, qual era o impacto?    BONNATO: Então, o meu objetivo, que eu tinha dito para o Salzano, é que eu  queria realmente entender e estudar o processo de povoamento das Américas.  Então para isso a gente precisava gerar e ter informação do máximo possível  de populações. De onde tivesse o material. Mas naquela época, era tudo muito  difícil. Tanto gerar os dados, quanto obter informações, e não tinha  internet, computadores eram um horror-- A gente nem tinha computador pessoal.  Então assim, então foi um processo bem mais longo do que a gente esperava.    Ou seja, só para gente, uma comparação-- Eu fiz, fiquei quatro meses no  laboratório do Mark Stoneking, lá na Pensilvânia, na Penn State. Então,  naqueles quatro meses, eu, na verdade, interagia com muita gente, fiz um monte  de coisas da parte mais de análise, um monte de coisas. A parte do laboratório  mesmo, de gerar os dados, eu demorei mais ou menos um mês, se tanto, para  fazer. Então, naquele um mês, eu fiz mais do que quatro anos aqui no Brasil.  Pelas condições, né? Ou seja, lá bastava, assim, o material estava sempre  ali, não tinha que esperar meses para vir um material radioativo, que ficava  semanas de alfândega, e aí já tinha que ter-- Conseguir outro, porque já  tinha decaído-- O filme que a gente usava lá era um filme que em dois dias o  material, o sequenciamento saía. Aqui no Brasil, precisava de um mês. Porque  era um filme de baixa qualidade, então para ter a informação, precisava de um  mês. Ficar a radiação atuando no filme. Então, assim, as coisas foram  extremamente mais demoradas. Muito demoradas.    Mas aos poucos, a gente foi obtendo informação, eu fui entendendo toda parte  de análise, da metodologia, de como analisar, inventando coisas e fazendo--  Porque era uma área muito nova, essa área de análise mais populacional, de  usar o DNA mitocondrial para questões como essa assim. Relativamente recente. E  não usar, não só a filogenia, aquela árvore da relação entre as  moléculas, mas também dali tentar entender quando que foi o processo de  colonização, de expansão populacional e etc. Coisa que realmente não era  muito comum na época. Pessoal fazia aquelas coisas mais clássicas. Fazia  filogenia dos humanos como um todo, estimar alguma coisa de quando que era a  raiz da árvore, ou saber quando os humanos, a espécie humana surgiu etc. Mas  essa parte mais populacional e bem mais recente era novidade, então a gente  estava, a gente tinha que inventar coisas, imaginar e tentar usar aquela informação--    Tinha que pegar sequências que estavam publicadas e escrever manualmente lá no  computador, porque não tinha um GenBank com as sequências para gente baixar na  hora e analisar. Tinha que escrever, pegar sequência mesmo de algum trabalho  publicado. Cada um publicava de uma maneira diferente, então tinha que tentar  ainda juntar as coisas e, como eu disse, eu não tinha um computador pessoal na  época. Então tinha que usar um computador da faculdade de Física, que era um  computador velhíssimo e horrível. Então, muito demorado mesmo, muito  difícil. Mas no fim, fui juntando as informações-- Muita, tudo que eu pude  obter de DNA, de sequências, de populações americanas-- Mais de outras  populações, da Ásia, da Sibéria, principalmente, mas da Ásia, para fazer as  comparações--  [pausa] Deixa eu ver--    Que tem de interessante? Assim, num primeiro momento, tinha a grande questão  que tinha na época, era: &amp;quot ; Quantas ondas migratórias?&amp;quot ;  E o que prevalecia, na  época que eu comecei, era a hipótese, teoria das três ondas migratórias lá  do Greenberg. Que cada um dos grupos daqueles linguísticos teria vindo em  momentos independentes etc. etc. E era o que os primeiros estudos de DNA  mitocondrial do grupo do Wallace e outros diziam que sim, que era, comprovava e  que dados de DNA mitocondrial favoreciam essa hipótese. E eu não tinha nenhuma  hipótese. Queria saber o que que ia acontecer. Quando as primeiras análises  que eu fiz primeiro me mostraram que tinha mais, aquela história dos quatro  grandes haplogrupos, eu vi que tinha um quinto haplogrupo. Quando eu juntei,  tinha dois estudos diferentes que davam quatro grupos. Só que eles não tinham  comparado entre si. Quando eu peguei as sequências, anotei, fiz-- Manualmente,  entrei elas, e fiz, junto e vi que, na verdade, um dos grupos não era comum  entre eles. Então na verdade tinha um quinto grupo.    E depois, deixa eu ver-- Quando eu comecei a fazer as análises e comecei a  juntar uma grande quantidade de informação. Eu comecei a ver que esses  haplogrupos, cada um deles tinha uma estrutura muito semelhante entre si. Em  termos da profundidade e da diversidade dentro dos haplogrupos. E é isso que me  chamou atenção. Disse: &amp;quot ; Ah, mas não tem muito sentido isso, se os grupos  vieram em momentos diferentes, não deveriam ter a mesma idade, a mesma [inaudível]&amp;quot ; --    Mas quando o pessoal fazia as primeiras análises, eles pegavam uma tribo ou um  conjunto de tribos, todas as mitocôndrias simultaneamente, faziam a filogenia e  estimavam quando que aquelas sequências mitocondriais nas populações  começaram a diversificar. E obviamente, como a diversificação, o pessoal  encontrava uma idade muito antiga e etc. E eles não conseguiam entender  exatamente como é esse, como é que podia, né-- Se era mais recente, como é  que podia ter um coalescência, uma idade de diversificação muito antiga,  então de repente não houve o bottleneck. E talvez a colonização seja muito  mais antiga ou então, tinha um monte de hipóteses.    O que eu me dei conta era que, se cada haplogrupo tinha uma diversidade  semelhante e uma profundidade semelhante, que talvez o que teria acontecido é  que cada, durante o processo de povoamento no primeiro momento, teriam  sequências, grupos diferentes. E que a diversificação tenha, dentro dos  haplogrupos, acontecido após a colonização. E que esses grupos, os ancestrais  desses grupos, na verdade, já vinha diversificado, ou já vinha pelo menos  separados antes do povoamento. E que estimar a idade de povoamento ou alguma  coisa assim com essa profundidade da relação entre os haplogrupos na verdade  estava estimando coisas que tinham acontecido na Ásia e não durante o  povoamento. E aí eu comecei a fazer umas análises, foi a primeira vez acho que  alguém fez uma análise da dinâmica de diversificação, não considerando  todas as sequências simultaneamente, mas separando para cada grupo. Cada um  deles tinha uma história, né? Até para ver se as histórias, se realmente era  correto que elas tinham vindo com um ancestral comum, cada uma delas  diversificado após... Elas tinham que ter uma história, padrões de  diversificação, de idade e etc. muito semelhantes. E foi, no fim, realmente o  que a gente encontrou.    Deixa eu ver-- Nessa época, eu estava, já tinha começado a fazer essas  análises, já tinha várias análises e uma coisa que achei interessante--  Então, eu estava descobrindo que existia uma evidência de que realmente todas,  pelo menos todas as populações que a gente analisou, da América do Sul,  América Central e América do Norte, tinham essa origem única, essa ideia de  uma origem única. Mas tinham alguns fatores que eram difíceis de explicar. Por  que que os esquimós e os atabascos [inaudível] tinham menos diversidade,  tinham só alguns haplogrupos e os daqui não? Que o pessoal achava que estaria  relacionado com questões de entrada em épocas diferentes.    Então nessa época, que eu já estava fazendo essas análises, que eu fui lá  para Penn State com o Mark, aí eles pediram para dar um seminário lá. O de  sempre, né? Aí, bom... Eu disse: &amp;quot ; Mas eu preciso explicar isso, preciso  explicar-- Preciso entender por que que tem acontecido essa, esse padrão aqui.