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Diversidade biológica humana

Reportagem do Jornal do Globo sobre o lançamento nos Eua do livro de Salzano e Freire-Maia. Detalhe para a legenda da foto Para se tratar da história da ciência da diversidade biológica humana, cabe então levantar a questão: como foram se transformando as noções de raça e diversidade no século XX?  O desenvolvimento da genética humana na segunda metade do século XX se beneficiou de várias transformações na cultura científica dos campos da biologia e biomedicina do pós-guerra. Desde então, a genética humana tem se colocado como ciência a dar respostas a questões sobre a variabilidade humana, em termos não patológicos e patológicos, tais como, respectivamente, a sensibilidade ao PTC (proteína feniltiocarbamida) ou os processos micro-evolutivos da espécie humana e, com a genética médica, para a causa genética de algumas doenças, como a síndrome do cromossomo 21, a talassemia ou a anemia falciforme.

A segunda metade do século XX foi marcada por esforços de esvaziamento do conceito biológico de raça aplicado à espécie humana e pela valorização dos estudos genéticos e populacionais, com o propósito de se compreender os fatores hereditários que afetam a variabilidade nas características biológicas humanas no geral – a denominada “diversidade humana” – e servir de base para se estabelecer uma história evolutiva da humanidade.

A sombra do racismo científico e a responsabilidade ético-política de não se repetir as atrocidades cometidas em nome dos projetos da eugenia negativa da primeira metade do século XX, acabaram por provocar a necessidade de reformulação de terminologias, conceitos e enfoques de pesquisa, conforme podemos observar na agenda da genética das populações humanas e na reivindicação de uma ciência antirracista, mas que não significou na prática o abandono de concepções racialistas.

Em várias das narrativas aqui presentes podemos acompanhar o processo (individual e institucional) de definição das agendas de pesquisa em genética humana no país e no Departamento da UFRGS, os critérios para estudar determinados grupos populacionais brasileiros, questões controversas para a genética humana, transformações e permanências em práticas – como no advento das pesquisas com DNA e as novas condições materiais de pesquisa, terminologias e modos de classificação da variabilidade genética humana e da ausência-presença da ideia de raça ao longo da segunda metade do século XX.

Desde meados do século XX, novas tecnologias e infraestrutura de pesquisa relacionadas aos modelos de pesquisa molecular nas ciências da vida, assim como políticas de financiamento governamentais e de organizações filantrópicas, fundações e organismos internacionais também forneceram condições de possibilidade para a expansão do campo da genética humana (e da própria genética) a partir de apoio a colaborações de pesquisa transnacionais em grande escala – “Big Science”, o trânsito de pesquisadores e o estudo genético in loco de várias populações humanas do planeta.Francisco Salzano e membros da Força Aérea Brasileira em frente à avião da FAB. São Domingos, 1962.

Aqui a própria ideia de população merece então atenção, pois é sobretudo no estudo das populações indígenas brasileiras que o Departamento de Genética da UFRGS vai se firmar como um centro de referência em genética humana no Brasil e no mundo. Para se ter uma noção em números, só no Curriculum Vitae de Francisco Salzano, entre 1950 e 1980, 74 dos 158 artigos científicos completos eram centrados em grupos indígenas.

Desde o pós-guerra e Guerra Fria, o estudo das populações humanas tornou-se tema de pesquisa para vários campos de conhecimento, como a antropologia, a demografia, a epidemiologia, a saúde pública etc. O interesse estava sobretudo em “populações de interesse especial” – na maioria das vezes povos originários de diferentes países ou populações mantidas separadas das sociedades modernas, endogâmicas, tais como os Amish ou habitantes de ilhas inóspitas–, o que na verdade significava em termos científicos aquelas populações isoladas – geneticamente não misturadas, em termos geográficos e reprodutivos, e consideradas primitivas, em “risco de extinção”, ou seja, numa perspectiva salvacionista, vistas como relíquias da adaptabilidade humana (e, com as pesquisas de DNA, portadores dos fragmentos genéticos de um suposto passado pan-humano) ameaçadas pelo mundo civilizado cada vez mais destrutivo e pela globalização, migração em massa e genocídio; ou, em outra frente, as populações miscigenadas, com foco na tentativa de compreensão dos meios de composição genética nas misturas.