&amp;quot ;   Estava lendo durante bastante tempo, muita informação. Realmente a biblioteca  lá era milhares de vezes melhor do que a nossa aqui, então tinha muito mais  artigos e artigos mais antigos e de outras áreas mais antropológicas. Que a  gente não tinha muito aqui. E aí eu comecei a ver um monte de informações  interessantes que me ajudaram a perceber alguns fatores que foram importantes  pra, na época, explicar toda essa hipótese de processo. Uma delas, que essa  ideia de que o berço, digamos, da diversificação da população ameríndia  era a história da Beríngia. De que eles não simplesmente vieram da Ásia,  cruzaram e passaram, né? Mas essa noção de que eles ficaram durante alguns  milhares de anos no que seria a Beríngia antes, diversificando. Quer dizer, no  primeiro momento, possivelmente diminuindo a população, mas depois  diversificando, criando essas mutações exclusivas nas Américas etc. Antes de  alguma maneira, passar lá, as geleiras, seja pela costa...    Na época, eu achava que era naquele espaço, naquele corredor aberto lá entre  as geleiras, porque na época as estimativas de tempo de diversificação davam  mais antigas que 20 mil anos. Então a melhor explicação era ter vindo do  meio. Mas depois com os genomas mitocondriais que a gente sequenciou e fez  análise, o tempo de entrada no continente já estava mais próximo de 18 mil  anos. Então agora a gente já sugere que seja pela costa quando as geleiras  estavam já começando a retrair, né?    Mas essa noção, para mim, foi muito importante, na época quando eu li alguns  artigos, aquela da [inaudível], do [inaudível], que no outro contexto falava  de que talvez os--pudessem ter ficado algum momento ali e tal. E aí eu vi:  &amp;quot ; Não, essa realmente é a melhor explicação.&amp;quot ;  A ideia de que a Beríngia foi  realmente um lugar em que os ancestrais dos ameríndios ficaram durante muitos  milhares de anos diversificando e criando e, com isso, acumulando algumas  mutações exclusivas antes de fazer essa passagem realmente para o continente e  colonizar o continente todo, né? E aí que eu criei essa noção do  [inaudível] Beríngia. Ideia de incubar na Beríngia e depois só diversificar  e [inaudível] simplesmente passar direto da Ásia para América e assim--    DENT: Quando você estava fazendo as análises em Penn State, tinha levado  material biológico do Brasil para analisar lá? Ou estava trabalhando com  amostras lá na Penn State, ou eram as duas coisas?    BONNATO: [Sim, sim. Não.] Não, lá, eles não tinham... Eu acho que eles  tinham amostras do Neel. Mas não, não trabalhei-- Eu levei DNA. Depois eu  trouxe de volta tudo. DNAs e soro, daquelas amostras antigas do Salzano de  várias populações diferentes que ele tinha aqui. E aí lá eu sequenciei  alguns dessas, algumas dessas amostras. Assim, só as nossas... E aí depois  trouxe de volta, não trabalhei com nenhum material biológico deles lá. Na  época. Até porque, o material era-- Segundo eu me lembro que o Mark falava e  tinha uma pessoa que estava lá trabalhando, tentando resgatar, na época-- As  condições eram muito mais precárias que hoje, eles não estavam conseguindo  usar essas amostras muito antigas, que só tinha soro, que já tinha congelado e  descongelado dezenas de vezes por vários motivos ao longo de décadas--E não  estava conseguindo resgatar esse material para poder fazer alguma coisa de--Mas  os nossos aqui eram, a gente tinha DNA que o Salzano, de algumas amostras de  populações mais recentes que ele tinha coletado e a gente tinha extraído o  DNA mesmo, então já tinha um DNA de boa qualidade, esse deu para sequenciar.  Mitocôndria lá, parte da mitocôndria e alguma coisa que eu consegui fazer  desses soros mais antigos, mas no fim esses foram muito pouco, então não  realmente--A qualidade estava muito ruim, não deu para fazer praticamente nada.  Acabei usando mesmo foi essas sequências dos Suruí, [inaudível], Xavante e tal.    DENT: E como era o processo regulatório, imagino que deve ter sido complicado  levar amostras biológicas ou--    BONNATO: Na verdade, eu-- Não foi complicado, não. Mas eu teria que perguntar  para o Salzano. Na verdade, essa parte foi ele que-- [pausa] Não consigo me  lembrar como é que foi exatamente. Na época, 1994. A gente começou isso em  93. Não tinha, a regulação era muito mais, não era tão estrita como é  hoje. Então, Salzano tem várias licenças de estudo etc. Então eu acredito  que-- Não me lembro de ter sido-- Como seria hoje, extremamente penoso. Mas eu  tenho impressão-- Eu não me lembro de ter feito nada. Assim, né? Então acho  que, na verdade, quem fez, que levantou o que era necessário e cuidou disso  certamente foi o Salzano, que tinha todas, tem as licenças--Era o responsável  pelas amostras assim. Então na época foi tranquilo. Pelo menos não me impediu  de fazer o estudo e trazer de volta e tal, o material todo.    DENT: E tinha que passar por algum processo na universidade para aprovar o projeto?    BONNATO: Não. Na época, não precisei. Mark não me pediu nada, nenhum tipo  de-- Não.    DENT: Assim, chegou como um pesquisador visitante na Penn State e participou na  vida do departamento?    BONNATO: [É, isso.]. Exatamente. Deixa eu ver se tinha alguma-- Pensei numa  coisa, deixa eu pensar o que que era. [pausa] Não, lá não tive que fazer  nada. Obviamente, eu acho que-- Não me lembro, mas eu acho que devo ter  apresentado para o Mark ou coisa assim. Tipo, cópia da licença que o Salzano  tem, né? Que é o que ele sempre usa, de estudo dessas amostras antigas de  biológicas aí daquelas populações. Então eu acho que eu devo ter  apresentado para ele, mostrando que né? Mas nem tenho certeza, porque afinal o  Salzano é tão conhecido, né? E tão respeitado. Mas possivelmente, sim, mas  não precisei fazer nenhum, assim, não precisei-- Esse projeto não precisou  passar por nenhum    DENT: Comitê de Ética--    BONNATO: [Comitê...] é, não, lá na Penn State, não. Até porque na  verdade-- É, na verdade, é isso, só uma pequena parte assim, né? Do projeto  em si. Eu sequenciei algumas amostras lá. E meu projeto mesmo foi uma grande  quantidade de, na verdade, foi principalmente de analisar dados já publicados.  Se eu pegar-- Não me lembro agora, mas acho que deve ser uns 20% de toda  minha-- As análises do trabalho da minha tese e tal foi de coisas que eu  sequenciei. Na grande maioria, enfim, foi coisas que já estavam publicadas,  né? ue não tinha com-- essas amostras todas, todo esse material. De América  Central, América do Norte, Ásia, tudo isso compilei para fazer a análise,  essa análise completa. Então não tive, não, lá não precisei passar por nada.    DENT: E na UFRGS, para ter aprovação da proposta, do projeto de tese, tinha  que passar por um comitê no departamento para ter uma aprovação do projeto?    BONNATO: [Sim, o científico...] Era assim-- Como se fosse qualquer outro  organismo. Ou seja, fiz o projeto, passou pela análise da avaliação do  projeto pela qualidade científica do projeto e aí a gente colocava lá  que--Que as amostras e etc., o Salzano tem aquela licença de estudo para essas  amostras e foi só. Não precisou passar por nenhum comitê de ética de--Porque  na época, não tinha. Que eu me lembro, acho que só tinha para estudos, nem  sei se tinha, mas imagino que para estudos--    DENT: [inaudível] em 96, então não tinha um comitê de ética.    BONNATO: Isso. É, exatamente. Então, não tinha isso e acho que para parte de  Genética, de evolução, mesmo que tivesse, nem sei se naquela época, ainda  seria-- Teria que passar por esse. Talvez 96 né? Mas então, não tinha. Então  realmente foi só avaliação científica, técnica. Não de ética.    DENT: Mas eles fizeram comentários? Eles retornaram algumas coisas para mudar?  Como era esse-- Assim, não falando da parte ética, mas toda parte de aprovar  projeto. Como foi-- Lembra como funcionava?    BONNATO: [Sim, sim] Acho que como-- Como é-- Bá, deixa eu me lembrar como é  que era. Tem tantos processos diferentes. [pausa]    DENT: Já estava aprovado com o CNPq para uma bolsa local? Já que não aceitou  a bolsa internacional.    BONNATO: É, aí funciona, aqui no Brasil funciona normalmente assim-- &amp;quot ;   Programa de pós-graduação tem uma cota de bolsas. Aí tu passa pelo processo  do Programa e no momento em que tu é aprovado, se tu tem uma classificação  que te permite pegar uma das cotas de bolsa, então, então assim... No momento  que tu entra no Programa-- No meu caso, eu precisava da bolsa. E no momento que  eu entrei no Programa, já tinha bolsa. E o Salzano tinha os projetos, em termos  de recurso e tal, os projetos dele. E aí eu me lembro que eu fiz um, usei esse  projeto meu que eu fiz, do povoamento e tal, e o Salzano, assim como ele usou  para conseguir verbas, assim como vários outros que ele fazia. Mas a gente na  época, tinha, acho que ainda tem. Eu acho que eu propus o projeto para entrar.  Um dos requisitos do processo de seleção para o doutorado é fazer um projeto  e aí faz uma avaliação. Depois, tem obviamente uma qualificação. Agora eu  não me lembro. [risos]    Porque agora já tem tanto dos meus alunos, a gente mesmo já mudou tanto aqui e  lá que agora tentando lembrar como foi a minha qualificação...[pausa] Não me  lembro, só me lembro da minha defesa de tese, que foi o atual reitor da USP.  Marco Zago foi um dos-- Mas a qualificação eu não lembro. Eu só me lembro  que o pessoal achou que era muito ambicioso. E que não, que não dava-- [risos]  Isso aí não é-- não dava para fazer. Não tinha como fazer, ainda mais um  cara que era entomólogo e que era especialista em entomologia. E-- mas não me  lembro assim, não me lembro como é que foi. Mas certamente teve algum tipo de  arguição na entrada. E depois em algum momento acho que teve a qualificação,  mas eu não consigo lembrar como é que foi a qualificação.    DENT: E durante o tempo que você ficou em Penn State, como era o ritmo diário  do trabalho? Como era aproveitar de só quatro meses lá para fazer--    BONNATO: [Sim, sim. Olha,] foi muito intenso. Eu trabalhava de manhã até o  último ônibus sair do campus para ir para o lugar onde é que eu morava. E  eu-- No começo, eu fiquei alguns dias na casa de uma brasileira que estava  trabalhando com Masatoshi Nei lá. Que era do Rio de Janeiro. E depois eu acabei  ficando na casa, no quarto de um grupo que trabalhava-- Um trabalhava com o  Mark, outro trabalhava com outro pesquisador lá. E aí acabei alugando esse  quarto. E aí eu-- Foi intenso. Eu ficava até, me lembro agora, meia noite e um  pouquinho, que era o último-- A hora que saía o último ônibus lá do campus,  da Penn State para onde eu morava. Até uma que outra vez eu perdi e fui a pé.  Não era tão longe assim. Mas normalmente era assim, sábado e domingo, sem  parar praticamente. E o pessoal ficava lá... Na verdade, sim, frequentemente eu  ficava sozinho, mas frequentemente tinham vários--A pós-doc do Mark lá, que  era uma sul africana, a [inaudível], ficava lá, tinham vários outros que  ficavam, então era comum assim ficar muita gente de noite e etc. Mas  frequentemente eu era o último a sair, ficava sozinho lá. Botava um Caetano  Veloso, uma fita do Caetano Veloso bem alto e-- [risos] Ficava trabalhando lá,  fazendo milhares de PCRs e coisas assim. E fazendo uns programas de análise,  que eu estava fazendo na época e tal. Foi um ritmo bastante intenso, mas foi  realmente muito, uma experiência muito boa. Poder conhecer e interagir com  pessoas do mundo inteiro que trabalhavam no laboratório Mark e outros ali  próximos. Com várias coisas, várias áreas diferentes, várias abordagens  diferentes, não só de evolução humana, de outras coisas também. E conhecer  gente que fazia análises diferentes e professores, então foi realmente muito,  foi uma experiência excelente. Tanto experiência de vida assim, quanto  experiência profissional. De poder realmente-- Tanto os alunos quanto os  professores. Como só tinha quatro meses, eu tinha que aproveitar e realmente,  foi-- trabalhei muito. [Risos]    DENT: Qual época do ano? Foi no inverno, no verão, lembra?    BONNATO: Foi-- É, foi, sim. Foi o segundo semestre, ou seja, eu cheguei em  começo de setembro e voltei no finalzinho de dezembro. Acho que um ou dois dias  antes do Natal, uma coisa assim. Então cheguei a pegar um pouquinho de neve.  [risos] Ainda que primeira vez que tinha visto neve. [risos] Foi--Aqui teve,  né? Na verdade, teve neve, vi neve aqui, mas quando eu era bem pequeno aqui no  Rio Grande do Sul. Mas neve assim de cair foi nessa época. Então fiquei esses  quatro meses: de setembro a dezembro. Foi interessante, muito bom.    DENT: Como era o processo depois de terminar o doutorado de passar para ser  professor? Como era essa experiência de passar de ser aluno para ser professor?    BONNATO: É uma experiência difícil. Porque aqui no Brasil, principalmente, a  gente tem muita burocracia. Tem muitas coisas administrativas-- Aqui na PUC a  gente tem que dar um pouco mais aulas do que a média. Pelo menos no  departamento de genética, da UFRGS ali. Então, de 100% focado no trabalho,  né? Naquela, na tese, naqueles artigos, 100% mesmo. Em termos de trabalho. De  repente tu tem que gastar muitas e muitas horas da tua semana preparando aula,  dando aula, fazendo coisas burocráticas da universidade. E aqui foi pior,  porque quando eu entrei aqui na PUC, o que eu tinha de laboratório era uma sala  desse tamanho aqui, e não existia Genética na PUC. Não existia.    DENT: Dois metros por dois metros. [Risos]    BONNATO: É, era isso aqui. E lá no outro lugar lá no meio do laboratório de  histologia. E assim, não tinha Genética nem Biologia Molecular, nada de  relacionado com... Então, eu não tinha laboratório, então no primeiro  momento, além das aulas e coisas assim, eu tinha que fazer análise. E para  fazer análise, contar com a ajuda do Salzano, da Loreta que estava lá, para  fazer a parte de laboratório que eu quisesse fazer. Fazer emprestado lá na  Genética. Mas aí eu consegui, a gente conseguiu aprovar um projeto bastante  grande de genômica, não de humana, mas fazer parte do projeto de genoma  brasileiro que esse de começar a genômica no Brasil. E aí nisso se espalharam  25 laboratórios assim, equipamentos no Brasil. A gente se candidatou e aí eu  consegui como coordenador, consegui. E aí, com esse, fazendo parte desse  projeto de genômica brasileira, eu consegui apoio da universidade para criar  esse laboratório aqui. E aí mudou bastante, porque realmente em termos de  condições de trabalho. A gente conseguiu esse laboratório grande, bem  equipado com dinheiro do CNPq e um pouquinho da universidade. E aí a gente  conseguiu começar a realmente produzir. A Genética na PUC começou assim,  podendo fazer esse laboratório.    Mas a rotina muda muito, né? Porque infelizmente diminuiu muito o tempo que a  gente tem para dedicar. E a gente mesmo fazer as coisas. Então, claro, começa  a ter aluno, aí os alunos fazem e tu ajuda e-- Mas diminui bastante o tempo.  Então, isso é um problema que a gente tem no Brasil. A gente tem muito, os  professores e pesquisadores gastam muito tempo com atividades extra pesquisa em  si. Mesmo extra ensino. É um país, tu já deve ter percebido, muito  burocratizado. Com muitas-- As pessoas acham que criar burocracia é controlar,  é cuidar, é fazer. Há um exagero nisso, né? Então, então finalmente a  gente diminui, acaba diminuindo o ritmo de produção científica própria  assim. Por causa disso.    