Idígenas Kayapó em aldeia Gorotire e posto da FUNAI ao fundo, sul do Pará, 1974

Do ponto de vista sócio-político, pensar em termos de população também serviu, nesse momento, de fundamento para as ações de várias agências internacionais – como aquelas relacionadas às Nações Unidas – e instituições filantrópicas,  como a Fundação Rockefeller ou a Wenner-Gren Foundation –    visando a reconfiguração das comunidades internacionais, as políticas de descolonização e a negociação de políticas globais de saúde.

As narrativas de algumas das entrevistas dos pesquisadores Francisco Mauro Salzano, Fernando da Rocha e do técnico de laboratório Girley Simões são testemunhos fundamentais para compreender esse processo de iniciação e desenvolvimento das práticas de pesquisa em genética das populações e diversidade humana no Brasil.  Nesses depoimentos acompanhamos alguns detalhes sobre as viagens realizadas por eles para trabalhos de campo (na conhecida parceria com o pesquisador americano James Neel) junto a populações indígenas brasileiras nos anos 1960, tais como os Kaingang, A’uwẽ (Xavante), Mebêngôkre (Kayapó), e Terena . E com elas percebemos uma verdadeira “ciência em ação”, ou seja, a série de agenciamentos realizados pelo grupo para viabilizar, na prática, uma agenda internacional de pesquisa em “populações primitivas”, que envolviam, por exemplo: mediações, choques e atritos locais, trabalho interdisciplinar, esforços para colher e fazer circular dados e amostras biológicas na rede de pesquisadores (de diferentes campos de conhecimento) interessados em populações ditas especiais.

Baseados na confluência entre a genética e teorias sobre a evolução humana discutidas desde os anos 1930 – junto ao trânsito entre fronteiras disciplinares, ou seja, entre a genética e a antropologia (sobretudo a antropologia física), o foco de atenção no estudo genético transnacional das populações primitivas – como as Indígenas –, girava na seguinte questão: adaptação das comunidades remotas aos ambientes locais, como forma de se compreender os processos microevolutivos em humanos, como de seleção natural em ambientes específicos. Francisco Salzano foi importante facilitador dessa ampla agenda científica no Brasil e no exterior, uma vez que várias de suas abordagens serviram de modelo para a comunidade internacional. Ele transitou por e fez parte de redes científicas transnacionais, na qual atuou efetivamente na circulação de conhecimentos e na facilitação do trânsito e amostras (sangue e saliva) e dados biológicos das populações brasileiras.

Salzano e Lavínia Schüler Faccini na época em que faziam eletroforese de protéinas

No que diz respeito a outras gerações de pesquisadores, vale chamar a atenção principalmente às falas de Mara Hutz, Sandro Bonato e Tânia Weimer que trazem informações sobre as mudanças, em termos materiais, técnicos e epistemológicos, com o advento das pesquisas com DNA (ácido desoxirribonucleico) na instrumentação, técnicas (como o PCR) e questões científicas para a genética médica e os estudos sobre a ancestralidade, filogenética e o povoamento e distribuição geográfica das populações humanas.

As pesquisas com DNA representaram uma abordagem molecularizada para a genética e uma nova compreensão da própria ideia de gene: cada vez menos entendido como unidades de herança separadas e conceituado como mais complexo, flexível, envolvendo mecanismos diversos de ativação e inibição atuantes na conformação da informação genética codificada no DNA (uma sequência de pares de nucleotídeos). No que diz respeito à diversidade biológica humana, a comparação entre o material genético e a análise de suas variações dentro e através das populações passou a envolver a comparação entre os produtos do DNA e o próprio DNA, como nos estudos sobre o cromossomo Y e DNA mitocondrial, então marcadores da ancestralidade genética.

A genômica permitiu compreender de forma mais complexa, por exemplo, como efeito de processos evolutivos, quais grupos humanos têm maior proporção de certos alelos (variabilidade) em comparação a outros. Estudos transnacionais em genética das populações humanas, desde os anos 1990 – como o Human Genome Diverity Project, o Genographic Project e mais recentemente o Projeto Candela (Consórcio para Análise da Diversidade e Evolução na América Latina), acabaram por popularizar uma representação do DNA como elemento constituinte da nossa identidade como humanos: portador de informações sobre a nossa história remota, expressão dos cruzamentos, das diferenças e semelhanças entre as populações (muitas vezes ainda denominadas raças ou, de forma contrastante, grupos continentais), fragmentos do nosso patrimônio biológico.