E outra-- Pensando na parte de estudos de evolução humana, um problema a mais  que eu tive, até tenho um pouco aqui ainda, é porque--O programa de  pós-graduação principal, que até agora eu sou coordenador é de Zoologia. E  é uma Zoologia mais clássica assim, de modo geral. Então é muito difícil eu  fazer ou conseguir alunos que queiram trabalhar com genética humana, evolução  humana, neste curso de Zoologia. A maior parte dos alunos tá interessado em  trabalhar com outros animais que não os humanos. Então é difícil para mim  conseguir alunos, uma quantidade razoável de alunos para trabalhar com  evolução humana aqui na PUC. Pela natureza do programa em si.    No começo, inclusive, o pessoal achava que eu não deveria trabalhar com  evolução humana na Zoologia, porque o humano não deveria fazer parte da  Zoologia. Eu disse: &amp;quot ; Mas como assim?! Nós, humanos, não somos--&amp;quot ;  Mas então  assim, durante um tempo, o pessoal disse: &amp;quot ; Não, melhor não fazer, continua  com-- Faz uns trabalhos aí de animais e tal. De humanos, tu orienta lá na  UFRGS se for necessário e tal, porque não cabe.&amp;quot ;  Até por ser o pessoal da  Zoologia. Os pesquisadores da Zoologia no Brasil são meio conservadores. Alguns  dos coordenadores iniciais aqui do Programa achavam que: &amp;quot ; Não, tudo bem, mas  fazer e colocar-- Fazer teses e artigos de evolução humana, genética, pode  ser prejudicial na avaliação do Programa na hora que a entidade, a CAPES, essa  que avalia os programas, olhasse-- &amp;#039 ; Não, mas como assim?! Tem nada a ver.  Genética Humana?! Num Programa de Zoologia, não poderia ter Genética Humana!&amp;#039 ;   E poderia até ser prejudicial para o Programa e achar que estão colocando  áreas de pesquisa que não são da Zoologia.&amp;quot ;  Então isso, isso me diminuiu um  pouquinho a quantidade. E a intensidade do meu trabalho com evolução humana  depois que eu entrei aqui. E tanto os que eu orientei ou coorientei depois, o  Nelson, coisas assim, foi sempre com o Salzano. O Salzano orientando lá, eu  coorientando, e era um-- Na maior parte das vezes era o meu projeto que o  pessoal fazia aqui... A orientação e o Programa em que as pessoas estavam  vinculadas ficava a Genética e não aqui, porque aqui tinha uma dificuldade. De  conseguir encaixar corretamente esse tipo de projeto na ideia do Programa de  Pós-Graduação que se tem aqui. Então isso diminuiu um pouquinho, por isso  que eu não faço mais tanta coisa de evolução humana por causa disso. Porque  é muito difícil até conseguir os alunos. Quando o pessoal da Genética  pergunta assim: &amp;quot ; Ah, gostaria de trabalhar contigo, evolução humana, onde que  tu orienta?&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, na Zoologia&amp;quot ;  &amp;quot ; Ah, não, na Zoologia, não tenho interesse,  queria trabalhar num programa de Genética, para fazer todas as disciplinas de  Genética&amp;quot ; . Então isso me atrapalha, atrapalha essa parte de evolução humana,  sem dúvida. Porque poucos alunos que gostam de evolução humana de Genética.  De Genética evolutiva humana concordam em fazer uma pós-graduação de nome  Zoologia. Porque a maior parte das disciplinas no fim são das áreas  zoológicas e tal. E os-- Gostariam de fazer mais Genética. Então isso--    DENT: Tem algum vínculo aqui com a Antropologia ou com a Arqueologia nessas  questões de--?    BONNATO: Não, não tenho. Temos um programa de História, que tem um pessoal  que trabalha com Arqueologia. Um bom grupo. Mas não temos nenhuma vinculação,  assim, de pesquisa. Nada, praticamente, em comum. Primeiro é porque-- Realmente  o nosso, foi muito envolvido com a parte mais zoológica. E o pessoal é mais da  área-- Não é da Antropologia Física. Você deve ter visto que aqui no  Brasil, nós basicamente... A Antropologia não é física. Então, no fim,  diferentemente da Argentina e do resto da América. América Espanhola, em que  Antropologia tem Antropologia Física. Nós no Brasil não. Basicamente quem  trabalha com a parte física é biólogo. Não antropólogo. Então tem  pouquíssimos antropólogos físicos. Que fizeram graduação em Antropologia,  que trabalham com Antropologia. Praticamente todo mundo que trabalha com parte  física. Na Antropologia, na verdade, vem de outras áreas, principalmente da  Biologia. Então, não tem muito-- É um viés, digamos, é uma característica,  não sei se-- Pelo que eu me lembro. Conversando com o pessoal, na América  Espanhola não é assim, nos Estados Unidos não é assim. Mas aqui no Brasil,  não sei, não sei exatamente por quê, a Antropologia é basicamente social.  Então eu imagino que os pesquisadores de Antropologia ou de Arqueologia aqui  nem imaginam que, na verdade, que possa ter gente que estuda evolução humana,  história humana pela parte mais evolutiva. Em outras áreas que não sejam a  parte social assim. De História mesmo.    DENT: E se você tivesse que escolher, assim, um campo de conhecimento no qual  você se coloca, qual seria?    BONNATO: [risos] Acho que é evolução. É. Evolução, porque tem muitos, né?  Tem realmente hoje em dia uma boa parte dos meus estudos e minhas publicações  são de evolução de organismos de modo geral. Seja-- São não humanos. Muitos  mamíferos, baleias e [inaudível] marinhos, primatas, mas também tem outros,  outros organismos. E mesmo, assim, como eu disse, obviamente evolução humana  tem questões a mais, questões científicas a mais pelo grau de conhecimento e  pelo refinamento da pergunta. Quando foi exatamente a entrada? Foi 18 mil, 21  mil ou 14 mil? Isso para um animal é absurdo. Se tu disser assim: &amp;quot ; Foi entre,  sei lá, 20 mil e 100 mil anos&amp;quot ; , está todo mundo muito contente que se fez um  progresso enorme. [risos] Evolução humana, 3 ou 4 anos já é uma briga enorme  decidir se a hipótese do Clóvis ou pré Clóvis é não sei o quê. Então é  questão de poucos, né, um detalhezinho de poucos, 2, 3 mil anos. O que todos  outros organismos já é algo assim, né? Pegando-- 100 mil anos de erro já  está, já é excelente. Então-- Mas fora essas questões a mais, assim, de  resto as abordagens são muito semelhantes. Ou seja, as abordagens que eu-- O  tipo de pergunta básica, o tipo de metodologia de análise para trabalhar com  uma baleia, para trabalhar com, sei lá, com macaco, não difere do que a gente  faz com humanos. Então realmente o que eu faço é isso. É entender a  história evolutiva de espécies. E cada vez mais a história mais populacional,  não tanto a filogenia, que a gente faz também alguma coisa, mas-- Mas  principalmente pegar espécies ou populações e entender como elas evoluíram  em termos populacionais, a própria dinâmica demográfica e assim, populações  passaram por bottlenecks genéticos ou não, se expandiram. A questão das  baleias, por exemplo, é uma das coisas que mais me interessam, tenho trabalhado  bastante. Entender como que foi toda a história evolutiva das baleias e  consequências da caça e tal.    Mas a abordagem é muito semelhante, não difere quase nada. Quer dizer, isso é  uma das coisas que para mim foi importante de certo modo. Parte do sucesso no  estudo de animal foi por eu trabalhar também com a parte de evolução humana e  desenvolvimento de metodologias de histórias evolutivas, história  populacional, demográfica... Assim, quase a totalidade de métodos novos são  desenvolvidos para estudos de evolução humana. E geralmente publicados em  revistas de evolução humana ou de genética evolutiva, coisas assim. A grande  maioria dos pesquisadores que trabalham com evolução de animais não consulta  livros, periódicos tipo American Journal of Human Genetics. O cara nunca vai  fazer uma coisa dessas, né? Mas ali, por exemplo, é um exemplo de uma área em  que está sempre surgindo novos métodos. E que pode, e tanto faz, então--  Então aplicar isso para qualquer organismo, desde que tu tenha os dados. Então  uma das coisas que eu acho que para mim foi importante é que, conhecendo e  estudando essa área eu consigo aplicar rapidamente as questões de evolutivo de  outros organismos. Métodos que estão recém saindo e que a maior parte os  pesquisadores em evolução animal só vai saber depois, porque não consultam  esse tipo de periódico.    DENT: Então se identifica, se identificaria como geneticista ou como zoólogo, ou--    BONNATO: Evolucionista. [risos]     DENT: [risos] Evolucionista.    BONNATO: Tá, não, até posso dizer que-- Entre os dois, se eu tivesse que  escolher, eu seria mais geneticista nesse sentido, sem dúvida, porque a base  assim das perguntas e dos métodos, sem dúvida, são métodos mais que a gente  poderia dizer mais genéticos. Genética evolutiva, genética populacional. Usar  a propriedade genética, genômica para entender a história e tal. E menos  zoológica, sem-- Nesse sentido, sim. Mas é, na prática, são as duas coisas  juntas. Sem dúvida. Ou seja, quer dizer, a gente poder-- Eu já descrevi  espécie nova, gênero novo, usando dados genéticos, a gente faz lá filogenias  populacional de espécies de aves e descobre que tem um gênero novo lá e tal.  Então, assim, é Zoologia no sentido mais estrito. Mas usando metodologias  totalmente genéticas. Assim como questões aí de conservação, de organismos.  ? Então assim, é sem dúvida uma mistura das duas coisas. Não é só  genética, no sentido clássico. Porque tem todo esse componente extra de  classificação, taxionomia, até descrição de espécies, conservação, que  não é muito da área da genética. Mas toda metodologia que eu uso... A  informação é derivada da genética, da genética molecular. O estudo de  variabilidade genética molecular.    DENT: No processo de fase estudos sobre o povoamento das Américas, por exemplo,  você comentou, entra informação de muitos campos de conhecimento diferentes.  Poderia comentar um pouco sobre os métodos, as coisas difíceis que se encontra  fazendo um estudo que traz dados de muitos campos diferentes? Como lidava com  esse problema?    BONNATO: É, não, é assim. Por exemplo, na época que eu estava no doutorado  fazendo esses artigos e as hipóteses aí, teoria sobre o povoamento inicial...  A própria hipótese, o modelo aceito na época era aquele modelo das três  ondas migratórias e que era um modelo multidisciplinar. Um modelo com dados  genéticos, dados linguísticos e dados de morfologia. Anatomia dental etc. E  realmente isso é uma dificuldade muito grande, porque na hora que a gente vai--  [fala ao fundo inaudível] [risos] Na hora que a gente, por exemplo, tentava  entender quais eram as evidências linguísticas para aqueles três grupos... E  toda a discussão novamente que existia na época e continua existindo afinal de  contas... As evidências de linguística, que que diz sobre a questão do  povoamento é muito difícil, porque as metodologias usadas na época e a mesma  informação de língua é muito diferente do que a gente estava acostumado a  usar como evidência em genética, por exemplo. Morfologia nem tanto, porque  morfologia é um pouquinho mais próximo assim. Até pela minha experiência de  taxionomista. E a gente usava, no primeiro momento, todo desenvolvimento foi  feito com morfologia, então isso até que não era tão, mas a parte  linguística, por exemplo, era muito, muito diferente. Então isso dificulta  muito, porque a análise crítica fica meio... Na verdade, no caso da  linguística, eu não tinha condições de avaliar... A qualidade, digamos, da  informação e do resultado. Eu usava o que os outros linguistas... As críticas  favoráveis e contrárias dos linguistas, eu não tinha condições, né?    Mesma coisa agora, por exemplo. Com os estudos que a gente faz em colaboração  com o Rolando. Mesma coisa, quer dizer, essa parte mais moderna que ele faz de  morfometria já tem muitos detalhes ali que eu não consigo acompanhar realmente  o que ele, né? Do que ele propõe e dos métodos novos e-- No fim, tem que--  Que acho que na verdade é o padrão hoje em dia. Quanto mais sofisticado as  áreas vão ficando e mais ao mesmo tempo multidisciplinares... A gente tem que  confiar nos colegas, cada um tem uma área de expertise, obviamente a análise  do padrão final é simultâneo, mas a geração do dado e o quanto se confia  naquele resultado a gente tem que confiar no colaborador, porque a gente não  tem condições de ser expert em todas essas áreas. E nessa época, eu via a  parte da... para mim, a parte do estudo das línguas era o mais óbvio. Que eu  não tinha condições realmente de avaliar o quanto que aquelas afirmações de  que eram três grandes grupos e os outros dizendo que não, na verdade, era  totalmente sem sentido aquela informação que eram três, e era mais ou menos.  Realmente eu não, não, até porque na época... Agora, a maior parte das  áreas, é o caso da linguística, é um exemplo típico, está ficando mais  quantitativa, já tem métodos mais semelhantes aos métodos que a gente usa, de  fazer filogenia com línguas, com dados de variabilidade linguística, muitos  mesmo método que a gente usa para fazer dados de DNA e tal. Mas na época, era  muito aquela coisa do especialista, né? &amp;quot ; Não, eu estudei já 30 anos milhares  de línguas e aí eu sei que é assim e...&amp;quot ;  Ficava uma coisa muito, era muito da  autoridade, né? Mas-- Então assim realmente eu não tinha condições nenhuma.  E as informações também eram mais difíceis. É basicamente livros, a gente  não tinha acesso a muita informação, então mesmo que se quisesse, seria  muito difícil conseguir todas as informações e tal, dessas áreas mais diferentes.     DENT: Agora como colaborador do professor Salzano que vai ser, assim... Grande  parte da minha pesquisa é sobre o trabalho dele e etc. Queria ver se você  poderia assim explicar um pouco o lugar dele no campo da Genética Humana e dar  assim uma perspectiva sobre as contribuições mais importantes que ele, ele fez  até agora, né? Que continua fazendo.    BONNATO: Sim, sim. Bom, é-- Só posso dizer sobre basicamente essa parte de  genética de populações indígenas. Porque as outras grandes contribuições  dele, eu... Como eu não sou geneticista humano nesse sentido, né? Quer dizer,  cheguei depois e cheguei interessado especificamente na questão de evolução  humana e povoamento das Américas e não de Genética Humana como um todo. Como  vários outros pesquisadores têm, ou seja, que entendem e trabalham, estudaram  questões, outras questões de Genética Humana, essas outras eu não tenho  condições de avaliar... Só pelo que a gente ouve falar, realmente teve para o  Brasil e para a América Latina, teve uma contribuição importante sobre todos  os estudos de genética humana como um todo. Mas assim, eu mesmo nunca li, não  trabalho, nunca, não tenho interesse com genética, por exemplo, médica, ou  genética desse tipo de coisa. Então é uma área que só o que os outros me  falam. Mas me parece óbvio por tudo que eu já conheço do Salzano que  realmente teve essa mesma contribuição que teve para genética de populações  humanas, nativas e tal. Então, nessa área, é óbvio. Quer dizer, o que a  gente lê é-- Realmente ele tem uma capacidade de trabalho, de congregar  pessoas e juntar. E apoiar grupos que se interessam por trabalhar, desde o  começo, é muito grande. Então assim, a minha experiência pessoal dele é  que, assim, é isso que eu falei, ou seja, é pegar um entomólogo que trabalha  com insetos [risos] [inaudível]. O cara diz que quer trabalhar com Genética,  fazer sequenciamento de DNA mitocondrial para entender evolu-- Povoamento das  Américas. E ele, apesar de relutantemente, depois concordar e me apoiar 100%.  Me dar toda autonomia e apoiar 100% revela que é uma pessoa realmente muito,  muito capaz. Acho que sim, de identificar pessoas que têm condições de fazer  o que prometem. E muito generoso nesse sentido de que, né? Se a pessoa tá  interessada e quer fazer uma coisa interessante, diferente, que é uma coisa que  no primeiro momento ele não domina... Essa parte de molecular, de DNA, ele não  dominava na época. E concordar em apoiar tudo que foi possível, até ajuda a  fazer, criar um laboratório meio novo. Dar todas as condições, é uma pessoa  que, assim, que é realmente generosa. Sabe da sua contribuição, da sua  importância e apoia todo mundo que quer. Que quer fazer alguma coisa, né? E  é, contribui nisso.     E a capacidade dele, ou seja, sendo uma área totalmente nova, que ele não  tinha envolvimento. O que ele conhecia bastante mesmo na época era a parte de  proteínas. Que foi todo o começo, durante boa parte da história dele do  começo da evolução da genética de populações indígenas foi com proteína.  Quando começou o DNA era uma coisa muito nova, muitas coisas diferentes que  não existiam de proteínas, que é a parte mais, que é a genética de  populações clássica. [inaudível] da filogenia, do DNA. São áreas muito,  assim, muitas coisas diferentes e novas. E a capacidade dele de ler, acompanhar  e poder analisar criticamente os artigos que a gente ia produzindo pra... É impressionante.    Outra coisa que impressiona a gente quando a gente vai em congressos, de  qualquer lugar da América... Principalmente América do Sul, mesmo lá nos  Estados Unidos, lá na Penn State e tal. O respeito, né? Que todos os  pesquisadores têm com tudo que ele fez, com a história dele e com ele  pessoalmente. Como ele é como pessoa. As pessoas gostam dele. É bastante  interessante. Então acho que teve realmente uma, eu vi aqui na América, na  América Latina, teve um papel, assim, essencial, acho que na criação da  genética de populações humanas e no desenvolvimento, porque ajudou e  contribuiu para desenvolver na Argentina, no Uruguai, no Chile. Muito, muito,  muito. E fora na Venezuela. Então assim, teve um papel muito importante.    Essa parte mais das teorias iniciais, daquelas com o Neel e tal, eu não tenho,  assim, tanto conhecimento porque eram mais questões de populações mais local  mesmo. Como eu disse, quando eu cheguei, o meu interesse era mais nessa parte  de evolução mais antiga e tinha tanta coisa, tanta coisa nova que eu não pude  estudar muito, assim, profundamente, as contribuições originais dele, dessas  questões. Mas assim... O pouco que a gente lê assim, e leu, li na época, leu  e conversa, realmente, a contribuição dele para o fundamento mesmo, da  genética de populações humanas. Não só da América, mas [inaudível]  funcionamento, de dinâmica microevolutiva e populações isoladas e pequenas é excepcional.    Fora o resto, né? Todas as coisas que ele ajudava no departamento. Ou seja, as  outras áreas que o pessoal vinha lá: &amp;quot ; Ai, quero fazer genética vegetal&amp;quot ;  e  tal. &amp;quot ; Não, não, eu ajudo, eu faço, eu ajudo a orientar, eu oriento, não é  minha área, mas, né? É uma área importante, preciso ajudar a desenvolver.&amp;quot ;   Então, como tu disse, a quantidade de áreas que ele orientou não sendo  especialista... Mas conseguindo orientar e fazer excelentes trabalhos e grupos  que surgiram, importantes. Não só lá no próprio departamento de Genética,  mas no resto do Brasil. Em que ele concordou em orientar e... E os trabalhos  saem direitinho, apesar de ser uma área muito diferente do que ele estava acostumado.    DENT: Algum comentário final, alguma coisa que eu saltei, que você gostaria de  destacar um pouco mais ou algum episódio importante que não toquei [risos] nas perguntas.    BONNATO: [risos] Deixa eu pensar. [pausa] Olha, não me recordo nada. Sempre  tem, né? Mas é... A hora que a gente vai pensar, a gente não pensa em nada.  Geralmente quando faz alguma conversa, alguma coisa que aparece...    DENT: Não, claro que nunca vai, uma entrevista não vai capturar toda uma  trajetória profissional. Quais são assim as perspectivas para seguir  trabalhando na área de populações humanas? Você tem interesse em seguir  nessa linha ou está já mais focado para o lado--?    BONNATO: Pois é, eu tenho interesse. Mas é, eu acho que as perspectivas não  são muito fáceis, na verdade. Eu acho, assim, pensando uma perspectiva da  história um pouquinho, né? Da ciência, da genética de populações humanas.  E as diferenças entre os países, das condições, a gente tem momentos  cíclicos. Então, assim, em termos de tecnologia e condições de trabalho.  Então assim, quando a gente, imagino, né? Quando o Salzano começou, por  exemplo, com genética de proteínas, num primeiro momento, obviamente, não  tinha equipamento, não tinha expertise no Brasil. Mas no momento que se  adquiriu e tinha os equipamentos mais simples, durante alguns anos, não sei  exatamente quantos, certamente as condições, digamos, de trabalho não eram  muito diferentes, de gerar dados mesmo, de analisar os dados, digamos, aqui no  Brasil, aqui no departamento de genética lá, e nos Estados Unidos. Aí depois  veio o ciclo do DNA. Então nos primeiros vários anos, que [inaudível]  sequenciamento e condições, a gente não tinha nada. Então estava totalmente,  como eu disse... Dava para fazer em quatro, dava para fazer em dois, três meses  nos Estados Unidos o que aqui demorava vários anos. Mas, né? Pela velocidade,  em algum momento a gente conseguiu, né? Tipo, eu aqui, criar esse laboratório.  Tínhamos um equipamento de sequenciamento muito semelhante ao que tinha na  maior parte das universidades, dos laboratórios de pesquisa semelhantes ao  nosso em termos de populações humanas. Não obviamente os enormes. Mas de  populações humanas mais, assim, semelhantes, em universidades boas. Então  durante alguns anos, a gente conseguiu permanecer assim semelhante, conseguia  produzir. Por exemplo, eu sequenciei lá os genomas mitocondriais aqui, no mesmo  nível que vários sequenciaram lá, a gente conseguiu publicar paper lá na  American Journal. Um dos primeiros estudos mais amplos de fenômenos  mitocondriais de ameríndios e tal. Num laboratório aqui relativamente pequeno  e tal.    Mas aí o que que aconteceu? Aí veio a área genômica. A genômica com a  geração de dados muito grande e com muita, muita análise de bioinformática.  Então que que a gente está no momento? No momento, a gente, eu acho que a  gente passou mais uma fase que a gente tá bem defasado. A gente, assim, é só  olhar. Quer dizer, os estudos recentes... Poucos, nos últimos dois, três anos,  dessa parte mesmo de povoamento das Américas, mesmo Genômica populacional. Os  caras pegam dezenas de indivíduos, ou no caso da parte mais populacional e  fazem genoma de dezenas de indivíduos e fazem, tem lá, 30 ou 40 pessoas de  bioinformática e fazem análises sofisticadíssimas. Então, assim, a geração  de dados, a gente, nesse momento está totalmente atrasado. Até porque no  Brasil a gente não tem, é muito difícil fazer a parte de serviço. Então, a  gente poderia combater isso ou poderia se equiparar se a gente tivesse  condições fáceis de fazer, gerar dados como um serviço. Não no próprio  laboratório, mas-- Mas aí a gente, no Brasil, não tem. E para mandar para o  exterior, tem problemas seríssimos. Então, a gente não... Mesmo que eu tenha  o dinheiro para fazer essa, sei lá, 100 mil reais para fazer um estudo amplo de  genômica populacional, de seja o que for. Eu não vou conseguir fazer. Porque  aqui no Brasil a gente não tem os equipamentos. E para mandar para fora, mandar  para algum outro lugar para fazer como serviço, demorar meses, sei lá quanto  tempo para conseguir, se é que vai conseguir.    Então a gente não consegue gerar os dados e a gente está também muito  atrasado na parte da análise. A gente não tem bioinformatas suficientes, em  número grande para gente conseguir isso. Mesmo que eu gerasse dados de, sei  lá, 100 genomas de índios para fazer uma análise totalmente, nunca ninguém  tem essa quantidade de dados para fazer. Então, não vou conseguir no Brasil  pessoas para me ajudar a fazer uma análise. Equivalente ao necessário que tem  que ser hoje em dia. Seria assim, sei lá, sete ou oito bioinformatas fazendo e  analisando e não existem essas pessoas no Brasil. Eu teria que necessariamente  me associar e aí tem todas essas dificuldades com vários laboratórios do  exterior e pesquisadores e tal. Mas que, assim-- Seria um pouquinho [inaudível]  de mais dez que saberiam fazer... Então assim, eu acho que, para nós, acho  que, no Brasil, imagino que nos outros países também, não de primeiro mundo,  basicamente não Estados Unidos e Grã-Bretanha, e talvez China. A gente chegou  num outro momento em que está muito difícil para gente acompanhar se quiser  fazer um trabalho de ponta realmente assim, uma novidade grande em termos de  resultados, de métodos, análise, de coisa assim. A gente chegou numa fase, de  novo, que a gente está num descompasso, e que está, é muito difícil  acompanhar. Talvez em algum momento futuro, volte de novo a equilibrar. Mas não  sei porque a questão dos recursos humanos, de pessoal para fazer as análises  das... São cada vez mais multi laboratorial com muitas pessoas de várias  áreas diferentes, principalmente nessa área de análise. No Brasil, nós temos  muita dificuldade de conseguir gente que goste da área mais biológica, que  goste de análise. Biólogo aqui no Brasil gosta de bancada ou ir para campo e  tal. Mas assim, ficar semanas de computador, aprender linguagem de computador e  fazer isso aí é muito difícil. No Brasil a gente conseguir pessoas dessa  área. E é isso que a gente precisa, na verdade, para fazer essas análises que  estão tão sofisticadas pela quantidade de dados que, como eu fazia na época,  sozinho, e pegava computador, e inventava, pegava. Conseguia colocar tudo e  fazer basicamente sozinho, hoje em dia não tem mais condições. Não tem-- A  quantidade de dados e a sofisticação da metodologia inviabiliza que alguém  faça sozinho ou só com uma ou duas pessoas.    Então, assim, apesar do meu interesse ser, continuo tendo interesse em fazer  estudos semelhantes, continuar esses estudos de evolução humana, populacional  etc. Eu estou tendo muita dificuldade em perceber como que eu vou conseguir  fazer isso nessas condições atuais que a gente tem. Ou seja, gerar dados  relevantes pelo volume é muito difícil, comparando com esses centros  genômicos aí que fazem isso muito rapidamente. E que tem grandes, grande  quantidade de pessoas para ajudar a analisar. Então, eu acho que nós estamos  numa fase meio difícil para mim, pelo menos. Nessa área. Eu acho mais ou menos  eu percebo isso pela própria produção científica nessa área. Ou seja, na  década de 90, então, ou 2000. A gente conseguia fazer, ou eu, ou a Cátira ou  o Fabricio e etc. A gente conseguia fazer trabalhos no mesmo nível, né?  Publicar em excelentes revistas. Semelhante ao que qualquer um fazia. Hoje em  dia, a gente, nos últimos dois, três anos, é muito difícil. Tu não está  mais conseguindo, porque é, não-- Como, como o campo avançou, a gente não  depende só mais de um grupinho pequeninho e duas, três pessoas, o teu próprio  grupo fazer. Não tem mais, a gente não consegue, então-- E fazer, a gente  não tem massa crítica no Brasil mesmo. Muitas vezes de conseguir fazer estudos  mais amplos com dezenas de pessoas. Todo mundo tem pouco pessoal. Então-- Eu  acho, no momento, para mim, eu estou numa encruzilhada, nesse sentido, de eu  não sei exatamente se vai conseguir acompanhar. Eu não estou conseguindo  acompanhar essas mudanças assim.    DENT: Dentro desses desafios, onde fica a questão de conseguir material  biológico para análises? Isso faz parte do desafio que tem no Brasil para  fazer estudos sobre povos indígenas, sobre povoamento das Américas? Ou é secundário?    BONNATO: Eu acho que-- Assim, parcialmente. Eu acho que obviamente, nós temos,  assim, se a gente considerar que as amostras que já existem podem ser usadas,  seja tecnicamente, seja que seja permitido, né? Por comitês. Rapidamente a  gente usar essas informações ou usar as amostras para gerar informações  genômicas etc. No Brasil ou em qualquer lugar. Não seria tão necessário,  para esses estudos mais amplos em que, né? Não interessa exatamente qual  amostra. Se eu pegar uma tribo ou outra tribo, outra população, pegar um aqui,  uma em algum lugar do Brasil, alguma... Em algumas outras regiões da América  do Sul, alguma coisa da América do Norte representa mais ou menos.    Mas-- Para estudos mais genética de população mais... Mais localizados, sem  dúvida. A dificuldade em conseguir amostras é um problema sério. Eu imagino  que... Eu não trabalho tanto com isso, mas pelo que eu vejo e posso imaginar.  Se eu quisesse fazer um projeto: &amp;quot ; Vou estudar a dinâmica evolutiva de algum, de  um grupo de populações da Amazônia indígena para saber se comparando, sei  lá, se aquele tipo de estilo de vida... O que afeta ou não afeta a  diversidade, a estruturação populacional--&amp;quot ;  Ou qualquer outra coisa. Se  quisesse, eu acho que não conseguiria. Assim, eu vejo pelo Fabrício, que, né?  O estudo genográfico, quantos anos demorou para conseguir obter as licenças?  para fazer a coleta e prum estudo totalmente, muito neutro. Se quisesse fazer um  estudo um pouquinho mais, algumas questões comportamentais ou morfológicas  ou-- Parece que não te viabilizaria, porque hoje em dia fazer um estudo e  demorar anos para conseguir obter a licença, no fim, as coisas-- Acaba sendo  atropelada por outros grupos que conseguem mais rapidamente obter as  informações. Então acho que sim, acho que sem dúvida a dificuldade em, a  demora, acho que a questão toda sempre é a demora. Acho que ninguém, todo  mundo concorda que todo tipo de estudo tem que ter... E ser feita da maneira  mais moralmente aceitável. O que realmente atrapalha é demorar anos para dar  uma resposta. Seja positiva ou negativa. Porque aí as coisas simplesmente não,  tu não consegue planejar... Então, se as análises fossem mais rápidas e  eficientes... As coisas poderiam ser planejadas com mais tranquilidade. E  poderia realmente saber o que se-- O que pode e o que não pode fazer.    Eu acho, sem dúvida, é um problema, acho que no mundo inteiro, não só aqui  no Brasil. É o mundo inteiro, trabalhar com populações, é um problema no  mundo inteiro trabalhar com populações, principalmente nativas. E o desafio  disso, né? E acho que quanto mais as perguntas são mais delicadas, mais  refinadas, mais difícil é, porque mais existe a possibilidade de ter algum uso  errado, ou as pessoas mais desconfiam que isso pode ter algum tipo de mau uso ou  a informação pode não ser compatível com crenças, então esse tipo de coisa  realmente é um problema, sem dúvida. Eu acho que é um problema. No meu caso,  não é tanto. Porque acho que questões mais amplas não precisa de  populações tão específicas.    Agora se houver problemas no uso, por exemplo, dessas amostras mais antigas, já  coletadas em outras condições, em outros momentos, isso aí realmente  inviabiliza. Inviabiliza qualquer tipo de estudo mais-- Isso é uma das coisas  também que me faz reduzir um pouquinho o ritmo, porque uma certa insegurança  de saber... Em que momento, qualquer momento, alguém pode, sei lá, em alguma  situação, impedir que o teu trabalho continue. Pode começar um trabalho  grande, envolvendo muitas pessoas e muitos recursos e muito planejamento e em  algum momento, aparece uma nova regulamentação ou uma denúncia de alguma  coisa que é suficiente para bloquear por meses, anos a fio, de repente, a  continuação. Até que se resolva as questões mais de polêmicas. E aí isso  realmente, mas né? Quando a gente depende de alunos, alunos que têm tese para  acabar, têm prazos e recursos... Têm prazos. Isso, essa insegurança também,  de certo modo, atrapalha um pouquinho. Ainda mais quando começa a ir para lado  mais genômico. Que aí começa, o pessoal começa a desconfiar: &amp;quot ; Ah, mas tem  toda informação, não vai usar para outras...&amp;quot ;  Para, sei lá, qualquer coisa.  Que as desconfianças começam a aparecer. Então, isso é um, é um componente.    Mas eu, na minha, assim, pessoalmente a minha maior preocupação, minha maior  entrave, digamos assim, é esse descompasso tecnológico que a gente tem no  momento. Realmente, a gente tem e observo isso claramente, é uma dificuldade. O  que eu conseguia fazer no mesmo nível de qualquer lugar do mundo, basicamente,  há cinco, seis anos atrás. Hoje em dia, eu sei que eu não consigo mesmo. Até  a gente tenta, mas a gente não consegue... Gerar os dados, a gente não  consegue analisar os dados, a gente não consegue pessoas para nos ajudar a  analisar. Não consegue mesmo. E, assim, colaboração eu gosto, colaboração  é importante, mas também, assim, a gente acaba virando um gerente de... 90% do  tempo só gerenciando pessoas e os egos e não-- E aí, assim, a ciência mesmo  tu acaba ficando mais um gerente de laboratório do que um cientista mesmo...  Fazendo perguntas, tentando resolvê-las e resolvendo todas essas questões.  Quando tu tem, sei lá, 20 colaboradores de vários lugares do mundo, o que cada  um vai fazer, né? Então, assim, isso é uma, é uma coisa que eu não gosto  muito. Eu não gosto muito de--    Realmente, minha, meu tipo pessoal de lidar com a ciência é mais realmente  fazer mais, pessoalmente. Estar mais próximo da geração de dados, da pergunta  e não tanto gerenciando grande quantidade de pessoas e mais como, né?  Realmente um chefe de equipe e não um cientista mesmo. Sabe que hoje em dia  nessa área também isso está ficando um pouquinho mais de grandes chefes de  equipe que ficam gerenciando dinheiro e colaborações e menos na pergunta.  Menos nas perguntas e na resolução de problemas mesmo. Eu não gosto muito  disso. Eu prefiro realmente estar mais, fazer a análise, eu gosto de fazer a  análise, pegar e tentar imaginar uma análise diferente para responder uma  pergunta meio diferente também. Mas isso está cada vez mais difícil  realmente. Na área de genética humana, nessa parte, porque realmente, o tipo  de dado e o tipo de pergunta que têm importância hoje em dia... São coisas  que exigem quantidade de dados e redes de colaborações muito grandes. Então  por esse motivo em parte também é que eu realmente acabo ficando mais com os  outros animais não humanos em que as perguntas ainda são mais fáceis de  resolver em equipes menores. E não tem tantos grupos, assim, poderosos no mundo  inteiro em termos científicos lidando com isso e que fica realmente muito difícil.    DENT: Alguma coisa mais que gostaria de comentar? [risos]    BONNATO: Agora eu não recordo mais nada, deixa eu pensar. [risos] Apareceu  isso, né?    DENT: Não, mas também sempre podemos conversar de novo. [risos] Se ocorrer  alguma coisa, &amp;quot ; ah, a Rosanna, você precisa pensar nessa questão também&amp;quot ; . Aí  só avisar. [risos]    BONNATO: Sim, é. Tá. Até quando tu fica?    DENT: Ah, até final de setembro. Eu vou avisar com tempo que eu vou fazer uma  apresentação sobre uma pequena parte da pesquisa que eu venho fazendo.    BONNATO: Claro. Ah, legal. Vai fazer lá na, lá na Genética?    DENT: Sim, acho que vai ser uma coisa mais específica sobre o trabalho de campo  e os trabalhos mais cedo do professor Salzano, mas aí vou avisar.    BONNATO: [Legal. Sim. Sim.] Deve ter tido muita história, né? Ele deve ter  contado muita história interessante.    DENT: [risos] É, ele tem. [risos]    BONNATO: Esses trabalhos aqui deviam ser, deviam ser heroicos assim, né? Uma  aventura, tipo, porque--    DENT: São crônicas de aventura. [risos]    BONNATO: Imagina, 50, década de 60, todas as condições, ruins que se tinha e  as dificuldades, deve ser uma época bem interessante, bem emocionante. Eu  gostaria de ter ido fazer algum trabalho de campo assim em populações,  gostaria de ter tido, não teve oportunidade na época que eu-- Praticamente  Salzano já não fazia mais e quando fez, precisava de um médico e não de um  entomólogo assim. Mas eu gostaria, eu gostaria sem dúvida de ter contato.  Diretamente com as populações indígenas, ter uma experiência. Ter uma  experiência, mas as coisas mudaram, né? Não tinha mais quase condição. Mas  devia ser uma coisa realmente muito, muito interessante, muito interessante, imagina.    DENT: Sim. Não, ele conta histórias, então vou, vou tentar, assim, fazer uma  apresentação. [risos]    BONNATO: Vai virar-- Pretende fazer algum livro, alguma coisa?    DENT: Ah, eventualmente, a tese vai, espero. [risos] Vai fazer um livro com a  tese, mas primeiro tenho que escrever. [risos] Tenho que escrever a tese primeiro.    BONNATO: [Sim, claro. Claro. [risos] ] Sem dúvida.    DENT: Bom, agradeço muito seu tempo e disponibilidade.    BONNATO: [Não por isso. Então tá bom.] Se tu precisar mais alguma coisa, se  eu lembrar alguma coisa interessante--       Os direitos autorais da entrevista pertencem ao entrevistado e às pesquisadoras.  audio O uso e divulgação são restritos a fins acadêmico-científicos.  0 https://hogenetica.org/ouvir/render.php?cachefile=bonatto-20140722.xml bonatto-20140722.xml      </text>
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                <text>Prof. Sandro Bonatto, entrevista, 22 de julho de 2014</text>
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                <text>Sandro Bonatto, biólogo, explica a origem dos seus interesses científicos. Conta como ele estudou genética relacionado à filogenia, o que o levou à aprovação de um projeto de doutorado nos Estados Unidos, mas a escolha eventual de ficar no Brasil para os estudos de pós-grado. O narrador monta um laboratório para esse objetivo e por fim conseguiu estudar o povoamento da América com uso de DNA. Parte do seu estudo discute o povoamento da América e uma hipótese apresentada foi a de houve um povoamento inicial na Beríngia e que depois houve o povoamento das Américas em seguida e não há hipótese de que os primeiros habitantes vieram direto da Ásia para a América; esse trabalho foi realizado com o material genético colhido por Dr. Salzano, em suas pesquisas. O narrador relata sua transição da entomologia para a genética e a continuidade da ausência de trabalhos de campo e sua relação com processo de ética em estudos com indígenas. Bonatto relata sua atuação na genética humana na PUC, onde tem relação com o departamento de Zoologia e que o limite inclusive é a falta de alunos de pós-graduação para orientar. Bonatto também lembra da construção da genética na PUC, o qual se esforçou para a construção do laboratório junto ao Projeto Genoma. Reclama que ser professor reduz as possibilidades na pesquisa, inclusive o tempo para dedicação. &#13;
Essa entrevista diz respeito à genética das populações e à história do povoamento nas Américas e as dificuldades que se tem hoje de fazer análise de dados e fazer com que o estudo seja mais avançado. Além disso, mostra a relação do professor Salzano com outras áreas de conhecimento de estudo que não necessariamente era a sua área principal. </text>
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                <text>2014-07-22</text>
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